A Teoria das Cores
109 Coral III
FORÇA DE VIVER
Quem entra no mundo da arte e se deixa levar por seus encantos, acaba sempre sucumbindo à tentação de se apaixonar profundamente pelo que faz. Seja cantando, dançando ou realizando outra das demais manifestações artísticas, ela insere sua marca como uma impressão digital dentro de nossos corações, a qual jamais mudará. Alisson e Daniel não podiam negar: viviam isso na própria pele.
Acordar todos os sábados e ir para a escola, em circunstâncias normais, seria um tiro a cada semana. Todavia, ainda que o fizessem ali, não era em nome da instituição, tampouco dos professores regulares os quais viam de segunda a sexta. Naquelas manhãs, eram envolvidos em uma membrana singular de acontecimentos, cujo único propósito era manter a cultura da dança urbana viva e pulsante, mas que, no fim das contas, arrematava bem mais do que meros passos.
Ter engajado um relacionamento, então, era uma desculpa excelente para se verem sem precisar de maior esforço. Como ambos trabalhavam ao longo da semana, por vezes encontrar um horário disponível era caçar Urso Panda na floresta Amazônica. Valorizavam as manhãs de sábado, ainda que fossem poucas as cursadas já tendo um relacionamento, mesmo porque fora a dança a primeira responsável por lhes unir de verdade, criar um projeto juntos, ainda que, à época, não tivessem tamanho da dimensão de seus atos.
Gustavo, naquela bela manhã de sol ardente, vistoso no céu, sequer se atreveu a atrasar o início do aquecimento e exercícios. Começou no pique, exigindo de seus alunos foco e determinação nas ações feitas. Mesmo alguns com menor potencial, falho por alguma razão, dentro de suas possibilidades, foram instigados na contribuição para uma performance sincronizada, afinal de contas, um movimento errado e tudo se perdia. Qualquer experiência negativa se tornaria uma lição importante, sim, mas não menos dolorida principalmente a eles, os verdadeiros performers.
As duas músicas apresentadas por eles precisavam estar em nível de show de artista famoso, segundo o nível do evento. Apesar de não concordar na exigência, o resto dos torneios eram pouco ou nada significativos a tal ponto de fazer os alunos se motivarem a crescer e se superarem. O treinador sabia que, com um objetivo traçado, era mais fácil coordenar os alunos, estimulá-los a criar metas e desafios próprios dentro de suas capacidades, valorizando-as na medida do possível. Havia uma aluna, por exemplo, mais lenta, não tinha tanta agilidade, colocando-a como performer primária apenas em momentos muito específicos nos quais sabia que ela teria condições. De fato, o resultado mostrava frutos.
Alisson e Daniel, entretanto, eram de longe os melhores, as estrelas do grupo como eram chamados por alguns colegas (a maioria destes, diga-se de passagem, dirigindo-se em tom pejorativo ou irônico). Seus passos com direito a giros no ar e break dance executados milimetricamente, como se tivessem sido feitos para eles. Não por acaso o treinador havia os escolhido para abrir as performances iniciais. Havia mostrado compreensão e disponibilidade de aprender, ainda que as faltas nas aulas tenham se feito mais do que deveriam. Perdoavam pelo entrosamento nas aulas as quais davam as caras, mostrando com ações o que as palavras colocavam no vento.
Já no fim da aula, com todos as vésperas de se atirarem no chão para serem enterrados, o professor sentou em círculo com a turma, explicando que aquele era o último treino antes do torneio, trazendo a tona o elogio e empenho de cada um dos presentes, os quais alegou terem tido a garra e a força necessárias para levar a arte ao mundo, colocando o coração e o amor pela dança em suas manhãs de forma admirável, madura e consciente. Agradeceu ao apoio deles, desejou-lhes ‘boa sorte’, pediu que treinasse ao longo da semana para o sábado seguinte, e também para mandarem a lista de confirmados de participação a equipe diretiva no máximo até sexta feira de manhã, junto com as autorizações assinadas.
Enquanto entregava, pôde ouvir quando Alisson debochou de Dan por ele ainda precisar daquilo, uma vez que ele, como maior de 18, não necessitava mais. A resposta obscena veio na sequência, arrancando risos do mais velho. Depois de entregar a todos e liberá-los, chamou apenas Al e Dan para conversarem. Em primeiro, comentou saber do episódio do vídeo e suplicou um comportamento moderado deles no evento, ainda que fosse por respeito não só a ele, como aos colegas. Em segundo, perguntou sobre a questão do ensaio da música da performance inicial e se estavam sendo realizadas sessões extraclasse.
Os meninos confirmaram ambas colocações, garantindo darem show no sábado seguinte. Gustavo sabia ser verdade, afinal via nos olhos deles a empolgação com o evento, não se lamentando nem por um instante, mesmo sabendo do ato duvidoso, do talento deles. Aproveitou, inclusive, para ressaltar isso, alegando funcionarem bem em equipe, garantindo que chegariam longe assim. Ambos, de novo, agradeceram pelo elogio, notando dentro do peito a valiosa sensação de ser notado por algo bom, produto do esforço e dedicação dados à música.
Questionado por Al sobre a possibilidade de realizarem um treino mais tarde, o mais novo negou, afirmando aproveitar o retorno de Ian para esclarecer as coisas mal explicadas, uma vez que, mesmo tendo chegado no dia anterior, o primo se fechou em seu mundo e, quando não estava assim, saía sem deixar rastros. Dan falou da necessidade que tinha de explicações e da importância em dar apoio ao mais velho, visto seu nítido sofrimento. Diante de tais argumentos, Alisson se viu obrigado a concordar. O peso das circunstâncias favorecia o menino de olhos azuis e não se achava no direito de questionar isso. Se era importante para Dan, era importante e ponto. Sem mais.
Despediram-se com um abraço e um beijo na bochecha, discreto e rápido, mas o suficiente para atrair alguns olhares de alunos abelhudos presentes nas redondezas do colégio. Dan seguiu direto para a padaria dos tios, afinal de contas, com o atraso no término da aula, sequer tinha tempo de ir em casa fazer qualquer coisa. Não que antes tivesse, porém gostava de usar isso como artifício para não desviar da rota e não atrasar. Chegando lá, o de sempre: Deu um abraço e beijo nos tios, tomou um banho, se arrumou e desceu para seu posto. Entretanto, ao fazê-lo, ouviu a voz de Marcella lhe chamando quase aos sussurros para mais próximo da caixa registradora. Estranhou, afinal nada havia feito para ser massacrado com sermões intermináveis os quais lembravam sua mãe em dias que o inferno a usava como soldado.
A mulher foi sem rodeios ao ponto, confessando ter ouvido de Isabel sobre a história dele com outro rapaz. O fato a deixou surpresa, mas justificou a atitude da mãe do sobrinho, uma vez que ela própria havia perguntado sobre a quantas andava com Vanessa e ela foi se esquivando até soltar uma linha do rosário e, diante disso, não ter mais escapatória se não contar os fatos. Dan revirou os olhos, se perguntando qual a necessidade da máxima de segredo na boca de três ter acontecido justamente com algo tão crítico e pessoal. Diante daquilo, não pôde sair pela tangente, contando tudo sobre a história com Alisson, quando haviam se acertado e os detalhes de senso comum, indispensáveis para compreensão exata da magnitude do assunto.
— Bom, apesar da surpresa, não dá pra dizer que não faz sentido — pensava a mulher — Essa insistência em não mostrar a Vanessa pra nós era uma introdução do que viria a seguir.
— A Van foi outros quinhentos, tia.
— Mas foi o interlúdio. Dan, por favor, querido… Já tive a tua idade. Sei muito bem como a cabeça da gente funciona. No fundo, tu sabia que mais sentia carinho por ela do que amor.
O menor coçou a nuca, encarando o chão.
— Não acho que seja assim…
— E tem todo direito de não achar. Só tô dizendo o que pude observar disso tudo que tô sabendo — comentava — Agora, uma coisa eu te garanto. Eu conheço meu cunhado. Não acho justo ele, como pai, ser o último a saber.
— Mas o tio também não sabe. Nem os pais do Andreas, do Mica, do Luan e do Lucas… — tentava justificar.
— Mesmo assim. Do convívio é praticamente o último, quando deveria ter sido um dos primeiros.
— Isso não é algo que a gente conta num churrasco de família, tia. Sei lá, acho um porre esse negócio de ‘Senta aqui, vamos conversar’.
A moça então encarou nos olhos castanhos escuros do sobrinho, abrindo um sorriso acolhedor a fim de passar maior verdade na sua fala.
— O que não existe, meu amor, é reprimir isso até as últimas consequências como se isso fosse ajudar. Entendo e acho tuas razões bem coerentes, mas também sei como é crescer e tomar parte da responsabilidade. Tu é quase um homem adulto agora, não mais uma criancinha. Qualquer problema, tua mãe e eu estaremos aqui pra te ajudar. Então te aconselho a passar esse obstáculo e encerrar esse ciclo, até pra tu ter paz e tranquilidade de amar e ser amado sem temer ou arranjar restrições.
Arranjar qualquer outro argumento fugindo disso era um tiro no pé. Tinha de concordar que a melhor solução estava em matar aquele leão o mais depressa possível. O problema era ter forças para tal, pois mal havia conseguido fazê-lo para encarar uma relação com outro homem, digerindo cada novo ato de afeto dele a cada dia, imagina então assumir publicamente algo tão íntimo, uma Torre de Babel ainda em construção e as vias de encarar uma ventania… Tudo era solo arenoso. Sentia frios na espinha só de pensar num passo maior dos já dados até então, querendo entregar ao tempo o poder de decisão, ainda que, por conhecimento de causa, soubesse que o passar dos segundos e as leis que o regiam eram bem diferentes da forma como gostaria.
Ronaldo, marido de Marcella, ao perceber os fuxicos, quis saber a razão. Ambos disfarçaram, retornando às funções de imediato. Chegou até a questionar o sobrinho no particular, mas este garantiu-lhe ser bobagens da família ditas pela mãe. Ronaldo riu, falando que a irmã tem mesmo o dom de fazer fofoca para que outros tenham que se justificar depois. Dan agradeceu aos céus pela crença do tio na história mal contada, e também por, mais uma vez, escapar da forca. Sabia que o momento chegaria, mas não seria ali nem aquela hora. A roda da vida precisava girar, só não sabia o quanto mais para aguentar o tranco e não tardaria a descobrir…
***
Folgas eram provas do universo de todo ser humano precisar de um dia ao menos para pôr a cabeça em ordem e, porque não, namorar um pouco, curtir momentos a dois com programinhas cafonas ou mais modernos como assistir filmes em serviços de streaming. Quando recebeu a sua no sábado, Jeferson não teve dúvidas. Correu para a casa de Sabine para discutirem qual coisa preencheria suas horas de descanso. Pensou em fazê-lo por mensagem, porém imaginou a menina demorando demais para responder, achando, por fim, mais prático andar até o apartamento dela e pedir sugestões.
Chegou na casa da moça, Alícia, mãe da loira, que o atendeu, deixando-o entrar sem delongas e afirmando o fato de quem procurava estar no quarto. Agradeceu a mulher, saindo de sua vista antes mesmo dela poder completar a frase. O entusiasmo era grande e não era para menos: A menina estava, aos poucos, querendo se deixar levar pela emoção e desejo de entrar em uma relação mais séria, encarando com mais propriedade suas intenções com ela e valorizando-as cada vez mais. Isso, por si só, era um combustível poderoso para manter dentro do peito do rapaz a chama da paixão acesa, só aguardando pela chance de esquentar mais uma.
Esta, porém, foi apagada com um balde de água fria ao abrir o quarto da moça. Não só sentiu a sensação de um tornado ter passado ali, dada a quantidade de retratos, fotos e recortes feitos, como também uma estranha e confusa presença de Amora ter sido notada ali. Seus olhos piscaram mais de dez vezes tentando entender qual a razão daquilo que julgou o apocalipse estar acontecendo sem aviso de ninguém. Antes mesmo de abrir a boca, Sabine já foi logo contando sobre a ideia tida de criar um scrapbook do terceirão, contando fatos, curiosidades e coisas do gênero. Tudo sempre ligado às três turmas da escola dessa faixa.
— Que budega é um scrapbook, posso saber? — questionou.
— É tipo um livro temático, sabe? Tem gente que faz de música, filmes, séries… Eu resolvi fazer do terceirão, mas não se anima. É meu, viu?!
— Quer dizer que não vou ter nenhuma cópia desse material de ouro aqui?! Que absurdo! — Amora reclamou.
— Não vejo porque não, desde que tu pague uma impressão pra ti — indagou a moça — Precisa de alguma coisa, Jeferson? Diz logo que tô ocupada.
— Na real, queria fazer alguma coisa contigo, mas agora só quero uma resposta mesmo — dizia ele — O que diabos a Amora tá fazendo no teu quarto? Vocês não são tipo Batman e Robin…
— Meu amor, eu tenho informações valiosíssimas para essa versão cospobre de livro do arraso — justificava a menina — Posso eternizar várias coisas que vocês jamais sonham terem acontecido.
— Podia aproveitar e pôr o dia do tapa na cara que a Amanda te deu, né? Aquilo foi histórico! — alfinetou o rapaz. A moça revirou os olhos na hora.
— Vai comprar pomada pra passar nessa pele oleosa e me deixa em paz, guri! — exclamou — Até porque, ando me comportando muito bem.
— Por não ter outra opção, né querida?! Convenhamos! — Sabine acrescentou.
O comentário deixou a moça espumando de ódio. Sabia que era verdade, afinal, do contrário, estaria encrencada até o pescoço com os rapazes, principalmente com Alisson, e àquela altura eram as últimas pessoas na face da terra com quem gostariam de arranjar encrenca. O jeito era controlar sua língua e evitar ao máximo tocar em seus nomes, a fim de seu nome não estar associado a encrenca na qual haviam se metido.
Já Jeff, ainda curioso sobre o fato do livro, questionou a respeito do livro, afinal eram tantas informações a serem organizadas que imaginou ser necessário um bom foco na composição. Sabine então explicou sobre as áreas temáticas, categorias grandes criadas a fim de filtrar com exatidão tudo o que melhor expressa o momento de terem vivido o terceirão. Eram elas: Conhecendo as turmas, Momentos importantes, Diversão pedagógica, Trotes memoráveis, Casais e Depoimentos de membros da escola.
De todas, a mais chamativa para Jeff foi justamente a aba ‘Casais’, uma vez que tantos haviam se formado, sendo difícil catalogar todos. Neste ponto, Amora discordou, lembrando o fato de boa parte dos alunos preferir estar solteiro a se envolver. Sabine ainda acrescentou dizendo que não estavam juntos ainda e, portanto, não deveria estar tão preocupado. Esperta como uma águia, a outra moça pegou no ar, questionando se era ‘ainda’ mesmo. O rosto da loira ferveu, arrancando risos tanto de Amora quanto de Jeff, afinal ela mesma começava a ceder sem se dar conta.
Outra coisa a qual o menino fez questão de questionar era a relação de Alisson e Daniel e se seria registrado pela eternidade. Sabine ironizou, questionando a razão de sua pergunta, sabendo que seriam mesmo, afinal haviam se tornado um casal. Naquele momento, Amora quase caiu para trás, incrédula do lance dos rapazes ser real e demorando a sentir a ficha caindo. Jeff retrucou, querendo saber a razão de tanto alarde por algo já escondido aos trancos e barrancos. A garota revelou então que, apesar do cochicho geral, o vídeo não chegou a ser enviado para ninguém dos alunos, uma vez que Arthur temeu uma reação ainda pior não só dos rapazes, como também de suas mães. Jeff não segurou o riso. Aquilo só confirmava a hipótese de ser um cordeiro fingindo ser um lobo.
Amora até aproveitou a deixa para questionar se houve mesmo a influência de Arthur e seus amigos na história dos rapazes e, vendo ser inútil prolongarem o óbvio, afirmaram com convicção. O fato deixou a moça bisbilhoteira um tanto quanto pensativa demais, atraindo o olhar e as chamadas de atenção de Sabine, tão esperta quanto uma raposa. Notando a deixa, a visitante mudou o foco e questionou sobre a ideia do livro e, sem alternativa, acabou confessando ter sido motivada pelo fato de um outro material pessoal seu ter sido concluído recentemente e que, com isso, ficou com vontade de fazer um mais geral. O material pessoal era o livro de recorte feito para Daniel, o qual estava guardando para entregar no momento certo.
Claro que o comentário atraiu ainda mais curiosidade, mas a loira garantiu não abrir a boca para falar disso, já que não era esse o foco de seu trabalho. Tal qual Amora fizera segundos antes, tentou distrair Jeff pedindo que mandasse mensagem a Alisson ou Daniel para mandarem uma das fotos as quais haviam tirado em seu aniversário, deduzindo que, passado tanto tempo, o primo do segundo já havia de ter entregue as ditas cujas a um dos dois. O menino até pensou em falar com Dan, dada a obviedade da entrega, mas mandou primeiro a Al, temendo arranjar uma encrenca federal com o segundo, conhecendo bem a bomba relógio do rapaz.
O gesto foi um alívio para Sabine. Sabia da necessidade de entregar o quanto antes aquele registro, mas ainda achava estranho entregá-lo após tantas anotações terem sido feitas. Seria quase como ficar nua frente ao rapaz pelo qual, precisava admitir, ainda tinha resquícios do amor de outrora. O faria assim que seu coração estivesse melhor preparado, e ele, melhor amparado. Não era o momento de trazer de volta mais um nó estranho em sua vida, já que era de conhecimento do rapaz seu amor por ele, mas sim, de acalmar e tentar mantê-lo o mais confortável possível dentro do que o destino havia armado a ele.
***
Depois de passar o dia fugindo da curiosidade da tia e desconfiança do tio, a única coisa almejada por Daniel era chegar em sua casa e não ver ninguém até o outro dia. Porém, sabia ser impossível para sua consciência o fazê-lo sem ao menos tentar uma aproximação com Ian. Não lhe era estranha a informação dele estar desnorteado, perdido como um cão em meio a uma rodovia movimentada, e triste como uma criança órfã. Era horrível saber daquilo e agir com inércia. Sentia necessidade de agir.
Assim que chegou em casa, notou a presença dos pais. Perguntando sobre o primo, ambos comentaram o fato dele ter comido sem proferir muitas palavras e comendo uma quantidade pífia até para um pássaro. Isabel, inclusive, pediu que conversasse com o primo, pois até mesmo Clara, mãe do rapaz, estava cogitando aparecer ali caso seu menino não apresentasse melhoras e, com isso, acabando convencendo o filho a voltar a Porto Alegre. Indisposto a fazer isso acontecer, Dan garantiu aos pais conversar com ele tão logo tomasse banho e jantasse, ficando livre, assim, para terem um diálogo importante e tranquilo sem qualquer interferência.
Acabou cumprindo a promessa. Livre de suas obrigações após secar e guardar a louça do jantar, subiu ao quarto do primo e bateu em sua porta três vezes até ouvir o som do trinque sendo destravado. Abriu a porta com cautela, percebendo a única luz vinda do abajur ligado em sua da escrivaninha e virada em direção a sua cama. Ian estava sentado de pernas cruzadas em cima da cama, apontando ao outro que sentasse onde fosse de seu agrado. Antes mesmo de Dan o fazer, deu-lhe um forte abraço. Sentiu a necessidade de, antes mesmo das palavras proferirem o conforto, das ações o fazê-lo em primeiro lugar, deixando que o primo o abraçasse com toda força de sua alma, a fim de, quem sabe, estancar um pouco o doído e horrendo sangramento de dentro dele.
Ao terminarem, aí sim Dan sentou a seu lado na cama, pegou em suas mãos e questionou-lhe como estava lidando com aquilo tudo. O mais velho suspirou fundo antes de começar.
— Deu tudo errado, Dan — confessou — Como pôde uma preocupação tão forte ter sido tão mal interpretada na prática?
— Andreas foi tão c*zão assim? Bom, não me espantaria, né? Já me socou por nada — lembrou — Mas, se ele fez isso—
— Dan, qual é! Vai entrar na dele agora? Virou terra de lei de Talião? — retrucou — Já não basta o tapa que dei na cara dele. Ali eu fiz m*rda.
O menor então lhe encarou, espantado.
— Tá de zoação… Não acredito!
— Isso que fui lá só conversar e pedir que ele se cuide mais. Só isso — lamentava — Além disso, ainda tem a Ágata. Nem falei com ela ainda, acredita? Justo ela que, de tudo isso, é a que mais deve tá sofrendo…
— Olha, eu acho que tu devia ter começado por ela — opinou — O Andreas é só um demente que se acha o p*ca das galáxias. Ele que se f*da com os chiliques dele!
— Quem fala em chilique, né? — alfinetou o mais velho, recebendo um dedo do meio como resposta. Não segurou seu riso, mesmo fraco — Mas tu tá certo numa coisa: Já devia ter conversado com ela. Ao menos mandado mensagem perguntando se ela precisa de alguma coisa…
— Por que não faz isso então? Vai te deixar melhor. Tenho certeza! — disse Dan, esperançoso — É muito estranho te ver assim, sabe? Sem perspectiva alguma….
Ian, então, passou a mão direita pelo frágil rosto do primo.
— Certos momentos da vida a gente tem que lembrar o que é sofrimento pra darmos mais valor a alegria — dissertou.
Não tirava a razão do primo mais velho. Ele bem sabia todas as incertezas, rompimentos, brigas e discussões servidas de alicerce para uma ponte construída especialmente a si, ajudando-o a alcançar o objetivo final de ser feliz. E conseguira. O problema era ver o primo, sempre tão forte e destemido, frágil e indefeso, com uma expressão de naufrágio no rosto, como se qualquer um dos caminhos dessem a um abismo de tamanho incalculável, no qual cair era uma das piores decisões que podiam tomar.
De novo, o menor abraçou-lhe. Sentiu ser o momento certo para retribuir, mesmo de maneira simbólica, todo o apoio e suporte oferecido por ele enquanto atravessava o período mais turbulento de sua vida. Vendo seu estado, sequer foi capaz de questioná-lo a respeito de um bom terapeuta. Quis tirar um pouco dele a obrigação de ser seu salva vidas e carregar um pouco daquilo sozinho também, já que si mesmo havia criado aquela situação embaraçosa e difícil. Observou quando ele enviou a mensagem para Ágata e seguiu a seu lado até que este dormisse para, assim, acreditar que cumpriu seu papel e ajudou seu adorado primo a não desmoronar numa hora tão crítica. Não sabia bem como, mas estaria sempre lhe assessorando, a fim de lhe devolver o brilho no olhar e a alegria de viver a vida, tal qual sempre ele lhe ensinou.
***
Ir a tal reunião de Micael, de fato, não podia ter sido acerto melhor, principalmente quando Ágata havia conseguido que Vanessa fosse junto. A loira bem quis sair pela tangente, inventando precisar estudar e coisas do gênero, mas a morena argumentou pelo fato de: se ela precisava sair do buraco, ela também, afinal de contas as cicatrizes do relacionamento com Dan continuavam lá ela querendo ou não. Com isso, foram ambas até o apartamento indicado por Mica, quase caindo para trás ao notarem onde estavam.
Não era um dos lugares mais chiques de Porto Alegre, longe disso, mas só o tamanho do apartamento ocupado por um casal de amigos do rapaz e ainda sobrando espaço para possíveis filhos e netos, já era capaz de arrancar suspiros. A decoração passava longe de ser exagerada, trazendo um ar mais clean, jovem e contemporâneo, com sofás e mesinha de centro substituídas por poofs gigantes de cores variadas espalhadas pelo ambiente, com um tapete cinza no centro e uma bandeja com alguns comes e bebes, como bolacha de água e sal, alguns salgados de padaria, suco, cerveja e um balde de uma em especial de cores azul e verde. Receberam-nas com muito entusiasmo, sendo apresentadas por Mica a todos os presentes: O casal morador do lugar e um amigo lembrando claramente o estereótipo de nerd bonitão dos filmes os quais Vanessa estava cansada de ver. Sequer acreditou que aquele fosse seu estilo ou se havia o feito só para chamar atenção.
Depois de meia hora de conversas aleatórias começando por futebol, passando por viagens icônicas e parando em rolês completamente absurdos, Ágata se sentiu um pouco mais longe da realidade. Seus pés já saíam do chão sem pressa de voltar. Claro, admitia que a bebida tinha um papel crucial nisso, mas só alimentou a vontade imensa sua em tentar retomar sua vida. Não podia negar que a opinião de Micael era verdadeira: precisava voltar a Nova Petrópolis com a esperança renovada, e não afundada na lama mais do que quando chegou em Porto Alegre. Agradecia-o por seu jeito despretensioso e divertido, mesmo porque cumpriu o que prometeu: Nada havia tentado. Parecia um anjo entre os homens, apesar de lhe cuidar em alguns momentos os quais pôde flagrar.
Outros a trocarem olhares, lá pelas tantas, foram o tal menino estereótipo e sua amiga. O rapaz pouco abria a boca, mas quando o fazia, notava Van voltando seus ouvidos completamente a escutá-lo falar. Não pôde negar que a voz aveludada ajudou a dar um charme a mais nele, porém, conhecendo Van, ela jamais cederia por ainda se sentir muito perdida terminando definitivamente com Daniel.
— Quer um babador ou prefere juntar a tua baba com a dele logo de uma vez? — brincou a moça.
— Deixa de ser ridícula. Achei o guri muito forçado com esse visual — tentou disfarçar a moça, mexendo em uma mecha de cabelo.
— Esses são os piores. Achamos horríveis no início, mas basta ficar de olho um ou dois minutos e se tornam conceituais — brincou — Qual é? Vai julgar pela aparência agora é? Fazer o que o outro lá fez a vida inteira?
— Tu não tava acabada de chorar horas atrás? E já tá tão articulada assim? — alfinetou a loira, rindo — Não tem razão de ser. Bancar a cupido agora é completamente sem sentido!
— Mas quem tá falando em cupido, mulher?! Tô falando de dar uns beijos, trocar saliva! Que nem tu fez na festa dos namorados quando brigou com teu ex my love lá.
Entre os cochichos e comentários delas, Van observou quando, sem querer, pegou-lhe no flagra lhe azarando com os olhos, confirmando a suspeita. De fato, havia algo o qual o tornava singular e criticava num primeiro momento: justamente o esconder por de trás dos óculos e camisa xadrez preta com vermelha alguém misterioso, capaz de atrair seu foco mesmo sem querer. Sabia da razão de Ágata em querer que fosse aproveitar um pouco e queria muito fazê-lo, mesmo sendo por aquela noite e só. Perguntando a Ágata se ela realmente acreditava, a menina foi certeira ao declarar que si mesma assim faria se não respeitasse a amizade de ambas. O comentário geral risos involuntários por parte delas.
Depois de mandar a amiga parar de inventar desculpas e dar uma chance mínima pelo menos, levantou-se e foi até a cozinha pegar outra coisa para beber, notando que as garrafas da cerveja de vidro azul e verde havia acabado e torcendo para ter mais delas. Ficou tão distraída após encontrar e abrí-la que sequer se deu conta de ver Micael se aproximando, quase deixando a garrafa cair ao dar de cara com a figura do moço. Este, carregando um sorriso largo nos lábios, perguntou se tinha valido a pena seu pedido. A menina riu, fraco, agradecendo pela oportunidade de mudar um pouco de ares, pois acreditava estar mesmo necessitada. Devagar, Mica levou sua mão ao encontro da ponta dos dedos das mãos da menina, alegando que aquele não precisava ser o ponto auge da noite.
Acreditando se tratar de um convite sexual, Ágata não perdeu tempo em rejeitar, lembrando estar ali para papear, se divertir e dar risadas. Nada mais. O rapaz riu, alegando que não estava se referindo a algo mais íntimo e que seus planos eram bem maiores. Sem compreender, o menino então começou a puxá-la devagar pelos corredores do apartamento até encontrar uma porta específica, com uma escada dada ao terraço privativo. Micael levou então sua menina ali, fazendo-a presenciar o espetáculo de estrelas no céu de maior intensidade dos últimos dias. Eram tantas que ambos não davam conta de contabilizar sem se perder, acabando rindo por isso. A vista de Porto Alegre de cima era um espetáculo à parte, podendo ver alguns dos pontos turísticos sumindo no horizonte.
— Vir aqui pra cima quando venho visitar meus amigos é de lei — comentava Mica — Sei lá. Esse lugar me traz uma sensação tão boa, saca? Como se o mundo estivesse ao meu alcance.
— E tá mesmo — admitiu a moça — Tanto daqui de cima como lá de baixo. Só basta a gente ter vontade de ir atrás, vencer os desafios…
— Verdade, mas ter um empurrãozinho sempre ajuda — disse, rindo — Por isso te trouxe. Sei que tu precisa disso, então.
A moça sorriu, pegando em suas mãos de leve.
— Significa muito. De verdade — garantiu — Ah, e valeu por ter aceito a Van também.
— Que isso — coçou a nuca — Namorada de primo meu é convidada sempre!
— É… na realidade não estão mais juntos, mas enfim…
— Jura? Como assim?
Surpresa com o fato da notícia não ter chegado aos ouvidos do primo, Ágata não quis entrar no mérito da questão, pulando os detalhes mais profundos e apenas pincelando por cima o ocorrido embaraçoso. Os cabelos de Micael por pouco não caíram ouvindo sobre a sexualidade do primo, uma vez que sempre o viu ofendido caso alguém ousasse questionar sua masculinidade. De certa forma, não pôde evitar rir da grande ironia do destino. Afinal, Ian tivera suas previsões concretizadas.
Ao lembrar do primo, lembrou-se também de questionar como andava a relação da morena com ele. Foi sincera, dizendo não falar com ele simplesmente por ainda estar processando tudo, além de comentar o fato de ter recebido uma mensagem sua, mas que veria mais tarde. Mica sorriu, perguntando então se continuava livre, recebendo a confirmação vinda seguida do lembrete de ainda não querer lhe namorar, mas deixando a possibilidade aberta para o futuro. Prova disso foi que, na sequência, deu-lhe um beijo não muito curto, nem longo, apenas um símbolo para ficar marcado em sua memória e na visão bela das estrelas sobre si.
O rapaz sorriu, bobo com o feito. Era bom ter a certeza de alguém tão bacana estar a seu lado, pensando em todas as formas de se precaver e não magoar ninguém. Era, também, sua primeira vez se esforçando para aquilo acontecer de verdade, fosse pela vontade de vê-la feliz, fosse pela não vontade total e absoluta quanto a ser passivo de Ian. Conhecia o primo. Passado esse temporal o qual enfrentava, voltaria com carga total e, caso não esboçasse reação, estaria morto com farofa.
Uma grande surpresa de ambos foi, quando retornaram, não encontrarem Van e o tal rapaz nerd de filme, com o casal de amigos comentando sobre como ambos pareciam estar curtindo a vibe um do outro desde o início e que possivelmente estavam se entendendo bem. Ágata vibrou. Afinal, a noite havia dado uma gratificação às duas. Um pouco de doce não fazia mal a ninguém.
CONTINUA
Fale com o autor