A Teoria das Cores
108 Dourado IV
PROSPERIDADE
Dois corações feridos sempre acabam gerando muito mais do que simples desentendimentos. Muitas vezes, famílias inteiras se dilaceram por conta de meras palavras mal compreendidas e ações mal calculadas. Foi assim quando Andreas agrediu o primo sem qualquer razão que lhe dissesse respeito, e estava sendo por conta da ida súbita de Ian ao deduzir uma série de atitudes do mais velhos, deixando-o com seu interior amargurado, marcado com feridas que só o tempo, com muito esforço, poderia curar.
Passados três dias de sua chegada tumultuada, Ian ainda conseguia tocar na fria parede capaz de dividi-lo do primo mais velho. As palavras que saíam eram apenas para cumprir protocolos, ou seja, mera formalidade. Era inegável o quão dolorida aquela ferida se mostrava, tocando o interior deles de forma tão profunda, quase atravessando-os, deixando marcas significativas em sua relação. Principalmente para Andreas, a começar pela falta de compreensão por parte do outro.
Não lhe era desconhecido o fato de nem sempre as coisas terem se encaminhado daquela forma. Por muito tempo os laços de sangue eram suficientes para manterem um contato, se amarem e respeitarem dentro do que a etiqueta mandava. Todavia, ter ido a Pelotas consigo, redescoberto o significado de desejo proibido, tomou proporções as quais ele mesmo sequer compreendia. De repente, surgiram os sonhos (uns mais picantes que outros), depois a saudade intensa dentro do peito quando, por conta própria, ele decidiu morar com Daniel, até, por fim, acabar na atitude inconformada do coração dele ser de alguém sem a menor vontade de tê-lo, jogando seus sentimentos no lixo em prol de um amor surgindo no horizonte.
Vê-lo com os olhos marejados na sala enquanto tomava seu café era quase tão ruim quanto o fato que trouxe ele até ali. Tudo estava errado e sabia disso. O problema era que nenhum dos lados parecia ter pressa em resolver a questão, cada qual por suas próprias razões. O ar sufocava-os por estar tomando forma física, deixando seu lado gasoso para trás a fim de atormentá-los dentro daquele apartamento, convivendo como dois estranhos, mas com sentimentos bem conhecidos. Ainda sim, tendo as circunstâncias criado a razão de ser, Andreas julgava não ter seu lado consumido pela culpa, afinal, vivia muito bem ali até o primo chegar.
Ian notou quando seu olhar cruzou com o dele, trazendo as mágoas em cada fugida dada, mostrando a indignação e a informalidade de ter vivido para ouvir palavras as quais não queria, tampouco achava necessárias. Cansando daquilo, levantou do sofá e foi até a mesa. Andreas seguiu sem encará-lo diretamente, fingindo estar focado comendo seu pão.
— Nada justifica isso, sabia? — disse, enquanto o mais velho tinha um iceberg sob seus olhos — Será que é tão complicado assim me entender, ou pelo menos me ouvir?
— Complicado é sair um pedido de desculpas aí de dentro, isso sim — sua voz soou seca, quase como se não se importasse — Também, pudera, eu sou doente, né? Não tenho coração, nem vida… Nada. Sou um câncer em formato de gente.
— Pra que agir como se tivesse dois anos de idade, Andreas? Me fala! — pediu — P*rra, eu tô aqui com uma coisa amarga dentro de mim e—
— Ah, o senhor perfeição tá sentindo o gosto da amargura? Que interessante! — ironizou — Sabe o que eu tô sentindo? O peso da tua mão no meu rosto! Tu não tinha esse direito!
Não causava total estranheza aquela atitude tomada no calor do momento viesse à tona, até porque reconhecia seu erro e sabia do quão profundas as marcas dele seriam. Só queria tentar repará-lo de alguma forma, a qual acalentasse um pouco sua sofrida alma e trouxesse a paz entre eles de volta.
— Tudo bem. Tu tem razão. Desculpa — pediu, coçando a nuca — Nem sempre a gente age com a razão ou com coração. O corpo também responde.
— Belo exemplar de Daniel tu tá me saindo — revirou os olhos — Quer saber? Que se f*da, Ian. Não me interessa mais o que pensa de mim, se quer ou não aceitar o que poderia te oferecer.
— Olha tu de novo agindo como se eu tivesse c*g*ndo pros teus sentimentos! — exclamou o menor — Quem olha deve achar que sou um monstro insensível, e que nunca deixei bem claro tudo pra ti, né?
— Já disse que não me interessa mais — insistiu — Tu fez a tua escolha, agora vai ver que tô fazendo a minha.
Ian encarou os olhos tão claros quanto os seus pensando naquela frase, tentando tirar dela a informação tida nas entrelinhas as quais não tinha certeza de ter conseguido captar.
— Isso quer dizer?
— Quer dizer que a fila anda, meu caro primo. Tu não é o epicentro do universo. Sinto informar. Não sou tão idiota quanto tu pensa a ponto de afirmar que te esqueci completamente, mas… só tô fazendo o que tu fez comigo lá no parque de diversões. Lembra? As v*dias oferecidas? Pois então. A vida deu uma volta em torno do sol, achei que tá na hora de voltar aos velhos tempos em que eu era livre pra pegar quem eu quisesse sem medo de magoar meu querido primo.
Quanto mais aquela conversa andava, menos compreendia. Tentava analisar qual razão teria para afirmar com tanta convicção estar livre e solto do coração, mesmo consigo tendo a certeza de ser apenas uma tentativa desesperada de lhe chamar a atenção. Na própria vez do parque, meses antes, ameaçou beijá-lo frente a todos caso se atrevesse a ficar com uma das moças. E só. Ficou na promessa. Como, de uma hora para outra, aquilo tinha ido para o espaço?
Foi então que um feixe de luz pairou sob sua cabeça e recordou a história mal contada de Gil ter ido até ali e voltar para seu trabalho sem sequer dar maiores detalhes sobre o motivo de se abalar de ir até o apartamento conversar justo com Andreas, a quem jamais fora um grande fã em virtude de ter conhecimento da paixão do mais velho por seu primo. Encarou-lhe sem saber o que dizer de imediato, uma vez que, confirmadas suas suspeitas, isso indicaria estarem se falando a muito mais tempo, e a ligação revoltada de Drê perdia qualquer valor de fala.
— Tá se referindo ao Gil por acaso? — lançou, sem rodeios — Por isso apareceu aqui querendo falar contigo? Por estarem saindo juntos?
— Ah, agora ele quer explicações! — seguia ironizando — É ele, sim? Por quê? A tua ideia era fazer um sanduíche dele com o Daniel?
— Larga mão de ser idiota, Andreas! — exclamou — Tu sabe muito bem que o meu maior desejo é ver tanto tu como o Gil felizes. E eu acho válido vocês estarem se aproximando. Só achei… meio repentino. Só isso.
— Ah, claro. Ele queria que demorasse anos de faz de conta, pra só depois, quem sabe rolar um namoro. Lamento, Ian, mas nem todos têm a paciência que tu pensa que tem com Daniel.
— E por isso dois corações quebrados vão se juntar pra tentar se reerguer? Sem amor? A troco de quê? Vão acabar se machucando.
— Machucados já estamos e tu sabe muito bem por quem — alfinetou, para surpresa do menor — Mas pra tu dormir sossegado, nem ficamos ainda. Estamos nos conhecendo melhor. Só isso.
— Que bom. Fico feliz. Se fosse só pra me provocar—
— Provocar?! — o mais velho caiu na gargalhada — Tipo… Como? Beijando ele na tua frente? Isso seria afrontar pra ti?
— Andreas… — tentou explicar, mas foi interrompido.
— Quer saber? Acho que te acostumamos mal. Todos nós. Eu, Gil, Mica, Daniel… todos nós falhamos contigo. Te demos a corda de união para nos entrelaçar, só pra, no fim, tu querer mais uns do que outros nesse embrulho.
— Andreas...
— Sendo assim, me faz um favor? Volta pra Nova Petrópolis. Fica lá com o equivocado do Daniel e seus surtos. Me deixa em paz. Não quero mais olhar na tua cara.
Um enjoo repentino começou a tomar conta do estômago de Ian, semelhante a alguém recém picado por uma serpente venenosa, sentindo o corpo reagir. Via nos olhos expressivos do mais velho a clara mensagem de estar falando muito sério, portanto, a dose de veneno despejada sobre si não havia sido em vão. Decidiu ser o melhor mesmo a ser feito, indo até o quarto onde dormia, guardando suas coisas e indo embora sem sequer se despedir. Como nunca antes, nem por etiqueta teve vontade de fazer valer o esforço de esboçar qualquer cumplicidade ou amizade pelo primo. Respeitaria sua vontade, ainda que, por dentro, estivesse com os sentimentos de alguém vendo um ente querido agonizando em virtude de uma guerra.
No caminho até a rodoviária, mas lágrimas escorreram por seu belo rosto. Tudo tinha dado errado. A preocupação, o desejo de acertar as coisas… vãs tentativas de controlar um tornado forte, feroz, capaz de levar com ele qualquer resquício de alegria e boa vontade. Sentia raiva de si por não conseguir carregar o peso da vida e vê-la cair bem na sua frente sem que qualquer força de querer dar certo conseguisse salvá-la do trágico fim. No desespero de não querer ver Andreas repetir os mesmos erros de Diógenes, estava fazendo-os, provocando gatilhos emocionais e desgraça por onde quer que passasse. Sentia-se sujo por dentro, com os ratos e baratas correndo por dentro de seu corpo devorando-o centímetro por centímetro, gargalhando orgulhosos de ver o bom moço se tornar um temido diabrete.
Perguntava-se apenas como deixou tal descontrole tomar conta de suas ações. Via seu reflexo no passar das vitrines, porém não se reconhecia nele. Seu belo rosto soava como uma carcaça bonita, blindada contra as dores do mundo, com respostas para todas as aflições e baques que a vida pudesse dar, quando, por dentro, sentia-se tão valente quanto um esquilo frente a um caçador. Qual o propósito de amar a todos e não amar ninguém ao mesmo tempo? De que adiantava o espírito livre se suas asas cobriam o brilho do sol daqueles a quem queria bem? Como poderia saber tanto da vida na teoria se não sabia vivê-la na prática? Sua cabeça estava um nó com tantas perguntas sem respostas, até porque, sabia da crueza delas. Não precisava disso. Queria apenas sua cama para descansar.
Chegando na rodoviária, comprou sua passagem e sentou no banco aguardando o veículo chegar. Estava desiludido, amargurando o gosto horrível na boca de ter aberto um parênteses na vida de Andreas sem ter tido a oportunidade de fechá-lo tal qual ele merecia. Queria o bem do primo, de todos eles diga-se de passagem, o problema era o grau de gravidade das ofensas proferidas pelo mais velho. Julgava ter sido tratado como um inimigo invejoso e maquiavélico, quando, na realidade, deixar o coração dele em paz era o único propósito daquela visita. Tudo ralo abaixo.
Distraído por entre seus pensamentos, não ouviu a voz de Gil lhe chamando de primeira. Precisou de mais quatro vezes até voltar a sua realidade. O rapaz não tinha expressões tranquilas. Ficou óbvio que o relato havia chegado ao seu conhecimento, então perguntar era redundante. Convidou o ex para sentar a seu lado, enquanto esfregava seus olhos querendo tirar dali as poucas lágrimas restantes perto deles. Ele nada falou, aguardando que si próprio tivesse vontade de colocar pra fora aquele mar revolto, capaz de gerar tamanha angústia e tristeza. Confessou ao menor a náusea de ter ouvido a série de acusações sem direito de defesa, do olhar diabólico do primo sobre si a cada nova frase saída de sua boca e da total esperança de uma reconciliação. Gil não aguentou segurar o riso. Questionado a razão, foi sincero:
— Se tu perdeu a esperança, é porque a coisa tá feia mesmo — deduziu.
Com o comentário, até arriscou um tímido sorriso.
— Só queria ver ele bem, me certificar, sabe? Precisava disso? — questionava.
— Tu mesmo me disse uma vez que as lições da vida nunca vêm em embrulho pra presente e dedicatória. É tudo preto no branco, sem demora. Se tu queria só isso mesmo, agora tá mais do que óbvio que não foi essa razão real de ter vindo.
Suspirou.
— Pois antes não tivesse — murmurou — Tô saindo daqui pior do que quando cheguei.
— Palavras o vento leva. Outra grande lição — sorriu — Qual é, Ian! Tu tem que reconhecer que isso foi um erro de cálculo. Mirou na paixão desenfreada dele por ti, e acertou na tua própria razão cega de achar que ele estava aqui em vão. Mais ou menos o que rolou comigo quando tu foi na minha casa acertas as contas.
Não podia negar. As circunstâncias eram, senão iguais, semelhantes até demais. Ambos casos partiram dele a necessidade de uma suposta solução, a qual não teve, e saindo de cena deixando rastros de sangue para trás.
— É… — coçou a nuca — Vai ver é uma sina minha machucar quem eu amo… Triste isso, né?
— Autopiedade a essa hora não, tá? Sei que não tenho moral pra falar, mas igual tu sabe que não faz teu estilo.
— Mas é a verdade.
— A verdade é que tu não tá imune aos erros, Ian. Não é achando que a vida é flores e amores a vacina pra te imunizar a todos os males do mundo! Entende isso!
Mais uma vez foi voto vencido. Qualquer argumento seu cairia por terra na primeira curva se tentasse desmenti-lo. Era difícil pensar que, num momento onde mais precisava ter fé e sonhos para embalar seus pensamentos, a única capaz de lhe oferecer algum conforto, ainda que sob alguns socos imaginários, era a realidade pela realidade. Encarando da forma como Gil fazia parecia tudo tão mais simples. Errar parecia tão corriqueiro, banal, quase uma anedota contada por velho ranzinza.
De toda forma, só tinha a agradecer ao rapaz. Sendo as circunstâncias bizarras ou não, partiu dele a ponta verde de esperança que o trouxe de volta ao plano da vida real, do crível, sem choro nem vela. Ainda não estava preparado para um segundo round, aliás, mais longe dela impossível, mas já era um começo ter palavras tão verdadeiras e sem a mágoa afiada grudada nelas. Deu-lhe um abraço apertado, já reparando o seu ônibus se aproximando do ponto. Foi bom sentir algum carinho antes de retornar aos problemas que deixou em Nova Petrópolis.
— Se cuida, Gil. E cuida do Drê também, na medida do possível.
— Pode deixar, general — zombou — Fica tranquilo. Com o tempo ele vai te procurar. Só… dá uns dias pra ele pensar, ok?
— Espero que sim — disse, esperançoso.
Logo tomou o caminho para a fila do ônibus, sentou em seu lugar, à esquerda e na janela, encarando o rosto daquele que um dia foi seu namorado. Não sabia como aquela nova configuração, onde ele e Andreas estava se aproximando, iria culminar aonde, mas, de algum modo, aquilo lhe aquecia o coração. Ambos eram bons rapazes, magoados por conta dos erros que ele próprio havia cometido (e o primo feito questão de frisar), mas que agora estavam tendo a chance de se reconectar com a vida e, mais importante de tudo, com o amor. Se por um lado retornava a Nova Petrópolis em frangalhos por nada ter saído de acordo com o planejado, de outro agradecia por Drê ter cumprido o que prometeu. Agora, tinha um ombro amigo a quem recorrer e, com isso, a esperança de recomeçar sua vida amorosa de maneira mais saudável.
***
A cada dia que passava, Vanessa mergulhava de cabeça nas ações promovidas pela ONG na qual iria trabalhar. Investigando a fundo os casos, conhecendo os pacientes mais de perto, através das rodas de conversa, algumas sessões do grupo de apoio e até momentos mais informais com um ou outro que se arriscava a se aproximar e puxar assunto. De fato, seus olhos brilhavam em saber o quão importante e significativo seria a troca de experiências ali. Claro, havia de ser profissional, excluindo-se totalmente da questão do seu eu particular, mas, em alguns pontos, era inevitável a construção de laços de confiança. E isso tinha certeza que estava conquistando.
Ao chegar em casa, já próximo do meio-dia daquela sexta feira, retornou ao quarto de hotel encontrando Ágata assistindo a vídeos pelo celular. Não conseguiu deixar de reclamar, afinal, apesar de ter deixado tudo em ordem conforme combinaram, insistia em se afundar na cama, sem forças para reagir e lutar contra a dor incalculável presente dentro do peito. Era terrível presenciar aquilo e simplesmente ignorar. Sentia necessidade de tirá-la daquela redoma tóxica onde estava se enfiando, pois, mesmo sendo natural o processo de luto, era imprescindível a pessoa retomar as atividades de forma tranquila. Conhecendo-a como conhecia, Van sabia que Ágata iria entregar os pontos de vez se alguém não tomasse uma atitude. Na ausência provisória dos pais, pensou ter esse poder.
Lógico que a morena resmungou. Não só por isso, como também por aquele ser seu penúltimo dia no paraíso, ao menos, assim denominava. A loira não quis saber, ordenando que ela tomasse coragem de, ao menos, tomar um sol ou sair na rua dois minutos, uma vez que, desde quando chegaram, ela permaneceu fechada naquele quarto sem nem tentar fazer algum programa noturno ou variar um pouco a emoção do ambiente (ressalvados os vídeos que via pelas redes sociais). Insistiu, enfim, para vê-la dar o primeiro passo. A moça temeu, alertando ao fato de não se sentir plena o suficiente para voltar a Nova Petrópolis e encarar todo aquele nostálgico ambiente outra vez, sabendo que lá foram ditas as últimas palavras de Diógenes.
Notando o nítido abalo, Van sentou a seu lado na cama, pegou em sua mão e cruzou ambas, enquanto sorria e afirmava que Ágata tinha a força de dez leões dentro do peito, já que havia enfrentado barras pesadíssimas na vida e passou por elas com a certeza de conquistar a vitória no fim, não sendo esta a responsável por anular isso. Além disso, garantiu-a que, no caso de realmente ser difícil um retorno à cidade natal, estava liberada para ficar mais uns dias até que a visita de Van acabasse, voltando assim juntas. Ágata abraçou a amiga com toda força que conseguiu, agradecendo o apoio de sempre, porém admitiu sua parcela de culpa, garantindo fazer exatamente o que ela disse, começando por ir ao supermercado comprar iogurte.
Feliz da vida, Van elogiou a atitude, lembrando que, no caso dela se arrepender, poderia voltar que ela mesma o faria. Agradeceu-a de novo, vestindo as primeiras roupas apresentáveis vistas em sua frente e indo em direção ao mercadinho mais próximo que seu mapa do GPS indicava. Enquanto caminhava à procura do tal endereço, cerca de uma quadra e meia depois, deu de cara com Micael. O rapaz de topete loiro abriu sorriso de orelha a orelha por vê-la ali, mesmo confessando a surpresa do ato. Um tanto quanto constrangida, Ágata cumprimentou-lhe também, questionando sobre como estava e coisas do gênero. Estava prestes a voltar a seu caminho quando o rapaz virou, decidindo acompanhá-la.
Até tentou disfarçar respondendo com educação e cordialidade, enquanto o rapaz, anestesiado pela surpresa, sequer se deu conta do engodo no qual estava obrigando a garota a se enfiar. Quando o fez estavam próximos ao tal mercado, onde ele parou e encarou o rosto semelhante ao de alguém constipado dado pela garota. Ali viu o sinal vermelho ecoando na testa. Questionando se estava incomodando, Ágata resolveu não esconder o jogo, confessando não ser um problema com ele, mas sim, das circunstâncias onde estava. Numa mistura de abelhudice com amparo, perguntou se poderia ajudar em algo e a menina logo respondeu que explicaria depois que comprasse algo no mercado. [
Depois de passar sete minutos corroendo a curiosidade, saíram do supermercado e Ágata pôs-se a contar todos os detalhes da infeliz tragédia a qual havia lhe abalado a estrutura emocional. Os olhos de Micael quase saíram da órbita ouvindo, mas aguentou firme cada palavra do pesado relato. Ao fim, colocou seu braço esquerdo atrás de seu pescoço e abraçou-a, garantindo que estaria ali para o que ela precisasse e qualquer coisa capaz de fazê-la sorrir era só pedir. A morena riu, fraco, agradecendo a boa vontade e a gentileza do primo de Ian.
— Entende agora por que não é o melhor momento pra ficarmos? Não tô com cabeça pra isso — desabafou.
— Sim! Claro que sim! Fica tranquila — sorriu — Mas isso não quer dizer que não possa fazer nada por ti.
— Bem, toda ajuda é bem vinda, né?
— Então vai aceitar meu convite. Olha lá, hein?! Não vale arregar!
— Ai, Jesus. Que medo — brincou a moça, ainda um pouco tímida — O que tem em mente?
— Algo pra não sair daqui carregando o mesmo ar pesado de quando chegou — explicava — Que tal um rolê como amigos? Só pra dar aquela animadinha. Vai! Nada muito invasivo, nem caótico demais. Sei lá, uma reunião com poucas pessoas, ir num parque… Coisas assim, tá ligada?
Não tinha lá muita convicção no pedido feito pelo rapaz. Não conhecia-o tão bem quanto a Ian, porém, os poucos dias de convivência consigo em Nova Petrópolis, lhe deram uma amostra grátis de como uma teia de aranha pode ser bem tecida e capaz de fisgar o mínimo inseto desatento. Apesar disso, concordou. Era difícil negar algo ao par de olhos cor de mel do menino, sempre tão vivos e cheios de disposição.
Voltaram ao prédio do hotel juntos, conversando um pouco sobre o acontecido e daquela ser a primeira vez em que ela se animou a sair dali e comprar alguma coisa por suas próprias pernas. Micael garantiu o fato da reunião deles ser bem tranquila, até por estar ciente da condição frágil da menina, prometendo não avançar o sinal, a não ser que, por milagre, ela o fizesse. Ágata ri, agradecendo a compreensão. Questionado se queria subir e tomar uma água, Mica negou, comentando que estava indo a casa dos primos menores antes de encontrá-la. Despediu-se dela com um beijo na testa, correndo para chegar a tempo a casa do tio. Mesmo com a sensação de precisar rejeitá-lo mil vezes ao longo do tal encontro, ao menos algum momento de felicidade a simples ida ao mercado tinha lhe dado.
Quando subiu e contou a Vanessa, então, foi a descoberta da América para a loira. Van admite que amou o respeito do rapaz e a compreensão dele com tudo o que ela vem atravessando. Ágata aproveitou para alfinetar a amiga, alegando que ele o fez até melhor que ela, recebendo uma travesseirada de resposta, levando-a ao riso involuntário. Apesar do momento cômico, a menina confessou a chateação já sentida por antecipação em virtude das dispensas que terá de fazer no tal rolê com ele, tendo a certeza de estragar algo tão legal por conta do lado sem noção do menino. Van, sorrindo, pediu para não cuspir para cima, pois sempre podia acabar caindo no próprio rosto.
A frase ecoou na mente da morena, fazendo-a questionar se realmente havia feito uma boa aceitando o convite quase por “pena” de negar algo ao primo de Ian. Tinha certeza que ele era um cara bacana, bom de papo e de pegação, sendo um desperdício perdê-lo por conta de uma situação chata. No fim, temendo arranjar mais uma encrenca sem razão, optou por dar de ombros. Era uma moça livre, desimpedida, e, se Micael gostava tanto dela, que a compreendesse e respeitasse, afinal de contas não estava passando por águas fáceis de navegar. Se ele não compreendia isso, achou mesmo válido que o perdesse, ainda que achasse ridícula uma hipótese daquelas. O jeito foi aguardar o rolê, marcado para o dia seguinte à noite, rezando para tudo ocorrer bem.
***
De todas as coisas no mundo as quais Alisson sentia o gosto da nostalgia lhe pegar, uma delas eram as conversas tidas com Gil. Enquanto trocava mensagens com Daniel, sempre rindo e brincando com ele como queria tanto fazer até poucos dias antes, mas não tinha coragem, recordou de cada tijolo contribuído para construir a relação sólida e sincera que tinha com o rapaz primo de Ian. Reconhecia Gil como parte daquela história, ora como mocinho, ora vilão, mas sempre ali rondando, procurando saber o que ocorria e disposto a lhe ajudar como podia. Começou com o vídeo da época de namorado do rapaz de olhos claros, depois as carícias intensas e até a primeira vez onde seu pênis penetrou algo diferente de uma vagina. Momentos cruciais de sua vida, capazes de moldar o novo Alisson, o qual tinha certeza que havia se tornado.
Porém, havia obstáculos nos quais ainda não havia encontrado a luz necessária para compreender. A insegurança de Daniel e sua aparente face desesperada lhe deixavam com o coração na mão, temendo uma reação explosiva dele a qualquer momento só por não aguentar a barra. Odiaria ver isso acontecer após tanto sacrifício envolvido, e gostaria muito de Gil estar ali para lhe oferecer esse suporte tão necessário numa hora de aflição como aquela, onde seu castelo de areia podia ser derrubado a qualquer momento por uma onda gigantesca de medo e revolta por parte de seu amado. Torcia, apenas, para um retorno de Ian dar jeito nos problemas do menino, caso contrário, os desafios seriam intensos demais para aguentar sozinho.
Perdido em seus pensamentos, só voltou à terra quando ouviu batidas na porta. Deixou entrar pensando ser sua mãe, querendo dar algum esporro pela má educação com as professoras pela enésima vez naquele dia. Todavia, surpreendeu-se ao encontrar Edu entrando a passos de formiga. Encarou-lhe surpreso, dadas as poucas oportunidades onde o homem resolveu baixar ali para falar qualquer coisa, e nunca era algo tranquilo e fácil de ser resolvido. Sempre era um pepino imenso o qual sequer sabia se tinha ou não condições de lidar.
Na realidade, Edu começou falando a Alisson sobre a história da viagem a qual gostaria de dar para sua mãe, visto que, dadas as circunstâncias, ela merece uma folga para viver de verdade após tantos anos se privando disso. Um pouco confuso, Al concordou, manifestou essa dúvida com o homem. Edu, sorrindo, garantiu que apenas não queria sentir a sensação de estar tomando a atenção de sua mãe consigo.
— Olha, se é isso, vou até te agradecer então por me tirar da mira dela — ambos caíram na gargalhada — Podem ir tranquilos.
— Obrigado, Alisson — disse, ainda sorrindo — E… Aproveitando.... E as coisas com Daniel? É esse o nome, né?
— Sim. Vão bem — garantiu — Não mudamos muito da última vez que perguntou, se é isso que quer saber.
— Perdão. É só curiosidade minha mesmo — coçou a nuca — Deve estar aliviado de não ser mais um segredo pra Marisa, né?
— Até que sim. Tô mesmo — respondeu, direto, tocando a pergunta pra outro viés — Tudo isso é só pra bajular minha mãe, é?
— É como eu te disse: Tu é o bem mais precioso da Marisa. Estando bem, ela está também. Isso é muito importante pra mim.
— Se é importante, então…— engoliu seco — Cuida dela. Ela é especial. Não merece ser tratada como uma qualquer.
— Fica certo de que farei isso.
Era um alívio poder conversar com Edu sem aquele clima pesado por conta do terrível constrangimento. Com os ponteiros devidamente acertados, Al sentia que as coisas poderiam, sim, se encaminhar para uma relação melhor, mais humana, sem tanto ressentimento ou mágoa envolvida. Estava limpo para recomeçar a construir uma história nova com Edu, desde que ele andasse na linha.
De repente, sem querer, Edu acabou lendo no celular aberto sob o colo de Al uma mensagem o xingando, sendo o contato Daniel. Curioso, perguntou se já estavam brigando, mas o menor garantiu ser bobagem e que já poderia ir dormir sossegado. Desejaram-se boa noite e o mais velho foi para seu quarto sem saber que, na realidade, Dan havia xingado seu enteado por ele ter pedido nudes e o pai dele quase ter pego no pulo a tal mensagem. Al não aguentou imaginar a cena e deitou-se de rir, não só por isso, como também pela felicidade de estar mesmo vivendo aquilo.
CONTINUA
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