HARMONIA

Os grandes mistérios por trás de amar alguém seguem sendo estudados e amparados por grandes ciências, tal como Psicologia, a fim de explicar milimetricamente todas as razões pelas quais as pessoas sentem uma atração tão forte. Além do estudo da mente, a Biologia também dá sua contribuição, remetendo as nossas raízes primitivas, as características inquestionáveis do porquê somos seres selvagens por baixo da derme que nos cobre. Já pelo viés da Filosofia, amor é um filtro para se ver a vida com outras cores, sob novas perspectivas… Essas e tantas outras áreas de conhecimento, juntas, buscam nos contemplar. E mesmo assim, Alisson não colocava em palavras seus sentimentos ao sentir os lábios de Daniel colados aos seus.

Ainda que já tivesse acontecido algumas vezes, continuava descobrindo coisas inéditas a cada oportunidade. O toque gerava uma corrente elétrica capaz de percorrer seu corpo em uma fração de segundos, jogando ao céu qualquer possível problema, tristeza ou lástima. Provar daqueles lábios era como assistir a um mesmo filme várias vezes, sempre analisando um ponto diferente, capaz de lhe fascinar ainda mais por fazê-lo. Revivia sua alma, fazendo florescer a certeza de dias melhores, todos vividos ao lado de quem amava cada vez mais.

Com Daniel não era muito diferente. O menor sentia sumir de seu peito cada minuto passado nos dias anteriores, a apatia e falta de vontade de reassumir suas obrigações junto com ela. Nem horas, dias e até semanas foram suficientes para quebrar o elo forte criado entre ele e o mais velho, algo tão único quanto um floco de neve, com detalhes decorativos só deles e que observavam com brilho no olhar. A vida voltava a pulsar em suas veias, devolvendo com ela o prazer e a graça de estar nos braços daquele cujo coração estava em suas mãos.

Em torno de suas figuras, testemunhas aos montes. Não só os olhos delas não conseguiam desgrudar uma pálpebra da cena, como também seus celulares tratavam de eternizá-las. Pareciam não crer no que acontecia, soando estarem presenciando a queda de um meteoro bem perto de suas cabeças. Alunos, alguns pais e vários professores tentavam decodificar o óbvio, pensando quais circunstâncias levaram aquilo. Passava longe de ser problema para os meninos. Estavam presos dentro de sua própria redoma, onde o exterior não mandava nem desmandava, sequer existia. A força viva ali eram eles e nada mais.

— Posso saber a razão? — questionou Al ao pé do ouvido do menor.

— Digamos que sou eu metendo o p*u nos problemas — respondeu de mesmo modo, arrancando risos dele.

— ‘Bora meter mais então que tá gostoso — maliciou, pegando-o pela cintura e selando seus lábios uma segunda vez.

Os olhares e suspiros estarrecidos fizeram a trilha sonora da ação, fosse por emoção, surpresa ou desprezo. As motivações variavam muito, podendo contar a quantidade das que iam de encontro com o amor dos rapazes. Uma das contrárias, por exemplo, era Elis, quem parecia ter sido teletransportada para uma dimensão paralela, mas cujo corpo seguia sólido feito rocha no chão. Quando terminaram o beijo e se deram conta da cara da professora de Matemática estar no chão, não aguentaram lançar dardos envenenados.

— Da Vince pintaria a senhora nessa posição, professora — começou Al, rindo.

— Meus olhos vêem, mas não consigo acreditar — confessou a mulher, ainda com o olhar de gato escaldado.

— Olha, sugiro então que a senhora dê jeito nisso, viu? Porque a partir de agora ‘tamo juntos pra valer — Dan complementou, sorrindo malicioso.

O comentário foi o estopim para a mulher revirar os olhos e sair, se recusando a acreditar naquela absurda nova realidade, onde seus alunos mais problemáticos resolveram se unir de todas as formas possíveis e imagináveis. Os rapazes riram, imaginando cada um de seus neurônios explodindo com o choque.

Vendo que a cena já tinha fomentado comentários o suficiente, Jeferson e Adrian logo trataram de espantar os olhares bisbilhoteiros, alegando o fato do ‘show’ já ter se encerrado. Mesmo sob várias reprovações e contestações, a maioria acatou o pedido e seguiu para dentro da instituição rumo à escola. Por fim, tanto eles quanto Amanda e Sabine se aproximaram dos amigos.

A primeira, aliás, abraçou ambos num só gesto, extravasando de alegria. Sabia o que cada um, em especial Alisson, havia passado para chegar ao ápice de sua rebeldia e se render aos fatos. A tal busca pela felicidade, a qual sabia o fazer falta, parecia ter encontrado seu fim. Testemunhar isso era mais do que simplesmente guardar uma lembrança, e sim, ter a prova de que é possível vencer os obstáculos para que duas pessoas que se amam possam ficar juntas. Alegou ao casal o quão maravilhosos tinham agido, sem tirar nem pôr.

Já Adrian, apesar de concordar com a namorada, se viu na obrigação de confessar seu choque diante da atitude improvável de Dan e, ainda, com a escola inteira de testemunhas. O garoto riu, avisando que daria um jeito no primeiro espertinho que tentasse fazer pouco de si outra vez. Foi a vez, então, de Sabine parabenizá-lo pela bravura de lutar por quem era, tendo certeza que suas palavras no sábado anterior tinham rendido frutos. Maiores do que imaginava, sim, mas melhores sem sombra de dúvida, assim pensava.

Quando deram por si, Amora, serelepe como uma criança em loja de brinquedos, havia se aproximado com um largo sorriso indo de orelha a orelha. Achando que ela iria parabenizar-lhes, num gesto inédito de caridade para com aquele que teve um arranca rabo provocado pela imaturidade segundo Al pensava, caíram do cavalo ao se dar conta de suas reais intenções.

— Aquele que tá num carrão é teu pai, Alisson? O que tá olhando pra cá com aquele sorriso colgate ma-ra-vi-lho-so?!

O casal de rapazes se entreolhou, verificando a quem se referia. Só então o mais velho se deu conta de que Edu ainda estava presente. Não pôde deixar de sorrir. Com certeza, sua mãe ficaria com o coração mais brando ao saber da notícia. Ao ser flagrado, o homem não tardou a tomar seu curso de volta a casa, deixando os jovens com suas ideias amadurecendo por conta deles.

— Quase isso, vamos dizer assim — deixou no ar.

— Qualquer hora, se ele te der uma carona, me dá um toque — a moça insinuou.

Al revirou os olhos na mesma hora.

— Pode deixar. Assim tu e minha mãe ficam conversando. Sei que vocês serão melhores amigas — alfinetou, arrancando a malícia do rosto da moça na hora. Assim que ela se foi, o grupo caiu na risada com a desfaçatez da moça.

A piada, entretanto, logo caiu toda por terra ao perceberem a voz de Rebecca chamando Alisson e Daniel até sua sala. O grupo se entreolhou, comentando quais consequências teriam agora, afinal nada havia acontecido de tão grave, mas, a julgar pelo histórico dos rapazes, as dúvidas de como tudo seria procedido ainda eram muito presentes. Mesmo assim, Alisson deu de ombros, alegando que poderia cair um avião do lado deles que nada seria capaz de abalá-lo. Tanto Jeff quanto Adrian debocharam do tom romântico da fala, ao passo que Amanda e Sabine se davam o direito de suspirarem de fofura pelo ato.

Os rapazes riram, encarando-se e dando as mãos para rumarem até a sala da supervisora. Todas as barreiras, enfim, pareciam terem sido quebradas. Nada mais era um problema, uma pedra no sapato… Tudo poderia ser levado pelas correntezas da vida para além mar, pois ambos estavam seguros num barco construído a dedo só para eles.

***

Depois da última experiência semelhante vivida por Vanessa, a loira tinha para si que nunca mais sentiria seus olhos brilharem em uma ida a um acampamento. No entanto, passar a noite ao lado de Mia e Pedro havia aberto a mente da garota e a convencido de fazer aquilo tantas vezes fosse possível. O contato com a natureza, o som das águas ao longe para ajudar a adormecer, a companhia incrível e sensível do casal seu amigo… tudo sincronizado no tempo e momento perfeito ao grande timing da vida, onde nada nunca acontecia por acaso, e, quando acontecia, tinha razão para ser.

Voltar para casa depois foi tarefa difícil. A plenitude e as boas vibrações do lugar pareciam estar ligadas por uma espécie de campo magnético onde, mais do que fazê-las parte do lugar, ainda lhe fazia querer estar ali para todo sempre. Não podia afirmar se existia o Paraíso, porém, acreditava piamente ser uma cópia idêntica dali, onde a paz fazia sua morada para todo o sempre.

A única coisa que realmente a trouxe de volta para a terra foi o pedido de Mia. Sabia não ter sido cobrada ou exigida de tomar qualquer providência, mas queria muito poder fazer algo pelo rapaz tal qual havia feito consigo. A importância do primeiro passo era aprendido com a vida, através do dia onde confessou abertamente o desejo de consertar o erro cometido pela natureza ao lhe fazer nascer com feições masculinas. Então, se ela poderia ser este estímulo, tanto melhor.

Cumpriu a promessa feita a Mia e nada falou a respeito de sua busca, guardando em sigilo. Mesmo porque as probabilidades tanto de dar certo quanto de não eram iguais, então favorecer qualquer decisão ou intuição seria um erro pelo qual jamais se perdoaria. Quando, por fim, conseguiu resposta do que precisava, marcou com ambos em sua casa de manhã, podendo ser antes mesmo de irem até a escola de Pedro.

A sugestão, no fim, acabou acatada. Logo cedo ambos apareceram na casa da loira, entrando e unindo-se a ela no café preparado. Mia, consciente de seu pedido, dedilhava em cima da mesa aguardando a resposta. Tinha bons pressentimentos, o que não anulava a ansiedade sentida dentro do peito, capaz de fazer seu coração quase pular para fora. Com as respectivas xícaras servidas, Vanessa suspirou antes de começar.

— Bom, gente, eu queria que soubesse o quanto andei refletindo nesses últimos dois dias. Sobre tudo na minha vida, de uma forma geral. Lembrei de quando resolvi fazer Psicologia, o primeiro dia na faculdade… são momentos que agregam, sabe? Fazem a nossa vida valer a pena, enquanto aprendemos a lidar com esse mundo maluco chamado adultez.

— Sei bem como é isso — confessou Pedro — Desde que descobri a dança tudo ganhou um sentido, uma razão maior de ser. É como ter encontrado minha cara metade, mas no sentido profissional. Aquilo que é vocação pro coração e pra alma.

— Exatamente. Por isso eu tomei a liberdade de ligar para a ONG onde vou trabalhar e questionar a possibilidade de abrirem um curso de dança urbana, a única que ainda não tem na parte de arte, mesmo que seja para eles se divertirem, sabe?

As palavras alcançaram Pedro numa velocidade incrível, o que não impedia de sua mente ter um processo mais lento de colocar as ideias todas em ordem. Coordenar um curso de dança para pessoas LGBTs já era, por si só, uma ideia tentadora; Na ONG a qual Van iria trabalhar, após ouvir da própria a respeito no dia do camping, seria como ganhar um prêmio sem sequer ter apostado.

— Cara… — coçou a nuca, com um sorriso acanhado — Sei nem o que te falar. Real…

— O problema é que, por conta da verba, eles não podem ofertar — colocou — Eles conseguem uma ajuda mínima de custo e é dinheiro contado. Qualquer centavo faz falta.

— O importante é ter tentado, Van — garantiu Mia — Era um risco.

— Sabia disso? — perguntou Pedro, com a cara no chão.

— Foi uma ideia que tivemos e acabei aceitando — explicou — Acontece que ainda não terminei de falar…

O casal surpreendeu-se. Não compreendia bem o que poderia haver para explicar, uma vez que a tentativa, para infelicidade deles, tinha culminado em um desfecho diferente do ideal.

— Como assim? — Pedro indagou, confuso.

— Bem, acontece que a minha chefe tem contatos com algumas pessoas, lugares interessantes, e acabei descobrindo através dela a possibilidade dessas aulas serem ministradas na Casa de Cultura Mário Quintana. Conhece?

Por mais simples que fossem as palavras usadas, a moça conseguiu dar uma sensação de vertigem na cabeça dos amigos. A força de uma informação como aquelas era a de um terremoto, capaz de mover sem piedade toda e qualquer superfície dentro de seu alcance. Por pura ironia, seu abalo recolhia-se ao fato da informação, não de sua grandeza. De certa forma, o terremoto veio primeiro para poder ver, ao fundo da fenda aberta em consequência dele, uma luz emanando em direção ao seu sucesso, a oportunidade tão aguardada de viver da arte a qual tanto amava. Seu olhar irradiava com a notícia.

Mia caiu no riso com a reação de curto-circuito do namorado. Mesmo compreendendo, afinal sequer imaginava chegar tão longe em uma posição tão importante, com um reconhecimento feito para poucos, era divertido ver alguém ganhando tal possibilidade de braços abertos, fruto da generosidade tanto sua quanto de Vanessa, principalmente por ter conhecimento do apreço do namorado pela moça e por si.

— Desculpa… Eu, não sei nem o que dizer — riu o rapaz, fraco.

— Diz que aceita! Anda! — engajou Mia.

— Tá brincando?! Seria doente se não aceitasse! — as meninas gargalharam do comentário — Só tava aqui pensando: Será que não rola de ter apoio? Porque tipo… pensei em Al e Dan me darem uma força, já que são caras talentosos e que sabem muito. O que acham?

— Essa eu passo pra ti, Van. Afinal é tu quem sabe melhor a respeito das vagas — disse Mia.

— Olha, por mim, tudo bem. Se o pessoal da administração quiser firmar mesmo a parceria, tudo bem — garantiu a loira — Aliás, deixem comigo, Eu falo com eles.

— E como seria a questão do espaço, sálario e afins? — indagou o rapaz.

Enquanto tomavam o café, Vanessa foi passando os maiores detalhes a respeito das projeções dadas pela coordenação da ONG. Nada concreto, uma vez que a administração do lugar onde ocorreriam as aulas sequer tinha planos feitos para tal oferta, mas que, dadas as condições e posicionamentos deles nas negociações, deixaram o casal empolgado para começar a ver os frutos disso.

Pedro, lógico, era quem mais não se aguentava de felicidade. Aquilo superava qualquer expectativa que tivesse além do torneio realizado na semana anterior. Não era ingênuo, estava longe de esperar ganhar muito bem sem ter qualquer experiência ou nome para dar peso a empreitada. De toda forma, seria o primeiro emprego, a chance a qual precisava para mostrar seu talento e dar vazão a uma longa e próspera carreira no ramo. Tudo graças a Vanessa. Palavras não expressavam o quão tocado estava pela ação.

Com a empolgação do relato, Van deu um pulo da cadeira ao notar o quão tinha atrasado o compromisso dos amigos com a aula. Preocupada com os possíveis efeitos disso, questionou se havia alguma prova ou trabalho naquela manhã, recebendo a garantia de nada importante estar para acontecer, além da preparação e falatório acerca do trote dos desenhos infantis. Como se o universo tivesse visto na frase um desafio imposto, logo tratou das suas. O celular de Pedro vibrou dois minutos depois e, ao ver o conteúdo, deu gritou um ‘C*r*lho!’ ouvido desde os vizinhos de apartamento da anfitriã até a República Tcheca.

As moças lhe encararam sem compreender uma vírgula do que se tratava. Explicou então ter recebido um vídeo pelo qual já esperava a algum tempo o acontecimento, mas se concretizou justamente naquela manhã. Ainda sem compreender, as garotas pediram maiores detalhes, ganhando a confissão de Pedro então sobre Alisson e Daniel serem a sensação das bocas de sacola da escola, mostrando então o vídeo recebido de ambos se beijando frente a toda instituição.

A primeira reação da ex de Dan foi semelhante a de alguém flagrando alguém embriagado tomando água após rios de cachaça largados em seu estômago. Conhecia todo o processo, sabia dos esforços e recuos dados pelo rapaz ao longo de seu processo de aceitação, o qual, tinha certeza, vinha de muito tempo. Sua mente sempre foi cercada de muita névoa, de forma quase tão sólida quanto uma parede de cimento, onde apenas com muita boa vontade alguns conseguiam ultrapassar. Acabava de ter conhecimento de Alisson ser um deles.

Mia pôde ver o olhar dela se desviando vez ou outra, como um sinal de seu inconsciente estar sendo torturado com as imagens. Sabia que esta passava longe de ser as intenções de Pedro, mas conhecia-o suficiente para saber que sua noção, por vezes, ficava dormindo em casa. A única opção além da óbvia de pedir que desligasse, foi pegar nas mãos da moça e encará-la, com um sorriso empático, como se conseguisse sentir a dor involuntária de seu coração perante aquela nova realidade.

— Mais hora, menos hora isso ia acontecer, né? — questionou, ainda preocupada.

Vanessa suspirou fundo.

— Ver as pessoas partirem desse plano também, mas nem por isso se torna mais fácil — confessou a outra — Eu… sei que tô refazendo a minha vida, sabe? Só que parte de mim ainda tá digerindo tudo o que vinha acontecendo comigo e com ele nos últimos meses… É difícil. Quero o bem dele e ver isso, apesar de ainda dar aquele aperto básico no peito, me dá pelo menos o conforto de saber que fiz a escolha certa ao terminar.

O casal não se via em condições de julgá-la, afinal de contas o peso de um término forçado pelas circunstâncias tristes da vida nem de longe parecia ser uma pluma. Viam em seu olhar uma alma lutando para se reerguer, conseguindo até, mas com as marcas ainda em processo de cicatrização. Sentindo o som da ficha caindo, Pedro guardou na hora seu celular e voltou sua atenção a moça, com um sorriso no rosto.

— Ele tá bem. Fica tranquila — disse, esperançoso — Tu também vai ficar. Garanto isso.

Por mais que os tempos estivessem estranhos, com uma emoção a cada hora, a loira agradeceu o gesto de generosidade do amigo, pois sabia que, mais do que um grande amor, amizades são responsáveis por nos cativar de tal forma que o laço capaz de unir os envolvidos não se desfaz jamais. Disso, pelo menos, tinha como certo: Ter Mia e Pedro por perto era uma dádiva do destino, com a qual queria ter cada dia mais a chance de aproveitar a presença deles em sua vida.

***

Precisar encarar Rebecca após uma cena de encher os olhos não estava nos planos de Alisson e Daniel. Seu corpo até se fazia presente, contudo, suas cabeças perambulavam pela escola, a tentar desvendar como devia estar sendo a árdua missão de controlar os fuxicos sobre eles dentro da sala. Pela primeira vez, sentiam um certo orgulho por terem dado razão a todas as tentativas alheias de criar caso em cima de suas vidas. Aquela altura, eles eram quem faziam questão de ouvir cada boca da instituição falando a respeito para, quem sabe, entender que não temiam seus preconceitos ou juízos.

Rebecca, entretanto, não via as coisas de forma tão simplória. Na realidade, como era de sua obrigação fazer, enxergava as terríveis consequências da viralização do beijo. Qualquer ser que estivesse com celular tinha registrado para sempre, e nem cogitava a hipótese de não acontecer o envio nas redes sociais, pois já tinha preocupações demais em sua vida. Uma verdadeira hemorragia generalizada, onde sequer havia se preparado para enfrentar. Alternava seus olhares entre as feições de pouco caso dos rapazes e suas mãos entrelaçadas na altura da mesa, numa tentativa de decifrar o código binário estampado neles desde que se entendia como profissional da educação.

Cansado das encaradas sem sentido, Alisson quis ir direto ao ponto para encerrar aquilo de uma vez por todas. Nada dito por Rebecca seria capaz de lhe amedrontar ou tirar o sossego. Seus problemas maiores foram findados. O externo era apenas o mundo girando e mostrando suas garras. Nada mais.

— Vai. Pode falar. Quantos dias de suspensão? Ou será que achou a cena topzera? Fala sério, né?! Formamos o melhor casal dessa escola! — ironizou o rapaz.

A mulher não aguentou o riso.

— Estaria mentindo se negasse o quão surpreendente foi — admitia — Afinal, não faz muito tempo, ambos se envolveram em problemas com colegas por terem sido chamados de homossexuais e não gostado. Estou errada?

— Tanto faz — foi a vez de Dan se intrometer, dando de ombros — Ninguém tinha o direito de apontar o dedo na nossa cara pra dizer nada. Fizeram? Então que pagassem, ué.

— Lei do retorno o nome. Conhece, supervisora? — debochou Al, com um sorriso maledicente no rosto.

A educadora conseguia ver a satisfação em suas faces, cujas expressões remetiam a grandes figuras históricas após vencer guerras e conquistar territórios, ainda que sob dores imensuráveis e machucados infeccionados. De fato, reconheceu ter duas figuras, no mínimo, curiosas a sua frente, capazes de enfrentar quem fosse com unhas e dentes para defender sua dignidade.

— No meu entendimento, essa nova configuração nas relações de vocês prova que é possível que certos valores se reajustem com o passar do tempo, novos desafios surgindo — comentava — Só espero que isso mostre reflexo não só no lado amoroso, como nas relações interpessoais de vocês com os demais colegas. Estamos na reta final, guris. Vamos ter um pouco de tolerância, pode ser?

— É só ninguém vier de gracinha que tá de boa pra mim.

— E o senhor, Daniel dos Anjos? Confiante mesmo nesse trajeto tanto quanto o senhor Alisson?

Dan encarou o olhar cúmplice de Al. Não era necessário ser um grande intérprete para compreender exatamente o que seu coração dizia cada vez que repetia aquele simples gesto. Era como encontrar no rosto dele a fórmula procurada ao longo dos últimos meses: a da paz interior. A batalha contra a vida e seus efeitos cessara e, com isso, o desejo cada vez mais latente de viver a cada instante conquistando seu espaço, tendo Alisson para lhe ajudar.

— Há pouco tempo me sentiria um lixo por ter feito isso. Pouco tempo mesmo, tipo, três semanas atrás — admitia — Agora? Agora só quero me deixar levar por essa felicidade tão completa que tá aqui dentro implorando pra sair, sabe?

Com uma argumentação daquelas, não teve maiores dúvidas quanto à verdade e reciprocidade do sentimento. Restava então apenas uma questão a ser levantada, apenas para fins de confirmação.

— Então será assim? Alisson e Daniel o novo casal da escola?

— Isso aí — disseram em coro.

— Cientes de que haverão julgamentos?

— Se eu aparecer amanhã com as pernas depiladas vão me criticar, não vão? Então f*da-se — justificou Al, tendo o apoio de Dan.

— Diante disso, só posso lhes desejar sorte. O trilho onde estão se enfiando é cheio de imprevistos e momentos de tensão. Sei que precisarão.

— Sorte nos já temos — garantiu o filho de Isabel — Só precisamos conservá-la. Só isso.

Vendo a certeza e convicção, nada mais que fosse dito seria capaz de desmotivá-los. Criavam ali suas próprias leis e fariam bom uso delas tantas vezes fosse preciso, o que, na opinião da educadora, poderia significar coisas bem distintas dependendo da finalidade. Porém, até aquele momento, falar apenas seriam palavras sendo jogadas aleatoriamente sem sentido algum. Cabia a si supervisionar e tentar fazer o que estivesse a seu alcance para deixar a escola nos eixos e, ao mesmo tempo, auxiliar aqueles rapazes a conquistarem seu lugar no mundo.

Após serem liberados, Rebecca solicitou sua ida imediata para a sala para acompanhar a aula. Porém, graças a uma ideia de Alisson, os planos se destoaram um pouco dos interesses dela. Depois do tumulto vivido nos últimos dias, mereciam alguns minutos em paz para se curtirem e fazerem bom uso de sua juventude efervescida.

CONTINUA