Eu sou aquele sentimento de angustia, ou até mesmo raiva, perante o que os outros têm e eu não. Também sou considerada um sentimento de frustração e rancor. Eu sou o sentimento que vai comendo por dentro as coisas boas que crescem no seu quintal, ou melhor, no seu interior. A muitos que se referem a mim como o demônio que faz ninhos no corpo. Mas na verdade eu sou o demônio que faz ninhos nos olhos. Não gosto de coisas feias, mas sim de coisas bonitas. E o resultado é que, quando uma coisa bonita cresce em seu quintal é tocada pelo olho onde mora o verme e aquele sentimento bom, imediatamente murcha, apodrece e some. Ainda não sabem quem sou eu? Eu sou a Inveja, o demônio que se aloja em seus olhos.

Eu sou um sentimento muito intrigante. Apesar de todos vocês o experimentarem, ninguém gosta de reconhecer quando o está sentindo. Afinal, sou um sentimento controverso, não? Indico que algo positivo desperta algo negativo.

Bom, em um sentido amplo, ou até mesmo complementar, eu fui gerada há milênios atrás, quando Caim matou Abel. Acredito que todos vocês já conheçam essa historia, certo? Pois bem, quando Deus rejeitou a oferta de Caim e posteriormente aceitou a de Abel, Caim se viu enciumado, enraivecido e foi ali que eu surgi. Como eu já havia dito, eu sou o demônio que se aloja em seus olhos e foi assim que seguei Caim. Instalei-me em seu interior e como uma praga, fui lhe corroendo por dentro e fazendo tudo o amor que sentia pelo irmão se transformar em raiva e ódio. Eu sou assim, sou um sentimento destrutivo, ácido, que se alimenta de cada uma das coisas boas que existe em seu interior até não restar nada. Por isso sou considerada um dos 7 pecados capitais. Sou considerada pecado porque uma pessoa invejosa ignora por completo suas próprias bênçãos e prioriza o status de outra pessoa no lugar do próprio crescimento.

Desde então vivo pelo caminho da Vida, sempre a procura de alguém a quem eu possa segar e fazer dela minha forma de diversão. Confesso que muitas das vezes me senti mal por estar fazendo de uma pessoa, consideravelmente feliz, se tornar uma pessoa fria, orgulhosa e egoísta. Ah! Isso me lembra da época em que conheci meu marido. Foi há anos atrás, estava mais uma vez em busca de alguém para me divertir quando o vi pela primeira vez. Lindo como nunca, lá estava ele, o Orgulho. Era como se ouvíssemos nascidos um para o outro. Nosso envolvimento foi inevitável e quando me dei conta, já estávamos casados e com nosso pequeno Egoísmo engatinhando pela casa. Durante um período de tempo fomos uma família, felizes, a nossa maneira mais fomos. Porém, desde que o Egoísmo nos abandonou para seguir sua vida com a Paixão, que posteriormente o fez sofrer e o distanciou ainda mais de nós, eu e o Orgulho já não somos mais os mesmos. Vivemos em constante confronto em nossa casa, um acusando o outro de ter errado na educação de nosso filho. Por causa disso, de toda essa infelicidade, que hoje em dia não ligo para mais nada e nem ninguém. Não sinto mais remorso em destruir amizades, namoros, ou seja lá o que for. Porque eu sou assim, sou a praga que venda os seus olhos os impedindo de enxergarem a plenitude da viva.

Eu sou um dos sentimentos mais difíceis de serem aceitos pelo ser humano, pois na maioria das vezes sou inconsciente. Isto ocorre porque eu me formo muito cedo em suas vidas. A Inveja surge nos primeiros meses de vida na relação com quem os alimenta! Quando querem mais alimento e consequentemente não têm, não toleram a frustração, ficam com raiva de quem tem alimento. E com inveja dele, queremos destruí-lo, certo? Como podem constatar, eu sou um sentimento primitivo, pouco elaborado. E para minha total frustração, estou baseada no sentimento de inferioridade.

Agora vou lhes contar uma coisa. Está é a base da inveja: supervalorizar os outros e esvaziar a si mesmo. Assim, nasce o desejo de esvaziar o outro para que tudo fique igual e não fiquemos sós. Segundo algumas pessoas, eu posso surgir em seu interior de quatro formas especificas:

1 – Primeiramente, um individuo olha um objeto, situação ou traço de alguém que imediatamente admira. Compreende a importância daquele traço para ele. Ou seja, vê, admira e deseja.

2 – No momento seguinte, faz uma comparação entre o que o outro tem e o que o individuo não tem. Ele toma consciência de uma falta de uma coisa sua porque já o discrimina. Aqui o processo cognitivo é importante.

3 – Aí se dá o terceiro momento da inveja, que é a percepção – e ao mesmo tempo a vergonha – de uma falta nele que foi admirado e valorizado no outro. Surge aí, também, a constatação de que aquilo que desejou, é impossível de ser obtido por ele.

4 – Logo estamos na quarta e última fase: A inveja é disparada pela percepção de uma falta no individuo. Essa insuficiência faz com que ataque e consequentemente espolie o objeto invejado para fazer desaparecer a diferença que foi percebida.

Numa luta secreta e constante, aquele que se sente insuficiente tenta esconder sua vergonha de ser incapaz. Assim, procura evitar qualquer situação que o faça sentir mais humilhado, ele ataca antes de ser atacado. Isto é, ele compete sozinho. A competição é um hábito do invejoso, pois ele tem dificuldade de receber ajuda, fazer junto e cooperar. Essa foi uma lição que aprendi ao longo desses milhares de anos. Eu sempre estive competindo sozinha, não contra o mundo, mas sim contra a mim mesma. Sempre achei que o que eu tirava dos outros me beneficiava, mas eu estava enganada. Em vez de me beneficiar, eu só estava alimentando cada vez mais o vazio que sentia, e ainda sinto, por não ter sido uma boa mãe e uma boa esposa.

Se prestarem atenção na qualidade dos objetos, pessoas ou situação pela qual sentem inveja poderão compreender melhor o porquê de se sentirem incapazes de conquistar. Neste sentido, a inveja é um espelho que revela uma parte de quem são, onde estão e para onde querem ir. Saber onde querem ir é a condição básica para sair da imobilidade. Por isso, se aprenderem a reconhecer os padrões emocionais que sustentam sua inveja, poderão torná-la um método eficiente para diagnosticar suas faltas, ou melhor, nossas faltas. Desta forma, poderão transformar a inveja numa força inspiradora de conscientização, no lugar de um sentimento apenas desagradável.

Talvez não possam modificar nada ao seu redor. Mas, se pararem para aprenderem com seus sentimentos negativos, poderão mudar as suas atitudes mentais e atrair o novo para suas vidas.

“A inveja consome o invejoso como o ferrugem, o ferro.”

— Antístenes