As pessoas corriam desesperadamente para chegarem o mais perto possível da área nobre da região. Eu via isso acontecer não só em Darkor — onde eu moro-, mas nas outras cinco de meu país, Devollin, Escar, Twinny, Dortios e a capital, Obscurios. Em todas as partes do meu país, a barreira de espelho que protegia a população do mundo exterior estava quebrando. Uma luz muito forte atravessava do desconhecido para dentro do mundo que eu conhecia. Mas antes que eu pudesse finalmente ver o que tinha do outro lado, um novo escudo apareceu protegendo as Famílias Nobres e as pessoas que conseguiram alcançar a zona real a tempo, e nem sequer uma pequena parte de qualquer silhueta que poderia existir no meio daquele brilho tão forte eu pude ver. A nova barreira era diferente da outra. Não era feita do único e mágico espelho como o de antes. Essa era feita de metal, de uma cor metálica escura. Pude perceber o quão forte e resistente era quando chegou próxima ao chão — nesse momento minha visão das outras regiões já havia se fechado -, e eu estava apenas em Darkor. A Novata não se encostou ao chão, aprofundou e se fixou como a antiga, ela penetrou na terra sem parar, e eu sabia que não era um defeito, principalmente porque a minha sociedade não costuma errar com tais coisas. De repente houve um grande som metálico, uma batida entre duas estruturas metálicas bem fortes, e depois um ranger, essas estruturas estavam se unindo. Eu tinha entendido. Agora estávamos divididos da cidade. Todas aquelas pessoas que não alcançaram o novo escudo estavam presas do lado de fora, ou talvez nós estivéssemos presos aqui dentro, e as pessoas lá fora é que estivessem livres, e poderiam desfrutar da aventura de descobrir o novo mundo em que estavam. Talvez isso fosse bom, talvez não. Depois disso uma corrente elétrica percorreu o Corpo Metálico e uma luz brilhou no topo do Escudo, clareando tudo, e mostrando o resto de medo, espanto e surpresa da maioria. Alguns poucos estavam com seus rostos normais, parecia que sabiam que aquilo aconteceria. Dentre eles minha avó. Isso não me deixou surpreso. Se algo assim estivesse pra acontecer, com oitenta por cento de chances minha avó saberia. Mas uma coisa tinha em comum em todos os seus rostos, sem exceções. Dor. A dor era evidente em todos eles, com certeza por razões diferentes. Alguns seriam por perda de alguém. Por terem deixado suas vidas pra trás. Mas para outras, por exemplo, minha avó, poderia ser porque soubessem o que iria acontecer, ou porque soubessem o porquê de isso estar acontecendo. De repente senti um calafrio. Isso me fez lembrar de que eu não estava vivendo aquilo. Era tudo um sonho, mas parecia muito real, eu estava realmente sentindo medo naquele ponto. Nesse instante aconteceu uma turbulência, pude perceber isso porque além de ter visto as paredes das mansões medievais tremendo, algumas pessoas caíram no chão, e todas, todas as pessoas exceto duas entraram em pânico, o Corpo Metálico estava se movimentando, grandes estrondos começaram. A Bola De Metal estava sendo atacada, mas nada acontecia, os ataques eram inúteis contra a forte e resistente estrutura, e ela continuava a se movimentar e cada vez mais rápida. Minha avó e um velhinho baixinho, com cabelo branco em volta da cabeça, e em cima uma careca enrugada — eu deveria lembrar o nome daquele senhor, mas não conseguia-. Eles se mantinham do mesmo estado de antes, com uma expressão de que sabiam o que estava acontecendo, e como deveriam agir. O que mostra que os outros que antes estavam com essa expressão, não sabiam com precisão o que estava acontecendo. Mas minha avó com toda certeza, era mais decidida, — pelo menos alguma coisa nela tinha para eu admirar-, ela se virou e começou a dar ordens para os empregados que estavam atrás dela, agora todos os serviçais estavam assustados – não sei o motivo, mas não fui capaz de ouvir nada que ela falou -. Quando ela terminou de falar todos os empregados entraram apressados. Pareciam estar muito motivados a obedecer minha avó. Nesse instante grande parte das pessoas já estava gritando histericamente, e as que não gritavam dessa maneira gritavam os mandando ter calma. Minha avó estava com uma expressão impaciente, e eu sabia o que ela ia fazer. Isso me deixou com muito mais medo. Eu queria acordar, queria que acabasse. Estava suando, podia sentir isso. Ela se virou, respirou fundo, e seus olhos começaram a brilhar daquela luz amarela que ela usava às vezes em mim, fosse para me repreender, ou para mostrar o quanto eu tinha que respeitá-la. Só que ela estava fazendo aquilo de uma maneira que nunca tinha usado contra mim, dessa vez seus olhos por completo brilhavam daquela luz fascinante e assustadora, seus cabelos levitavam com algumas mechas dele irradiando aquela luz fantasmagoricamente linda. E no momento em que ela abriu a boca, uma onda quase invisível fluiu do corpo dela, atingindo aquelas pessoas, das quais não estavam preparadas para suportar algo tão poderoso. Elas pararam no mesmo instante e caíram no chão atordoados pela dor emocional e física que eles estavam sentindo. E isso me doeu também, porque eu imaginava a dor que eles estavam sentindo. Quando ela usava seu poder no mínimo que ela conseguia em mim, eu me sentia muito perturbado. O que aquelas pessoas estavam passando naquele momento, era algo que eu com certeza, não gostaria de experimentar. Mas, ela tinha conseguido o que queria. O silêncio e a atenção deles. Todos estavam olhando para ela, ainda chocados, mas estavam prestando atenção total no que ela ia dizer, ou fazer. Ela sorriu orgulhosamente de si mesma, e começou a falar. Eu finalmente consegui acordar. Estava suando a frio. Alguém estava subindo para me acordar. E eu não poderia ser visto nesse estado. Iriam me fazer perguntas. Principalmente se eu queria que chamasse a minha avó. Tal pensamento meu fez arrepiar, só de ter pensado em contar o sonho para ela. Eu precisava agir, mas... ainda me sentia atordoado pelo o que eu acabara de passar, e não conseguia me mover.
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