I

“Um elfo lançador de facas. Venham. Venham, criançada. Senhoras e Senhores, o elfo que nunca erra”, gritava um homem rechonchudo vestindo um gibão preto e uma cartola, parecia apresentador de circos e monstruosidades. O homem gritava arfando em intervalos pois perdera o ar, chamava o público para ver o elfo de cabelos negros lançando facas em um alvo. Este mesmo elfo enrubesceu-se e quase contorcendo as orelhas pontiagudas virou-se para o homem.

– Quer merda é esta de “elfo lançador de facas”!? Não me torne um espetáculo, seu filho da puta. Disse que se eu acertar os alvos ganharia prêmios e espero que seja comida pois estou com fome. Tirem essa gente daqui! Multidões só me atrapalham – Gritava o elfo segurando em suas duas mãos três facas de lançamento lindamente ornamentadas.

Este era Turon-Phael, mais conhecido como Moro por causa de seus cabelos negros e compridos. Ao contrário do que pensam, Moro não usava arcos e flechas com maestria como a maioria dos humanos pensa. É inquestionável que sua mira é espetacular, mas está é reservada ao lançamento de facas. Se tornou mestre nisto e também em lutas com facas, porém agora estava usando a habilidade desesperadamente para comer. Ele parou de lançar as facas quando mesmo depois da multidão ter ouvido seus gritos continuou a observar com curiosidade para o Elfo. Guardou as facas e pôs a adentrar no meio das pessoas que faziam questão de toca-lo.

– Não sabia que estava treinando para ir trabalhar no circo. Com sua cara devia desistir de ser o lançador de facas, torne-se o palhaço logo, Moro – Sorria o ruivo que estava atrás de todos, rindo da apresentação do elfo.

– E você devia estar com a boca fechada e os olhos abertos em cima de monstros. Diferente de você não trabalho apenas com a lâmina. Minha voz e minha mente são minhas melhores armas – Apontava para a própria cabeça que parecia uma cachoeira de água negras – Mas enfim. É bom te ver, amigo. O que te traz a Oron-Finri? Mulheres? Elfas?

– Senti o cheiro de algo errado na cidade. E de certo modo, fora a movimentação que suas habilidades circenses causaram, a cidade parece quieta demais como se algo a calasse. E claro também pelas mulheres e elfas, mas saindo da sua boca parece que sou um pervertido insano.

Conversaram até a casa do Moro, uma casinha pequena com um jardim repleto de flores e plantas vindas de diversos lugares diferentes. Mikhain tomou cuidado para não esmagar nenhuma planta no caminho até a porta do elfo, pois os elfos prezam pela natureza, mas não soube se era o mesmo com Moro. Dentro, os móveis lembravam muito a uma floresta, as cores e o cheiro que pairava sobre cada cômodo. Um cheiro incomum saiu de onde ficava a cozinha. Era a irmã de Moro, a bela Mornië que trazia consigo uma torta tipicamente élfica. O ruivo a conhecia desde pequena, ensinou alguns feitiços e ela logo se mostrou melhor que ele nas artes e feitiçarias. Agora em idade adulta a elfa tinha os cabelos negros até a cintura, seus olhos amarelados brilhavam de maneira incomum.

– Bom te ver, Mika. Quanto anos se passaram mesmo? Você me viu pequenina. Ainda rolava nos campos e ficava com os dentes verdes de tanto engolir grama, agora sou uma mulher e você não envelheceu nem um pouco. Me pergunto sempre quantos anos você tem, nunca dá para se saber. Sente-se, meu irmão vai pegar algo para bebermos enquanto tiro minhas curiosidades sobre suas viagens. Vá, Turon.

O Moro foi meio a contragosto. O ruivo se sentava no sofá que ficava na sala, sentou-se à frente de Mornië olhando como ela ficara bonita em poucos anos. Olhou para baixo, pensativo, e logo notou que suas botas estavam imundas.

– Desculpe, criança. Sujei a casa de vocês com minhas roupas imundas.... Estava caminhando a dias esqueci que teria de estar apresentável a meus velhos amigos – Falou envergonhado enquanto tirava a manta negra envolta em seu pescoço – Sobre minhas viagens, creio que não sejam adequadas para acompanhar nossa refeição. Não tive em lugares muito agradáveis, Mornië. O último que estive um Transmorfo tropeçou em meu caminho, não foi uma noite feliz.

– Transmorfos não são perigosos, Mika...

– São quando começam a agir como Carniçais... – Interrompeu-a criando um ar estranho na sala.

O momento tenso foi interrompido quando o Moro carregando duas jarras de cerveja e uma de chá entrou na sala. Atrapalhado, sentou-se colocando as jarras e os canecos a mesa. Estava ao lado da irmã que o olhou de soslaio furiosamente, o jeito desajeitado do irmão a deixava irritada. O ruivo levou suas mãos ao caneco e encheu-o com a cerveja. Gostava do cheiro da cerveja que Moro produzia nas horas vagas, com certeza ele não trabalhava só lançando facas.

A tarde foi preenchida então por recordações e risadas dos três amigos. Lembravam de cada peça que os irmãos fizeram em sua infância, enquanto o ruivo como um pai ria perdidamente pensando “como eles cresceram”, conhecera Moro quando era um jovem Elfo e sua irmã tinha acabado de nascer. Eram duas crianças órfãs que não podiam viver sozinhas, levou-as para Isil que cuidou delas até que Moro chegasse a sua idade adulta, agora os dois eram belos elfos adultos. Os olhos de Mikhain se encheram de nostalgia, mas logo sua mente se tornou turva e a imagem de uma mulher loura de olhos impressionantemente pratas tocou a mente, acabou por deixar a cerveja escapar de suas mãos caindo no tapete da sala.

– Me desculpem. Estava distraído, não percebi a besteira que estava fazendo. O copo foi escorregando... – Se levantou e indo para cozinha pensava num jeito de esquecer aquele rosto. Havia anos que não a via, mas a imagem de seus olhos ainda lhe eram vividas.

A elfa preocupada olhou nos olhos do irmão como um sinal para que ficasse sentado. Foi até a cozinha da casa vendo o ruivo lavar o rosto no balde de água que estava sobre a mesa. A água escorria pelo rosto dele e escorregava novamente para o balde pela barba ruiva. Ele sorriu apenas para tranquiliza-la, mas não adiantou.

– Você precisa seriamente de um barbeiro, Mika. Sorte sua que meu irmão maneja a faca como ninguém, mas duvido que ele queira fazer sua barba. Sendo assim... – Mornië numa pausa longa andou na direção do ruivo colocando sua mão no ombro do mesmo – Posso ajudar a faze-la. Lembro que quando era pequena você fez sua barba. Naquela época você se tornou o homem mais bonito que eu conhecia.

Mikhain sorria. E logo tomou um olhar soturno na água que ondulava com as gotas que escorriam de seu rosto. A elfa retomava seu discurso, dessa vez, parecendo propor algo. Ela entrelaçou as mãos, levou-as até a altura da boca.

– Mika. Você poderia parar por um tempo.... De viajar. De procurar Por Lauren.

Suas pupilas se contraíram fazendo parecer que os vermelhos de seus olhos estavam mais intensos. Esta era reação que acompanhava o ruivo ao tocar no nome da mulher chamada Lauren. Seu braço apoiado no balde enrijeceu-se entortando o aro que segurava as madeiras que rangiam.

– Não posso esquecer.... Não posso esquecer de nada que aconteceu. Tudo que pude sentir nesses anos é ódio. Não consigo suportar mais, minhas pupilas se contraem e dilatam no meio da noite. E volta e meia me encontro arranhando as paredes enquanto durmo. Você percebeu lá na sala, minhas unhas se tornaram negras. Tenho medo, criança.... Medo de que me torne algo assim como o Transmorfo em Northdrage se tornou. Que comece a devorar a quem mal conheço. Vim aqui ver Isil, mas vejo que não está na casa.... Como sempre ele saiu em alguma jornada. Eu preciso. Preciso matá-la.

– Mika. Você sabe que isso não mudará o que atormenta teu coração. Sua inquietação, sua fúria está cravada na sua alma. Precisa se livrar disso, precisa lutar contra isso antes que te mate. Isil não iria localiza-la para te levar a morte, Mika, ele é como um pai para nós três.

– Como pai ele deveria entender minha dor – O balde se quebrou. O aro de ferro se entortou nas mãos do ruivo, o ferro começou a lhe cortar as mãos, o sangue pingava na água esparramada no chão. Moro logo veio ver o que acontecera e tentava controlar Mikhain.

Mornië rapidamente começou um canto que fez com que as mãos firmes do ruivo se acalmassem. Seus olhos voltaram ao normal em pouco tempo, cerrando duramente as pálpebras sem descanso. O Moro se impressionara com a agilidade da irmã e logo tomara a atenção a Mikhain.

“Deite-o em sua casa, irmão. Seus dias sem descanso já foram cheios de dor”