A Sociedade dos Loucos e Esquecidos
2 O Diabo Não Veste Prada, Veste Batman
Notas iniciais
Era uma manhã fria com cara de névoa e uma caneca em vulcanismo sendo envolta por uma mão sem luva.
O guarda observava tudo lá fora por sua cabine blindada. Completamente desnecessária, sim, ele também pensava, coisas de protocolo, disseram uma vez. Através do vidro todo orvalhado o dia se desenrolava com uma rapidez rastejante. O vento matutino vinha preguiçoso, o sol ao horizonte se erguia meio letárgico de uma noite de bebedeira com estrelas tristes e tudo era meio sonho.
Ele creditava isso ao fato de estar acordado havia mais de dezesseis horas, mas para efeito poético, era o poder da manhã.
O amigo ao seu lado bufou, passando as mãos nos braços para se acalentar um pouco. O coitado tinha trazido uma blusa leve para passar a noite e a temperatura tinha caído quase como a bolsa nos anos de 1929, repentinamente se viram no Alaska. Por sorte em alguns minutos trocariam de turno e poderiam ir dormir.
— Sério, essas crianças já tão estudando. — O guarda riu de lado. — Acordar a essa hora, nesse lugar, nesse frio, para estudar álgebra ou sei lá...
O amigo ao lado rolou os olhos, impaciente. — Tudo playboy, não fazem mais do que a obrigação. Pelo menos alguns prestam para estudar.
E ele sorriu meio de lado, porque o que ele iria falar? Iria defender aquelas crianças? Por céus, não. Os adolescentes as vezes pareciam ovos do mal, prontos para eclodirem e liberarem os arautos da desordem.
Não, não os defenderia.
Só que via algo mais ali, às vezes completamente filhos da puta mostravam gestos de bondade e de humanidade. Nunca esqueceria a vez que fora castigado por alguma insubordinação qualquer e um aluno o ajudara lhe trazendo o que comer e beber. Fora um grande gesto de delicadeza.
Por isso não iria pintar a maldita escola em certezas tão fortes. Só em preto e branco. Ele preferia ver os adolescentes como um cinza que une esses dois. O amigo também não tinha lá culpa de odiá-los tanto, era mais provável que fosse a inveja falando: Ele queria ter sido um desses malditos playboys, mas a família não tinha dinheiro para isso.
Levando tudo isso em consideração, o guarda deu de ombros, tomando do magma de seu café e oferecendo ao outro, sabendo que seria negado por causa da gastrite.
— Não, valeu. Meu estômago fica uma merda depois.
Pararam de falar, começando a arrumar as coisas para trocarem o turno e terem o tão desejado sono, mas ao longe, vindo do desdobramento das estradas que raramente vinham carros, eles viram uma silhueta. Ela se recortava pequena e meio opaca pela névoa, em pouco tempo eles divisaram um contorno mais forte.
E o guarda sorriu. — Oh, ele voltou mesmo.
— Será que continua meio chapadão como sempre, esse pseudo-hippie?
Não aguentou segurar a risada. — Provável até que mais.
O cabelo pintado de azul celeste desde muito tempo, até hoje não entendia como o cabelo dele nunca caíra, vinha suave, o azul se revolvendo com o pouco vento. E uma mochila de rodinhas da Hot Wheels.
O amigo, mais mal-humorado do que nunca, deu um tapa no próprio rosto. — Hot Wheels? Quero o que ele anda fumando agora.
— Olha pelo lado bom: Seria pior se fosse da Barbie. — Sorriu. — Chame o diretor, o novo professor chegou.
xXx
O tio o guiava por um mar de leite, quase como se navegasse, pisava com cuidado, temendo o a liquidez do que era sólido. Tudo era névoa, mas a comparação com a cegueira de Saramago foi inevitável, o rosto impassível como sempre virou-se para o tio que não estava muito longe.
— Não vai me ferrar como fazem no livro, né?
Era uma piada, mas pela feição do tio supôs que ele não o entendera. — Não, Kuroko... Não vou.
E recebia um daqueles olhares familiares como sempre. Finalmente, ele quase suspirou, tinha percebido que gostava dos olhares o acusando de doido.
Durante esses poucos minutos, o tio tentara se portar como um diretor o tratando como um professor. Claro, mas eles eram uma família. Uma família que não se gostava, certo, mas ainda assim família, e esse olhar dizia que o tio não mudara sua opinião sobre ele.
Sempre o julgavam como o louco da família. O jeito taciturno, poupando palavras, aparecendo subitamente sem ninguém notar, ajudara nesse rótulo. E ele se orgulhava disso, ser o louco da família quando há dois esquizofrênicos e um bipolar nela é um feito incrível. E melhor ainda, sem ter distúrbio algum. Pelo menos nenhum identificado.
— Não imaginei que fosse aceitar a proposta, sabia? — Ele ouviu o tio dizer cautelosamente, fingindo um tom casual. — Pensava que estava trabalhando no seu Ph.D.
Kuroko assentiu. — E estava, larguei o projeto para vir. — Hyuga o olhou agora com aqueles olhos de falcão que tinha. — Fiquei mais surpreso por me chamarem, na verdade.
— Seijuro propôs, já que você herdou uma boa parcela da escola do seu pai. — O tio respondeu. — É só até o meio do ano, até lá todo o processo seletivo vai ser feito.
— Uhum, sem problemas, tio.
Os dois se olharam com alguma espécie de atrito, de desconforto e desconfiança. Kuroko entendeu que o gesto de convidá-lo fora político e que ele não deveria tê-lo aceitado. Pelo menos fora político para o diretor da escola, ele duvidava que Seijuro pensasse assim, também. Seu primo deu a ideia imaginando que o local não fosse sofrer sua interferência apenas como acionista, mas como humano e professor também. Ele era o parente da família que ele tinha de mais próximo, e o mesmo sabia que a escola era importante para si. Também tinha o fato do primo não gostar que ficasse sozinho depois do acidente.
Pouco mais de um ano havia passado desde a morte do pai de Kuroko. E tudo que herdou dele foi vendido, desde as casas, investimento na bolsa de valores, e as próprias empresas. Menos a escola. Para a escola ele tinha planos diferentes e quando ele negou vender sua parte ao tio, sabia que levantara suspeitas.
Quando chegaram na ala dos professores e Akashi lhe mostrara seu quarto, não se assustou com o tamanho mínimo dele, quando estudante sempre pensava que seriam ambientes amplos e luminosos, conforme estudava para ser um professor, acabou por ver o outro lado da história e aqui estava a prova, era provável que por ser individual fosse até menor que os dos alunos.
— Kuroko... — O tio começou, quando estava prestes a sair, como se não quisesse nada. — Pega leve, okay? Sabemos como você é, mas a escola tem costumes. O cabelo e todo resto, tudo bem, mas sem inovações na forma de ensino.
Tetsuya sorriu com os olhos. — Prometo solenemente não fazer nada de bo... Mau, quero dizer, mau.
Claro que o ruivo mal entendera a referência, não era algo da geração dele. O outro o encarou, provavelmente pensando no problema mental que tinha quando aceitou contratar o sobrinho para ser professor de sua instituição.
— Descanse. Em breve vão trazer as malas e seu carro consertado. Se me permite perguntar, o que tem na mochila de rodinhas?
— Meus livros mais importantes. Era a única mochila sobrando que eu tinha.
Quando o tio saiu ele suspirou de alívio, sempre pensou que teria de fazer seu caminho para dentro da escola à força, usando de seu poder como acionista e não que seria convidado. Abriu a mochila, tirando a máquina e alguns equipamentos eletrônicos.
— Menos de seis. Tenho menos de seis meses.
xXx
Kagami abriu os olhos com o corpo em ressaca esportiva.
Ele poderia quase jurar que se olhasse a cor laranja de uma bola de basquete iria vomitar até não poder mais. As disputas com Aomine ficaram mais duras durante o tempo que o novo professor de literatura não chegara.
Nos dois dias de luto foram proibidos de jogar. Jogaram mesmo assim, ainda de manhã, fugiam por entre as raízes nodosas e sobressalentes no chão e o ar viscoso do pântano. Ficavam horas e horas por ali, os galhos mais curvados de algumas árvores eram feitos de aro e o pântano virava uma quadra de basquete com proporções monumentais e distorcidas.
Jogavam tanto que ouviam o barulho da bola chocando-se com o chão mesmo depois de pararem de pingá-la.
Que ficasse claro: Não estava reclamando.
Havia muito tempo que não era completamente feliz daquele jeito e Aomine, com o sorriso menos irônico e mais sincero no final do dia, lhe fazia pensar que também gostava do que tinham feito.
Jogavam até que a luz ficasse escassa por entre a mata verde cinza e não conseguissem fazer quase mais nada além de escorregar quando tentavam alcançar a bola. E aí, sentavam-se e conversavam.
Descobrira algumas coisas sobre o outro, o modo de vida, como era sua família, o que gostava de fazer, animes favoritos... Depois disso faziam seu caminho, escondido dos vigias meio desatentos pela rotina e voltavam a seus quartos antes do toque de recolher que era às oito horas da noite. Todas as luzes deveriam estar desligadas às nove, antes das nove faziam inspeções para ver se os alunos estavam presentes.
Ridículo.
Mas eles nem ligavam mais, chegavam sempre tão cansados que às nove já estavam dormindo, nem ao menos tomavam banho. Ele e Aomine chegavam, largavam a bola em algum canto, e só tirando a roupa deitavam-se na cama e dormiam. Sujos, fedorentos e com o sono mais profundo que alguém poderia ter.
Depois dos dias de luto as matérias voltaram, mas eles não deixaram de praticar o esporte. Tinham a quantidade horrenda de aulas diárias, faziam suas lições, jogavam, no mínimo uma hora por dia, e depois voltavam às lições. Às vezes, ele e Aomine ficavam até de madrugada fazendo lição escondidos, sob a luz do visor dos celulares para que conseguissem visualizar tudo.
— Me sinto em um daqueles filmes medievais antigos, escondidos em alguma biblioteca de um palácio inglês. — Algum deles dissera, ele não se lembrava quem ao certo. — Só que em um remake atual.
Aliás, para si, Aomine era um daqueles cubos de Rubik, nunca conseguia entende-lo de fato. O moreno fazia lições, mas geralmente não as entregava sempre, apenas o suficiente para passar de ano. E apesar da carga de estudo, não se saía muito bem nas provas. Se não se saía bem porque queria ou não, era ainda uma incógnita.
Os constantes jogos, além do sono e das dores, trouxeram amigos, também. Himuro trazia Kise, que parecia conhecer a todo mundo já e que por sua vez trazia Midorima, o garoto de cabelo verde que conhecera no primeiro dia de aula, que por sua vez trazia Akashi, que era seu amigo de infância e filho do diretor da escola e Aomine trazia Murasakibara, que fora introduzido a si por Akashi, mas os dois acabaram se dando bem desenvolvendo o hábito de matar aulas juntos.
De todos eles, o mais estranho definitivamente era Akashi.
Mas antes que pudesse formular qualquer opinião sobre o ruivo — Ruivo de verdade, não o ruivo químico que Kagami era — Midorima jogou um pedaço de pão na sua cara.
— Você está ao menos vivo, Kagami?
— Boa pergunta, cosplay de brócolis.
Logo depois a voz profunda e preguiçosa de Murasakibara pôde ser ouvida. — Você e Aomine têm estado muito cansados ultimamente. — Ele disse. — Devem gastar muita energia à noite, hun?
Kagami rosnou um xingamento mal articulado sem vontade de realmente montar uma frase. O alto garoto de cabelos roxos tinha desenvolvido uma espécie de fetiche em provocar ele e Aomine, sugerindo alguma relação sexual.
— Se estivéssemos fodendo, mesmo, Kagami não conseguiria andar. Portanto, argumento inválido.
— Não tenho certeza se você seria o seme, Aominecchi. — O único loiro do grupo pontoou, repentinamente meio sério. — Ele é alto demais para você, e ainda que os dois sejam compatíveis quanto a personalidade, haveria muito atrito.
Aomine riu. — Kise, você sabe que nem eu nem Kagami transamos de verdade, né? Nem tentaríamos.
Na mesa do refeitório, Kise estava há duas cadeiras separadas de Kagami, mas mesmo assim conseguiu ver o loiro corando.
— Claro, claro. Era só... Uma suposição.
— Seu maldito fujoshi.
E os dois começaram a ter uma disputa estúpida de apelidos e zoação enquanto metade da mesa começava a participar e metade ignorava. Kagami, fazendo jus a sua maturidade e conhecimento, obviamente escolheu participar.
Midorima rolou os olhos observando a tudo. — Não sei porque ando com vocês... Tenho aula de literatura daqui a pouco, já vou indo.
Ainda tinham quinze minutos antes do sinal bater, mas claro que a perfeição quase doentia de Midorima o faria preparar-se antes.
— Ah, você vai ter aula com o professor locão das idéias. — Aomine comentou risonho.
— Não fale assim, Aomine. — Himuro interviu.
Midorima sorriu de lado. — Claro, parece que ele continua o mesmo.
— Como assim? — Kagami ficava curioso muito fácil.
— Bem... Eu conheço ele já, ele é da mesma família do Akashi, não?
O ruivo de verdade assentiu. — Ele é meu primo, alguns bons anos mais velhos, uma década quase, mas sempre nos demos bem.
Kise sorriu e disse com aquela felicidade toda e explosão de raios de sol que era só dele. Parecendo um maldito sol dos Telletubies. — Ah, isso é tão legal. Deve ser diferente ter um professor na família e que dá aula para você.
O herdeiro da escola sorriu meio frio. — Talvez... E eu estou ansioso para ter aula com ele, conhecendo-o como conheço, ele deve atrair e não atrair bastante atenção, ao mesmo tempo. Kuroko sempre foi muito Kuroko.
“Kuroko sempre foi muito Kuroko”. A frase ficou na cabeça de Kagami, o novo professor parecia ser contradição pura e ter alguém que se destaca tanto entre todos os professores o fazia fervilhar em espera. Seus dias até agora, contrariando o que esperava, estavam sendo ótimos. O único martírio eram as aulas, mesmo. Talvez esse novo professor pudesse suavizar toda aquela pressão.
— Ele pode ser incrível e diferente. — Aomine disse. — Mas nada muda o fato que ele me fará ler Lorde Byron. Odeio essa merda, e o romantismo sempre me fode sem nenhum romantismo.
Murasakibara sorriu preguiçosamente, e engolindo uma bala de caramelo disse, recebendo um rolar de olhos geral: — Mas para isso você já tem o Kaga-chin, Ao-chin.
xXx
Aomine estava prestes a matar um certo loiro de sorriso grande demais.
Desde que tinha iniciado a rotina de jogar com Kagami, alguns dos amigos também começaram a participar. Um desses, no entanto, estava o estressando demais. Kise vinha com todo aquele porte de europeu lhe encher o saco todo dia, nem mesmo suas fugidas de aula com Murasakibara estavam salvas já que o loiro tinha desenvolvido um método para sempre achá-los.
— Aominecchi, por favor... — Dizia o loiro com manha, fingindo chorar, mas o olhar, quente demais, destoava completamente do teatrinho. — Só alguns minutos.
Como ele conseguia ser tão alegre? Ninguém em um dia da semana com um sol de lascar a fazer suar países da zona tropical tinha o direito de ser feliz. Ninguém naquela escola opressora tinha o direito de ser feliz. Sinceramente, todos estavam ali por um motivo, ou porque fizeram merda e são uma decepção aos pais ou porque são pobres o suficiente para aceitar uma bolsa na instituição, e nessas circunstâncias, ninguém, a absolutamente ninguém deveria ser permitido o direito de portar um sorriso fácil.
Só que Kise tinha esse sorriso fácil, fácil até demais e sem nenhum vestígio de amargura ou ironia. — Hey, Loiro estúpido. — Disse fazendo o outro se atentar. — Morra.
— Ah, Aominecchi é tão brutal comigo.
O ar e a terra pareceram pulsar em um doloroso vermelho junto com a veia em sua testa. Não, ele era velho demais para aguentar isso, já não tinha mais idade.
— Kise, se eu jogar, vou chutar sua bunda tão forte e acabar tanto com você que caso quebre, torça ou desintegre qualquer parte de seu corpo eu irei rir e pisar na sua cara enquanto faço mais uma cesta.
O mel dos orbes de Kise resplandeceram. — Isso significa que vai jogar?
Aomine apertou os olhos, e eles brilharam na intensidade quase assassina de quando estava para entrar em quadra. Ele pegou a bola que levava com ele naquela tarde de sol Africano e a jogou diretamente na cara do outro.
Quando o outro a pegou e a abaixou, lá estava o sorriso de novo e ele sentiu seu estômago se contrair e revirar e a ânsia natural de quando se vê alguém bonito demais de muito perto tomou conta de si. Ele nunca diria, mas sentiu-se mais motivado e quase como que querendo jogar com o outro.
Ele odiava essa sensação. Iria acabar com aquele sorriso, iria acabar com aquele cara.
— Kise, você já tem testamento?
xXx
As classes eram sempre um imenso branco, e ele nunca sabia como tinha conseguido passar por elas quando no final, as aulas terminavam.
As vezes ele escrevia, anotava e ouvia, mas quase como se em outra dimensão. Ele estava ali, mas também não estava. Ele entendia, sabendo que esqueceria em algumas semanas depois da prova. Ele, como se fosse um escriba, enchia de grafite e tinta as carcaças de árvores que carregava consigo, sabendo que nunca mais leria o que tinha escrito.
Estudar naquela escola era como mergulhar o cérebro em água sanitária. Tudo se tornava branco depois.
Ele estava nesse mesmo fluxo de novo, atrás de si ele conseguia ouvir Kise brincando e zombando com alguns colegas de classe, enquanto o último professor do dia não chegava. Os dois tinham se tornado um tanto próximo ao longo desse curto período de tempo, mas dentro da sala de aula os dois não interagiam. Kagami entrava em seu mundo e Kise respeitava isso, deixando-o lá.
A próxima aula seria Literatura. “Kuroko sempre foi muito Kuroko”, a frase subiu à sua cabeça e ele até sentiu o sentimento de antecipação pela próxima aula. O professor já estava atrasado quinze minutos. Kise pareceu perceber sua inquietação e colocou a mão em seu ombro.
— Que foi, Kagamicchi?
— Essa merda de professor, que porra ele está fazendo?
Kise ia falar algo, mas uma voz clara adensou o ar antes disso. — A merda de professor está aqui. Tenham calma.
Por algum milagre, chamado basquete e deveres, Kagami não tinha muito tempo para ficar andando por aí e observando professores, por isso, até então, ele não tinha visto o novo professor de literatura. Havia boatos de que o tal Kuroko era um tarado por livros e que deveria ficar em seu quarto os lendo, porque ele raramente era visto pela escola.
Mas nada disso pareceu importar no momento que ele observou o pequeno homem passando pela porta. Pequeno, mesmo. Bem baixinho. Provavelmente não bateria no ombro de Kagami. O cinza clássico do terno estava lá, a calça social, o blazer, mas o natural dos professores acabava ali. Depois ele viu uma camiseta do Batman por debaixo do cinza do blazer, e uma gravata do Bob Esponja acompanhando e um par de All Star estilizado. O cabelo azul claro combinando com os olhos azuis fechou a aparência que Kagami nunca atribuiria a um professor.
Os olhos azuis pareciam apáticos de primeira olhada, mas Kagami sentiu um fogo arder. Algo crepitando.
Atrás de si, Kise assoviou, comentando baixinho: — Agora entendo o que eles queriam dizer com atrair a atenção.
E Kagami assentiu com uma cara de bobo que ele sabia que estava provavelmente lá. Seria muito ruim dizer que talvez tenha ficado um tanto quanto excitado com a visão? Ruim ou não, ele tinha.
É... A vida era dura. Muito dura.
Quando a aula terminou, Kagami se lembrava dela inteira. Quando a aula terminou seu caderno ainda estava em branco e Kagami enxergava em cores. Quando a aula terminou ele queria outra aula e ler T. S. Eliot. Quando a aula terminou Kagami não era mais Kagami.
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