A Sociedade dos Planetas
1 Capítulo 1: Acreditar
Notas iniciais
Eu vejo, mas não controlo minha visão. Eu ando, mas não controlo minha direção. Minhas pernas me guiam para um lugar desconhecido, estou em um corredor de muros imensos e brancos, com alguns buracos em pontos mais altos. Ando até um arbusto e me abaixo para me esconder. Não sei do que eu estava me escondendo, mas o meu eu que estava controlando eu corpo deve ter um bom motivo para isso.
Através de algumas brechas no arbusto posso ver dois homens um pouco idosos, por volta de sessenta anos, conversavam. O da esquerda, que vestia uma túnica branca cobrindo seus pés e segurava um cajado transparente onde na ponta havia uma pedra preta brilhante que girava rapidamente, falou:
-Finalmente, chegou a hora de deixá-los andarem com seus próprios pés.
-Isso é só um experimento e você sabe. –falou o da direita que vestia uma túnica também, só que preta, e seu cajado era feito de sombras e na ponta havia uma pedra tão brilhante quanto a outra, só que branca. –Se os humanos e os outsiders mostrarem que podem conviver em harmonia, nossa intervenção não se fará mais necessária e poderemos dar mais atenção para o resto da criação que ainda se encontra no caos.
-Sim. Eles conseguirão, eu acredito. –disse o de branco sorrindo.
Os dois eram exatamente iguais: pele branca, barba comprida e grisalha, com cabelo curto e branco. Possuíam uma altura média de uns 1.80m e suas faces eram totalmente amigáveis. Até então não tinha parado para observar o local onde me encontrava. O chão era literalmente feito de nuvens e havia 28 pilares que formavam um quadrado perfeito. Algumas aves douradas que eu nunca havia visto na vida passavam tranquilamente entre os senhores como se fossem velhos amigos.
-O teste não é nem um pouco simples. E dependerá de poucas pessoas. Devemos deixar tudo preparado com os outsiders, os humanos serão os últimos a escolherem seu representante. – diz o senhor de preto.
-Como eles o farão? –pergunta o de branco.
-O destino reservará. O primeiro a atingir o cosmo da fé máximo será o escolhido. Esse é o maior teste dos humanos: acreditar. –fala o senhor das sombras.
-Tudo bem. Temos um dia para pensarmos em mudar de ideia. –fala o de branco.
-O que é improvável, mas tudo bem. Irônico que nosso plano tenha coincidido com o dia da Criação. –fala o de preto e os dois começam a se afastar flutuando.
-Sim. Dia 25 de dezembro. –fala o de branco e os dois somem em uma explosão brilhante.
O meu corpo se levanta e dá alguns passos na direção das nuvens, porém por alguma razão (não sei se eu era tão gordo assim), as nuvens não são sólidas e no primeiro toque, eu passo direto por elas. Caio descontroladamente e finalmente consigo controlar meu corpo, não em uma boa hora é claro. Ao ver que já consigo distinguir árvores e prédios, percebo que estou próximo demais do impacto. Um grito de puro medo explode pela minha garganta e tudo escurece.
Eu acordo com o barulho de várias buzinas sincronizadas vindas do lado de fora do apartamento. Tento abafar o som com o lençol, mas não adianta muita coisa. Viro para o outro lado e ponho o travesseiro sobre a cabeça, mas o barulho continua. Véspera de natal era uma droga mesmo.
Levanto da cama e saio do quarto. Vou até a cozinha e pego uma tigela para encher de cereal. Coloco leite da geladeira na tigela e pronto, meu café da manhã está pronto. Pego uma colher da gaveta e sento para comer meu lindo café de natal. O relógio marca 10:00h e sei que Bran está para ligar e falar como ficar em casa no natal é estranho e sem sentido, mas ele não me faria mudar de ideia. Eu passaria o natal em casa e se ele não ficasse comigo passaria o natal sozinho também.
O sonho da noite vem a minha cabeça e lembro que os dois senhores falaram que tudo aquilo que discutiam iria começar dia 25, no dia do natal. Não que eu estivesse preocupado com que dois velhos aparecessem flutuando na minha frente dizendo que eu tinha uma missão (isso seria demais), porém era meio anormal eu ter sonhado isso justamente na véspera do natal.
Meu nome é Ian Washington. Sim, sobrenome mais exagerado que alguém poderia ter. Eu tenho dezenove anos e moro sozinho em um apartamento na cidade de Nova York. Moro aqui faz dois anos, quando larguei minha família para fazer faculdade de teatro. Meus pais me apoiaram e me ajudaram até o meio do ano passado, quando eles sofreram um acidente de carro e morreram.
A morte deles foi um grande impacto para mim. Passei quase seis meses sem nem sair de casa e se não tivesse amigos tão bons quanto Bran, eu provavelmente teria morrido de depressão. Bran ficava comigo quase todos os dias, me alimentando e me mandando dormir quando necessário. Ele nunca me deixou na mão e eu nunca iria merecer um amigo tão bom quanto Bran é para mim.
Hoje, ainda continuo minha faculdade, embora esteja de férias no momento. Consegui voltar a minha rotina normal, o que não significa que não me lembro dos meus pais todo dia. Ao tomar a última colherada da minha gororoba matinal, ouço meu celular tocando e corro até o quarto. Pego-o de cima da cama e não me surpreendo ao ver que é Bran quem está ligando.
-Feliz natal, bom velhinho. –ele fala mais alto que o necessário.
-Bom dia. –respondo desanimado.
-Se você disser que vai passar a noite em casa, vou definitivamente coroá-lo o mais sedentário jovem adulto rico e solteiro da cidade. –ele diz e eu sorrio.
-E você é o mais hiperbólico jovem adulto que mora com os pais da cidade. –eu digo e ele ri um pouco alto demais considerando a minha piada ruim.
-Realmente não existe ninguém igual a você, Ian. –ele fala. –Vou chegar aí depois da meia-noite para assistirmos algum filme. Eu sei que dormir você não vai mesmo.
-Ok. Obrigado por não insistir. –falo.
-Tudo bem, eu sei que sou demais. Tchau, até logo. –ele fala.
-Tchau. –respondo e desligo.
Existem três coisas que você precisa saber sobre Bran. Primeira, ele é hiperativo, mesmo isso não sendo tão difícil de deduzir. Segunda, ele não tem responsabilidade alguma. Um pouco aceitável considerando que ele sempre viveu com os pais ricos que lhe davam tudo o que queriam. E terceiro, mas não menos importante, ele é popular. Algo também não tão difícil de descobrir se você convivesse com ele por mais de uma semana (o que, para mim, eram dois anos), já que ele saía todas as noites. Não importa quantas outras ramificações da personalidade dele você tentar procurar, todas se basearão nessas três.
Ligo o chuveiro e tomo meu banho. Mesmo que eu não vá sair, visto uma calça jeans preta, uma camisa cinza e um all star preto. Sento no sofá da sala e ligo a TV. A previsão do tempo fala que um fenômeno raro de ventos está atingindo a cidade e que, se possível, deveríamos evitar andar sem agasalhos. Como resposta, um vento estranhamente forte atravessa o apartamento e derruba o retrato da prateleira que ficava acima da televisão.
Pego o retrato e vejo que não sofreu muitos danos. Era uma foto minha e do Bran lado a lado, nós estávamos bem felizes após terminarmos o primeiro semestre da faculdade. Um pequeno rachado aparecia na cabeça de Bran. Eu não era supersticioso, mas ver a cabeça do meu melhor amigo ser atingida daquele jeito não me parecia uma boa coisa. Olho para o chão e percebo que onde o retrato há pouco estava caído se encontrava um pequeno pedaço de papel, provavelmente rasgado de algum caderno comum. Viro o papel e há uma mensagem escrita: “Lavo, 39 East 58th St.”.
Porque o endereço de uma das baladas mais movimentadas da cidade veio parar no chão do meu apartamento? Depois de passar mais alguns instantes olhando para o papel, eu o dobro e guardo no bolso. Provavelmente, era um papel do Bran contando seus planos para a noite, então ele iria a Lavo. Era até que um bom lugar, talvez eu pensasse em ir. Minha relutância em sair de casa nunca fora por eu ser sedentário, como disse Bran. Eu não saía de casa porque tinha medo. Sim, eu tenho medo de sair de casa. Não é algo para se chamar de fobia, porém é forte o bastante para me fazer evitar qualquer contato com o exterior do meu apartamento. E Bran sabia disso, só não gostava de admitir porque achava que me deixaria depressivo novamente.
Já são uma e meia da tarde quando resolvo ir atrás de algo para almoçar. Olho na geladeira e não encontro nada, então pego o celular e peço uma pizza. Mesmo minhas refeições sendo assim, completamente inconstantes e não saudáveis, eu sou magro, mas nem tanto, vamos dizer que eu sou normal em relação ao peso. Minha pele é branca, meu cabelo é moreno e um pouco arrepiado, eu o deixo um pouco grande já que evito sair de casa para cortar. Meus olhos são pretos, nada de castanho-escuro, apenas pretos. Tenho 1.78m e para diferenciar de qualquer um a única coisa que você tem que ver é a cicatriz completamente anormal no meu lábio superior, como se eu tivesse feito um “x” com a ponta de uma faca em um momento de loucura.
O dia se prolonga rapidamente com a minha alternação de assistir TV e ler um pouco. Eu lia bastante; no meu quarto havia uma prateleira onde eu guardava meus livros, eu já possuía 154, todos conquistados após o fim da minha depressão, afinal, eu tinha que preencher a minha mente com algo. Os livros eram a minha válvula de escape muitas vezes. Eles faziam com que eu entrasse em um mundo agitado e cheio de aventuras, um mundo que eu nunca poderia conquistar, porém um mundo que não importa quanto o personagem principal sofresse, ou morresse no final, sempre seria melhor do que essa coisa que chamamos de realidade.
Já passava das nove horas da noite quando ouço meu celular tocar. Ao pegar o telefone fiquei apreensivo, não era Bran. O número era desconhecido. Reluto mais um pouco, porém acabo atendendo do mesmo jeito.
-Alô?-pergunto.
-Prepare-se. –fala uma voz feminina.
-O quê?-pergunto, mas ela já havia desligado.
Tento retornar, mas só cai na caixa postal. Que tipo de pessoa ligava para alguém só para falar “Prepare-se”? Algo realmente muito estranho estava acontecendo e o vento frio vindo do lado de fora só reafirmava isso. Ando até a janela e vejo que a noite está nublada, as luzes não podiam estar mais fortes e os inúmeros carros que passavam pela Broadway pareciam inquietos para atingirem seus objetivos. As árvores do meio fio encontravam-se completamente brilhantes e coloridas, e ainda muitas pessoas com grandes sacolas que seriam os presentes para a noite.
Tudo estava acontecendo de uma forma bem engraçada. Mas todos esses pressentimentos me fizeram pensar que ficar em casa realmente não era uma boa ideia. Decido que vou a Lavo para descobrir o que me aguarda lá. A única coisa que ainda me incomoda é o rachado na cara do Bran, parecia que algo aconteceria com ele, mas ele nem havia me ligado. Eu deveria estar ficando um pouco maluco para acreditar nessas coisas, nada iria acontecer. Dirijo-me até o banheiro para me preparar para a noite.
Abro o guarda-roupa e observo as opções. Essa noite, vou vestir um blazer de veludo preto sob uma camisa social azul cobalto com listras verticais brancas. Pego também uma calça jeans slim preta com sapatos estilo derby pretos. Termino de me vestir e ajeito um pouco o meu cabelo que estava completamente desarrumado, deixo-o arrepiado, porém um arrepiado arrumado.
Pego o papel que contém o endereço e coloco no bolso. Fecho a janela do quarto e desligo as luzes do apartamento. A sensação de atravessar a porta do meu apartamento é assustadora, meu coração dispara e minhas pernas já não parecem aguentar mais o meu peso. Mas em casa eu não ficaria. Não agora que eu tinha um objetivo, temporário, mas ainda assim um objetivo, que era desvendar o mistério da Lavo.
Desço as escadas e chego ao térreo. Já do lado de fora do prédio, espero por um táxi que não demora tanto para passar.
-Pode me levar até a Lavo Nightclub? 39 East 58th St. –falo e o motorista só concorda.
Não demoraria tanto para eu chegar. Eu morava no Upper West Side, na 82th St. Passamos por boa parte da Broadway para chegarmos a Lavo. Entrego o dinheiro ao motorista e saio do carro. A fachada da balada/restaurante era bem simples e moderna. Havia Lavo escrito, onde de um lado ficava o restaurante e do outro a balada. Limusines se enfileiravam na frente do restaurante e pessoas se amontoavam na entrada.
Ando até o grupo de pessoas que quer entrar e penso o que eu realmente vim fazer aqui? Um vento muito forte atinge toda a rua e é necessário que eu coloque meu braço para proteger meu rosto. De repente, algo duro e fino atinge a minha cabeça, me lançando para trás. Caio de costas no chão, onde ouço uma voz: “Bem-vindo”.
Viro e fico de barriga para o chão. Só há um lugar de onde a voz pode ter vindo. Um bueiro se encontra logo a minha frente. Estico meus braços e tiro a tampa, não sei o que desejava encontrar, mas tenho certeza que ouvi uma voz. Um chapéu preto gigante chega voando e cobre todo o meu rosto; demoro alguns instantes para retirá-lo, mas algo ainda mais surpreendente acontece. Uma força paranormal, que com certeza não era o vento, me puxa para dentro do bueiro e sou levado para o buraco.
Não demora muito até eu estar gritando desesperadamente enquanto caio de cabeça em um buraco apertado. Após alguns segundo de queda, eu já não aguento mais gritar e tento me acalmar. O espaço do buraco oscila e já não estou caindo verticalmente, e sim um pouco inclinado. Quando estou praticamente na horizontal, já deve ter se passado mais de um minuto. Meus joelhos ardem por dentro da calça e já bati tantas vezes meu queixo que já não sei se ainda consigo falar.
Eu vejo uma luz fraca, porém real, logo à frente. Estico meus braços e em segundos sou jogado no vazio. Meus olhos encontram-se fechados e mesmo que eu sinta que não estou mais caindo me recuso a abri-los. Ouço passos na minha frente e ao meu lado.
-Será ele?-pergunta um homem.
-Só pode ser. Não tem como estar errado. –fala uma mulher.
-Eu esperava alguém mais velho. –fala outra mulher.
-Deem um desconto para o garoto. –fala uma voz de homem, porém um pouco mais novo que o outro. –Com licença?
A dor do meu corpo é grande e posso sentir que meus joelhos encontram-se cortados. Minhas mãos suam e tenho medo do que pode acontecer comigo. Eu não queria abrir os olhos, mas a curiosidade é mais forte. Abro os olhos e me encontro em cima de uma mesa de madeira. Ao meu redor se encontram quatro pessoas: dois homens e duas mulheres.
-Quem são vocês?-eu pergunto, levantando da mesa e me sentando.
-É uma longa história, mas tenho certeza que você deve ouvir. Contaremos a você daqui a pouco, mas antes, você precisa passar pelo teste.
-Teste...?
Um dos homens, o mais velho e também mais forte, me empurra e me põe com o rosto contra a mesa. Uma das mulheres, que tinha cabelos castanhos e olhos no tom mais claro de castanho que eu havia visto na vida, pega um pequeno aparelho e o coloca em frente ao meu rosto. Tento resistir, mas ele era muito forte. Ela coloca o aparelho na direção do meu olho e uma luz branca me cega por alguns instantes.
-Nos desculpe. Mas precisamos das suas informações físicas. Tudo bem, Quincy. Pode soltá-lo. –fala a de olhos castanhos.
-Quanto isso vai demorar, Erin?-pergunta o homem que atende pelo nome Quincy.
-Alguns minutos. –responde a de olhos castanhos, que se chamava Erin. –Viktor, você é o encarregado de guiá-lo. Só não vá muito longe.
-Tudo bem. –fala Viktor, que deveria ter uns vinte e cinco anos. Era um pouco mais alto que eu e possuía uma pele branca. Sua roupa também era completamente preta e seu cabelo preto tinha pequenas mechas vermelhas. Sua única característica completamente memorável eram os olhos, de um tom vermelho-sangue, ele tinha ódio no olhar, porém ao se virar para mim, demonstrou um carinho que nenhum deles havia sequer tentado desde que caí daquela droga de buraco. –Vamos, Ian.
-Como você sabe meu nome?-pergunto quando passamos por uma porta e saímos da sala que estávamos. Entramos em um corredor largo com uma porta no fim.
-Coisas da Erin. Ela tem um aparelho que permite saber o nome de todos em um raio de um quilômetro. Só não me pergunte como ela faz isso. Quem sabe a Jenn saiba responder. –ele fala sorrindo e entra pela outra porta. –Sente onde quiser.
É uma sala grande com muitas cadeiras amontoadas, o chão era branco e as paredes quem sabe um dia foram da mesma cor. No meio da sala há um sofá, sento-me nele e espero por Viktor. Viktor senta do meu lado e traz consigo um celular. Um celular do tamanho da minha mão e tão fino quanto uma agulha, se eu olhasse para a mão dele de lado, nunca veria que alguma coisa estaria lá.
-Tenho que lhe explicar porque está aqui e quem nós somos. Porém é mais fácil mostrar. –ele diz e coloca o celular em cima de uma das cadeiras. –Espero que entenda, já que, sem você, nosso mundo irá sucumbir.
-O quê? Sucumbir?-pergunto. Um tipo de holograma é transmitido pelo celular e vejo o sistema solar na minha frente. Toda a sala é tomada por estrelas e planetas que eu nunca havia visto. Eu só reconhecia que era o nosso sistema solar pela Terra, tão pequena e insignificante no meio de planetas com dez vezes o seu tamanho.
-Perguntas depois. Deixe-me começar. –fala Viktor e levanta. Ele aponta para a Terra e faz com que ela se aproxime. –Esse é o seu planeta .
-Ao redor? Com vida? E como nunca vimos?-as perguntas saem automaticamente e Viktor me olha com cara de repreensão. –Desculpa.
-À esquerda, temos o Planeta Gardian. Seus moradores tem uma tecnologia especializada em armas e eles formam os maiores guerreiros de toda a galáxia. Nosso amigo, Quincy, é de lá. A família real de lá se chama Abbel. Guarde o nome das famílias, será importante. –ele fala e concordo. –Alguma pergunta sobre esse planeta?
-Eles são maus? Para terem se especializado em armas devem ter passado por muita coisa. –falo.
-Sim. A maioria dos Gardianos é má, mas seus remanescentes bons assumiram o poder e estão tentando controlar e melhorar a condição do planeta. E o fato das armas... Deixa para depois. –ele diz. –Mais alguma coisa?
-Nada. –falo e me ajeito no sofá. Eu ainda não tinha certeza se realmente deveria escutar toda aquela loucura, mas era realmente interessante, então prestaria atenção até o final.
-À direita, está o Planeta Lionest. É o meu planeta. Evoluiu principalmente na sociedade. É o único planeta habitado em completa paz. Tem a sociedade mais bem estruturada com uma monarquia constitucionalista, sua família real se chama Kill. –ele fala e olha atentamente para mim, provavelmente estava tentando saber como eu estava reagindo a tudo.
-Você é da família Kill?-pergunto e isso parece atingi-lo, pois ele desvia o olhar e ao voltá-lo para mim está tomado de raiva.
-Não. Não mais. –ele fala e como se nada tivesse acontecido sorri. –A única coisa que você tem que saber sobre os Kill é que são a família mais poderosa e rica dos cinco planetas.
-Ok. –falo.
-Abaixo da Terra, temos o Planeta Spark. Esse planeta é conhecido por suas grandes ilhas e grande quantidade de oceanos. Sua principal evolução foi a tecnologia do espaço-tempo. Eles já aprenderam muito sobre isso, como teletransporte e viagem no tempo. –ele fala com se tudo fosse algo normal. Eu estava à beira de um ataque, era informação demais. A única coisa que me impedia de levantar e falar que ele estava louco era a crença de que tudo aquilo era uma brincadeira, não podia ser real. –A família real desse planeta chama-se Yung.
-Nenhuma pergunta. –digo pela primeira vez e ele parece agradecido.
-Por último, em cima da Terra encontra-se o Planeta Istellar. Sua família real se chama Granger e são conhecidos pela evolução na arte da inteligência. Não existe planeta mais evoluído com relação ao cérebro como esse. –ele fala e algo me intriga.
-Cérebro?-pergunto. –Quer dizer que todos os habitantes dos outros planetas são exatamente iguais aos seres humanos?
-Não exatamente. Cada planeta tem sua especificação fisiológica, mas os humanos são conhecidos por terem o mais fraco físico dentre todos. Os habitantes de Guardian possuem o corpo mais resistente e forte, eles não morreriam com uma simples bala humana ou até mesmo uma granada. –ele diz simplesmente. –E o terráqueo mais inteligente não conseguiria competir com o mais burro da família Granger.
-Tudo bem. Mas, se os humanos são tão insignificantes o que toda essa explicação tem a ver comigo? –pergunto, deduzindo que estava realmente acreditando em tudo, o que não era verdade.
-Nossos planetas correm perigo. Um mal colossal se aproxima e o único modo de detê-lo é com todos os cinco planetas, juntos. E a Terra faz uma grande diferença,não importa o quão imperfeitos vocês pareçam. Porque é da imperfeição de vocês que precisamos. Não conseguiremos sem você, porque você foi o escolhido para representar a Terra. –ele fala e senta do meu lado. Seus olhos me fitam de uma maneira penetrante, ele parecia preocupado, mas mantém um olhar especial. –Você aceita esse fardo?
Eu não queria acreditar em tudo aquilo. Sabia que não podia acreditar naquilo. Era a história mais absurda que alguém poderia ter contado. Não era verdade. Mas havia algo real em tudo aquilo, algo que realmente me faz querer responder um: “Sim, eu aceito.”. Eram os olhos de Viktor. Ele não estava mentindo, nunca alguém havia me olhado desse jeito, tão verdadeiro e puro. E não sei se era loucura não recusar imediatamente algo tão imensamente absurdo como essa história toda por um simples instinto do meu coração, mas eu digo:
-Eu realmente preciso decidir agora?-pergunto. Por que eu não estava recusando? Era só dizer “não”. Um completo desconhecido não poderia me atingir dessa forma e me fazer relutar desse jeito.
-Nós partiremos em breve, então sim. Você não precisa saber de tudo ainda. Não acha que há mais vida? Que não há uma verdade por trás de nascer, crescer, ter uma família e morrer? Você não precisa estar sem perguntas para aceitar, só precisa acreditar que uma hora elas serão respondidas. –ele fala. Meu coração dispara. Na verdade, eu sempre me perguntei se a vida não era algo mais, afinal, tem que ter um sentido para a nossa criação, por que nós existimos? A busca por essas respostas não era algo que eu procurava, só ansiava em saber e vê-las tão próximas me fazia repensar ainda mais. A pressão dessa decisão parecia querer me esmagar e já não sei mais se a minha decisão era a correta.
-Eu não posso. –digo. –Você não pode simplesmente pegar todo o conhecimento que foi importo a mim até hoje e jogar no lixo.
-Mas eu sei que você acredita. Só tem medo do que pode acontecer. –ele fala e levanta. –É a sua última chance. Ou você me segue e saímos da sala ou você fica aqui e quando acordar no próximo dia estará na sua casa e não se lembrará de nada do que ocorreu. Mas saiba que não é só o seu destino que está em jogo e, no caso de dúvida, siga a Águia Dourada.
-Quem é a Águia Dourada? O que vai acontecer se eu ficar?-ele já está na metade do caminho até a porta. Meu coração acelera ainda mais e levanto do sofá.
-Decida.
-Não posso. –falo desesperadamente e tento me mexer, mas minhas pernas não obedecem. Ele abre a porta e vira uma última vez.
-Acredite. –ele diz e sei que agora é a minha última chance.
Ele dá um último passo em direção à porta. Não sei o que fazer. Eu não queria acreditar em nada daquilo e fingir que tudo fora um sonho. Minha cabeça dói. O que eu faço?O que eu devo fazer? Eu dou um passo para frente e corro, mas não conseguirei chegar a tempo. Viktor já se encontra do lado de fora da sala, ele já está de costas para mim, mas dá uma última mensagem antes da porta se fechar:
-Acredite que este não é o fim.
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