A Sociedade dos Loucos e Esquecidos
3 Há Whatsapps Que Vêm Para o Bem
Notas iniciais
Kise fazia sudoko à caneta.
Se errasse, estaria errado. E assim ficaria, no máximo ele riscava bem riscado e colocaria o número certo em um cantinho do quadrado; mas o grande risco estaria ali, para lembrá-lo que tinha errado. Ele fazia tudo à caneta, até mesmo as contas de matemática e física que tinha uma probabilidade enorme de errar.
Ele fazia à caneta porque gostava das coisas claras, tão objetivas quanto podem ser. Definidas e com maior data de validade possível. Simples assim. Objetivos claros permitem uma visão clara.
Ele seguia ideologias simples e bem definidas. Para tudo ele tinha seus próprios pensamentos. Ainda que sempre o confundissem com um bobo alegre, uma espécie de Bob Esponja da vida real e bonito, não era bem assim.
Era alegre porque faz bem, e ponto, simples. Alguns, por exemplo, pensam que o ódio é falta de amor — Ownt, que fofo! Os leitores falam. — Mas não Kise, ele achava que era justamente o contrário; o amor é a falta do ódio. E por isso ele sempre tentava se manter longe do ódio, sendo feliz e bom, e assim ser amor.
No entanto, as circunstâncias atuais não permitiam tamanha ideologia ser aplicada de forma plena. A escola era carregada de uma energia que não o fazia se sentir muito bem, por mais que isso pareça papo de hippie, budista e vegetariano. As pessoas não eram tão receptivas, e mesmo os amigos, especialmente Aomine, carregavam um forte pensamento pessimista.
Ele sentou-se no cimento que parecia quase líquido de tão quente. Aomine fazia mais uma cesta após driblá-lo de tal maneira que Kise poderia jurar a própria alma ter escapulido do corpo com um ou dois órgãos juntos. Ele infla as bochechas, enquanto o moreno o encara triunfante.
— Você me enche o saco, por horas, para isso?
A essa altura da vida Ryouta já deveria ter aprendido que não cabia a ele tentar mudar ou “ajudar” as pessoas; sabia, sabia e ignorava completamente essa lição. Se tinha algo que se orgulhava na sua vida, era ser um péssimo aluno para aprender coisas inúteis.
— Hey, Aomine, por que você é assim? — Claro e objetivo, como mandava a própria ideologia.
Ele viu uma espécie de confusão passar pelos olhos do moreno. Talvez porque não estava usando seu tom alegre e nem tenha adicionado o famoso “chi” ao final do nome; talvez, nem tanto pelas características do formato, mas pelo que a frase significava.
— Porque esse é meu jeito ninja de ser, loiro idiota.
A resposta faz Kise rir e dispersar toda a atmosfera ruim que acompanhavam os dois. Ele sorri um sorriso branco com gosto de primavera e parques à tarde, e vê um brilho mais suave no olhar do outro.
Quando Aomine jogou-lhe a bola, dizendo que poderia começar dessa vez, ele não achava o outro tão amargo. Talvez um pouco insolente e implicante; mas não amargo.
Talvez até bonitinho?
xXx
Havia algo com noites para que não o deixassem dormir.
Uma espécie de pegadinha, uma daquelas bem estúpidas que passam nos programas de tv aberta nos domingos.
Ele sentia o sono se esgueirando pela sua cama, ele vinha, de mansinho, e em sua cabeça ele conseguia sentir a música característica de Psicose tocar, e então era atacado, os olhos começavam a se fechar e ele perdia o foco das letras impressas no livro centímetros à frente.
O descrito até agora, é o habitual. Sempre acontece e acontecerá, Kuroko já se sente confortável com esse destino de um sono safado, meio pervertido, que quando ele menos espera o assalta.
A partir daí, duas coisas aconteciam: 1º Ele derrubava o livro na própria cara. Claro, levando em consideração sua teimosia natural, não era um acontecimento surpreendente. Ele desafiava o sono, chamava o maldito pro fight e jurava que apertaria os botões certos dar um Fatalite. Com todas as meia-lua e trezentos botões em sequência inclusos.
Mas não acontecia, ele perdia e perdia feio.
Não era um problema quando era um livro leve, desses de baixa estatura de poesia ou quase anoréxicos de contos. Ruim era Os Miseráveis, que com todo o perdão pelo trocadilho ridículo, deixava sua cara miserável; ou quando era George R. R. Martin, que honrando sua fama de escritor assassino quase o assassinava às três horas da manhã, fazendo seu nariz doer pelo resto da noite.
A segunda probabilidade, era ele, imaginando-se em um campo de batalha contra Alexandre, O Grande ou Sun Tzu, perceber que seu exército de força de vontade perderia contra o formidável exército do sono, e hasteava a bandeira branca. Ou seja: Fechava o livro, desligava as luzes odiando ter de se levantar para isso — Que atire uma granada quem nunca sentiu vontade de dormir com a luz acesa, mandando à merda o preço alto da energia elétrica, só porque o interruptor da luz fica mais longe do que é o alcance do braço —, e então colocava a cabeça no fofo e gracioso travesseiro para dormir.
E aí que vem a pegadinha, sempre que isso acontecia, o sono se desintegrava e ia atrás de outra pessoa. E então ele ficava uma, duas, três horas, só calculando quanto tempo ainda tinha para dormir até ter que acordar para seus afazeres.
Quando, naquela noite medíocre, sem nada de especial, como se fosse um domingo à tarde, Kuroko colocou sua cabeça no travesseiro e não dormiu nos cinco minutos seguintes, ele entendeu que esse seria seu destino cruel.
Não, não mais. Ele pensou, e em um gesto de extrema coragem e oposição ao mundo, levantou-se, apenas agarrando seu suéter listrado com lilás e rosa choque (Diziam que o lilás combinava com o azul de seu olhar), saiu do quarto, ignorando aquela vozinha da consciência que era implantada em seu cérebro cada vez que o pai acordava à noite e o mandava dormir quando ainda estava mexendo no computador.
Ele saiu para andar. Estudara ali, e nos seus tempos de estudante era proibido andar por aí a noite. Ele andava mesmo assim, mas era proibido.
Naquele momento podia-se dizer que um quase sorriso pintou os lábios, geralmente, inexpressivos de Kuroko.
Eu sou um marginal.
Se arrependeu de não ter pegado a blusa de couro para fingir que estava em um filme da década de setenta ou oitenta, ao invés do suéter.
O que faz o marginal é a atitude, não suas roupas.
Se cuidem James Dean e Ponyboy, eu cheguei para arrasar.
xXx
Se o tédio fosse uma pessoa, ele se levantaria e sairia do cômodo naquele instante, tamanha a falta do que fazer naquela hora.
Estava sem seu precioso café em vulcanismo, tinha estado tão ocupado com seus trabalhos e em conseguir dormir um pouco, que tinha esquecido de prepará-lo antes de mais uma vigia noturna.
Sentia-se solitário, o café era um precioso amigo.
Se bem que não faria lá muita coisa, não estava frio. Os dias andavam tão quentes que ele parecia estar no nível mais baixo do inferno, próximo ao núcleo da terra, fazendo ginástica aeróbica. As noites exalavam todo um calor acumulado durante o dia, só que com uma brisa meio covarde que sibilava mais do que refrescava.
— Devia ter estudado quando tive a chance. — Disse, tendo o corpo possuído pelo nada daquela noite.
O amigo, que parecia sempre tomar duas pílulas de mal humor antes do café e duas de chatice depois do almoço, rolou os olhos com um sorriso irônico nos lábios. — Se pudesse, teria estudado o que?
— Sei lá, era péssimo em todas as matérias.
E os dois riram, ainda que fosse uma verdade meio triste. A matéria que se dava melhor era educação física, as outras eram apenas baboseiras; odiava ter de ficar parado. Tinha se alistado esperando, de fato, usar habilidades físicas. Combater, atirar e tudo mais. Acabou ali, em uma instituição educacional, fazendo mais trabalho burocrático do que braçal.
A vida é uma puta irônica, mesmo.
De qualquer forma, voltou o olhar para a rua averiguando se nada estava por perto. Era quase impossível algo acontecer, só apareciam carros quando o colégio ia entrar em funcionamento, ou quando iria sair de funcionamento. Tinha as vezes que os pais buscavam os filhos para eventos especiais ou que os professores saiam por eventos especiais. Mas tudo avisado de forma bem antecipada.
Tinha os caminhonetes e caminhões do exército, que não era bom falarem sobre nunca, mas também eram avisados de sua presença de forma antecipada.
Ele olhou mais por medo, nas férias daquele ano, o filho, um pivete de menos de dez anos, lhe fez jogar um jogo chamado Slender Man, e agora, ele, já homem feito, ficava se cagando nas calças por um jogo idiota daquele.
Vindo do além, ele ouviu a onomatopeia mais assustadora vir no momento certo. Um som surdo, quase imperceptível.
— Ouviu isso?
— Isso o que?
— Um som. De baque. — Respondeu como se fosse óbvio.
— Cara, é sempre você que vem com essas paranoias.
— Juro que ouvi.
O amigo pegou uma HQ que estava próximo e começou a ler. Já tinha lido trezentas vezes, mas tudo servia para matar o tempo. Ele apenas tentou se aquietar, imaginando ser uma peça de sua mente.
O barulho foi ouvido de novo, mais próximo e um pouco mais alto.
— Ouviu agora?
— Não, cara. Tá drogado?
— Sério, presta atenção.
— ‘Tô prestando.
— Que nem aquela vez que você deixou o portão de entrada aberto por duas horas, né? E ele está na nossa cara, mas você teve o dom de esquecê-lo aberto.
— Você sempre se lembra disso. É museu para viver de passado?
— Claro que eu lembro, senão...
Foi interrompido pelo barulho, dessa vez, surpreendentemente, não muito alto, mas pareceu vir de dentro do local. O amigo se atentou, as íris vidradas e ele percebeu que não era coisa só da sua cabeça. Engoliu em seco, sentindo insetos pela sua pele, mesmo sabendo que não tinha nada lá. O contato com a roupa, só ele, já pinicava.
— Pelo menos fechou a porta?
— Não.
A voz que respondeu não veio da boca do amigo.
xXx
Ele se sentia como um Stephen King da vida real.
Agora ele entendia a graça de escrever terror. Os dois guardas à sua frente quase caíram da cadeira, deixando um grito gutural escapar. Ele teve vontade de rir, mas entendeu a gravidade do momento quando viu um deles fazer o movimento que ia em direção à arma na cintura.
— Porra, Kuroko. — O guarda disse respirando pesadamente.
— Como você entrou aqui? — Perguntou o amigo do guarda.
— Pela porta, ué.
— E como nós não percebemos um cara de cabelo azul, com um suéter ridículo abrindo essa maldita porta que RANGE cada vez que eu entro nessa guarita?
Kuroko os encarou. — Talvez vocês tenham déficit de atenção? É uma coisa séria...
— Cala a boca, Kuroko, só, cala.
E ele calou-se. Não era fora do comum ele assustar os outros, tinha uma característica irônica: A de ser invisível. Ele, sem querer, assustava as pessoas. As vezes já estava na conversa há minutos e quando falava alguém pulava, alegando que não o tinha notado.
Ele era bem apagado, mesmo.
Mas não reclamava. Com essa espécie de poder tinha conseguido se meter em alguns camarins dos seus cantores favoritos, furar filas de cantinas com tranquilidade e se divertir assustando pessoas. Ele tinha até aperfeiçoado a técnica, tinha aplicativos no celular que o permitiam imitar sons e foi assim que fizera o som que o guarda disse ter ouvido.
Ele achava engraçado, mas sempre tinha medo de alguém ter um treco no coração.
— E que merda você tá fazendo às três horas da manhã?
— Andando por aí.
Os guardas o olharam com raiva, apertando os punhos.
Conhecia os dois de longa data já. Desde quando era estudante era com os dois que era mais próximo. O guarda e o amigo do guarda. Nunca gostava de usar os nomes deles, eram muito genéricos.
— Isso é proibido, Kuroko.
— Eu sou professor, não tem nada que me impeça de dar uma caminhada à noite. E, desde a morte de meu pai, sou executivo, também. — Ele sabia estar provocando os pobres homens. — Aliás, poderia despedi-los por serem tão descuidados.
— Ah, como eu devia ter te dado um tiro.
— Oh, não. Por favor, isso me mataria.
Os guardas riram, mais aliviados agora que não corriam perigo de vida. E Kuroko sorriu, embora fosse uma piada sem graça.
— Eu queria falar outra coisa, também. — Ele disse, não deixando o momento se prolongar demais. — Vai começar a haver uma movimentação à noite.
— Ah, não. De novo aquele seu clubinho? — O mal humorado perguntou.
— Eu tenho certeza que não será grande incômodo, vocês estão bem acostumados com movimentações noturnas suspeitas, não? — Referia-se a todos os caminhões e caminhonetes militares que andavam por ali às vezes.
— Kuroko, Já te disse para deixar isso de lado. É melhor não se meter nessas coisas.
Era um assunto delicado, mas era assim que gostava. Gostava de tabus, porque eles eram feitos para serem cutucados e quebrados. Gostava de assuntos sérios, que não deveriam ser discutidos, justamente para serem discutidos.
— Não estou me metendo. Eu sei o que acontece por aqui, fiquem tranquilos. — Não era o momento para essa conversa... Ainda. — Sobre o meu “clubinho”, façam o possível para não interferir, por favor. — Ele pediu, se curvando um pouco.
O guarda suspirou, mas Tetsuya conseguiu ver em seu olhar um pouco de nostalgia. — E eu pensando que você tinha mudado.
— Só as crianças herdarão os reinos do céu. — Disse sereno e completou, como se desse a fonte: — A BÍBLIA, Deus.
— Nem cristão você é, — O mal humorado disse. — Hippie de merda, por isso que eu odeio essa geração.
— Você pode me odiar, mas sabe o que mais? Deus ama a todos nós.
Foi expulso da guarita com xingamentos e dedos do meio, mas com a promessa de que não denunciariam a movimentação noturna. Ele sorriu.
Já lá fora, olhou para toda a arquitetura gótica e sentiu-se como Rimbaud em uma Europa perdida e decadente. Olhou por sobre os muros e viu que por lá se alastrava um mar de grama amarela e baixa e terrenos arenosos, e pensou que ali eram os caminhos da África.
Dormiu em uma almofadinha de grama, porque o céu era um mediterrâneo cheio de navios brilhantes e ele queria ser marinheiro.
O sono veio como o final de um livro do Kawabata. De repente.
xXx
Eram raras as vezes que ele sabia o que estava, realmente, fazendo, mas dessa vez: Sério, que merda eu estou fazendo?
Estava em uma sala vazia, cheia de carteiras e cadernos ainda abertos. Livros e materiais por ali, e mais livros e materiais em cima da mesa do professor. Ele sabia que aquele sala estava tendo aula do professor Kuroko antes e tinha pensado em ir lá para... Para falar com o professor sobre o exercício que deveria ser entregue na próxima aula.
Claro.
E caso sobrasse um tempo, falar sobre como admirara as poucas, mas substanciais aulas que o adulto de cabelo azul dera a ele.
O fato de ele vestir suas melhores calças, usar sua camiseta de Robin — Que ficava ridícula em um cara grande como ele, mas Kise jurara que privilegiaria seus músculos — sob o colete do uniforme para que não fosse penalizado por não estar vestindo todo o uniforme, que tinha o dom, a maestria de ser mais ridículo que sua camiseta apertadinha do Robin, além disso, seu cabelo estava milimetricamente arrumado por produtos especiais que ele conseguira com Kise — O loiro era quase uma menina, no que se referia a cuidados estéticos — o fato de vestir-se assim incomodava-o no íntimo.
Ele não conseguia deixar de se sentir idiota com toda uma preparação para algo tão trivial. Se sentia como uma daquelas meninas de Gossip Girl que se arrumavam para tudo.
E lá estava ele, fuçando o material do professor só porque não o encontrara e uma curiosidade assassina tomou-lhe a consciência. Ele passou os dedos pelas páginas de um livro que encontrara sobre a mesa, a capa dura dizia: Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust. Dentre os três que o professor tinha na mesa, era o que tinha mais post-its repletos de anotações.
Ele lia distraidamente quando uma pulseira que usava bateu no livro, e ele se achou mais idiota ainda por estar usando acessórios. A Irmã dele se casara, e ele não usara acessórios. No seu primeiro encontro, não usara acessórios. O que tinha de errado com ele?
— Estou tão montado que estou parecendo um travesti ou a Lady GaGa. — Comentou ainda olhando as letras miúdas nos livros cheirosos.
— Não tem problema, you were born this way, afinal.
Seguiu-se então um pequeno caos de alguns livros sendo derrubados no chão, sua voz soltando uma pequena exclamação de susto que faria Cristina Aguilera e seus agudos descer do salto e olha que essa mulher gosta de usar saltos, além daquele momento característico dele tentando se explicar enquanto suportava o peso daqueles orbes azuis que pareciam zombar dele.
— Não precisa ficar assim, Kagami-kun. — O professor lhe dissera. — Você só estava interessado em Proust, certo?
Kagami assentiu envergonhado, sentindo a ironia do outro firme embora não houvesse tom de ironia, mas logo mudou de ideia. — Eu na verdade... Queria te agradecer.
Recebeu um olhar curioso. — Pelo quê?
— Por dar aula... Por dar uma aula legal, por fazer esse lugar menos tedioso, por ser menos porre...
Kagami teve o sentimento de que estava ganhando uma partida de basquete contra Aomine quando o professor lhe sorriu um sorriso cândido. — De nada, então. — Os dois se olharam, o ruivo imaginando que seu rosto estivesse como o próprio inferno de tão quente, Kuroko bateu-lhe levemente no ombro, sinalizando para que se abaixasse.
Quando abaixou-se, mãos delicadas, de quem não fica horas jogando basquete ou fazendo musculação, mas horas que o único esforço físico seja molhar a ponta dos dedos com a língua e virar páginas, mãos desse tipo, bagunçaram-lhe o cabelo tempestuosamente.
— Seu cabelo estava me irritando. Muito certinho. Prefiro o caos.
Agora que ele não sabia o que dizer. Por sorte o sinal tocou, dizendo que os dois tinham aula, papéis diferentes a serem exercidos, claro, mas aula. Ele não precisou responder.
— Então estou indo.
— Boa aula.
Quando ia para sair, quase trombando com um aluno que entrava na sala que era por direito sua, o professor lhe chamou.
— Kagami-kun... Camiseta legal, mas na próxima vez tenta conseguir uma na seção adulta.
Agora ele entendia Aomine, quando este falava: “Loiro idiota”.
xXx
Em um sentimento forte de raiva, Kagami pegou as folhas em que estava preso há pouco menos de um hora e rasgou-as em um vários movimentos. Logo depois bateu repetidamente o livro em sua testa
— Quando eu disse que a física precisava entrar na sua cabeça, não quis dizer desse modo.
— Ha-ha, muito engraçado, Midorima.
O garoto de cabelos verdes tinha o definido como alvo de zombações. Claro que não era tão ruim, ele recebia zombações, mas junto com sua presença, vinha o garoto de cabelo verde que domina as áreas de exatas. E bem... Kagami sempre precisava de ajuda nessas áreas.
— Já deu por hoje, seu cérebro de tamanho diminuto não consegue absorver mais nada.
Ele apenas suspirou, fechando com gosto o livro que tinha, segundos atrás, atingido sua cabeça repetidamente. Estavam em um dos salões de uso comum do dormitório, geralmente se encontravam lá, para estudarem em grupo ou conversarem. Era um salão bem agradável com cheiro de velho e madeira, e que não tinha tanto monitoramento.
O ruivo olhou ao redor, vendo todos os amigos que tinha feito, ao redor. Aomine e Kise dividiam os fones de ouvido, enquanto o moreno tocava uma guitarra imaginária e o loiro performava com um microfone invisível e sem voz; mais ao lado deles Himuro ensinava Murasakibara sobre algo. Na janela, Akashi jogava xadrez sozinho. Devia ser solitário ser Akashi.
Ele apenas deixou seu olhar vagar pela sala, sentindo uma espécie de fluidez e leveza na cena. Faltava algo, tudo estava muito chato ainda, mas ele não poderia negar que tinha algo de bom.
De repente sete apitos foram ouvidos. Sete diferentes sons de celulares. Aomine, como era o único que tinha o celular na mão, foi o primeiro a ver o que era.
— Hey, parece que isso aqui se conectou com uma rede Wi-Fi. — Ele crispou os lábios lendo o nome. — A Sociedade...
— Conectou aqui, também. — Disse Kise.
— Que estranho... — Murmurou Himuro, Midorima não demorou a responder.
— Nem tanto, a maioria dos smartphones procuram redes para se conectar automaticamente; se os telefones não tem a configuração de pedir permissão antes e a rede é aberta, só entrou.
— Me referia ao nome, não às configurações.
Akashi franziu o cenho, enquanto dizia em uma voz calma, mas que todos pararam para ouvir. — Não é a rede da escola.
Um segundo depois os celulares voltaram a apitar, dessa vez a notificação de uma mensagem pelo Whatsapp.
“Vocês foram escolhidos para dar continuidade à grande e nobre Sociedade dos Loucos e Esquecidos; sintam-se honrados. O convite é indeclinável e os cargos vitalícios. Parabéns.
P.S: Aguardem por mais informações.
P.S²: A Sociedade é secreta, tipo a Maçonaria, mas secreta de verdade, então bico calado.
O Fantasma”
Eles se olharam, até Murasakibara falar, no mesmo tom preguiçoso de sempre.
— Participar de uma Sociedade parece cansativo, o que faremos?
Aomine respondeu, com um sorriso ansioso no rosto: — Você leu a mensagem. Esperamos por mais informações.
— Cara, isso parece foda. — Kagami exclamou.
— Na verdade, a decisão não é nossa... — Himuro pontuou com o tom sensato de sempre. — Conexões com o mundo exterior são proibidas nessa escola, e bem... Estamos conectados com uma rede Wi-Fi. Isso não é problema para nenhum de nós, mas é para instituição e com isso... É do Akashi.
Todos olharam o ruivo. Seijuuro parecia ponderar sobre o assunto, desde quando notara que não era a rede oficial da escola tinha se calado. Kagami percebeu que alguns queriam aquilo, ele e Aomine estavam interessados. Eram dois idiotas por mistérios. Os outros se dividiam entre interessados e desinteressados. Akashi suspirou, por sorte ele era um dos interessados.
— Vamos ver no que vai dar.
Foi o suficiente para ele e Aomine levantarem-se de onde estavam sentados, e abraçarem fortemente Akashi, mesmo recebendo uma quantidade infinita de maldições e xingamentos.
Lá fora já era noite, mas tudo brilhava, então tudo bem. Fizeram bastante barulho, festejando por algo que era só uma promessa, por algo que podia ser uma pegadinha, fizeram barulho até alguém vir expulsá-los. Antes de cada um ir para seu quarto, no entanto, trocaram números de celulares.
Dormiram pouco, a noite foi longa por entre vídeos do Youtube, jogos de celular e emoticons aleatórios. Foi uma noite iluminada por visores e se lembraram que a bateria durava pouco quando em uso intenso.
Dormiram com o gosto da avó deles falando: “Essas coisas estragam os olhos”.
Dormiram.
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