A Sonhadora

3 Capítulo 2 - A Verdade Nua e Crua


Paula não passara a noite na casa de Marie, como prometera. Depois do incidente, assim que pisou na rua das duas casas, correu para o seu portão da frente e o bateu trancado, sem nem sequer olhar para trás. Ainda estava abalada com tudo que aconteceu, e simplesmente queria ir dormir o mais rápido possível, pra ver se conseguia enganar-se. Ela mesma só queria acreditar que tudo aquilo era apenas um sonho – melhor dizendo, um pesadelo.

Enquanto Paula desaparecia da vista dos dois, Seu Hugo e Marie se olhavam preocupadíssimos um para o outro. Por todos estes anos, sabiam que um dia as duas viriam a se encontrar; e então ficaram de guarda por todo este tempo, só pra que no final tudo desse errado. Mas o plano, que no começo era algo apenas politico, tinha se transformado em uma grande amizade. Marie realmente se importava com Paula, e a vendo tão ruim a machucava no fundo de sua alma; mas sabia que a ultima coisa que ela queria era mais informações ainda, então decidiram que era melhor ainda não a contar nada o momento. Já tinham um plano em mãos; o que restava agora era vigiar Paula mais ainda, quietamente, para que nenhum outro contato das duas fosse feito.

E assim o final de semana se passou. As amigas se falavam menos e menos a cada dia, e na segunda-feira foram a escola sozinhas da companhia de uma a outra. As primeiras aulas foram monótonas e até mesmo tensas. As duas nem mesmo se olhavam na cara, e toda a sala, acostumada com as conversas paralelas e risadas da dupla, sentiu a atrocidade do caso. Quando o sinal para o intervalo finalmente tocou todos os alunos saíram em disparada para os corredores em busca de se reanimar.

Marie pegou as escadas até o pátio, enquanto Paula esperou para que a sala ficasse totalmente vazia. Sozinha, ela abriu a janela e se esgueirou de corrente em cano e arames até chegar à cobertura da escola. Eu não te disse, mas a escola em que elas estudavam era na verdade um pequeno prédio à beira-mar. As salas do colegial se situavam no ultimo andar, fazendo a subida de Paula um pouco menos desgastante (mesmo assim tão quão medonha). O porém é que sim, haviam escadas para a cobertura, mas não seria Paula se ela não fizesse deste pequeno percurso uma grande aventura.

O fato de a escola ficar em plena avenida beira-mar a dava uma vista ainda melhor do teleférico do Pão-de-Açúcar do que da própria casa de Paula. Ela sentou-se bem na beirada, deixando seus pés soltos, a mercê da gravidade, enquanto sentia a brisa e o sal bater em seu rosto. Amaciava seu longo e sedoso cabelo, hoje amarrado em uma longa trança lateral, sem perceber o ato de suas próprias mãos. De seus lábios ressoava uma bela canção em assovio, que ressoava pelas redondezas. Refletia profundamente sobre aquele acontecimento, agora apenas um sonho medonho criado por seu cérebro, e se sentia muito mal a pensar sobre outra Paula por aí, mesmo que mais velha que ela.

– É uma pena mesmo. – Uma voz grave atrás dela disse. – Vocês duas faziam uma bela dupla.

O emissor desta voz era Bruno, colega de classe de Paula. Não se falavam muito, mas não tinham nenhuma inimizade.

Ele era uma boa pessoa; baixinho, até mesmo menor que as garotas miúdas da sala, cultivava um sorriso permanente no rosto, e por isso às vezes falava comendo algumas consoantes. Com seu cabelo longo prendido atrás, dava aparência enganosa de ouvinte de rock, quando na verdade se reunia com os amigos no final de semana numa rodinha de pagode. Ele entrava vagarosamente pela porta vinda das escadas que Paula não utilizou; segurava na mão duas latinhas de guaraná geladas, recém-compradas na cantina.

– Tome, refresca. – E ofereceu uma latinha para ela, sentando-se ao seu lado. – Mesmo quase no meio do ano, ainda tá fazendo um calor por aqui, não acha?

Mas Paula não prestou atenção alguma às palavras de Bruno, e continuava a olhar tristemente para o mar, agora com a latinha na mão, a esquentar.

– Ei. – Bruno tentou chamar sua atenção. – Qual é, vai me deixar falando com o vento aqui? Sua bebida tá esfriando.

Um singelo suspiro foi a única reação dela.

– Olha, não sei o que aconteceu, nem me importa, mas eu estou aqui fazendo uma força pra te reanimar, antes que vocês coloquem a sala inteira em depressão.

Ainda silencio da parte dela.

– Ok então. Fique aí, estou nem aí.

E se levantou rapidamente.

Ele não conseguiu dar mais que um passo, pois Paula finalmente reagiu, agarrando a barra de sua calça jeans. Sem olhar nos olhos dele, ela perguntou quase como num sussurro:

– Você... Acredita em magia?

– Magia? – Ele disse, confuso com a pergunta fora do contexto.

– Não em si. Coisas de filme... Como por exemplo, clones?

Paula se referia a sua cara-metade adulta, coisa que só imaginava existente em filmes de ficção científica, e que a dava muita dor de cabeça no momento. Queria uma opinião de fora, sabendo que Marie era muito suspeita de esconder-lhe uma grande verdade, e muito mais Seu Hugo. Bruno nem se deu ao trabalho de pestanejar, e soltou:

– Óbvio que não. Só se eu visse um com meus próprios olhos, o que até hoje nunca aconteceu, felizmente.

Paula afrouxou sua mão da calça, gradualmente a soltando. Não comentou a resposta, apenas pôs-se novamente a fitar a borda céu — mar.

– Olhe, isso não me impede de acreditar em outras coisas absurdas, como a esperança que eu tenho de um dia acontecer um apocalipse, e eu poder matar zumbis por aí. – Ele confessou.

– Zumbis?

– Zumbis! – Ele deu um pulo de alegria para trás. – Todos têm um lado assim, que imagina além do prático; a diferença está onde cada pessoa vê esse “impossível”. Existe até aquela palavra muito usada nas religiões, sabe? Mas pode ser aplicada em qualquer coisa em que você acredita cegamente.

– Fé?

– Exatamente. – Ele confirmou. – Assim como existe os crentes, existem os céticos. Precisamos de um equilíbrio de partes, afinal de contas.

E assim ele deixou Paula refletindo na vaga solidão emocional, à custa da própria voz e pensamento. Seria possível outra Paula existir, bem dizendo, coexistir no mesmo universo, sem que houvesse conflito? Ou seria apenas um dos melhores disfarces; quem sabe de uma pegadinha de mau gosto da TV. Indo mais longe, uma filha de Paula, vinda do futuro pra salvar a mãe e assim sua própria pele; tirando o fato de Seu Hugo e Marie parecerem saber de tudo, mas não deixarem vazar a mínima pista, a menor informação possível da aparição dessa figura tão misteriosa e semelhante a si própria. Toda vez que Paula pensava nestas ilimitadas possibilidades, calafrios percorriam seu corpo inteiro, e a deixavam com medo. Aquela menina que sonhava alto com a volta ao mundo, recuando por algo provindo dela mesma.

Deixou todo seu material na escola, e saiu a pular de prédio em prédio pelas avenidas do Rio. Pela primeira vez em toda sua vida escolar, Paula matou aula.

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Sem a orientação de seus pais, Paula ficara na rua até tarde sem dar satisfação; o por do sol já começava quando colocou os pés no jardim de sua mãe. Passou pela porta sem que seu tio nem se preocupasse em perguntar “tudo bem?” a ela, e foi até seu quarto rapidamente.

Meio bagunçado, como sempre, o quarto parecia o mesmo; mas um pequeno pedaço de papel amarelo se destacava em cima de uma pilha de roupas usadas. Inscrito nele, poucas palavras: “No telhado, á noite. Estarei esperando-te, e prometo a verdade.”. Paula já desconfiava de quem viera, e o calafrio que se espalhou por seu corpo foi inevitável. Agasalhou-se com uma jaqueta, pois com os dias quentes, as noites frias eram previsíveis. Demoradamente, se pôs a subir as escadas para o sótão, e assim que o alcançou, já pode ver um vulto negro bloqueando a entrada do luar no aposento empoeirado; porém, pouco tempo demorou em voltar a sumir. Paula se apressou em chegar à minúscula janela que dava para o telhado de sua casa, e se esgueirar por ela.

– Olá. – Paula Adulta disse, ainda escondendo seu rosto em um capuz negro. Usava exatamente a mesma roupa do dia em que os problemas de Paula começaram, a única diferença é que estavam bem mais sujas. Ela parecia não ter tomado um bom banho há dias, e cá entre nós, não tinha mesmo.

– Vai me dizer a verdade? – Paula pulou todas as formalidades, e foi direto ao que lhe interessava.

– Eu prometi, afinal de contas. – Paula adulta concordou.

– Então comece a falar! Quem é você, de onde veio, por que está aqui e por que se parece tanto comigo?

– Entendo. Pois então assim será. Melhor sentar-se, não é uma história curta.

E assim, com as duas sósias, uma ao lado da outra, Paula adulta começou a redigir sua história:

– Para começar, tenho de te dizer: não sou deste mundo.

– Você é uma extraterrestre? – Paula perguntou muito assustada, pois foi a opção mais próxima do real que ela podia encontrar.

– Não, não digo mundo como planetas, mas sim como universos. Os mesmos planetas, o mesmo sistema solar, a mesma Via-Láctea, uma cópia perfeita. Só que como digo, são cópias.

– Quer dizer... Que você sou eu, em outro universo? – Paula foi montando o quebra cabeça. – É sério que você quer que eu acredite nesse absurdo? Tudo bem algo como um clone, alguém podia ter tirado meu DNA de minha unha e ter te criado, mas algo como universos? Sério?

Paula pareceu um tanto surpresa. Em sua cabeça, a reação de sua sósia a tal informação era bem mais aceitada. Do mesmo jeito, foi à remenda.

– Você é louca por chocolate, não gosta de tomar banho, mas toma, pois não aguenta ficar suja; também odeia goiabas e morango, mesmo parecendo tão suculentos a ponto de derreter na boca. E o seu diário que você tentou escrever quando estava começando a aprender o abecedário? Não passou de cinco páginas.

E conseguiu remendar!

– Aconteceu praticamente a mesma coisa comigo. Vai me deixar terminar agora?

Paula fechou a boca e desviou seu olhar, como num pedido de desculpas.

– Bom, há um motivo para eu estar aqui, neste momento. A passagem entre os dois mundos leva tanta energia, você não tem nem ideia; mas é de extrema importância.

– Pule direto pro assunto!

– Pois bem! – Paula adulta não estava acostumada a ser apressada por uma criança, e quase que ficara ofendida com as palavras dela.

E assim ela pôs-se a descrever toda a história de como foi obrigada a procurar ajuda com uma pessoa tão nova. Pularemos esta parte do dialogo, pois eu mesma irei lhe contar todos os fatos que se antecederam nos últimos dias – nas últimas décadas também, pois sim. No mesmo país que conhecemos geograficamente, mas tão diferente por dentro.

Não se chamava Republica Federativa do Brasil; era ainda monarquia, mas não uma monarquia comum. O povo escolhia os reis e rainhas por meio do voto, uma forma muito diferente de governo, que por mais estranha que fosse, funcionava.

Por mais de três gerações, o povo da República Monárquica do Brasil vivia em paz. Os últimos reis tinham boa cabeça, e reinaram prosperamente por anos e anos seguidos. Além destes fatos, neste mundo de que estamos falando, a magia, dos dois tipos, é muito mais conhecida e praticada do que aqui (que ao total contrário é tratada como imaginação infantil ou coisa do Tinhoso.); e este é um fato importantíssimo para que estivéssemos neste ponto da história.

A Paula deste mundo era praticamente a mesma Paula do nosso: aventureira, sonhava com a independência e não podia esperar pra que seus pais a deixasse sair de casa. Apesar de sonhar todas as noites em entrar num barco de exportação de café e se ir por aí, amava sua família tanto que nem pensava em desobedece-los.

Um fato mudou completamente a vida dela, porém. Era um belo dia do ano 1926, e Paula estava prestes a sair de casa para finalmente ser uma moça adulta; seu dia havia finalmente chegado, e ela arrumava as malas. Você deve estar se perguntando, “como raios Paula pode ter nascido na época de 20, e no século XXI possuir ainda tão pouca idade?”. É exatamente esta história que irei lhe contar agora.

Esta Paula tinha uma peculiaridade maléfica em seu ser: ela buscava o poder. Se pudesse ver o mundo inteiro em apenas uma vida, imagine se não tivesse hora pra morrer? Pois bem, isso podia ser feito. Sim, sim, melhor dizendo:

Podia ser achado.

Uma velha lenda antiga contava que, no fundo mais tenebroso da Amazônia, onde onças reinavam como leões na savana, se achava uma pedra preciosa, poderosa o bastante para te sustentar vivo pela eternidade. No dia de sua partida, Paula havia achado um mapa dentro de um livro velho de sua avó paterna, que estivera dentro de uma mala velha e suja por todo esse tempo. Numa coincidência, Paula acabara pegando-a para leva-la a viagem, e achou o pedaço de papel que tantos se sacrificariam para tê-lo. Na mesma hora, mudou sua rota épica e foi em busca do tesouro.

Viajou dias e noites de carona com vendedores e clandestinamente nos trens que cortavam o Brasil; ela dava seu jeitinho pra tudo, arranjando comida e estadia do jeito que podia. Vivia uma vida muito precária, mas a ganancia mantinha seu foco obcecadamente. “O que seria tal sofrimento em comparação à eternidade de glórias?” Depois de tanto esforço, faltava apenas alguns quilômetros que ela teria de fazer a pé no meio da mata fechada, até chegar ao seu destino. Porém mais um obstáculo entrou em sua frente.

Do outro lado do mundo, na Cidade Proibida, Beijing (onde ainda havia um Imperador governando) uma garota trabalhava como braço direito dele, e guardando a pedra a distancia, para que nenhuma outra pessoa fizesse a mesma besteira que ela própria cometeu eras atrás. Se você não sabe quem é, te darei uma dica: Cabelos ruivos como o fogo combinados estranhamente a dois olhos orientais. Sim, estamos falando aqui de Marie; e obviamente você está se perguntando de novo como é possível, se ela tem a mesma idade de Paula do nosso mundo. Bem, isso já não me cabe descrever aqui, então voltemos a história.

Assim, com a aproximação de Paula ao esconderijo da pedra, Marie a acompanhou á distancia com a grande gama de magia que possuía, e um pote de porcelana cheio de agua transparente como espelho. Torcia para que a garota desistisse dessa perseguição inútil e frustrante, antes que achasse a pedra e se arrependesse disso depois. Quando viu que ela estava perto demais, não esperou mais nenhum momento, e partiu imediatamente para impedi-la.

E foi desta maneira que as duas se encontraram em plena Floresta Amazônica, no meio da noite, a apenas alguns metros do esconderijo. Podiam até ter ido com a cara uma da outra de primeira, mas esta simpatia mutua se desfez assim que trocaram ideias. Marie, com a experiência que tinha sobre o poder grandioso do brilhante magico, tentou impedi-la quantas vezes possível, e ainda mais um pouco, em vão. Não importava o quão forte seus argumentos eram, Paula ficou surda até mesmo, não se importando com as consequências de tamanho poder. Só pensava na vida eterna e seus benefícios. Brigaram tão feio, que após tal acontecido, se repugnavam até n’alma.

E assim, sem chegarem a um acordo, Paula deixou Marie falando com o vento, e correu em direção ao local que tanto sonhava com.

Mas o sonho se acabou.

A pedra preciosa, um belo diamante negro, se encrostou na pele e carne de seu colo, bem ao centro. Deste dia em diante, nunca mais foi a mesma Paula. Não tinha energia para nada, e mesmo assim, o tempo passava rápido demais para ela.

Seus pais se foram. Seus amores se foram. Seus amigos se foram, assim como todos que conhecia se foram. Só restava ela, entre uma multidão de estranhos.

Sua vida já era insuportável, mas nem em suicídio podia pensar, não era uma opção. A pedra que perfurou seu peito era irremovível, por mais que se cortasse no local; em alguns momentos, uma camada nova em folha crescia como pé de feijão no lugar dos rasgos e cortes feitos, e a pedra voltava como imã para a cavidade. Todo o esforço apenas a causava mais dor e sofrimento, tanto físico como emocional.

Desconsolada, queria sair de casa e viver como mendiga; a vida já não lhe dava prazer, e assim não tinha o singelo objetivo nela; o que restava era vagar pelas ruas. Não precisava nem de comida ou um lugar quente pra dormir, mesmo sofrendo nada podia a tirar desta vida. Já procurava por aquela mesma mala de couro que levou naquele dia maldito para sua jornada, e quando a achou, encontrou aquele livro do mapa junto. Empoeirado e velho, como de se esperar, brotou uma curiosidade em Paula, que folheou por ele. Foi então que achou um jeito de tentar se livrar de sua maldição, bem embaixo de seu nariz por tanto tempo! Não anularia totalmente os poderes da pedra, mas poderia alivia-lo o bastante para que ela pudesse pelo menos ter energia suficiente para ir ao mercado, ou andar pelo parque sem desmaiar.

Durante meses sofridos, uma nova jornada foi trilhada por Paula, que viajou pelo Brasil inteiro. No final de praticamente um ano, a única coisa que lhe restava ao peito era um rubi menor que sua unha do indicador. Já podia correr a falar sem fatigar, mas a aparência jovem e vida eterna ainda lhe acompanhavam á alma.

Era quase Ano Novo, 1969 para 1970. Paula voltou a sua cidade natal, Rio de Janeiro, para ver os lindos fogos à beira-mar. Agora com a alma mais limpa, finalmente podia sorrir sem que se sentisse culpada. Chegando a cidade, já que ninguém a reconhecia mais – nem mesmo os velhinhos e velhinhas que se sentavam todos os dias nos bancos das praças – sorria mais abertamente ainda; mesmo estando usando farrapos e precisando de um belo banho. Naquela véspera de Ano Novo, ela começava uma vida nova, e desta vez, com a lição aprendida e cabeça de gente com experiência, pretendia achar um emprego e ficar por lá mesmo. Sem mais aventuras por enquanto, quem sabe mais pra frente? Ela tinha ainda uma eternidade inteira pra isso.

Naquela tarde, se instalou num albergue (pois sua antiga casa tinha sido totalmente abandonada, e agora estava quase que caindo aos pedaços de tão podre). Tomou um bom banho e se arrumou bastante para a noite. Sentia-se bonita depois de tantos anos, e tão viva como nunca! Algumas horas antes do grande evento ela desceu a pé para a praia de Copacabana, e entrou no mesmo navio que a Família Real estava (obviamente, como clandestina. Maus hábitos são duros de se largar – principalmente quando são práticos).

Iria assistir à queima bem embaixo dos fogos.

No navio, uma festa ao ar livre se passava. Várias mesas de toalha branca, pessoas vestidas de branco com copos de champanhe na mão, e uma banda ao fundo, ritmada na valsa. O rei e a rainha, juntos a sua pequena filhinha (de no máximo três anos de idade) estavam de pé, o rei conversando sobre futebol e politica com seus colegas, e a rainha compartilhando as novas da semana com as amigas. Era uma noite calma e quente, absolutamente nada podia dar errado.

A não ser, claro, um pequeno acidente.

A pequena princesa, que adorava o mar, se viu tentada a pular daquela altura só para se banhar. Colocaram-na numa cadeirinha própria para crianças, mas esperta como era, conseguiu se soltar dela, e num momento de distração da rainha, a pequena se pôs a correr para a beirada, pronta para o salto. Quem iria saber que essa sapeca princesa seria quem faria da rainha e Paula duas grandes amigas.

Paula, assim que percebeu o grito aterrorizado da rainha e a princesa à beira do abismo, saiu em disparada por entre as mesas e garçons num reflexo. A essa altura, porém, a princesa já estava flexionando os joelhos destreinados para o salto. Paula, com um impulso, pulou e deslizou de costas pelo chão de madeira encerada, se esgueirando pela fenda da grade de proteção do barco. A rainha quase que desmaiou, pensando que de nada valeu o esforço de Paula em agarrar a menina, sendo que estava caindo pelo mesmo lugar que ela. Mas estavam sendo precipitados, pois Paula prendeu-se no barco usando seus pés como ganchos, que se apoiavam fortemente na grade de proteção. Um momento de silencio fúnebre se prolongou. Teria Paula conseguido pegar a garota a tempo?

Não se passou muito e ela gritava para todos:

– Peguei! Ela está bem!

Foi um alívio geral. Todos se juntavam para ajudar as duas, porém os homens gradativamente desviavam o olhar. O que acontecera é que o vestido de Paula tinha virado ao lado contrario com a queda, e sem mãos disponíveis para puxar ele de volta, deixava forçadamente as roupas intimas de baixo à amostra. Mesmo assim, pouco a pouco, a princesa e a plebeia foram trazidas de volta ao chão, são e salvas. A rainha estava à beira de lágrimas, e recebeu sua filha como se nunca mais fosse a deixar sair de seu colo.

Já de pé, Paula recebia tantas congratulações que estava quase tonta. Diziam coisas como “viram como correu agilmente por todos nós? Era como se flutuasse!” ou “e o jeito que usou os pés pra se segurar? Quase pensei que ela tinha ido junto com a Princesa!” e infinitas outras coisas. Não lidou muito bem com eles – quase que escondeu atrás do contrabaixo da banda de tanta vergonha.

O rei e a rainha, tão gratos, concederam um pedido, qualquer coisa que Paula os pedisse e que estivesse ao poder deles. Já que sua velha casa estava aos pedaços e ela precisava de um lugar pra ficar, pediu qualquer quarto que fosse até quando ela se arranjasse. Acabou por ganhar um dos maiores e melhores que se podia ter na Mansão do Palácio.

Por ver a família todos os dias antes que eles saíssem para o trabalho, Paula ficara muito amiga da rainha, e pouco a pouco, cargo por cargo, conseguiu a bela posição de Conselheira Real. Com o emprego, conseguiu dinheiro suficiente para restaurar a sua antiga casa, e voltou a morar nela.

E o tempo passou, e passou.

Rose entrou na candidatura à rainha, e conseguiu o posto, seguindo a mesma linha de governo que sua mãe. Assim que deixaram o reino à filha, os antigos rei e rainha do Brasil se mudaram numa casinha no interior de Minas Gerais. Rose se casou com Leonardo, e os dois tiveram duas lindas filhas, Anabela (a mais velha) e Adrielle (a caçula). Por anos e anos, viveram todos em paz, até o mês em que nos encontramos.

Veja bem, Paula mantinha um tipo de laboratório em seu sótão (onde ajudava nas descobertas científicas sempre que podia), e lá, entre dezenas de potes bem fechados, se encontrava uma praga horrível. Digamos que Paula era a uma das poucas pessoas que mantinha este vírus específico em todo o Brasil.

Nomeada Lacrimosa (por ter como sintoma o branco dos olhos do infectado se tornar totalmente vermelho de sangue), esta doença levou a morte milhares de pessoas no mundo inteiro, foi uma verdadeira epidemia que se alastrou rapidamente em meados do século XIX. Infelizmente quem já estava contaminado não sobreviveu, mas a doença conseguiu ser contida depois de muito trabalho e vacinação no globo. Foi uma das poucas situações em que o mundo realmente se juntou como um só pra se ajudar.

Era um dia normal, agradável, um pouquinho frio, mas ainda sim saboroso. Paula trabalhava normalmente em seu escritório no Palácio, mexendo em rios de papéis, quando a Rainha Rose, de repente, escancarou a porta da sala, se jogando desesperada nos braços de sua amiga.

– Me diga que não é verdade Paula, me diga! – Ela dizia entre soluços e lágrimas. – Você nunca faria uma coisa dessas, faria?

– O que foi Rose? – Paula perguntou aflita para saber o que se passava.

Rose segurou a mão de Paula e cambaleando a levou rapidamente até um dos vários aposentos. Sentada em sua cama, Anabela chorava pesadamente; mas não era um choro de lágrimas comuns. Pesadas, densas e incrivelmente vermelhas. Lágrimas de sangue puro.

Paula congelou. Toda a situação se desenrolou em sua mente, assim como as possíveis evidencias apontando para apenas e só ela – em um raio de pelo menos dois estados, não havia mais ninguém que contivesse tal vírus.

Instantes após, Rei Leonardo apareceu na porta também, com um frasco de testes vazio. Uma etiqueta branca deixava bem em evidência, em letras maiúsculas:

“Lacrimosa. Perigo Mortal! Não abrir.”

– Eu também gosto muito de você Paula, e não quero acreditar nisto. Mas este frasco estava junto da xícara de café que Ana bebeu depois do almoço. Não há outro suspeito.

Paula não conseguia articular mais que meias palavras. Não tinha nem ao menos tocado neste recipiente fazia anos. Ao fundo, o choro pesado de Anabela a amargurava ainda mais. Percebendo a presença de Paula e muito desorientada (o choro, combinado com as veias estouradas dos olhos a deixaram momentaneamente cega), perguntou a ela com dor:

– Foi você quem fez isso, Pá? – Anabela era boa amiga de Paula, assim como sua mãe e sua avó. – Por favor, me responda!

Se fez silencio. Paula engoliu em seco, tentando desmentir todo este plano para cima dela.

– Por duas gerações eu estou aqui, trabalhando e vivenciando um dos períodos mais alegres da minha vida. Por que eu faria uma coisa dessas, logo pra você Ana?

– Então quem? Eu sempre tentei ser educada com todos, e sempre fui até onde me lembro! Quem poderia fazer algo tão terrível como isso? – Ela voltara ao seu pranto, e agora já estava toda coberta em vermelho.

– Não sei Aninha. – Ela se sentou ao lado da jovem adulta, segurando sua mão suja de sangue.

Parou e pensou por um segundo. Apesar de haver mais profissionais que continham a Lacrimosa, ela era a única talvez em todo o planeta que tinha uma possível cura. Quase impossível de se conseguir, mas ainda sim, uma opção desesperada. Não teve de cogitar uma segunda vez.

Estava decidida.

– Vou te curar, Aninha.

Os suspiros de surpresa se propagaram pelo quarto.

– Como? Não existe cura, Pá.

– Existe, só que ninguém sabia dela além de mim. Até hoje.

Paula deitou a enferma na cama, guiando-a cuidadosamente.

– O que você vai fazer Pá? – Anabela estava muito assustada.

– Você não aguentaria sozinha por tempo o suficiente, pra que eu achasse esta cura. – E dizendo isso, cravou sua mão na pequena pedra vermelha que restava do Diamante, e salpicando-o com as lágrimas de Anabela, a fez cair num sono profundo, num tipo de hibernação. Um procedimento magico que custou bastante de sua energia, mas era preciso. – Então você dormirá até que eu te ache uma vida nova.

E deste modo, sacrificou a própria longevidade e juventude por sua amiga, mesmo não tendo a culpa de nada. Não podia ver Ana ir-se com tão pouca idade, e assim, à beira da morte, e (secretamente pensou consigo) essa podia ser a tão preciosa chance de se ver algum dia como era antigamente:

Puramente normal.

E assim, voltamos ao presente, ao nosso presente – aonde Paula veio a este mundo em busca de sua outra eu. Cheia de vitalidade, nossa Paula teria muito mais chances de suceder em tal missão que esta surrada alma, a beira da morte.

– Sei que não é algo fácil, não é para ser mesmo – por isso te darei tempo o suficiente para pensar no assunto – Só que precisamos de sua ajuda...

– Espera. – Paula a interrompeu. – Quer dizer que só por que foi a princesa a afetada, ela consegue uma cura? Só por que ela tem todo o poder e essas coisas, ela consegue se safar? – Paula não gostava nem um pouco de tal coisa. – E se fosse alguém de classe pobre, morreria sem nem pensarem antes?

Paula Adulta se surpreendeu com o ceticismo de sua mais nova. A diferença de conceitos entre jovens e adultos crescia, e ela sentia tal distancia a cada ano – e com certeza estava mais forte neste momento.

– É claro que ajudaríamos uma pessoa pobre. Independente da classe, todos são seres vivos, tem o direito de viver. Mas pense bem — a primeira é a princesa; mas logo, será o cozinheiro, os filhos dele, os amiguinhos dos filhos, e assim em diante. – Ela explicou a cadeia de contaminação. – Se daqui uma semana não houver cura, a doença vai se propagar tão rápido quanto uma gripe, e assim uma epidemia mundial pode acontecer de novo.

– Nossa... – Paula realmente não tinha pensado em tal coisa. Cogitou a possibilidade de realmente ajudar a achar tão cura. Podia ser a tão esperada aventura que vinha sonhando por todo esse tempo.

Mas passos gentis no telhado atrapalharam não só em sua concentração, quanto na de sua sósia – que pulou e assumiu uma posição defensiva instantaneamente.

– O que queres? Vai interferir nas boas ações desta Paula também? – Paula adulta esbravejou; era notável sua antipatia com tal pessoa.

Tal pessoa, quem seria? Pois Paula disse:

– Marie!?

Não era a Marie suportiva e carinhosa que vocês conhecem. Sua expressão era assustadoramente sombria, seus olhos âmbares reluziam junto à lua cheia, e esbanjavam ódio, como se protegesse sua pequena cria – e estava mesmo: Paula, sua melhor amiga. Tão pequena e inocente em comparação as duas almas velhas que competiam por sua lealdade.

– Você não vai a lugar nenhum, Flor! Não sem minha concepção!

E esse era o começo do fim.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.