A Sonhadora
2 Capítulo 1 - Quando tudo começa.
Anos já se passaram, e Paula mudou em tantos pontos. Continuava a ser a mesma por fora; os olhos castanhos como chocolate belga, a pele mais branca que o miolo de mandioca, suas longas madeixas – presas em um rabo de cavalo lateral – pareciam voar com a mínima brisa que batesse neles. Uma coisa de que Paula sempre poderá se orgulhar é de seu lindo e sedoso cabelo. Mas isto não realmente nos convém ao momento.
Ao seu lado emocional, Paula tinha voltado a ser a mesma garota – curiosa, aventureira, com um pé no mundo dos sonhos – o de sempre. Mas é claro que houve mudanças, ninguém permanece o mesmo para sempre. Paula havia aprendido bastante sobre Wushu com Marie, sua única e melhor amiga, para voltar ao condicionamento de antigamente. Voltou também a praticar Parkour, mas não tão frequentemente como antes. Sabia que tinha limitações, mas finalmente as aceitava sem agonia ou dores. As próteses já faziam parte dela, e às vezes até se esquecia de que, na verdade, algum dia, tinha passado por tanta depressão e conflitos existenciais – quase como se tudo aquilo fosse apenas um pesadelo numa noite quente de verão.
Marie tinha a ajudado muito mesmo no equilíbrio atual de Paula. A lutadora – que devia saber pelo menos umas vinte vertentes do Kung Fu – ensinou-a como aliviar todas suas dores em uma almofada, socando-a até pulveriza-la em espuma e farrapos, e também a ser feliz de modo geral – com ajuda de Seu Hugo e suas sábias palavras, uma a cada dia, pouco a pouco. Em algum tempo e acumulo de lições aprendidas, aí está a Paula atual, esbanjando o melhor do que o mundo e a juventude têm a dar-lhe.
Bom, Marie também continuava a mesma Marie de sempre – espontânea, sábia demais, um ótimo condicionamento físico por causa das artes marciais e danças excepcionais, e, na flor da idade, arrasando os corações dos garotos gentilmente rejeitados. Mesmo parecendo uma garota qualquer, ah, há tanto escondido por estas lindas tranças ruivas como fogo, estranhamente combinadas à pele amarela e Chinesa. Sua aparência podia até ter traços raros para humanidade, mas nada se comparava ao seu longo e tortuoso passado. Mas não me cabe conta-lo aqui, neste exato momento – sua história e mais tortuosa do que pensas – então prossigamos!
Fazia um outono que mais parecia verão, realmente. As folhas ainda não tinham caído, e a praia ainda lotava aos finais de semana. As duas amigas estavam aproveitando a quietude – um tanto rara naquela cidade turística que é o Rio – embaixo do Pé-de-Ipê, já se despedaçando em folhas. Elas deixavam o tempo passar, apenas aproveitando a calma deste dia, e enquanto isso, discutiam sobre o que fazer no final de semana que acabara de começar.
– E então, Flor, o que vai ser? – Marie perguntou a Paula, querendo uma decisão da amiga.
– Não sei Ma, nem sei se quero sair este final de semana, não... – Paula respondeu com sua voz mais lenta e arrastada que tinha.
– Preguicite aguda a sua, não?
– Pode crer.
– Por que não fazemos uma festa do pijama então? A gente aproveita e debuta meu tapete de dança novo!
– Só nós duas?
– Acho que o vovô quer dançar também, se não se importa...
– E perder de ver Seu Hugo pulando que nem um maluco pelo quarto? Nem pensar!
Então as duas se levantaram, se separando. Marie foi preparar o console e o tapete, enquanto Paula subia, pela árvore mesmo, pegar seu pijama e afins em sua casa. Não, ela nunca usa a porta da frente; tinha alma de aventureira então era apenas o seu dever fazer jus à qual.
Já em seu quarto, juntando suas coisas, Paula ouviu sua mãe e pai numa pressa incomum, correndo para lá e para cá. Abriu a porta, e viu os dois com seus celulares nos ouvidos, roupas e sapatos nas mãos; seu pai procurava as malas de rodinhas no sótão. Paula esperou sua mãe desligar o telefone pra finalmente pergunta-la por que raios estavam tão apressados.
– Ah querida, nos desculpe, mas acabamos de receber uma ligação de nosso chefe, e vamos sair agora mesmo. Estamos indo direto pra Floresta Amazônica junto com alguns funcionários do Butantã, e acho que vamos ficar por lá pelo menos uma semana...
– Já liguei pro seu tio Sebastião, ele vem ficar aqui pra cuidar de você enquanto estamos fora. – Seu pai complementou, saindo todo sujo e empoeirado do sótão com duas malas enormes nos braços, segurando o celular com o ombro.
– Tio Sebão?
– Não o chame assim, Paulinha. Ele é seu tio! – Sua mãe a repreendeu.
Paula sentia repulguinancia dele, Sebastião, a quem carinhosamente chamava de Tio Sebo ou Sebão – por um motivo bem claro. Ele era daqueles típicos tios solteiros que ainda moravam com a mãe, não tinham emprego e simplesmente estavam perdidos na vida, sem um rumo a tomar por pura preguiça. Ele era tão preguiçoso que tinha preguiça até de tomar banho, ganhando aquela gordura na pele e cabelo depois de algum tempo, o fazendo parecer um porquinho defumado (principalmente à frente de uma TV.). O pior de tudo isso não era a presença dele – Paula estava acostumada a ignorá-lo – mas sim o fato de que não sobrava praticamente nada na geladeira e por perder a TV. Ele simplesmente nunca tirava a bunda de lá, e dominava o território. Resumindo: só dava mais prejuízo que ajuda, se me entende.
– Bem, só vim avisar que vou dormir na casa de Marie hoje, tudo bem pra vocês?
– Claro que sim. Vocês vão sair mais tarde ou não? – Seu pai perguntou.
– Ainda não sei...
– Seja o que for, tenha cuidado ok? – Sua mãe a advertiu, enquanto coçava o queixo freneticamente; ele já tinha a mesma cor que seus lábios de cereja – Não tenho um bom pressentimento...
– Ok garotas, se despeçam. As malas estão prontas querida, vamos lá, não temos muito tempo.
– Até mais neném, voltamos logo, está bem? Tenha paciência com seu tio, ele não vai te morder. – Sua mãe se despediu de Paula, a dando um grande abraço e um beijo na bochecha.
– Tchau minha pequena aventureira. – Seu pai lhe disse com as mãos puxando as duas malas, a beijando na testa demoradamente. – Cuidado com os gatinhos, se for sair, viu?
– Que gatinhos pai? – Paula perguntou-o, dando risadas. – Esqueceu que Marie rouba todas as atenções?
– Não custa nada a cautela; eu já fui moleque e sei muito bem como é. Além disso, ela não pode ficar com dois ao mesmo, certo? E não vá esquecer da c...
– Querido... Lembra-se de que estamos com pressa? – Sua esposa desviou a conversa antes que ficasse coruja demais, lembrando-se do real motivo de estarem conversando.
– Claro claro, vamos. Tchau Paulinha.
– Tchau mãe, tchau pai. Até mais.
Paula os acompanhou até o portão de casa, onde um taxi já esperava os dois. Ela os ajudou a carregar a bagagem e se despediu de novo dos dois; entraram no carro e lá se foram, enquanto Paula acenava a eles, que já viravam a esquina. Ela ficou um tempo parada, pensando no que fazer, quando finalmente se lembrou de que tinha um compromisso na casa ao lado. Entrou pra casa e trancou o portão, andando lentamente até a porta.
A família de Paula era relativamente bem de vida; moravam num sobrado que ganharam da parte materna, muito generosa por sinal. O sobrado de design arrojado tinha de entrada um belo jardim onde a mãe de Paula, Dona Letícia, florista apaixonada pelo seu trabalho, cultivava todos os tipos de plantas que se podia imaginar; assim não havia jardim mais colorido que o dela. Seu pai, Seu Paulo (que deu o nome à sua filha) era biologista na parte de animais selvagens. Obviamente ele não podia criar as espécies em seu quintal, mas sempre mostrava as maiores curiosidades nunca ditas a público para Paula, sonhando que algum dia sua filha seguisse seus mesmos passos.
Por isso, por influência de seus pais, Paula tinha uma bagagem informativa sobre seres vivos tão avida que seria difícil ela ver uma planta ou um bicho que não reconhecesse. Dentro da casa mesmo, havia uma sala só com os livros e materiais achados pelos dois pesquisadores. Se Paula ficasse entediada ou algo parecido, ela sempre passava pelo cubículo e pagava algum livro que ela jugava poder entender facilmente.
Já a casa vizinha – de Seu Hugo e Marie – na verdade não parecia nem um pouco pertencer a um senhor de idade, como Seu Hugo era. Se eu perguntasse a algum estranho que estivesse passando por ali, com certeza este deduziria que a tal devia ser de algum tipo de arquiteto moderno ou apenas de uma mente brilhante que teve uma ideia maluca. Pra começar, além de ser branca como giz, não havia telhado na mesma, os cantos eram arredondados e para contrastar, várias jardineiras foram instaladas nas janelas dela, tão coloridas quanto um arco-íris; uma verdadeira peça de arte da arquitetura. E pensar que foi seu Hugo mesmo quem criou esta belezura.
Mas voltando onde estávamos na história, Paula acabara de arrumar sua bagagem; já fechava a casa, aliás, e pela primeira vez neste ano saiu pela porta – infelizmente não foi a da frente –, mas bem, não há como se contentar todos, certo?
Chegara à porta e já entrava, sem bater nem nada; Paula já era de casa, conhecia a residência de cabo a rabo e não deixará de fazer o mesmo nas próximas visitas. O som já rolava alto pela casa inteira, fazendo as cadeiras e moveis vibrarem; os dois acharam uma boa vizinhança para se morar com costumes como estes, uma vizinhança vazia. Na rua havia apenas as duas casas amigas, e mais uma já abandonada pelos donos há muito tempo.
– Ô de casa! Minha nossa, como vai, Seu Hugo?
– Vamos entrando Paulinha, cola com a gente!
Paula acabara de abrir a porta do quarto de Marie, no final do corredor, e dera de cara com Seu Hugo: velho que mesmo parecendo frágil como porcelana, continuava na flor da juventude. Ele que pulando que nem pipoca na panela quente, tentava bater a pontuação de Marie – que era um tanto impossível de se acreditar de ser alcançada sem algum hack. Mas olhe bem, era Seu Hugo. O único que poderia possivelmente bater tal recorde – esta no sangue, não é mesmo? Enquanto o senhor se divertia no tapete ao som de eletrônica, Paula despejava sua bolsa em seu colchão especialmente preparado, sentando-se junto à Marie que olhava atentamente o avô e a pontuação crescente dele.
– Ahahaha! Duzentos e Cinquenta! Tente bater este, Ma! Só tente!
– Ah não, acho que tem alguém aqui que quer usar o tapete novo mais que eu, não é Pa?
Marie cutucava Paula com o cotovelo, empurrando-a em direção ao apetrecho.
– Não, não, eu nunca conseguiria fazer uma pontuação tão boa, vocês sabem que não tenho pé pra dança!
– Largue mão disso garota! Vai, me mostre o que você sabe de uma vez!
Um toque de celular tirou a atenção das duas da discussão, voltando-se para Seu Hugo. Ele tirou de seu bolso um celular, onde teclou e teclou, lendo as palavrinhas da tela, as quais desenhavam um sorriso em seu rosto enrugado, mas muito feliz.
– Estão a fim de dar um “rolê” meninas? Tenho coisas a resolver na danceteria. – Ele perguntou com aquela mesma atitude de gente antiga tentando parecer jovem. O estranho é que ele não parecia um desses, na verdade falava como se fosse o mais natural a se dizer. Desligou assim o celular, deixando o quarto e indo para o seu próprio.
– Eu topo! E tu Paulinha?
– Sei não Ma...
– Vamos lá Pa! Por favor!
Marie a olhou suplicante, com aquelas suas feições felinas e pupilas dilatadas, cativou Paula na mesma hora.
– Ok! Eu vou...
– Eba! – Marie pulou de alegria, abraçando a amiga bem apertado.
– Mas não trouxe roupa nenhuma pra isso...
– Parece até que você esqueceu que usamos o mesmo tamanho! Eu posso te emprestar algo, é claro!
Marie abriu seu suntuoso armário, cheio das mais lindas roupas e sapatos já vistos. Mesmo assim, a chinesa contentava-se em usar o mesmo conjunto de blusinha básica e jeans todos os dias. Era tão injusto...
– Linda, rica, cheia de estilo e um coração maior que o mundo – sem contar suas habilidades; querida por todos os caras também. Como você pode estar solteira ainda, criatura? – Paula perguntou quase esmagando seu travesseiro.
– Hehe, Flôr. – Marie riu-se com um tom melancólico, e tentou mudar o foco do assunto. – Não se desvalorize. Olhe, só lhe falta uma arrumadinha aqui, uma ajeitadinha acolá, e prontinho. Você estará tão perfeita quanto uma rainha!
– Corta essa, sua tonta. Você rouba todas as atenções quando passa!
E então começaram uma pequena guerrinha de travesseiro, seguida de um aviso apressado de Hugo, para que as duas começassem a se arrumar logo – conhecedor sábio das mulheres, sabia quanto uma demorava em se aprontar.
As duas, pra surpresa de Seu Hugo, não demoraram tanto o quanto ele pensou que demorariam. Em alguns minutos, estavam as duas descendo as escadas de madeira, que vibrava a cada passo de salto alto que davam.
– Carambolas meninada! Tenham cuidado, os marmanjos vão querer as duas assim que vocês pisarem lá! Fiquem de olhos abertos.
E as duas, em tom brincalhão e debochado, responderam:
– Pode deixar, Seu Hugo.
E assim todos entraram no carro do senhor. Em apenas alguns minutos, já tinham chegado ao destino – uma das boates em que só a elite frequenta, com razão — Brunette. Uma das mais caras, mas com certeza uma das melhores. Paula sabia que Seu Hugo administrava uma danceteria, mas não imaginava que ela seria a Brunette, onde todos querem ir, mas poucos podem.
– Como andam as coisas, Pedrão? – Seu Hugo direcionou-se a um homem de terno, na porta do estabelecimento.
– Tudo em ordem, chefe. E... Estas garotas... – Pedro se referia a Marie e Paula.
– Oh, claro Pedrão... – Seu Hugo se deu conta que as duas eram menores, e não podiam entrar sem a concessão dele. – Estão comigo, as duas. Vamos, vamos, tenho pressa!
Apressadas mais uma vez por Hugo, as duas dispararam em seguida dele, que já estava dentro do prédio.
A boate fazia jus a sua fama. Luzes de várias cores – porém bem fracas – iluminavam as poucas pessoas que dançavam na pista, ou simplesmente saboreavam um drink nas mesinhas de madeiras, rente à parede. Em todo o comprimento esquerdo se localizava o bar, com todas as bebidas que se possa imaginar nas prateleiras; mas estavam praticamente empoeiradas pelos preços que continham.
Assim que o trio pôs o pé dentro, a atenção de todos voltou-se a eles, um a um. Não era normal um senhor de idade, acompanhado de duas jovens, entrar na boate; poderiam até mesmo estar pensando em alguma besteira no momento. Mas seu Hugo, com sabedoria, nem se importou com a atenção, e disse as duas:
– Fiquem por aqui, e aproveitem. Meu assunto é lá em cima.
E desapareceu pela escada ao fundo do clube.
As duas amigas se olharam, ainda nervosas por todos os olhares atentos a elas.
– E então, o que quer fazer? – Paula perguntou a Marie.
– Que tal arranjarmos uma mesa, pra começar? – Ela sugeriu.
Não fizeram muito além de conversar sobre a escola no tempo em que ficaram à sós. Paula arranjou duas latinhas de refrigerante para beberem, sentaram-se e aproveitaram o que podiam. Era uma boate para adultos, e por mais que Paula estivesse meio amedrontada por um lugar tão sério, Marie permanecia calma e continuava sua conversa normalmente (a até mesmo tomou a liberdade de pedir um drink no bar).
– Não me sinto bem – Marie reclamou, depois de dar um gole no seu copo.
– Por que será? Sabia que não era uma boa ideia esse drink aí. – Paula desconfiou da bebida, querendo apenas o bem de sua amiga.
– Não, não um mal estar desse tipo. É algo como um pressentimento...
– Ih, minha mãe estava com a mesma sensação hoje... Conheço bem aquela coçada no queixo...
Mas a voz de Paula foi se esvaindo, pois percebeu que Marie se concentrava medonhamente em algo atrás dela mesma. Sua amiga tinha os olhos esbugalhados, e o copo escorregando pelos dedos recentemente afrouxados pelo horror daquela visão. Paula virou sua cabeça para trás, dando bem de frente com a entrada do recinto.
Uma figura misteriosa, recém-chegada, olhava em volta, como se evitasse alguém indesejado, e fugisse do mesmo. Estava inteiro em preto, sem duvida já um adulto. Vestia roupas largas; uma jaqueta com o capuz escondendo sua face (que ficava impossível de se assemelhar pela falta de luz no local), jeans rasgados à moda e sujo de lama nas barras, e um par de tênis tão surrados e velhos que o pobre quase os perdia a cada passo dado.
– Ah não... – Marie sussurrou sua expressão mudando para uma mistura de raiva e medo.
– O que foi, Ma? – Paula perguntou preocupada, mais muito confusa.
– Não importa o que aconteça, Flor, não saia daqui. Espere Vovô chegar, e diga que Ela chegou. – Marie olhou profundamente nos olhos de Paula, e a fez jurar com um suplício.
– Ela? Ela quem?
O estranho fez rápido contato visual com Marie, e assim que pode ter algum reflexo, saiu em disparada pra fora à rua, segurando o capuz para que o vento não o tirasse a mascara.
– Não tenho muito tempo! Só me prometa, ok? – E seguiu o Estranho na mesma velocidade, sem ao menos esperar uma resposta da amiga.
Assim Paula foi deixada sozinha, com todas as atenções voltadas a ela depois da confusão de Marie. Sem respostas para saciar-lhe as duvidas, se encontrou em uma bifurcação: esperar Seu Hugo, que provavelmente não lhe diria nada além do que Marie, ou segui-la, e realmente saber de alguma coisa? Seu ego batalhou heroicamente um contra o outro pelo o que pareceu eras, mas que na verdade não passou de segundos até sua decisão. Pegou sua bolsa, e sem dar satisfação alguma ao ainda não aparecido Hugo, seguiu o mesmo caminho da amiga.
Por uma pequena fração de tempo, Paula pensou ter perdido o rastro dos dois. Mas sem desistir, andou mais algumas quadras e finalmente os achou, num beco entre dois prédios, cercados por uma audiência de vira-latas e ratos de esgoto. Marie levantava o Estranho pela gola da jaqueta, e apesar de ser mais velho e alto que ela, parecia apenas uma criança indefesa, com as pernas soltas ao ar. Tiveram uma briga e tanto antes de Paula chegar ao beco e se dar com esta cena. Indignada pela ação que a amiga estava prestes a fazer, e também mal informada, coitada, impediu que Marie fizesse qualquer coisa usando um truque que ela mesma tinha ensinado à Paula – um socozinho com o nó do dedo em cima do nervo do braço. Marie soltou o Estranho na mesma hora, sem saber de onde vira o golpe. Ela caiu no chão, e se afastou rapidamente para o mais longe de quem com que brigava minutos atrás.
– O que deu em você!? – Paula perguntou, querendo uma explicação pela violência.
– Paula, eu mandei você...
– Você mesma me ensinou que não podemos brigar! – Ela referia-se a promessa de todo lutador de qualquer esporte fazia em questão as brigas. A mínima que fosse, haveria grandes consequências.
– Você não entende! Essa criatura está aqui só pra acabar com sua vida! Com nossa vida! – Marie tentou revidar.
– Acabar com... Como pode ser? Eu nem o conheço, e como tem tanta certeza? Além disso, também não é motivo nenhum pra sair no soco!
Paula estava muito brava mesmo naquele instante, e se não visse o quanto Marie ficara magoada, com certeza continuaria com o sermão até altas horas. O Estranho apenas se encolheu mais ainda, como sempre, segurando seu capuz firmemente. Paula ofereceu sua mão a ele, que hesitou de primeira, mas depois de pensar, aceitou-a.
Porém, a mão dele (ou será dela? Era muito delicada e lisa para pertencer a um homem.), preservava uma cicatriz fina e oval no indicador, quase invisível, mas muito nostálgica para Paula. Ela fitou o marco da pele por um bom tempo, revendo todas as memórias de quando menor, e finalmente, como numa epifania, lembrou-se de onde tinha a visto.
– Onde conseguiu esta cicatriz? – Ela perguntou, mas o (a) Estranho (a) não respondeu.
– Ok então, já que não vai dizer, eu digo! Consegui-a quando estava passando rente a um cerco de arame farpado, e minha mão raspou em um bem pontudo, deixando essa marca. Mas já não a tenho mais, por que...
–... Você perdeu seu braço naquele acidente. – Ela completou a frase calmamente, porém com angustia – como se tivesse sentido na sua pele a dor.
Paula petrificou. A Estranha era realmente misteriosa e dava calafrios a ela, com uma marca idêntica em sua mão há muito tempo perdida. A única pessoa que já chegou a saber de uma coisa dessas algum dia foi sua família, e ela tinha certeza que a Estranha não era nem seu pai ou mãe.
– Quem... É você? – A pergunta presa à garganta finalmente desentalou e se propagou.
Levantando-se delicadamente, a Estranha fitou os olhos horrorizados de Paula, tirando seu capuz lentamente e mostrando a fisionomia demais de conhecida das duas.
O mesmo nariz arrebitado, rosto e orelhas redondas, madeixas que mais se pareciam filetes de chocolate belga, olhos doces e lacrimosos, pescoço fino; até mesmo o espirito aventureiro que só pertencia a Paula e só a ela, esta Estranha exalava despreocupadamente pelos poros de sua pele. Se um vidro fosse posto entre as duas, poder-se-ia dizer que na verdade o objeto transparente fosse à verdade um espelho magico que te mostrava perfeitamente em seu futuro. Mas não, ela era real, tocável, e estava bem ali, exposta para todos verem.
Paula conteu um grande e estridente grito que vinha do fundo de sua alma à superfície. Mesmo debaixo daquela luz precária que se infiltrava no beco, era evidente a semelhança entre as duas, nem mesmo a mãe de Paula parecia-se tanto quanto ela. Marie, como se seu plano perfeito tivesse lhe esvaído das mãos num piscar de olhos, olhou desconsolada para seus pés, segurando seu cabelo como consolo a si mesma; seu pior pesadelo estaria a se começar, e Paula continuava ignorante ao caso.
– Quem? Quem!? – Ela voltou a repetir a pergunta, mais e mais amedrontada a cada milissegundo. Sua voz falhava, e seus joelhos não aguentavam o peso de seu corpo.
– Eu sou... Eu sou você.
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