A Teoria das Cores
49 Pêssego I
INTIMO
Há muito se discute a hipótese das pessoas morrerem por amor. Tal informação levanta uma série de questões que talvez nunca sejam explicadas. Teria o amor, em sua essência mais pura, o poder de tirar uma vida? Seria a linha entre amor e morte tão tênue que se torna impossível de ser vista ou imaginada por qualquer um de nós, meros mortais?
A verdade é que sempre existirá essa dúvida: Do que o amor é capaz? Há quem afirme que enlouqueceu por amor, outras, como já citado, matam ou morrem por ele. Mas o que está presente de fato dentro desse sentimento tão complexo, a humanidade não soube decifrar. Gil sentia-se perto de descobrir a resposta. O que Ian fizera em sua vida fora tão mágico e tão perfeito, que se acabou de repente sem que não tivesse como conter. Ou tinha? Talvez se não tivesse ido à festa... A festa que o ex namorado tanto suplicou para que não fosse... Quem sabe as circunstâncias não fossem diferentes?
Estava deitado em sua cama observando o teto de cor marrom clara. Fixava um ponto qualquer para tentar dispersar (Ou se emergir) seus pensamentos tão desafetuosos para consigo. Vanessa tentara puxar assunto, mas como o rapaz adormecera acabou por ir embora (Na realidade, fingira para que não precisasse responder a mais nada que dissesse respeito ao ex). Acordou-se já passara das 14h23min daquela tarde de quarta. Sentiu sua cabeça latejar, e ficara pior quando viu um chá e ao seu lado um comprimido.
— Não adianta fazer birra. Te enfio na goela se não tomar – Brincou Ian, chamando a atenção do garoto.
Aqueles olhos... Como Gil gostava de analisá-los e encará-los. Quando se conheceram na praia do Cassino, dois anos antes, sentira a potência daquele olhar tão profundo e ao mesmo tempo tão sereno. Como podia um garoto assim ser motivo de tanto pesadelo? Era só isso que se perguntava quando pensava no rapaz.
— Não precisava se incomodar – Disse em tom baixo, já tomando o comprimido e o chá.
— Tá de boas. Queria vir quando o Dan me mandou mensagem, mas tava no trampo.
— Dan te – Ia questionar porque o primo teria lhe enviado uma mensagem sobre si, até que a lembrança de Van lhe veio à cabeça – Ah... A loira falou pra ele.
— Falou sim – Sentou do lado da cama, pegando na mão do ex enquanto sorria – Não podia deixar de vir aqui. Ainda mais depois daquilo da noite que fui embora, e quando me viu no “Wunder Bar” com a-
— Já viu que eu tô bem né? Pode ir embora – Fez cara emburrada – Vai cuidar do teu priminho querido e daquela guria trevosa com quem tu tá saindo, vai!
— Gil, por favor... – Pressionou um pouco a mão do rapaz – Por que tu fez isso? Tu não era assim...
— Eu tô ótimo. Já disse isso.
— Bebendo desse jeito? Certeza?
— Não sou a única pessoa que bebe na face da Terra. Tu já bebeu também. Lembra da festa do Kevin de dezoito? Tu encheu a cara.
— Melhor porre que tomei na vida – Sorriu ao lembrar – Fizemos umas paradas da hora, te lembra?
O rapaz tentou continuar bravo, porém não conseguiu. Acompanhou Ian em um sorriso.
— Lembro sim. Não foi sexo, mas foi tão bom quanto – Relembrava – Mas isso não muda os fatos.
— Muda sim, Gil. Tu sabe que, mesmo que eu tome um porre, consigo sair bem disso. Não vou f*der com a minha vida por culpa disso.
— E tu acha que eu – Os olhos azuis penetraram os seus, e sem que fossem necessárias palavras, compreendera o recado – Tá, tá.
— Eu te quero bem. Tu sabe disso.
— Gosta tanto que me chamou um ano depois que terminamos pra me fazer passar aquela dor toda de novo – Disse cabisbaixo.
Ian suspirou. Sentiu o peso que aquela ação tivera na vida do outro. Estava agora tão frágil e indefeso, tão oposto a figura firme e fria da tarde em que veio acertar as contas com ele. Jamais lhe ocorreu que Gil decaísse tanto ao ponto de o álcool se tornar sua via de escape. Não permitiria aquilo, como nunca permitira enquanto estavam juntos. Quantas vezes o ajudou a controlar a maneira como bebia? Foram tantas que perdera a conta.
— Tá certo. Foi erro meu – Admitiu – Só queria entender o porquê daquilo. Só isso. Estávamos mal e eu que não percebi?
Algumas lágrimas começaram a escorrer do rosto do outro, sendo secadas pelo outro.
— Ei – Disse – Não precisa contar. Se não quiser, tudo-
— Tu sempre foi um namorado perfeito, Ian – Começou – Sempre fez de tudo por nós. Não fez nada por mim, fez por nós. E é isso que eu mais admirava em ti: Essa capacidade que tu tem de ser entregue a um relacionamento. Se tu curte alguém, tu praticamente esquece a tua individualidade para pensar no que o outro tá sentindo.
— E o que deu errado então? – Perguntou calmo, mantendo as mãos em cima das de Gil.
— O que deu errado é que eu sou humano, Ian – Encarou o outro, com os olhos inchados – Eu erro, sou de carne e osso. Eu bebi além do que devia e me deixei levar pela conversa daquele idiota. É simples.
Um suspiro por parte do mais velho.
— Entendo – Baixou os olhos.
— Ian – Falou com voz chorosa.
O garoto não respondeu, o que não impedira o mais novo de continuar o encarando. Entrelaçou suas mãos as dele de maneira forte, para que sentisse que precisava dele naquele momento.
— Volta pra mim... – Suplicou choroso – Por favor, vamos tentar de novo...
O longo suspiro dado em seguida pelo outro, fez com que Gil sentisse que eram poucas as chances de ouvir da boca daquele que tanto amava, o que tanto queria ouvir. O erro que cometera ainda pesava sobre o julgamento de Ian (Pelo menos assim pensava), porém isso não o impedia de sentir. De querer tanto senti-lo outra vez, sentir seus toques, beijos e tudo que o outro pudesse lhe oferecer. Sabia o quanto ele se entregava num relacionamento. Não tinha medo de sentir e tampouco demonstrar, e era isso que Gil queria de volta. Queria que Ian voltasse a demonstrar seu amor, mesmo tendo de dividi-lo com Daniel, não importava. O queria de volta. Contudo, nada podia fazer se ele não queria mais nada.
Recuou diante da falta de respostas, mas seguiu o encarando. Esperava algo surpreendente, coisa que o ex fazia com maestria. Ficou ali pacientemente enquanto o observava fitar algum ponto de seu quarto, talvez na busca de poder expressar tudo o que sentia de fato. O garoto sempre fora direto em suas palavras. Com raras exceções que este não deixava suas ideias claras, e se tinham duas pessoas nesse mundo que lhe causavam tanta tormenta eram sem dúvida nenhuma Daniel e Gil.
— Gil... — Finalmente iniciou a fala — O que nós tivemos no passado foi muito f*da cara. Estaria te mentindo se dissesse que apaguei da minha memória. Mas as coisas mudaram. Voltar agora... Sei lá... Não sei o que pensar sobre isso entende?
— Tu não me ama mais... — Disse, cabisbaixo — Diz logo de uma vez.
— Claro que te amo, cara. Quero te ver por cima, vitorioso, e não acabado na sarjeta podre de bêbado. Tu quer beber? Beleza, pode até me chamar pra ir contigo. Mas... Não faz mais isso, por favor. Tu não sabe como isso me deixa angustiado.
— Se tu não queria isso por que veio me atormentar depois de um ano, hein? – Pressionou – Tu acha que é só tu que sofre com isso? Que é só tu que vive atormentado pela lembrança do nosso término? Eu vivo isso desde aquele dia, Ian. Desde aquele dia...
— Eu sei. E quero te ajudar — Pegou delicadamente nas mãos do ex — Eu te prometi isso, lembra?
— Como tu vai me ajudar se é justamente tu quem me atrapalha?
— Será? Será que sou eu, ou são as lembranças?
— Os dois.
— Bem... Se tu não quer ajuda, não posso te forçar. Mas pensa bem no que tu tá te tornando, Gil. Pensa em todas as madrugadas que eu passei te abraçando e te dizendo que nunca ia te deixar ficar tão dependente do álcool quanto teu pai.
O outro nada falou. Ficou quieto encarando suas pernas.
— Olha pra mim — Gil encarou-o — Tu vai se reerguer. E conta comigo pro que tu precisar. Eu quero te ver bem.
Sorriu.
— Obrigado — Agradeceu — O que eu queria mesmo é que tu estivesse comigo, mas te entendo. Eu acho pelo menos...
— Se for pra ficarmos juntos — Aproximou-se, dando um beijo na testa do — Vamos ficar. Só não se pressiona tanto pra isso.
O outro consentiu com a cabeça.
— Chances de uma transa como a daquele dia que tu ia dormir aqui em casa se repetirem? – Arriscou, arrancando um sorriso largo do garoto.
— Por enquanto nenhuma – Passou a mão delicadamente pelo rosto de Gil, que fechou os olhos para curtir o momento – Quando tu melhorar talvez. TALVEZ.
— Ok, senhor – Respondeu.
— Vou indo nessa então. Se cuida, Gil.
— IAN!
— Oi?
O rapaz pensara um pouco antes de questionar, mas queria aquilo mais do que tudo. Seguindo seu coração, novamente arriscou.
— Tu... Podia deitar aqui abraçado em mim? Só até eu dormir de novo. Não vou pro trampo e muito menos pra faculdade hoje. Que se f*da.
— Gil...
— Por favor, Ian. Só hoje.
Ian então encarou os olhos negros de Gil, que suplicavam por uma resposta afirmativa. Como poderia negar algo a alguém numa situação tão frágil?
— Tudo bem – Disse já deitado ao lado – Só hoje.
— Obrigado – Virou-se, dando um selinho rápido no ex.
— De nada – Acariciou os cabelos negros do rapaz, até fazê-lo dormir e escapar daquela realidade tão triste que vivia ultimamente.
Sentiu-se feliz por aquilo. Bem ou mal, ajudou o rapaz e isso era o que contava. Talvez fosse o que o destino quisesse. Talvez fosse sua missão ser de o anjo da guarda de Gil, e até mais do que isso, ser seu porto seguro. E talvez, mais do que tudo isso, ele quisesse aquilo.
***
— FINALMENTE ACABOU, C*R*LHO!!! – Jeff exclamava feliz da vida após o término da última aula daquele semestre. As férias haviam chegado.
Sexta feira, 14 de Julho de 2017, um dia de sol tão forte que fazia qualquer um esquecer que era inverno. Os alunos saíam apressados das salas de aula, quase como formigas correndo do formigueiro para enfrentar o mundo. Era quase unanimidade o sentimento de euforia, afinal nada como um bom descanso após tanta correria por conta de trabalhos, provas, recuperações, e tudo de burocrático que a vida escolar proporciona a uma pessoa.
— Pra mim, não muda nada – Reclamava Adrian – Vou ir viajar com o time para as competições. Folga? Nem pensar.
— E eu que me ferre né, seu Adrian? – Amanda questionou emburrada.
— Oh gata, tu sabe que se dependesse de mim tu ia junto. Mas é que não rola.
— Ah mano, tu podia fazer um esforcinho pra levar a mina né? Qual é! Tu rala muito por esse time – Jeff complementou.
— Se tudo fosse tão fácil...
— Tenta pelo menos. O “não” já é garantido. Mas nunca se sabe né?
— Vai viajar quando Adrian? – Sabine, até então fissurada no celular, se manifestou.
— Segunda. Pelo menos, os fins de semana eu passo aqui. Mas não estranhem se o treinador não pedir pra virmos treinar. Ele fica um c* na época das competições, precisam ver.
— Ele dá cada mijada nos guris que chega a dar pena. Ás vezes – Mandy falou.
— Só ás vezes? Como assim gata?
— Ué, tem dias que parecem peixe fora d’água! Daí não dá pra defender.
— P*rra... – O ruivo ficara visivalmente chateado.
— Ahh, Mandy, como tu fala isso pro cara? – Jeff então tomou partido do amigo.
— Ah, ele sabe que eu sou bem direta.
— Tu sabe que eu dou o meu melhor – Enfatizou o jogador.
— Eu sei, lindão. Mas acontece que tem dias que-
— Que c* a gente chegar e já tá ouvido briguinha de namorado. Não existe nada mais c* que isso na vida – Alisson e Daniel, então ausentes do grupo apareceram, atraindo os olhares curiosos dos amigos – O que foi?
— Onde vocês estavam? – Questionou Sabine, estranhando a atitude.
— Alisson mandou mensagem no grupo pra gente esperar ele, que ia levar o dinheiro pra pagar a aula de dança de rua. Ninguém viu? – Dan colocou.
— Se tivessem visto, eles teriam ido pateta – Al complementou.
— C*r*lho! – Exclamou Jeff – Pior que eu vi e esqueci geral! Mal aí cara.
— Tranquilo mano – Tranquilizou – Era só porque detesto ir sozinho fazer essas m*rdas. O bom é que o Daniel também levou o dinheiro dele e pagou.
— Porque tu me lembrou ontem né? Senão nem ia me ligar – Dan afirmou.
— Óbvio. Tu é o pateta. As pessoas não esperam muito da tua memória.
— Vai pra p*rra.
— Vai tu.
— Eu fui te esperar! Devia tá agradecido.
— Ué, não te amarrei pra tu ir. Foi com as duas pernas cabeludas que tu tem. Não põe o meu na reta.
— Mas então por que a princesinha ficou com medo de ir sozinha na direção, hein?
— Não tava com medo. Só tava- Al então reparou que os amigos lhes encaravam enquanto pareciam segurar o riso – Que foi agora p*rra?!
— Que c* vocês chegarem e já estarem tendo briguinha de namorado. Não existe nada mais c* que isso na vida – Adrian revidou, arrancando gargalhadas dos demais.
Al e Dan é quem se encararam, com expressões de poucos amigos.
— Há há, hilário Adrian. Larga o futebol e vira cheeta de circo – Dan respondeu.
— Vocês deram a brecha, velho. Só aproveitei.
— Cala boca!
— Tá! Vamos focar no que importa aqui? – Al chamou a atenção – Já que vamos ter duas semanas livres de Elis, era pra se comemorar né?
— Seria f*da, mas é que eu e a Bine vamos viajar amanhã cedo e aí tô terminando de organizar a mala – Jeff coçou a nuca.
— Vão viajar, Bine? Nossa, não sabia – Amanda comentou.
— E-era pra ser meio que um segredo, pra não pensarem coisas que não são, mas tudo bem. Vamos sim – Confirmou a loira.
— Bah! Que f*da! – Exclamou o jogador – E pra onde vão?
— Mato Grosso. Com meus pais.
— Bacana.
— E vão se agarrar no meio do mato? – Provocou Dan, sorrindo malicioso.
Jeff se contraiu envergonhado, ao passo que Sabine corou e revirou os olhos.
— Por isso eu não queria contar. Ainda mais pra ti Daniel, que vê malícia em tudo – Retrucou ela.
— Jeff, pelo que eu tô sabendo, tá livre. Só ir pra cima, Bine.
— E depois EU que sou metido, né pateta? – Al se manifestou.
— A conversa ainda não chegou na suíte da princesa do reino de Putópolis.
— Tem razão. Por enquanto ela tá entre a Xena e o sapo.
— Vai a m*rda.
— Só pra lembrar que tu é o sapo, não a Xena tá?
— VAI A M*RDA ALISSON!
O garoto riu e colocou as mãos por trás da cabeça.
— Bom, não vai rolar então a saída?
— Pode ir com o Daniel e a namorada dele – Sugeriu Adrian, agarrado a Mandy.
— A Van tá meio esquisita essa semana. Tipo, ela tá normal, mas eu sinto que ela tá diferente sacam?
— Tu que é paranóico, pateta – Al novamente se intrometeu.
— Por que eu aceitei fazer aula de dança contigo mesmo?
— Porque eu sou incrível. E já que tu me enfiou nessa roubada, tá me devendo isso.
— O quê? Um role? Quarta a gente foi lembra? Foi uma b*sta, aliás.
— Aquilo não foi rolê. Saí pra comprar roupas.
— F*da-se – Deu de ombros – Já paguei a “divida”.
— Não senhor. Tu e a Van vão ir comigo hoje lá no labirinto verde.
— Nem f*dendo.
— Tu vai sim, ou eu vou espalhar que tu tem uma verruga no pau.
Dan o encarou.
— Se tu fizer isso, tu morre.
— Vamos então. Vai ser divertido – Falou empolgado – Vou levar umas bebidas e tal. Fechou né? Claro que sim.
Alisson então fez um gesto de despedida e seguiu seu caminho, deixando Dan e o restante parados a lhe observar.
— Dá pra acreditar nesse pau no c*? – Questionou Dan, revoltado.
— Pode ser tri, Daniel. O Alisson é super gente boa – Garantiu Amanda.
— Verdade cara. Vai lá! Convida a Vanessa e vão os três – Complementou Jeff.
O rapaz pensou um pouco. Será que deveria ir? Se divertiu com ele dois dias antes, por mais que negasse, mas levar Van? E se ele desse em cima de sua garota? Jamais permitiria isso!
— Tá, eu vou – Garantiu aos amigos – Mas só eu. Vou deixar a Van de fora.
— Ué, por quê?
— E se ele se interessar nela? E se ela se interessar nele? Tá louco?!
— Crise de ciúmes agora, Daniel? – Questionou Adrian – Se tem ciúmes, é porque rola-
— Se falar insegurança, vou chutar tuas bolas até elas virarem omelete.
— Tá bom, tá bom. Eu fico quieto.
— Beleza – Ficou mais calmo – Vou indo nessa. A gente se vê nas férias?
— Talvez na semana que vem, se pá. Vamos combinando – Sugeriu Jeff.
— Ok. Até mais.
— Até!- O coro gritou de volta.
***
Ver as estrelas. Quantas vezes Ian tinha sugerido a Dan durante a vida toda para que o fizesse? Achava que era um besteirol sem tamanho fazer aquilo já que as estrelas sempre estariam ali, mas aquela noite era diferente. A única coisa que ainda não tinha deixado o garoto num completo tédio era a companhia de Al, ali, ao seu lado no centro do labirinto verde às 23 horas daquela sexta feira.
— QUE P*RRA DEU NA TUA CABEÇA PRA BEIJAR O EX DO MEU PRIMO?! – Dan perguntava incrédulo.
Ao longo da noite, os rapazes acabaram criando mais confiança um no outro enquanto bebiam as garrafas de cerveja com limão famosa. Falavam (Ou desabafavam) sobre tudo aquilo que lhe perturbava nos últimos dias. O único assunto que ambos evitaram foram o selinho em Ian (No caso de Daniel) e o pai molestador (No caso de Alisson). Eram coisas que, na opinião dos rapazes, eram particulares e sensíveis demais para serem retratadas em uma simples conversa pra passar o tempo.
— Tu tá com muita cera no ouvido que não entendeu que foi ELE quem me beijou? – O outro rebateu com uma expressão de poucos amigos.
— Mesmo assim tu abriu a boca!
— E daí? Não meti o linguão dentro da boca dele. Não retribuí.
Suspirou.
— Que se f*da também. Depois de saber que meus próprios primos transaram na minha frente sem eu saber, acho que não tenho mais moral pra m*rda nenhuma na vida.
Al o encarou assustado.
— Como que teus primos transam na tua frente e tu não te dá conta disso?!
— Foi há dois anos, na praia. Meu primo mais velho Andreas me dopou e ele e o Ian, literalmente, “gozaram” da minha cara.
Al riu fraco.
— Que barra velho. Prefiro mil vezes um beijo.
— Será? Sim porque pelo menos a transa não foi comigo. Já o teu beijo...
— Ah bom, desculpa senhor “Meu primo quer meu c* virgem”
Dan revirou os olhos.
— Como tu é otário.
Ambos tomaram mais alguns goles da cerveja de garrafa azul.
— Sabe pateta – Al prosseguia a conversa – Acho que no fim nenhum de nós tem moral pra julgar o outro.
— Como eu disse, que se f*da.
Mais um gole.
— Nem imagino como eu ia me sentir se o Ian tivesse me beijado – Dan puxou o gancho.
— Segundo a teoria do próprio Gil, que é ex dele, minha boca é tão gostosa quanto à dele.
— E por um acaso tu sabe como é a boca do meu primo?
— Claro que não, seu demente. Foi o Gil que falou.
— E tu acreditou?
— Ele fala tanto e faz uma novela das 21 sobre esse guri. Ele deve ser ‘mó p*ca das galáxias!
Dan não aguentou e deu uma gargalhada da fala do amigo.
— Quê foi? – Al perguntava sorrindo.
— Isso ficou tão gay – O outro respondeu rindo.
— Muito hétero tu né?
— Mais do que tu.
— Trouxa.
— Gayzão.
Dan finalmente conseguiu controlar o riso. Depois de alguns segundos em silêncio, e alguns goles do líquido, Al respondeu a pergunta:
— É como ser assaltado: Todo mundo diz que agiria de tal jeito, e chega na hora ninguém sabe o que fazer.
— Do quê tu tá falando?
— Sobre o que tu disse de um guri ter me beijado. Não sabia como reagir. Foi ‘mó estranho.
— E... Tu achou o quê?
— Do beijo?
— Não, do vômito que tu fez depois.
Al revirou os olhos.
— Só pela resposta eu devia te deixar no vácuo. Mas como sou uma pessoa boa, vou te dizer que achei... Bem... Mediano.
— Como assim mediano?
— Sei lá p*rra! Nem deu pra sentir direito! Fiz com tanta má vontade que até me deu pena do Gil só de lembrar!
Dan riu.
— E em condições normais seria como?
Al o encarou.
— Essa pergunta foi maliciosa – Sorriu cínico.
— Eu só fiz uma pergunta. Não disse “Vem cá e me mostra”.
Al, num impulso certeiro, beijou Dan. Beijou-o exatamente como, na teoria, devia ter beijado Gil. O ato não durou muito, mas o suficiente para Dan o encará-lo surpreso.
— E quem é a bichinha agora pateta? – Riu ao dizer.
— AH SEU FILHO DA- Nem terminou quando Al começou a correr pelo Labirinto – NÃO CORRE NÃO SEU P*TO! NÃO CORRE!
— BICHINHA! BICHINHA! – Al se divertia ao correr. Dan, que começara até zangado começou a rir também.
— Para seu trouxa que tá me fazendo rir da tua viadagem! – Disse.
— Minha viadagem? – Al questionou parando um pouco mais afastado – Pensa que não senti a tua linguinha entrando na minha boca, sua devassa?
— A MINHA LÍNGUA? TU BEBEU DEMAIS BEBEZÃO!
— PRA CIMA DE MIM PATETA? EU TAVA LÁ ESQUECEU?!
— GOSTOU TANTO QUE TÁ VIAJANDO JÁ!
— VAI TE F*DER DANIEL! – Gritou Al rindo.
— VAI TE F*DER ALISSON! – O outro retribuiu o grito.
Ambos riam tanto que pareciam duas crianças alegres. Riam sem entender o porquê. Rindo de nervoso? Talvez. Era bem provável inclusive. Al, já suado de tanto correr e meio tonto devido ao álcool voltou a sentar como índio ao lado do amigo.
— Cara, estamos muito viajados – Comentou – Já tô vendo bagulho que nem existe.
— Tipo o quê?
— Um viado com chifre de unicórnio do meu lado.
— Engraçado tu comentar, porque eu tô vendo uma Barbie feminista de perna cabeluda e morena do meu lado.
Ambos riram.
— Isso prova que somos fracos com bebidas.
— Tu é fraco com bebidas bebezão – Dan tentou se levantar, mas não conseguiu – Eu só sou meio... Desconhecido dessa vida.
— Sim, com essa cara de nerd. Deve ser a primeira Skol Beats que põe na boca.
— Vai tomar no teu c*!
— Vai tu pateta! Chega de experiências de viado na minha vida! É a tua vez de se f*der com um cara.
— EU? Tu tá até louco né?
— Tu já viu teus primos transarem na tua frente.
— Eu não vi! Eu tava dopado!
— F*da-se! Mesma coisa!
— Não vou transar com um cara. Nem f*dendo!
— Nem eu.
— Então vamos encerrar por aqui?
— Por mim, beleza.
Ambos fizeram um comprimento de mãos para simbolizar o “pacto”.
— Será que esse beijo foi traição? A Vanessa não ia gostar de saber que eu te beijei – Dan perguntou pensativo.
— Que beijo pateta?! Tá louco! Tá falando aquela zoação que fizemos? – Al parecia não compreender – Tu é muito emotivo hein? Aposto que já se apaixonou por mim.
— Para de falar b*sta e responde o que eu perguntei c*r*lho!
— Claro que não é traição seu bocó! Não foi beijo com paixão, foi de zoação. Só.
— E desde quando héteros se beijam por zoação?
— Quem tem moral pra julgar a gente?
— O Jeff, por exemplo.
— Aquele gayzão que queria que eu chupasse o pau dele?
Dan o encarou perplexo.
— Sério isso?
— Aham – Al concordou – Viu? Ninguém tem moral.
— E o Adrian? Ele namora tua amiga.
— O Adrian é um baita de um viado enrustido. Uma vez – Al riu – Uma vez ele contou que ficou constrangido de ficar pelado no vestiário com os caras.
— Eu também ficaria. Totalmente compreensível.
— Vocês viados que não se garantem. Eu fico peladão de boas. Quer apostar?
— Depois do que tu fez comigo? Não. Passo.
Ambos ficaram ali parados no meio da Praça da República por uns dez minutos. Só eles e os grilos.
— Bom... Acho que vou indo – Dan tentou de novo se levantar. Em vão.
Al se divertiu com a situação.
— Deixa eu te dar uma mão aí pateta.
Estendeu sua mão para que Dan a segurasse. Assim o garoto o fez, porém não conseguiu dar um passo, fazendo com que Al risse cada vez mais.
— Quer parar de rir e me ajudar c*c*te?! Foi tu quem inventou de vir pra essa m*rda a essa hora da noite! Depois eu sou assaltado, morro e tu fica aí com uma cara de vítima!
— E EU que sou o bebezão né? – Al mexeu – Vou ter que te levar abraçado no meu ombro até tua casa. Olha que p*rra tu me meteu.
— Da próxima vez, não traz cerveja.
— Sem cerveja não tem graça.
— Idiota.
— Trouxa.
Al então colocou o braço direito de Dan por trás de seu pescoço e lá foram os dois caminhando pelas ruas silenciosas de Nova Petrópolis. Só eles, as estrelas e o amor, que iria começar ali.
CONTINUA
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