Os balaústres da sacada que ficara no segundo andar da casa dos irmãos estava repleto de trepadeiras das mais diversas flores. O ruivo escorado nelas prestava a observar a movimentação na rua: quase ninguém andava pelas ruelas de manhã em Oron-Finri. O cheiro da cidade era incomum e isso sempre significava coisas ruins. Perdido em pensamentos e colocando fumo em seu cachimbo, o Ruivo fora interrompido pelo Moro que atravessou as portas da sacada com passos largos.

– Seu dorminhoco. Fiquei dias te cutucando para ver se já poderia servir aos corvos – Cutucou o ruivo com o cotovelo postando-se também na balaustrada para observar a cidade.

– Quanto tempo dormi? – Deu o primeiro trago no cachimbo feito por ele mesmo, a fumaça saiu pelas suas narinas e respirou fundo.

– Uma semana – Mostrou o braço com arranhões grandes o bastante para um animal de grande porte – Mas não se acalmou sequer uma noite. Acho que os corvos não iriam querer de qualquer forma. Mais fácil é aquela presa que não se mexe enquanto finge de morto. Ah! Isil voltou neste meio tempo, disse que esperaria por ti na feira. Ele previu sua chegada, mas não teve tempo de fazer compras, como ele pode ser tão estranho...

Moro e Mikhain desceram as escadas pegando seus cavacos e seguindo até o final da ruela que dava para a praça central. O ruivo sabia que as feiras eram sempre feitas nas segundas e se estendiam até na quinta, pois sexta bebiam. O cheiro de legumes e verduras frescas preencheram seu nariz. Mal esperava para experimentar mais da comida da elfa.

Puderam ver de longe Mornië acompanhada de um homem alto. Diferente da imagem dos magos que os livros de contos têm, Isil não era um velho de trezentos anos com um chapéu pontudo como seu nariz, com olhos caídos, túnica azul escura e uma barba que chegava quase ao umbigo. Isil tinha aparência de um homem em seus “quarenta e seis anos”, e gostava de realçar isso. Nunca se soube a real idade do mago, ele cuidava bem de sua aparência. Sua barba era milimétricamente cortada, seu cabelo era lavado e colocava uma espécie de pasta para mantê-lo escovado para trás. Gostava muito da moda atual, por isso, estava usando um gibão preto e vermelho que esbanjava mocidade e luxo. Ao vê-los chegar, foi logo abrindo o sorriso conhecido pelos dois.

– Moro, então finalmente conseguiu fazer essa pedra se levantar dos lençóis. Mikhain, meu filho, você não mudou nada. Como sempre com essa barba por fazer, quando chegarmos enfeitiçarei uma navalha para que lhe tire esse desgosto. Mas antes! Me ajudem a escolher as frutas, legumes e verduras. O olfato de meu filho vai ser bem útil para sabermos o que está ou não fresco. Andem, crianças!

A família diferente era o centro das atenções na grande praça central de Oron-Finri. Todos sabiam que Isil era um mago poderoso, as orelhas e a beleza de Moro e Mornië não podia disfarçar seus traços élficos, e o relaxar dos trajes e a barba por fazer de Mikhain gerava a dúvida se era um guarda-costas ou um escravo pessoal.

Chegaram até uma barraca de frutas. O fruteiro simpático, conhecido de Isil, sorriu e recebeu todos em sua venda.

– Oh, grão-mestre Isil. O que vai levar de minha humilde barraca hoje? Temos maçãs, tomates e veja, veio de além-mar: Chama-se “banana”. Ora, que falta de educação minha. Vejo que trouxe um conviva para sua janta a noite. Prazer, chamo-me Olaf, o fruteiro mais sorridente das cidades do Norte.

– Mikhain, o ruivo. Se preferir me chame apenas de Ruivo.

– São meus filhos. Todos – Abraçando os três com seus braços longos e apertando com as mãos grandes com um anel azul no dedo médio da mão direita.

•

O dia continuava calmo como sempre, era comum ver um ou dois transeuntes pelas ruelas. O ruivo estava observando da sacada novamente após o passeio. Seus olhos estavam voltados para o sul, por instinto: sentia que algo havia lá. Mas seu silêncio cessou quando o mago colocou a mão em seu ombro.

– Isil, sei que consegue ler meus pensamentos. Sei que você sabe como encontrá-la. Me diga como, onde e quando – Seus olhos tinham um vermelho vivaz e furioso. O Mago pôde ouvir o coração desesperado do ruivo.

– Se você escolher este caminho, meu filho, encontrará com a morte. Até lá, a morte o seguirá passo a passo, suas noites serão mais e mais atormentadas. Mikhain, você não quer isso para si, não pode viver por ódio e vingança. Todo o mal o engolirá por completo e você vai se tornar o que mais teme – Falou mansamente enquanto seus olhos serenos fitavam o desespero do filho.

– Não importa por onde eu ande.... A morte já está um passo atrás de mim, já não olho para trás para não dar esperança que morrerei. As noites eu acordo banhado em meu suor pelos pesadelos, todos os dias. Medo. Eu sinto mais medo que o próprio ódio. Se for pela espada que conseguirei meu descanso, portanto, que seja por ela.

“Por ela...” pensou o mago. E retocando em sua mente a imagem de Lauren. Sentiu raiva, pois lembrava dos tempos em que ela era o motivo do sorriso do filho. Embora não fosse realmente o pai de Mikhain, foi o mago quem cuidou de ensinar seus primeiros passos; quem notou que o ruivo se dava melhor com a espada do que com a magia; que ensinou as primeiras palavras de todas as línguas possíveis. Não podia ver seu filho se matando deste jeito, era doloroso demais.

Os olhos de Mikhain ainda estavam cheios de raiva, o mago entendeu que não bastaria magia para acalma-lo. Neste estado, o ruivo se encontra imune a qualquer magia e mesmo se funcionasse.... Ao passar dos efeitos ele sentiria mais ódio ainda. Isil tentou achar uma resposta mais plausível.

– Isil... Me dê a única coisa que eu posso ter: Uma morte em paz – As mãos do ruivo tremiam como nunca. Tentou em vão cerra-las com força para esconder a tremedeira.

– Não o farei. Jamais. Também não irei te atrapalhar. Uma coisa é certa, filho, eu não direi onde Lauren está. Mornië também não dirá a você. – O mago hesitou por um momento. Escolheu com cuidado as palavras — Vá a Mindgar. O centro deste continente. Encontrará quem precisa para encontrá-la.... Se soubesse antes, não teria levado até Löthruvar...

O mago logo se corrigiu mentalmente, sem mostrar o menor traço da ação. Pensou sozinho consigo.

“Não mudaria nada”

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O ruivo acordou mais cedo que todos na casa. Exceto por Isil, deitou-se, mas desde a noite passada não conseguira pegar no sono. Pôde ouvir os passos do filho, mas nada fez, nada falou. Moro dormia tranquilamente no chão da sala, provavelmente tenha caído durante o sono. Mikhain pegando suas coisas colocou a mão no trinco da porta que o esperava, foi tarde demais. O cheiro, indomável o fez virar o rosto para trás bruscamente. Viu uma mulher com cabelos ruivos passar por um dos cômodos, estreitou os olhos para poder enxergar melhor. Não acreditando no que vira, foi até a cozinha e lá estava. Mas não era a ruiva que vira antes, era Mornië.

– Saindo escondido, Mika. Feio. Muito feio de sua parte. Não se despediu de nenhum de nós, como sempre faz. Mas dessa vez não saiu na calada da noite como um gato. Nem pulou do segundo andar. Talvez, você tenha mudado um pouco sim. Essa mudança pode mudar os rumos das coisas agora – A elfa cabisbaixa entrelaçava os próprios dedos das mãos delicadas – Não quero que vá, está viajando desde que nasci ou talvez até antes. Fique. Fique comi...

– Aonde quer que eu vá não terei paz – interrompeu-a – Não importa por onde eu ande, o lugar se tornará meu campo de batalha. Não há descanso, não há amor. Não cabe a mim o privilégio que deus ou seja lá quem for deu as criaturas para que se reproduzissem e fizessem de si eternas. Não posso ficar muito tempo em uma cidade. Percebo agora que a quietude das ruelas desta cidade não era causada por alguma criatura. Era eu, Mornië, e sempre foi. Saindo daquela porta me privarei de sentimentos e arrependimentos, não olharei mais meu reflexo com os traços humanos que tenho.

“Droga, droga. Não chore, Mornië. Senão não poderei sair por aquela porta”, pensou. Mas quando se deu conta já estava ao lado das flores que enfeitam a frente da casa do Mago e dos Elfos.

“Não há volta”.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.