Notas iniciais
"Em sua cabeça, eles estão lutando Com seus tanques, e bombas, e ossos, e armas. Em sua cabeça, eles estão chorando."

“Nós não vivemos mais” Está escrito na parede. Isso me fez rir por um bom minuto até eu perceber o sangue embaixo. Seco, mas uma enorme mancha. Pela falta de um corpo eu posso apenas afirmar que alguém o tirou dali. Não consigo sentir nenhum cheiro nele. Significando que era sangue velho.

Meu estomago queimou sobre o pensamento de sangue. Sem comer nada por mais de uma semana não é um jeito bom de morrer. Na realidade é pior que ser queimado.

Mas sem sangue significa sem pessoas. E eu não vejo uma alma viva por mais de um mês. Significando que se eu tentar andar no sol eu iria me queimar ou tomar um tiro e ao invés de me curar eu iria sangrar – o que é basicamente impossível mas pode acontecer – até a morte. Merda, eu não posso fazer nada sem sangue.

“Um vampiro que morre de fome em um apocalipse, um feito magnifico pelo seu querido Besta!” Eu pensei. Se Adaga estivesse comigo, ela morreria rindo disso.

Besta... Esse é meu nome. Bem, não é meu nome verdadeiro, vampiros não tem nomes, apenas títulos. E esse foi o título que Adaga me deu. Não era o melhor título e francamente eu odiava. E ela adorava me irritar me chamando de “Bestinha”.

— Porque diabos eu sou “Besta”? – Eu reclamei para ela – Não poderia ser “Lobo” ou alguma coisa melhor que isto??

— Não. – Era sua resposta toda vez.

Eu ainda guardo a foto horrível que tiramos em uma festa nos anos oitenta. Eu estava com uma peruca Afro de 1 dólar, e roupas disco e ela com uma regata e saia de couro. Nós sempre riamos daquela foto, mesmo depois de anos estando separados.

Eu mataria para ouvir a risada dela de volta.

Dois meses depois que eu fui transformado, ela me explicou tudo que eu poderia fazer para viver sozinho: Economizar sangue, evitar ferimentos, evitar o sol se você está sem sangue, ficar na escuridão. Tudo que eu já havia aprendido convivendo com ela.

— E carrega uma garrafa térmica com você.

— Pera, o que? – Eu a encarei confuso.

— Deixa o sangue quente, melhor que beber frio. Tem gosto de terra e metal enferrujado.

Ela fazia caretas e brincava sobre isto. Era o melhor traço que eu via nela. Como ela ria de tudo, e fazia piadas com coisas simples sem esforço.

Eu me sinto terrível. A escuridão e que nem um vácuo sem ela aqui. Sem ninguém eu sou apenas uma besta solitária se afogando na escuridão, tentando achar uma saída inexistente. Solidão deveria ser o menor dos meus problemas agora. Mas eu não consigo parar de me sentir terrível.

Eu deveria ter continuado com ela. Deveria ter ignorado a vontade de viver sozinho. Talvez eu estaria melhor com ela em tudo isso.

Ou talvez eu ficaria melhor como um humano. Eu imagino como minha vida seria diferente se eu fosse idoso quando a doença começou. Talvez eu seria feliz, vivendo em minha casa e falando com meus filhos e netos sobre tudo.

Talvez eu esteja enlouquecendo. Isso pode ser possível. Provavelmente eu vou me tornar em um monstro sugador de sangue e morrer na luz do sol. O tipo de monstro que mães na idade média falariam para seus filhos. O tipo que mata ao sentir o cheiro de sangue.

Eu já havia encontrado um deles, por causa dele que eu acabei como um vampiro.

Isso é provavelmente uma piada cruel do destino. O tipo de piada que te deixaria bravo por ser previsível. Se tornar o que quase te matou. Esse pensamento quase me fez desistir de tudo.

Meu eu antigo não teria um problema com isso. Eu tinha um suprimento pronto de sangue, bastante dinheiro para viver confortavelmente. Eu vivia uma vida despreocupada.

Algumas vezes eu quero gritar para o meu eu antigo. O que vivia de festas. O que não ligava que o mundo acabasse. O que se apaixonou mil vezes. Mas a realidade é que eu quero ser aquela pessoa de volta. O que realmente viveu.

“Um vampiro romântico vivendo no passado e outros clichês. Mais à meia noite.” Eu pensei brincando, quebrando minha linha de raciocínio. Se prender ao passado já era uma sentença para a gente. Adaga sempre me alertou sobre isso. Mas eu sempre consegui ficar nostálgico cedo a noite. Eu acho que todo mundo – Ambos humanos e vampiros – Ficam nostálgicos em um momento de paz.

E essa é a linha de pensamento que pode te matar. O mundo não é justo para aqueles que querem viver ou morrer. Se você deixar sua mente vencer por apenas um segundo, isso pode custar sua vida.

Essa é a regra para todo mundo.

Inclusive para os passos que eu ouço no corredor.