A Verdade Através do Sangue
6 Mortos Não Tem Facas
Notas iniciais
Os olhos de Bryan acompanharam os movimentos da porta, abriram e fecharam. Ele ouviu os passos entrando. Ele tentou levantar e olhar quem era, mas só reconheceu Hope quando ela deitou ao seu lado. Ela arfava, o rosto molhado e o corpo quente. Mesmo assim, Bryan sabia que era ela. Ele a abraçou e ela enterrou a cabeça no peito dele. Não foram ditas palavras, os gestos falaram por si. Ele podia sentir ela chorando e ela agradecia por ele estar ali. Os dois ficaram ali, quietos, como se fossem um só.
— Hope, eu... me desculpa – Bryan notou que o choro diminuiu e ela o olhava.
— Bryan, não me importa o que você fez, eu ainda te amo – ele a olhou pela primeira vez depois de todos aqueles anos. O rosto estava igual, cicatrizando. Mais olheiras talvez. Ele a beijou na testa.
— O que eles fizeram com você? Meu Deus, o que eles fizeram com você? – ele falava com ternura, mantendo os olhos mirando os dela. Ainda havia força neles, como havia nos olhos do menino. Ah, o menino. – Hope, cadê o menino?
— Ele não voltou. Os parceiros disseram que foi a asma, mas a arma de um deles tem provas contrarias. Estão atrás do corpo. O que aconteceu lá? Como ele morreu?
— Foi depois do jantar. Nós estávamos indo tomar sorvete. Eu fiquei puto porque ele queria me fazer falar com a mãe e não aguentei pensar que teria que passar por tudo isso de novo, então nós brigamos. Ele conseguiu me derrubar e ligou para aqueles caras. O remédio que ele usou fez efeito, a asma atacou e aqueles dois resolveram se vingar por alguma coisa. Eu tentei, Hope, juro que tentei. Eles não ajudaram – a visão de Bryan embaçou com as lágrimas. Mal conseguia distinguir o rosto dela.
— Vai ficar tudo bem, eu sei que vai. Bryan, nós precisamos te tirar daqui. As coisas vão melhorar. Tudo bem, calma, não foi sua culpa.
Hope enxugou as lágrimas de Bryan. Tudo ainda parecia confuso para os dois, parecia incompleto. As falas do lado de fora ficaram mais audíveis e os passos também.
— Hope está aqui? – a voz soou e o par se preparou para o pior. Hope levantou e se sentou na beirada da cama. – Hope? Está tudo bem? Posso entrar?
Eles se olharam e Hope fez sinal para ele limpar o rosto. Ela ficou de pé e ele se sentou. A luz foi acessa e a porta aberta.
— Oi mãe. Desculpa o atraso, é que eu tinha que vê-lo a sós antes – a mulher esguia entrou. Não estava tão arrumada como das outras vezes que Bryan a encontrara. Continuava do mesmo modo, maquiada, magra e com uma grande quantidade de crueldade no olhar.
— Eu sei, meu amor, mas você não voltou com ele, então pensei em vir fazer uma surpresa. Surpresa – ela passou os olhos por Hope e concentrou-se em Bryan. – Então, Bryan, é você o causador de tantas mortes? Ainda tem corpo de lutador, isso é bom, maravilhoso até. Precisa de um corte de cabelo e roupas novas. Tire essa barba, você ainda é novo para parecer com o nômade.
— Me desculpe pelo garoto, eu não queria causar problemas.
— Que garoto? – a mãe olhou Hope como se não soubesse de nada.
— Caled morreu noite passada tentando trazer ele aqui. Os parceiros já foram punidos severamente pelo erro, eu mesma me encarreguei deles – novamente os olhos de Hope ficaram marejados e sua voz um pouco receosa.
— Era aquele prodígio? Ah, Deus, era o seu prodígio. Minhas desculpas e meus pêsames, querida. Se você os puniu, então não há nada que eu possa fazer para aliviar sua dor. Bom, estou de saída para comemorar alguns novos negócios, volto à noite para o jantar. Bryan aceita comer comigo?
— Como desejar, mãe, quer dizer, senhora – Hope fez uma careta e Bryan a imitou. Poderia ter sido um deslize catastrófico. – Peço desculpas, as palavras do menino ainda soam em minha cabeça.
— Claro, eu entendo, acho. Esteja pronto quando eu voltar. Tenho que ir, estou atrasada. Tchau crianças – Os seguranças a seguiram para fora do quarto. Ambos suspiraram quando a porta fechou. O escuro tomou conta do cômodo e as risadas também.
— Precisamos nos arrumar para o jantar. Vou tomar banho e providenciar roupas novas para você. Cadê o meu outro sapato? – ela calçava a bota esquerda, sentada no chão.
— Já procurou debaixo da cama? – ele ainda não havia saído do banheiro.
— Mando o que você precisar para deixar de ser esse mendigo. Achei. Eu volto daqui a pouco com as coisas e vou cortar seu cabelo. Se eu deixar aquelas doidas fazerem isso, elas vão te deixar estilo patrocinador.
— Não vejo nada de errado em ficar parecendo um comprador, quer dizer, posso tentar tirar meu irmão da arena. O que pode dar errado? – ele enxugou o rosto na toalha e se apoiou na porta do banheiro. Naquele momento, ele se lembrou do porquê se havia apaixonado e amado ela por todo aquele tempo. Ela vestia os pesados coturnos e a camisa dele, ao invés de usar as próprias roupas. – Vai levar minha roupa embora? Me deixar aqui, sem nada?
— Eu não acho a minha, além disso, eu gostei dessa. Vou arrumar você primeiro, depois decido o que vou usar. Alguém vai trazer as coisas aqui enquanto eu resolvo alguns problemas – ela abriu a porta e saiu antes que ele pudesse pedir o beijo de despedida.
Durante a tarde que se arrastou com tantas lembranças, Hope cortou o cabelo de Bryan. Eles se arrumaram várias vezes e Bryan fez com que Hope tivesse problemas para ficar pronta. Conversaram sobre tudo que acontecera depois que se separaram. Hope mentiu em alguns pontos e ocultou algumas verdades, nada fora do comum. Haviam coisas para se perguntar e outras para serem resolvidas, mas o casal não pensou em nada disso.
— Quando você chamou a mãe de mãe, você usou como desculpa que as últimas palavras do menino ainda estavam na sua cabeça. O que ele falou? – Hope estava deitada na cama. Havia desistido de ficar no banheiro para arrumar o cabelo.
— Ele me pediu para mandar esperança para a mãe dele. Falando nisso, você conhece a mãe dele?
— Conheço, porque? Eu treinei ele desde que ele usava fralda. Conheço meus prodígios muito bem, Bryan.
— Eu queria conversar com ela, sabe, explicar como tudo aconteceu. Pedir desculpas. Se bem que ele sempre falou mal dela, dizia que ela o vendeu e coisas assim. Ainda acho que ela mereça saber a verdade sobre o que aconteceu – Bryan estava sentado na frente dela, com as costas apoiadas na parede.
— Você pode ficar à vontade, mas eu não sei onde ela se escondeu. Ela foge toda vez que me vê.
— Hope, o que a mãe quer de mim dessa vez? Eu já não fiz minha parte?
— Não acho que ela vai te cobrar alguma coisa. Ela tem procurado alguém como você já faz um tempo.
— O que seria alguém como eu? – Bryan levantou e andou em direção a cama.
— Se eu soubesse, estaria com ele e não com você – Bryan a beliscou. Não para machucar, para puni-la pelo que tinha dito. – Para imbecil, está doendo. Eu vou te agredir como nos velhos tempos.
Alguém bateu na porta e os dois se compuseram. Bryan, que estava quase encima de Hope de novo, se levantou e ficou parado do lado da cama. Hope gritou um pode entrar e se sentou. Uma fresta de luz surgiu e logo em seguida, uma cabeça. A menina pôs o corpo para dentro e escancarou a porta.
— O que você quer? Desembucha – Hope a olhava com desprezo e falava de maneira áspera.
— A senhora pediu para avisar que chegou. Então é ele? O grande prodígio dela e aquele de que você tanto fala. Meu mestre vai ficar feliz de vê-lo – não devia ter mais de quatorze anos na visão de Bryan. A adolescente deu alguns passos na direção dele. Ela o olhou de cima a baixo.
— Querida rapariga, sai daqui antes que eu tenha que levantar da cama e te dar uma surra para tu aprender como se fala comigo. Vê se aprende que você não é ninguém perto de mim e eu não quero você fazendo as coisas como se alguém se importasse com você. Você é só uma daquelas crianças que nós compramos dos pais. Quanto ao seu mestre, aposto que ele não vai ficar feliz quando descobrir sobre você e o sobrinho dele.
— Como você sabe? Sua vadia, você não tem coragem de falar nada, até porque está em debito com ele e você sabe.
— Vai deixar ela falar assim? – Bryan sorria, esperando a treta acontecer.
— Segura ela – Bryan não precisou correr para segurar a adolescente. Hope saiu do cômodo, a segurou pelo cabelo e começou a arrasta-la. Ela tentou fazer um escândalo, mas ninguém olhou pela segunda vez, viam Hope e imaginavam que ela só estava educando as crianças, como deveria ser.
— Posso ir junto? Quero ver o fim disso – Bryan voltara a ser criança, tão animado quanto uma.
— Meu amor, vou precisar de você. Além disso, você é convidado da mãe, use e abuse disso.
Eles seguiram por corredores e escadas. Chegaram nos alojamentos, porém seguiram em frente em direção ao porão. Hope abriu a porta e jogou a menina escada a baixo. Não devia ser muito alto, uns dez ou doze degraus. Os quinze adolescentes que estavam lá dentro olharam a cena e pararam o que estavam fazendo.
— Meus prodígios, é com grande pesar que trago notícias para vocês. Um dos nossos faleceu na noite passada. Caled morreu em missão, tentando recuperar um dos antigos lutadores. Ele foi, sem sobra de dúvida, um dos melhores que já conhecemos e iremos honrar sua vida brindando e celebrando está noite, depois do jantar da mãe. Assim que encontrarem o corpo, nós o velaremos com dignidade – Hope se sentou na escada, enquanto Bryan permanecia na entrada. – É certamente uma das notícias mais tristes que eu poderia trazer a vocês. Porém devo lembra-los de que ele completou a missão com êxito. Quero apresentar Bryan, ou talvez se lembrem dele como Leônidas. De agora em diante, ele é parte integrante do nosso grupo. Nós perdemos alguém de suma importância, do mesmo modo que mais um se junta ao clube.
— E ela? O que ela fez dessa vez? – um menino, um dos mais velhos, deu alguns passos à frente e encarou os olhos de menina no chão. Hope se levantou e virou de costas para a menina, pronta para ir embora.
— Esse verme, me ofendeu, ofendeu o convidado da mãe e ainda acha que tem o direito de sair impune. Hefesto, Damian e Caled... E Cail, ela deve ser punida pelo que fez.
Os três meninos mais velhos andaram em direção ao fim da escada. Hope não ficou para ver o resto. Ela agarrou a blusa de Bryan e o puxou para fora. Por algum motivo, assim que a porta bateu atrás deles, ela o pressionou na parede e o beijou. Ele reagiu, a pressionando na parede do outro lado do corredor.
— Você sabe como educar uma criança. Eles vão fazer o que com ela? – Bryan a soltou e sentou-se na frente dela. No estreito corredor, eles ficaram de frente um para o outro. As pernas dele intercaladas com as dela.
— Meus dezessete, agora dezesseis, são os prodígios. Os melhores. Vão montar uma roda em volta dela. Ela tenta se manter de pé e lutando pelos dentes que ainda tem. Se ela conseguir ficar de pé por mais de três minutos vai ser um milagre. Se ela se negar a lutar, as meninas põe ela amarrada na parede e deixam os mais novos brincarem de saco de pancada.
— Lá embaixo só tem quinze. Um deles não está lá.
— Espera, quinze? Eles tem que estar ali no dia de festas e Caled era o único em missão. Os alojamentos ficam fechados e os pequenos sobre vigilância dos tutores. Onde será que ele se meteu? Eu acho que sei quem foi e onde está, então não deve ser problema por enquanto.
Havia um enorme problema para ser resolvido antes do jantar. Não havia tempo de achar o pequeno que faltava, arrumar as coisas com o mestre da menina e ficar pronta para a refeição. Hope sabia plenamente disso. Poderia deixar a menina lá embaixo com seus prodígios, mandar os mais rápidos atrás do desaparecido e prepara tudo antes do tempo. Bryan certamente não se importaria se ela comandasse os meninos para cumprir as ordens da mãe. Ele haveria de esperar durante alguns meses antes que ela o tirasse de lá de novo, mesmo que isso custasse alguns pontos e mais anos de serviço.
— Hope, você vai querer ouvir o que ela acabou de dizer – um menino de não mais de dez anos, com cabelo tigela e banguela aparecera na porta. – É sobre o Caled.
— Sim, sim. Conte querido, o que ela disse.
— Ela disse que Caled está vivo, mas escondido e o mestre dela sabe onde ele está.
— Ela tem que estar blefando – Hope bateu as costas na parede e suspirou.
— Eu também achei, então nós arrancamos isso dela. Disse que é era dele – o menino apontou para Bryan e entregou uma faca para Hope.
— Eu deixei cair quando nós dois brigamos. Hope, eu acho que Caled está vivo – Bryan segurava o presente de Hope nas mãos. Haviam manchas de sangue seco no cabo.
Hope disparou escada abaixo quase caindo. Não se viu mais nada além de sangue sendo derramado. Os cinco minutos de espancamento se encurtaram em três. Informações jorraram. O jantar seria adiado e mais litros de sangue seriam derramados naquela noite.
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