A Tormenta dos Lobos
1 Prólogo

Havia uma sombra caminhando em meio a um bosque congelado. O lugar qual já fora repleto de animais e coberto pela densa flora que agora, os galhos retorcidos e sem vida mal cobrem o sol pálido que se esconde por entre as nuvens acinzentadas. O sujeito, a sombra, caminhava em passos desajeitados pois afundava na neve até os calcanhares e o vento gélido tornavam difícil a respiração. Todo seu esforço parecia valer algumas moedas assim que suas botas pararam de deixar pegadas na neve e o primeiro pedaço de terra batida surgiu, tratou de bater seus calçados um pouco no chão para tirar o excesso de gelo grudado nas solas. Ou simplesmente queria confirmar se o que via era real. A fome, o frio e os dias mal dormidos podem mostrar a qualquer homem o que ele mais quer ver. E muito mais o que não quer ver.
A terra batida não estava desacompanhada em meio da neve, escombros de antigas casas restavam em sua companhia ao frio. Casas simples, feitas provavelmente pelos próprios moradores. Ex-Moradores. Cada uma tinha seu curral, mas este também só permanecia de pé a cerca e pouco dela. Havia ainda restos dos antigos animais, ossos congelados. A pequena colheita da vila fora pisoteada, pegadas o bastante para um grupo de bandidos, mas pouco para enfrentaria de soldados.
A sombra pensativa então tomava seu passo tímido de novo, não olhava para os lados. Sua manta negra cobria mais que seu rosto, cobria seu silêncio, seu passado. Sua mão cerrada pesava mais que os punhos dos próprios deuses e sua espada embainhada cantava, por ódio. O silêncio fora cortado quando os restos de uma pequena casa choraram em sua frente, parecia triste. Seu coração batia desesperado.... Um vento cortante invadiu seu rosto descobrindo o capuz e revelando os olhos carmesins, assim como a barba e os cabelos. Cerrou os dentes, contraindo fortemente o maxilar.
– Voltei, crianças – Gaguejou o homem.
Acordou. Estava numa estalagem barata no caminho de Northdrage, sua boca encheu-se de palha: A cama era recheada com ela. Cuspiu-a enquanto ajeitava-se no bolo de palha, olhou calmamente para a janela. A noite fedia a morte.
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A taberna estava cheia como sempre, Northdrage tinha fama por sua cervejaria própria. Homens bêbados preenchiam as mesas que podiam ser ocupadas por seis pessoas. Conversavam, discutiam, jogavam cartas. Havia um grupo de pescadores que comemoravam com uma canção em coro “A revolta do mexilhão”. O taberneiro feliz pelo movimento cantarolava enquanto limpava os copos com seu avental.
Era uma das poucas tabernas que possuía dois andares. O primeiro se dirigia aos bêbados, pois em um deslize podiam quebrar o pescoço na escada ou serem jogados pela janela. O segundo andar era reservado a negócios e grupos que não se dispunham de algazarra em sua bebedeira. Neste andar estava apenas um agiota ameaçando um homem, uma mulher aparentemente esperando seu amante. E uma sombra, pois estava completamente sozinho e suas vestimentas eram escuras.
A sombra bebia um caneco de cerveja enquanto lia um livro. A capa era desbotada e pouco se podia ler o título, mas deduzia-se que era algo envolvendo feitiçaria. O caneco voltava a mesa derramando um pouco da espuma que havia por cima, a barba ruiva da sombra estava com um pouco dela também. Ele a limpou na roupa deixando que seu capuz caísse. Os olhos vermelhos encantaram a moça que ficara esperando seu amado, mas o ruivo nem a notou, concentrou-se ainda mais na cerveja e nas palavras.
Horas se passaram, a moça se sentindo humilhada saiu da taberna com lágrimas nos olhos a que sujou sua maquiagem. O agiota agora sozinho, contava as moedas que recebera no dia, sorria de uma forma repugnante de modo que suas bochechas rosadas se enchiam. O ruivo terminara o livro, com ele aprendera alguns feitiços de bastante ajuda e pensou seriamente em testa-los no agiota, mas não, não o fez. Embora tivesse vontade, isso só resultaria em desventuras nas masmorras.
O taberneiro interrompeu seus pensamentos quando veio subindo as escadas ainda cantarolando. Se dirigiu diretamente na mesa do agiota e lhe perguntou se queria algo. O rechonchudo vestindo um gibão negro com detalhes dourados lhe respondeu com “Sim, quero comprar este lugar”, brincou. A piada não surtiu efeito algum sobre o taberneiro, mas forçou a risada pois queria agrada-lo. Afastou-se da mesa pois o agiota pedira mais uma taça de vinho e foi até a sombra encostada nos fundos.
– O senhor vai querer mais alguma coisa? Estamos fechando e espero ter os últimos pedidos – O taberneiro sorria com os olhos para Mikhain. O bigode milimétricamente penteado, voltado para cima o irritava o ruivo de alguma forma.
O ruivo fechou o livro que acabara e guardou na bolsa que carregava suas coisas, se levantou acompanhando o taberneiro até o balcão, no andar de baixo. Lá ele tirou as moedas pagando a cerveja. O taberneiro fez um sinal com a cabeça o agradecendo, seus olhos ainda sorriam, mas agora estava mais satisfeito pois pensou que o andarilho não pagaria. Mikhain deixou a taberna sem olhar para trás, andou descuidadamente pelas ruelas de Northdrage esperando encontrar uma hospedaria barata senão um estábulo aconchegante.
Andava tranquilamente quando a neblina que sempre cobria a cidade de noite se dissipou por um breve momento. Pôde ver, mesmo já sabendo, uma criatura devorando o que parecia ser a moça humilhada que saíra da taberna. Seu vestido vermelho confundia-se com o sangue espalhado nos paralelepípedos. A criatura virou a cabeça bruscamente para o ruivo. “Que feioso”, pensou.
– Você não é um Carniçal. Nem um Vampiro. O que é? Poderia me responder ou não tem racionalidade o suficiente para balbuciar palavras, apenas degolar mulheres indefesas que estavam com a visão turva pelas lágrimas? – Apertou o passo em direção a criatura. Seus passos não faziam barulho sequer – Responda-me, criatura.
– Certamente, nem um nem outro. Uma variável diferente, humano. Tivemos que nos adaptar. A evolução nos trouxe a que somos agora – Seu rosto se tornou sereno, tinha traços de um rapaz jovem. Poderia ser considerado bonito pela maioria das mulheres – Fielmente a amei. Não deixei esperando por puro descuido. Não cometo erros, humano. Amo-a mas amo mais poder cravar meus dentes na carne macia dela e poder ouvir seu desespero. Mas não se preocupe, deixei que ela olhasse para meu rosto angelical antes de morrer, antes de eu a sugar toda vida.
– Há quantos de vocês em Northdrage? – Indagou friamente. Seu punho estava levemente preparado para sacar a espada ao menor descuido do Vampiro.
– O suficiente. Não me diga que pretende nos caçar, humano? Nós somos os caçadores dessa cidade, e eles sabem muito bem disso. Temem pelas filhas serem seduzidas e pelas crianças serem devoradas. Somos mais fortes que você, mais rápidos e mais...
– Então é apenas um: você – Interrompeu-o bruscamente – Não é tão rápido como aparenta ser, já teria me atacado se fosse o caso. Nem é forte como fala, devorou-a debaixo do umbigo exatamente porque não conseguiria arrancar ou quebrar a caixa torácica. Você se mostra tão seguro de si, mas sei muito bem que não há mais de vocês aqui porque eu só sinto cheiro de um. E sei exatamente o que você é. Um Transmorfo comedor de carne humana.
O rosto humano esboçou espanto enquanto a criatura se transformava completamente em um carniçal, correndo pelas ruelas da pequena cidade. As patas grandes e desajeitadas escorregavam na neve, a língua verde e grande saía para fora da boca. O ruivo então tomou impulso para uma corrida cortante pelos becos, pretendia pega-lo cortando caminho pelos atalhos.
O monstro corria enquanto olhava para trás desesperado. Foi pego no meio da corrida por uma espada que cortou o ar e acertou suas coxas. O falso carniçal então caiu no chão tentando transformar-se em outras criaturas. Em vão, pois a cada transformação mais se cortava. O ruivo se aproximou, agachou ao lado da criatura. Colocou os dedos na boca da criatura agora sem forma definida, parecia um bolo de transformações misturadas e malsucedidas.
– Sh. Sh – Silvava o ruivo enquanto levava dos dedos na boca do monstro – Quietinho. Diferente de você não gosto de gritos de desespero, me irritam. Vou acabar com isso logo, suas pernas já são inúteis, não há para onde nem como correr, Transmorfo. Seus dias tendo comida fácil acabaram, sinto muito.
Os olhos do Transmorfo arregalaram num desespero descomunal. Viu a lâmina negra do ruivo descravar suas pernas e se levantar, as luzes das lamparinas públicas fizeram-na brilhar. Pensou em gritar, mas não mudaria nada. Pensou em pedir perdão, súplica e se humilhar, mas o ruivo não sentiria compaixão. Por fim, morreu. A lâmina atravessou seu pescoço fazendo voar a cabeça alguns passos do corpo, seu sangue negro escorreu em silêncio.
A madrugada parecia ter passado num instante, os primeiros raios do amanhecer invadiam as ruas de Northdrage, a cidade mais ao norte do mundo. Os pássaros acordavam junto aos primeiros padeiros. O ruivo sentado na calçada pegou um saco jogado na rua para que pudesse colocar a cabeça do monstro, os guardas logo vieram observar o corpo disforme jogado na rua. Levantou-se pesadamente respirando fundo e coçando os olhos cansados. Pensou: Nunca mais leio a noite inteira.
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