A Teoria das Cores
117 Ruivo V
PICANTE
Grandes fatos históricos, quando presenciados e registrados por um grande número de pessoas, não só se tornam a comprovação de aquilo ter existido, como também dá margem aos futuros analistas sobre o tamanho de sua importância e impacto social. Sabine, Jeferson, Adrian e Amanda tinham a impressão de que, num futuro distante, os livros sobre a história contemporânea de Nova Petrópolis registrariam os nomes de Alisson e Daniel sem sombra de dúvida, como prova do impossível ser, comprovadamente, uma questão de opinião.
O beijo deles se tornou o assunto principal de cada rodinha de prosa das salas de aula, principalmente do 3B onde estudavam. O senso comum culminava em um único fato: eles tinham transformado o conceito de amar entre seus colegas. Alisson, de longe, era quem mais surpreendia. Tantos anos visto trocando amassos com meninas pelas redondezas da escola, levando algumas para conhecer seu ‘ninho de amor’, e ter em suas mãos agora um corpo com estilo semelhante ao seu, respondendo a estímulos de igual forma, causava nas moças testemunhas do desempenho do filho de Marisa uma sensação de propaganda enganosa, quase como se tivessem sido ludibriadas e caído em um conto de começo tão belo e final tão trágico.
No meio disso tudo, Elis, desesperada para conseguir um minuto de atenção da turma em algo o qual realmente iria cair em alguma coisa concreta: os exames finais. A docente bem tentou, ameaçou, berrou, e a única reação extraída deles era cada vez mais desapego. Percebendo ser batalha perdida, terminou de passar a teoria no quadro e passou para as coordenadas de exercícios e primeiro trabalho avaliativo a ser aplicado nas próximas aulas. O grupo de amigos do novo casal sensação tinha certeza de que, se a professora de Matemática já tinha motivos antes para torcer o nariz a eles, agora ganhara mais alguns para fechar a conta.
Vendo o caos se instaurando e as línguas a falar como por compulsão, Sabine se questionava sobre tudo vivido até ali desde as primeiras desconfianças de haver um tempero a mais recheando a relação dos rapazes. Enfrentaram poucas e boas pelo que já era de seu conhecimento, ficando a imaginar o que mais havia por debaixo dos panos, seus desejos e vontades completamente desnorteados, mais do que aqueles que se espantaram com o ato de amor deles frente a tanta gente. Neste sentido, Dan é quem mais preocupava. O menino não era exatamente a calmaria em pessoa. Melhorou um pouco após encarar seus medos, o que não anulavam as chances de entrar em curto circuito quando pressionado demais. Sendo testemunha da lógica usada por Rebecca, tinha motivos de sobra para acreditar na chance nada remota de um estrondo acontecer na escola caso forçasse a barra.
— Só espero que o Dan não quebre aquela diretoria inteira por conta disso — comentou a moça.
Adrian não se aguentou, caindo no riso.
— A gente estaria ouvindo os gritos daqui — brincou o rapaz — Falando sério, não duvido nada da Rebecca estar descascando os dois. Se com a gurizada pegando as gurias já é um tormento, imagina os via— nem terminou, Amanda já deu um leve tapa em seu ombro — Ei! Foi mal!
Amanda sorriu, satisfeita com a ação.
— De tudo que passou pela minha cabeça, nada se comparou a esse acontecimento. Juro pra vocês — confessava a menina — Foi tão de repente, sem pensar. O que será que motivou o Dan a fazer aquilo, gente? Um guri que até ontem morria de medo de tudo?!
Tão logo ouviu a pergunta, Sabine teve um insight. A conversa com o rapaz no sábado anterior e a entrega do livro. Deduziu serem os responsáveis por uma mudança radical de atitude, afinal, até aquela data nada no mundo havia conseguido arrancar uma reação mínima que fosse dele. Dan redescobriu a luz através de seus pensamentos, fazendo-a se orgulhar. No fim, tudo se encaixou.
— Que foi? — notando a estranha expressão alegre da, agora, namorada, Jeferson perguntou-a.
— Nada — limitou-se a dizer, mudando o assunto — Ninguém mandou uma mensagem no grupo perguntando se eles tão bem ou coisas assim?
— Deixa que eu mando. Viajei legal por já não ter feito.
— A única coisa que eu quero é eles bem. Ninguém merece passar por todo esse perrengue e, pra fechar com chave de ouro, serem expulsos da escola — Mandy comentou, com o coração na mão.
— Eles têm um pé de coelho dentro daquelas cabeças de vento, Amanda — garantiu Sabine — O pior que podia acontecer, já aconteceu. Ambos são o centro do universo.
Os amigos se viram concordando com os termos. De tudo aprontado pela dupla, um beijo nem de longe era a arte mais pesada ou até mesmo bem elaborada. Alarmante sim, precisavam reconhecer, mas mal mesmo, na prática, só se fossem vindos de terceiros. Sem Arthur, o cabeça das últimas encrencas envolvendo seus nomes, o grupo aliado a eles perdeu força. Sabine então se dava o direito de relaxar um pouco e levar os amigos ao mesmo pensamento. Finalmente, os únicos problemas seriam só as notas escolares.
***
No instante onde saíram da sala de Rebecca até a ideia de Alisson de cabular parte da aula, justificando estarem conversando ainda com a equipe diretiva, o coração de Daniel parecia ter uma certa dificuldade em não falhar uma batida. Não por arrependimento ou medo, mas sim pelo simples fato de estar próximo de Al e se envolver numa trama com ele já ligava tanto seu sinal de alerta quanto de alegria. Era bom se dar uma folga daquele inferno astral onde julgava ter caído, e podendo fazer isso, ainda sem saber dos riscos ou o que lhe aguardava, tudo bem. Dormiria com arritmia, mas com a consciência tranquila de seguir seus impulsos.
Caminharam de mãos dadas até a velha sala vazia, testemunha de tanta coisa que já fazia parte de sua história, abrigando os momentos felizes e tristes, de companheirismo e solidão. Mesmo assim, sempre lhes estendeu abraço para acolher suas almas, carentes de um refúgio onde pudessem se esconder do mundo e aproveitar a companhia um do outro. Acreditavam no poder daquele ambiente em amenizar suas dores e trazer calma e doçura a suas vidas. Entrando, logo Dan procurou uma mesa para sentar em cima, enquanto aguardava Alisson fechar a porta e ir de encontro a si.
Quando o fez, não hesitou em colocar suas mãos por de trás da nuca dele e colar seus lábios. Queria muito aproveitar o fato do peso de suas costas ter caído por terra depois de sua estratégia de ‘sair do armário’. O gosto da liberdade, somado a ânsia para tê-lo tão próximo a ponto de ouvir sua respiração, davam um toque a mais que fazia questão de provar, degustando minuto por minuto disso. Ao terminarem, cerca de dois minutos ininterruptos depois, separaram-se, encarando os olhos um do outro com um olhar sorrateiro, o qual tinha dentro uma carga enorme de desejo e vontades guardadas.
— Tive saudade disso, sabia? — confessou o mais velho, ainda com o sorriso estampado no rosto.
— Sei, porque tive a mesma coisa — retribuiu, com igual expressão em seu rosto.
— Então ‘bora combinar um lance?
— Fala aí.
— Não vamos fazer isso. Tipo, nunca mais na vida.
— Ah, bebezão. Fica ruim de prometer isso. Conheço relacionamento o suficiente pra saber que uma birra ou outra vai ter.
O mais velho riu.
— Já te falei que a Van foi uma guria muito legal pra ti, mas te deixou mal acostumado — lembrou-o, aproximando-se e dando uma mordiscada em baixo de sua orelha — Tá certo. Vou acreditar hein? Mas a próxima vez que tu me fizer chorar, te arrebento.
Daniel então afastou seu rosto, encarando-o com perplexidade.
— Isso é sério? Chorou… por mim?
Riu, com fraqueza.
— Revés de quando o coração da gente resolve aprontar, né? — coçou a nuca — Foi a primeira vez que me aconteceu. Nenhuma outra pessoa com quem tive uns pegas conseguiu me arrancar uma lágrima.
Dan sentiu um incômodo dentro do peito. Diferente dos anteriores, os quais sempre omitiu a razão de ser, aquele ali sabia bem qual era. Pensou em quantas vezes devia ter feito o mesmo com Vanessa, até mesmo o término deles carregava essa estranha sensação do fardo seu ser maior que o dela. Via o feito se repetir com Alisson, justo o rapaz a quem abdicou de seus maiores valores para mergulhar no amor. Nem isso foi capaz de fazer cair seus espinhos.
— Deve ser sina minha fazer isso. Uma parte maldita de mim que não consigo me livrar…
De cabeça cabisbaixa, foi preciso o filho de Marisa erguer seu queixo e lançar-lhe um sorriso reconfortante para, ao menos, amenizar as dores de sua alma causadas por fazer quem amava sangrar.
— Só precisa relaxar um pouco, controlar tuas emoções. Vai ver como vai melhorar — garantiu, esperançoso — Falou com o Ian já sobre um terapeuta?
— Sim. Vou falar com minha mãe pra dar início nessa m*rda o mais depressa possível, pra ver se vai dar resultado mesmo.
No fim das contas, o saldo começava a ser positivo. Al se orgulhava da postura mais enérgica e madura do namorado frente às adversidades da vida, o que de quebra diminuía a carga de seus ombros para carregar sozinho a tarefa de ser o cérebro da relação, quando, na realidade, seu único desejo era unir seu coração ao dele. Nada mais. Os passos seguintes gostaria que fossem dados por ambos, agradecendo por, finalmente, isso já estar em vistas de ser possível.
De repente, após mais um beijo, Dan lembrou de uma coisa que estava para lhe mostrar desde o maldito dia da confusão com Bruno, mas, em virtude dos acontecimentos, acabou resguardando até aquele momento. O mais velho ficou intrigado, aguardando tal revelação. Por fim, Dan tirou da mochila seu caderno, começando a procurar por entre as folhas sua surpresa. Após alguns encontrou a tal página fatídica: mostrou a ele o desenho criado por ele no dia da prova onde obteve cola de Jeferson, atacando a fúria de Elis.
Mostrando a ele, perguntou se arriscaria dizer de quem se tratava. Confuso, o mais velho perguntou, quase sobre tom de dedução, se ele lhe espionava há tempos, arrancando risos dele. O filho de Isabel confessou a respeito de um sonho, o qual surgia vez ou outra para lhe atormentar, mesmo estando em um lindo campo aberto, com o peito estufado de tanta paz e harmonia, contudo, sem saber o rosto da tal companhia. Al ri, achando uma doideira completa as coisas tramadas pelo destino para unir duas pessoas. O desenhista, então, pediu a seu ‘muso inspirador’ para ficar quieto, a fim de terminar os últimos traços seus. Não resistindo à brincadeira, o mais velho ameaçou-o torcer seus dedos caso desenhasse orelhas de Dumbo. Apesar do riso em conjunto, Dan insistiu para sossegar o facho e assim o mais velho fez.
Não era tarefa ingrata focar seu olhar em sua figura, tão cheia de malícia, desejo, carinho e afetividade. Alisson, sob sua ótica, era como entrar em uma floresta a noite apenas confiando no próprio taco. Tinha a adrenalina fazendo suas veias pulsarem, o suor escorrendo por cada poro de seu corpo, seus olhos e, principalmente ouvidos, bem atentos… Mas, no fim, a emoção sempre falava mais alto. A sensação de estar ali, vendo-o tão à vontade dentro de sua figura, fazia-o atentar para detalhes além físicos. Al era uma energia cósmica intensa, quase capaz de fazer queimar a pele, ao mesmo tempo em que aquecia nas noites frias de inverno. Isso acabava, de algum modo, influenciando em sua imagem.
Ao terminar, arrancou a página com cuidado e entregou a si, como prova de se dedicar ao máximo para sempre terem um no outro muito mais do que meros namorados, e sim, companheiros de uma vida. O outro sorriu, puxando-o de forma lenta pela cintura até darem um novo beijo. Cada vez que o fazia era uma confirmação a mais dada de terem encontrado não a cara metade, mas a alma parceira, aquela que lhe seguiria pelo além vida e percorreria toda a construção quântica se fosse preciso para estar a seu lado.
O problema foi quando as carícias, tão singelas e prestimosas, começaram a querer avançar o sinal. Sedutor, Al questionou a possibilidade de realizarem um antigo fetiche dele e transarem na escola. Dan riu, enquanto chamava-o de surtado e lembrando não terem sequer preservativos e lubrificantes. Ao ouvir a réplica de ter na mochila, o menor afirmou ser nojento fazer algo ali, naquele ambiente sem cuidados. O filho de Marisa riu novamente, mandando-o perguntar aos rapazes os quais flagraram semanas antes também pensavam assim ao invadirem os banheiros desativados.
Acabou se dando por vencido, cedendo às chantagens emocionais do namorado, uma vez que, apesar do som, provocavam até uma certa satisfação. Era bom se entregar aos caprichos seus e ao chamado da natureza ao mesmo tempo, o que dava ao ato a pureza concedida apenas aos amantes. Tornou a beijá-lo, desta vez com vontade, pressionando seu corpo contra o dele enquanto suas mãos, úmidas pelo calor subindo, passeavam pelo outro tateando tudo o que encontravam.
Alisson não fazia por menos, levando suas mãos até a cintura do menor e levantando sua camiseta, saindo então de seus lábios e indo em direção a seus mamilos. Alternou mordiscadas e chupões em ambos os lados, levando Daniel a revirar os olhos e segurar com esforço para seus gemidos não ecoarem pela escola inteira. Al vibrava com isso, levando sua língua a lamber todo o dorso do rapaz de pele na cor de dunas úmidas, provando seu sabor agridoce.
Daniel prendeu a cintura dele com as pernas, fazendo-o se reerguer apenas para levar sua boca ao pescoço do rapaz, tentando fazer o mínimo de ‘provas’ possíveis. Tarefa difícil, uma vez que ouvia seu coração bombar cada vez mais rápido quando se entregava de forma tão aberta e irracional. Quando parou a ação dos beijos, ouviu de Al que, daquela vez, ele seria o passivo. Mesmo surpreso, Dan não recuou, atendendo a vontade de seu namorado para não perderem tempo.
Como partiria de si a ação, levantou da mesa onde estava e fez com que Al trocasse de lugar consigo, entretendo-o com beijos enquanto abria o zíper de sua calça e da dele. Quando concluiu, cessou os beijos, tirou a calça dele e foi até sua mochila pegar os preservativos e o lubrificante, voltando em segundos para dar seguimento. Beijou-lhe apenas enquanto tirava sua calça e deixava seu pênis, aquela altura enrijecido, respirar.
Al não evitou sorrir ao ver a cena, ordenando que metesse sem dó. Sem responder, Dan apenas levou suas mãos ao músculo duro do outro e passou a estimulá-lo após passar lubrificante. Suas mãos circulavam, principalmente, por sua glande, passando o dedão em cima da sensível parte, ouvindo os gemidos de Al indicarem o sucesso de sua ação. Ao sentir que ele ia chegar ao ápice, parou, voltando sua atenção ao próprio corpo.
Devidamente protegido e com o lubrificante tanto em seu membro quanto na entrada do mais velho, foi inserido quase tateando, uma vez o local não tendo sido usado para aquela finalidade nunca, tornando difícil uma penetração imediata. Tentou duas vezes, tentando instruir Alisson a relaxar o máximo para conseguirem, até finalmente entrar por inteiro. Via o mais velho mordiscar o lábio inferior a ponto de ficar quase roxo, mas nada falou, aguardando para ouvir qualquer lamúria.
Não havendo nenhuma, começou um movimento de vai e vem dentro do rapaz de forma leve, sem pressão, pois lembrava bem o quão dolorosa podia ser a sensação. Conforme foi sentindo ele baixar a guarda e se entregando a tudo, a velocidade aumentou gradativamente, levando seus lábios de encontro aos dele enquanto seguia ativo.
Dan sentia ali cada célula animal sua sendo acordada, como o despertar de um titã adormecido dentro de seu peito encontrando a forma perfeita de se expôr ao mundo. Vê-lo à mercê de tesão dava ao menor a satisfação de presa dominando a fera, subjugando-o como devia e ‘punindo-o’ com castigo de igual intensidade. Seus olhos apertados enquanto sua boca emitia o som gracioso do prazer eram um espetáculo único que tornava-o mais motivado a seguir.
Seus estímulos continuavam fortes. Seu corpo estava encharcado, mas seguia firme na luta, respirando ofegante enquanto o mais velho gemia tendo-o dentro de si. Dan levou sua boca às pernas dele, lambendo suas panturrilhas uma por vezes. Alisson vibrava, apertando as mãos com força na classe, a ponto de quase cravar as unhas nelas, mas totalmente vivo em cada parte de seu ser. Quanto mais Daniel dava, mais queria.
Não demorou muito para Alisson levar suas mãos ao seu pênis e passar a estimulá-lo na mesma velocidade em que era penetrado. Jamais havia sonhado com tal sensação tão forte e febril dentro de seu peito, capaz de suportar tudo pelo tesão vivido. Sua mente sequer raciocinava, apenas seu corpo tinha vida e vontades próprias a serem atendidas e bem servidas.
Apertava seu lábio inferior com os dentes superiores, mas aguentando tudo por dentro com um fogo intenso consumindo, o que refletiu em seu ápice, chegando pouco depois, estando, por sorte, com um preservativo, evitando lambança. Daniel chegou logo depois, suspendendo seu corpo até alcançar os lábios do mais velho e beijá-lo uma última vez. No fim, tudo deu certo. Deitou sobre o dorso nú dele até que seu pênis amolecesse para tirar, tentando trazer de volta sua respiração regular.
Mais do que maravilhoso, era um fenômeno da natureza de valor inestimável estar nos braços daquele rapaz e sentir-se bem com isso. Redescobria com ele não só a forma de amar, como também de ganhar e dar prazer, criando hábitos em seu corpo com os quais queria descobrir mais e mais a cada nova oportunidade. Terminaram de se vestir com pesar, querendo muito permanecer. Como não havia jeito, foram embora, descartando os preservativos amassados dentro de folhas de cadernos, a fim de evitar aborrecimentos.
Ao retornarem a sala, quase no fim do segundo tempo de Matemática, pegaram Elis de surpresa. A mulher, não tendo vocação para brincadeiras, perguntou-lhes o que faziam ali tão tarde. Os rapazes, sem muita vontade de ficar batendo boca, alegaram que ela mesma tinha visto tudo acontecer, portanto não precisava de maiores explicações para saber que estavam na sala de Rebecca. A professora não pareceu muito crente nas explicações, tampouco alguns de seus colegas, lançando mão de olhares tortos a eles e sua nova relação.
Chegando em suas carteiras, Al, irônico, comentou como era bom ser a sensação da escola, pela primeira vez, por algo bom. Sabine, entretanto, alertou para o fato desses olhares e burburinhos estarem se dando desde o início da aula, dado a proporção absurda que a cena tomou. Dan então respondeu que começassem então a lhe seguir nas redes sociais, só assim ficando bem informado de suas futuras decisões, arrancando risadas dos amigos.
Ainda com algumas dúvidas perambulando por sua cabeça, Elis novamente passou a atendê-los, desta vez na classe onde estavam, e perguntou se todo aquele circo era sério. Al confirmou, alegando ser tão sério quanto o diploma da mulher como professora. Diante de tal, revirou os olhos e alertou para que tomassem juízo, uma vez que, separados, já eram um tsunami, juntos causariam o apocalipse. Dan, rindo, afirma também amá-la, fazendo-a revirar os olhos uma última vez e arrancando risos dos amigos antes de voltar a seus afazeres. Teve a constatação, em sua intuição, infeliz, de que seria um fim de ano longo para suas aulas…
O restante da manhã passou como um avião. Tiveram aulas de Língua Inglesa, Geografia e Ensino Religioso antes de, por fim, se verem livres de mais um dia letivo. Caminhando até o portão, todos combinaram de dar as caras para o trote no dia seguinte, pois, já que estavam todos de boa outra vez, poderiam tirar a foto de casal conforme combinado. Só então os rapazes se deram conta sobre Jeff e Sabine, ainda que tivessem achado peculiar seu jeito ao longo do intervalo. Em princípio, todos juraram sobre todos os santos que compareceriam.
Dan, então, despedia-se para rumar ao trabalho quando Al lhe questionou se poderia fazer companhia até lá. O menor não viu problemas, mas Adrian, malicioso, sugeriu que os amigos poderiam ir de Romeo and Juliet, levando um dedo do meio de ambos enquanto gargalhavam do travesso comentário. Era acolhedor terem amigos capazes de lhes dar suporte. Tanto haviam sofrido calado que, naquela altura, soava um prêmio um tanto quanto redundante, porém, carinhoso por parte da vida, mostrando-lhes também serem dignos de terem pessoas importantes à sua volta.
Caminhavam juntos de mãos entrelaçadas, ainda um pouco tímidos de fazê-lo, mas dispostos a levar adiante. Estavam livres, sem qualquer amarra civil ou social capaz de baixar sua vontade de querer mostrar seu amor e a força tida para enfrentar os desafios à sua frente. Uma grande folga, um prêmio por todo empenho feito ao longo de meses para chegarem até ali inteiros.
— Foi… bom — o mais novo puxou assunto, um tanto encabulado. O ato foi tudo o que Al queria para rir.
— Eu sei que foi — garantiu, astuto — Tava lá. Meu c* também, aliás. Até tá um pouco ardido. Por que será, né pateta?
— Cala boca! — ordenou o menor, rindo — Me sinto um bêbado, sabe? Completamente de porre dentro dessa maré louca que tomou conta da gente.
— Relaxa. É normal. Não tivemos nenhuma coisa parecida antes — disse — Quer dizer, até tive meus lances nos últimos tempos, como tu sabe, mas não era namoro sério, compromisso…
— Acha que vamos encarar?
Al sorriu.
— Claro que sim — garantiu, apertando de leve sua mão.
A confiança passada por ele era algo com o qual o filho de Isabel perguntava-se como era possível. Acostumado a viver em contradição, e tendo ciência disso, soava comer gelo no inverno, vê-lo tão à vontade e seguro de suas decisões enquanto seu interior ainda travava uma batalha, mesmo, àquela altura, mínima quando comparada às outras já enfrentadas. Talvez por isso o admirava: pela postura mais adulta em quem se espelhava para seguir seu destino. E adorava.
Tão logo chegaram a padaria dos tios de Daniel, uma surpresa: Bruno, Marcella e Ronaldo lhes aguardavam. Os dois últimos com olhares aflitos de quem teme perder a vida a qualquer momento, enquanto o primeiro permanecia firme como rocha, ainda mais vendo Alisson chegando com seu filho. Sem querer alarde, fez sua pergunta de forma simples e objetiva:
— Podemos conversar, Daniel?
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