A Ultima Besta
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Notas iniciais
Os passos são muito leves. Como se eles soubessem que eu estou aqui. O cheiro veio depois, forte o bastante para que eu perca o foco por um momento.
Ele está sangrando. Eu tenho certeza disso. E sangrando muito.
Meus sentidos vibram e eu sinto uma vontade de correr. A adrenalina atinge meu corpo tão rápido que eu esqueço de tudo. Estou respirando pesado, como se eu não tivesse nenhum ar em meus pulmões. Eu não notei o quão faminto eu estava até agora.
A casa que eu escolhi para dormir foi criada em estilo britânico. Pequena, com dois andares e um quintal pequeno. Ela lembra da minha casa de antes, quando eu era humano. As plantas e carros quebrados na frente deveria assustar sobreviventes. Esta não é uma casa que aparenta ter comida ou algo.
A respiração dele fica mais pesada agora. Eu não preciso ver. Eu sei que ele está morrendo. Abro a porta devagar. As sombras das plantas e poeira dançam nas paredes. Tudo pareceria normal se não fosse pelo sangue na parede.
A pessoa tosse. Ele tentou segurar mas não conseguiu. Junto com a tossida veio uma reza. Eu não ouvia alguém rezar desde que tudo aconteceu. Mesmo assim, eu conseguia distinguir que era uma reza.
Adaga rezava as vezes. Ela me contou que mesmo depois de anos, ela não conseguia parar de acreditar. Ela tentou me ensinar o Mantra que a mãe dela rezava para ela. Mas eu não quis aprender. Porque eu não queria acreditar.
A voz era muito fina para ser um homem, muito fina para ser até uma mulher. Uma mistura de medo, raiva e tristeza encheu meus pensamentos. Eu não quero entrar e ver uma criança lá, sangrando até a morte e eu sendo o monstro que vai matá-la e sugar seu sangue.
A casa estava totalmente destruída. Plantas cobriam o que uma vez foi um sofá. Era impossível distinguir as fotos que estavam emolduradas nas paredes. Não havia nenhuma televisão na sala, provavelmente foi roubada quando os primeiros protestos começaram.
Eu sempre me perguntem o que aconteceu com as pessoas que viviam nessas casas. Se eles escaparam da doença e agora vivem em uma das Zonas de Quarentena, se eles morreram no começo ou se vivem em meio aos prédios destruídos, lutando para sobreviver.
Talvez o grafite era seus últimos pensamentos antes de morrer. A mesma linha de pensamento que a criança na outra sala estava tendo.
A casa era a última memoria deles, e agora talvez seja a última memória de uma criança tentando sobreviver.
Talvez... Essa é a palavra-chave.
Adaga sempre me disse para evitar dilemas morais em caso de sobrevivência. Ela me contou que teve que se alimentar de pessoas e coisas que ela não queria para sobreviver. Mas eu não ligava para isso. Eu pensava que tinha virado uma criatura sem medo. Que eu não hesitaria.
Eu sei como as coisas conseguem se tornar pior. Eu quase entrei em choque depois na minha primeira morte antigamente. Mas se eu não tivesse matado o homem. Outras pessoas se feririam. Mas eu não ligava para isso.
“Pare de ser depressivo e faça algo.” A voz em minha cabeça – Que parecia muito com a de Adaga – sussurrou. Eu senti uma vontade de me dar um tapa depois. Não imposta o quanto eu tente, eu não consigo deixar de lado.
Como diabos eu estou vivo? Minha mente está ganhando toda batalha e eu tenho que me lembrar que piedade nunca me trouxe nada, e nunca ira.
Eu ignoro minha casa por um minuto. “Lembre-se de focar no ambiente, não deixe você ser pego em uma armadilha.” Eu sussurrei para mim mesmo. Eu olho para a janela e a rua. Nenhum som, ninguém aparecendo ou inclusive falando. Apenas eu e a criança rezando.
“Se foque em você e depois na presa. Não deixe isto te consumir.” Eu sussurro de volta. Eu verifico minhas coisas: Uma faca, uma pistola sem balas, fotos, um livro coberto em plástico da Adaga, uma lanterna e algumas balas soltas. Eu seguro a faca firmemente, sem deixar minha mão falhar.
Eu ando pelo corredor. Não preciso seguir o caminho feito de sangue. Eu sei onde ele está. Eu me viro para ver a cozinha do mesmo jeito que eu tinha visto ontem. Mas a porta que leva a um dos quartos está fechada.
Eu seguro a faca firmemente e alcanço a maçaneta. A reza para. Um silencio estranho que é seguido de um gemido calmo. Eu tento abrir a porta devagar, sem fazer um som. Eu seguro minha respiração antes de entrar no quarto.
E então. Três tiros atingem o meu flanco.
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