Notas iniciais
NA DATA CERTA, YEAH. Estou exausto, mas está aí o capítulo da semana. Já que bastante gente comentou, me motivei e consegui no tempo certo. Já falei que não gosto de domingo? Anyway, espero que gostem. Notas finais, certo?

Era o equivalente a pouco mais que a meia idade do dia. Quatro horas da tarde. Uma daquelas horas em que o sol não sabe se brilha de verdade ou começa a recolher seus raios que deixou cair por aí.

Todos do grupo estavam juntos, em uma das mesas do refeitório que muitas vezes servia de mesa de estudo. Tinham prometido se encontrar depois das aulas para esclarecer o que fariam sobre A Sociedade.

Kagami estava tão afoito, que demorou menos de quinze minutos depois do último sinal para esperar a todos. O segundo a chegar foi Himuro, o cabelo negro — Himuro era o único com um pouco de bom senso e que usava cabelo natural e normal, sem cores chamativas — todo arrumadinho. Kagami tinha a impressão que Himuro era um daqueles indivíduos que dormiam de sapato, todo engraxado e limpo e que não desarrumava a cama enquanto dormia.

Ele era um sr. Perfeitinho com aquela pontinha negra embaixo do olhar cordial.

Em seguida chegou Akashi com todo aquele porte, parecendo a Rainha Elizabeth, cada vez que o via tinha vontade de soltar um: “God, Bless the Queen”... Se bem que era meio baixinho, então estava mais para Napoleão. De qualquer forma, nunca falava, porque ele podia até ser idiota, mas nunca a ponto de provocar Akashi.

O ruivo natural sentou-se — O cabelo estranhamente mais revolto que o habitual, quase formando pequenas torres vermelhas de cabelo —, o uniforme escolar parecendo brilhar e criar uma aura que afastava todos dele. Himuro parecia imune a isso, já que o cumprimentou cordial como sempre.

A partir daí as coisas começaram a demorar. Midorima demorou mais de meia hora para chegar, alegando que tinha sido alugado por um professor para ajudá-lo na criação de alguma atividade importante.

— Maldito Nerd. — Kagami disse.

— Vou me lembrar disso quando tiver que elaborar algo para a sua sala.

Depois de seu destino de notas baixas ser decretado por algumas simples palavras, Kise chegou. Brilhando, sendo acompanhando por cinco outros garotos, parecendo a Oprah quando falava. Ele deu um sorriso fácil de desculpas — Kagami tinha impressão que para Kise era muito fácil sorrir —, não como o de Himuro que era simplesmente cordial, mas um sorriso de gelo derretido, aquele sorriso que as mães dão quando elas querem que o filho cuide do seu priminho encapetado de sete anos que é, de verdade, um enviado de Lúcifer para iniciar o Apocalipse.

Não que ele não gostasse dos primos... Eles só eram criaturas das trevas; mas ele sempre se deu muito bem com o lado negro das coisas, de qualquer forma.

Terminou que ninguém nem se atreveu a repreender o loiro, o único que era imune àquela coisa toda era Aomine, e o maldito estava atrasado, portanto Kise sairia ileso dessa vez.

Mais de meia hora depois Murasakibara apareceu. Sentou-se e não disse nada.

— Se atrasou por quê? — Perguntou Akashi.

— Ué, a gente tinha marcado alguma coisa hoje?

Claro... Esperar de Murasakibara um cronograma que ele tem que fazer algo além de comer era muita coisa. Além disso, naquele dia, o enorme garoto não estava muito bem. Mal humorado e de saco cheio, só de olhar nos olhos azuis que, as vezes, pareciam lilases ele sentia aquela procrastinação toda querer envolvê-lo.

Murasakibara era o deus das tardes de domingo, em que nunca se faz nada; das horas de twitter, na troca de estudo pelo tumblr... Murasakibara era o espírito de todo estudante, ampliado dez vezes.

E por fim Aomine chegou, com a cara inchada de sono e pedacinhos de grama no cabelo. Vinha com cheiro de relva e sonhos. Se Murasakibara era o deus da preguiça, Aomine era Hypnos, o deus do Sono.

— Não adianta chorar pelo sonho sonhado. — Foi sua desculpa. Kagami ouviu Kise rir do seu lado, e o repreendeu com o olhar.

Aomine era um maldito. Sem mais. Akashi pigarreou.

— Ainda que tenhamos sido atrasados pela falta de disciplina de alguns dos grupos, vamos começar logo. — Ele olhou para todos. — Se vamos fazer isso, vamos fazer certo: Temos que decidir os cargos.

Aomine suspirou. — Não quero que tenhamos hierarquias. Perde a graça da coisa.

Himuro negou com a cabeça. — Não. Eu te conheço, Aomine. Se não tivermos hierarquias, vamos fugir do controle muito rápido. Acho que é mesmo necessário.

— O primeiro é presidente, não? — Midorima perguntou. — Quem se candidata?

Óbvio que ninguém levantou a mão e todos olharam para o Akashi. Não era nem um ponto a ser discutido, fato.

Okay, então vai o Akashi... — O garoto dos cabelos verdes disse, anotando em um papel.

— Quem disse que eu quero ser?

— Aclamação popular, Imperador. — Disse Midorima, sorrindo. Foi uma espécie de piada, já que Kagami pôde ver os dois sorrindo de canto.

“Garotos estranhos”.

— Sério que a gente vai perder tempo com isso? — Disse Aomine, bufando. — Vai o Midorima de vice e o Himuro de escriba.

Kise negou com a cabeça. — Como colega de quarto do Himurocchi, acho melhor não... Quando ele escreve algo, não sei se escreveu em hieróglifos ou se sua letra que é feia, mesmo.

— Ah, Kise, ele escreverá devagar e com carinho, não é, Himuro? — Rebateu o moreno.

Midorima tossiu. — Himuro, qual o seu signo?

O moreno arqueou a sobrancelha, mas respondeu. — Escorpião.

— Então, não. As posições interplanetárias atuais dizem que o alinhamento de saturno em conversão com júpiter pela nona divisória e a atração de marte não privilegiam escorpianos durante esse mês.

Todos pararam de falar, encarando o garoto de óculos.

— Quer dizer que o alinhamento de saturno e o meu pau mais a merda de uma estrela irão decidir o que faremos? — Perguntou Aomine. — Sério, quatro olhos?

— Na verdade, têm mais algumas coisas acontecendo, mas eu preferi não falar para não sobrecarregar seu cérebro diminuto.

Os dois se olharam com fogo no olhar, até Kise interromper. — Eu serei o escriba, não tem problema. E eu sou de gêmeos, os alinhamentos estão a favor de mim, Midorimacchi?

— Oh, Gêmeos? Vênus está em alinhamento com Marte pela órbita estelar número quatro que é influenciada por Mercúrio. Está muito bom para você, há probabilidade de você encontrar envolvimentos amorosos em breve, então mantenha-se alerta.

— Oh, sério? Isso é ótimo, e quanto à minha vida estudantil...

Aomine interrompeu, batendo a mão na cara e depois na mesa. — Vão pro inferno vocês dois, tem mais algo para decidir?

Kagami teve vontade de rir do amigo. Mas não poderia culpá-lo, era curioso que Midorima fosse tão conhecedor do mundo astrólogo. As pessoas eram sempre uma caixinha de surpresas, mesmo.

— Precisamos saber exatamente onde é, e quando vamos ir. — Kagami disse, entrando pela primeira vez na discussão.

Akashi assentiu. — Quanto ao lugar, eu examinei o mapa no google e não parece ser difícil de alcançar. Além disso, O Fantasma nos mandou o lugar com as coordenadas, se colocarmos em qualquer GPS de celular, acharemos.

— Então... Quando? — Insistiu o falso ruivo.

— Pode ser hoje, estamos em uma semana mais calma de lição, mesmo. — Himuro disse.

— Bem, hoje vai chover, se forem hoje recomendo capas de chuva. — Uma voz suave disse.

Todos se alertaram, alguns rostos se tornando branco repentinamente, e outros prendendo a respiração.

— P-Professor!

Akashi negou com a cabeça. — Você sempre tem que fazer isso, né, Tetsuya?

— Vocês são dispersos e falam alto demais. Se fosse outro professor estariam perdidos, deveriam me agradecer. — Ele disse, incrivelmente, colocando uma mão na cabeça do Akashi. É quase como colocar a mão na boca de um leão. —Vejo que o Midorima-kun continua afinadíssimo com os planetas.

— Você virá, também, Tetsuya? — Akashi perguntou, ignorando tudo que o primo dissera.

— Não. Sua geração, sua sociedade... Pelo menos não nessa primeira vez.

— Pera, pera... Quer dizer que o Professor Kuroko é o Fantasma? — Kagami perguntou.

Midorima rolou os olhos. — Claro, só esse estranho para fazer essas coisas, era uma conclusão óbvia.

— Muito obrigado, Midorima-kun, muito gentil de sua parte. — Kuroko disse. — Não se esqueçam das capas, têm algumas no armário do zelador.

Aomine olhou para cima, vendo um sol brilhante, um tempo agradável e um céu azul quase sem nuvens. Se iria chover, não iria chover ali.

— Duvido que chova. — Ele disse, em sua teimosia característica.

— Choverá, Aomine-kun.

— Aposto meu CU que não.

Kuroko sorriu de canto.

xXx

— Porra, que chuva. — Aomine exclamou assim que olhou pela janela.

Kagami observou a cena rindo, claro que também não esperava a chuva, ainda que o professor tivesse alertado. Pois bem, ela veio, montada em seu cavalo de rugidos luminosos e com coloração de chumbo fofo.

Kagami conseguia ouvir a alma molhada da natureza batendo e se integrando ao vidro da janela.

De repente Kagami se lembrou. — E o Michael?

Ele viu os olhos de Aomine se alargarem, e o moreno correr para dentro do armário e puxar de lá um guarda chuva e uma corda. — Vem, me ajuda.

Os dois saíram na varanda escura, a escola toda diluída em uma pintura molhada e com cheiro de terra, e juntos fizeram uma gambiarra que daria orgulho a qualquer Brasileiro, impedindo que sua gárgula de estimação se molhasse.

— Pronto. — Disse Aomine com certo orgulho na voz.

— Agora você pode dar o cu que você apostou sem ele se gripar.

Aomine respirou fundo, fazendo o ruivo arquear a sobrancelha. — Kagami?

— Hum?

— Vai se foder, por gentileza?

Os dois riram, e trocaram alguns socos amigáveis, mas que doeram mesmo assim. Era hora de se encontrarem com o resto do grupo na sala de estudo, como sempre faziam já há algum tempo: Combinaram de que manteriam os costumes para não parecerem suspeitos, ainda que estavam tão ansiosos que tinham vontade de se encolher em baixo das cobertas até a hora da fuga.

Eles fecharam a porta do quarto à chave, e desceram as escadas velhas e que rangiam mais que o joelho da bisavó centenária do Aomine nos dias de frio. Chegaram lá e não se surpreenderam em encontrar quase todos. A maioria em volta de um tabuleiro e apenas Midorima se separava do grupo lendo algum livro.

Os olhares se voltaram para eles, e Kagami não conseguiu segurar a risada quando perguntaram. — E aí, Aomine, preparou o K.Y, já?

O moreno ao seu lado mostrou o dedo do meio a todos. — Kagami já fez a piadinha, galera.

Kise sorriu, puro e iluminado como um anjo. — Não é uma questão de piada, é uma questão de sexo anal, mesmo. — Certo. Talvez não tão puro, e mais anjo caído do que celeste.

— Mas que fixação pelo ânus que vocês têm, Freud acharia um caso interessante de histeria coletiva envolta nisso tudo. — Midorima comentou.

Murasakibara que estivera o dia inteiro com mau humor, aparentemente se recuperara um pouco para zombar do moreno. E de Kagami, também, já que há tempos ele desenvolvera a teoria de que o falso ruivo e Aomine eram amantes. — Isso é ridículo, ele já é comprometido, no mínimo deve estar acostumado ao Kaga-chin, já.

Mesmo Kagami, que tinha tentado se controlar até agora, resolveu entrar na brincadeira. — Ele não está, mas hoje ficará acostumado. Promessa é Promessa, Aomine.

— Todos. Vão. A. Merda. Vocês sabem que gay não é só o que dá, né? O que come, também, é.

Alguns riram, e provavelmente continuariam a conversa, mas Akashi abriu a porta e entrou. Quase impecável como sempre, com exceção do cabelo que parecia uma das nuvens lá no céu; mais tempestade que a própria chuva lá fora.

— Akashicchi? Está tudo bem?

Himuro sorriu . — Por que que você matou uma arara vermelha e colocou no cabelo?

O ruivo apenas rolou os olhos, adentrando o local com calma. — É o tempo, esse clima úmido sempre faz isso com meu cabelo.

Kagami assentiu. — Eu percebi que ele estava mais revolto hoje cedo.

— AHÁ. — Aomine gritou. — Foi por isso que aquele cabelo de Smurf sabia que iria chover.

— Aceita que dói, menos. Eu também não quero te comer, Aomine. — Himuro disse. — Mas aposta é aposta, dever é dever.

— Deixemos a discussão das nádegas de Aomine para outro dia. — O garoto de cabelo verdes se intrometeu no assunto. — Agora que está chovendo, precisaremos das capas de chuva.

Akashi deu de ombros. — Eu imaginei que Tetsuya estava certo, ele não costuma errar muito. — Ele puxou de um dos bolsos da blusa do uniforme um grosso e velho molho de chaves, tão velhas que deviam ter sido feitas na Mesopotâmia. — Já consegui a chave do armário do Zelador.

Kagami observou Aomine passar os braços pelo ombro do ruivo. — As vantagens de ser amigo de um membro da Alta Aristocracia...

— Sou quase um Lannister de tão nobre, Aomine. — Akashi respondeu. — Sabe o que isso significa? Que os Lannister sempre pagam suas dívidas e as cobram, também. Você tem uma dívida com a gente, meu caro vassalo.

Aomine arregalou os olhos, recuando até o sofá. — Até você... Não... Por favor, tenha piedade. Senhor, Piedade.

xXx

Kuroko se obriga a sorrir, fazendo a mulher à sua frente se derreter.

— Prometo que não é espionagem, só uns documentos bobos.

Mentira, era espionagem. Mas a moça à sua frente não poderia saber. Era a secretária do tio, e ela tampava naquele momento o acesso às informações que ele queria. Era um dos poucos momentos que o tio não estava na escola e ele poderia xeretá-lo.

— Kuroko, isso pode me dar problemas. — A mulher disse, enrolando a língua no “r” como todo falante de inglês faz. Ele se obrigou a sorrir, de novo, fingindo que não se importava com seu nome sendo falado errado.

Ela pareceu pensar, puxando uma mecha do cabelo para trás da orelha. Era a nona vez em dez minutos que isso acontecia, os ovários dela provavelmente explodiam por baixo da saia média. Não que ele fosse estupidamente bonito, mas charmoso ele era. E sabia a impressão que passava no meio de uma escola cheia de garotos infantis que mal conseguiam se segurar e não olhar um decote, e velhos babões que a pipa não subia mais.

E que a humildade vá para o inferno: Ele era bonito sim. Principalmente quando se vestia bem e usava terno e gravata.

Lá fora a terra tomava banho e os garotos se preparavam para desafiar silenciosamente a escola. E ele flertando com alguém que não tinha a menor possibilidade de se envolver, não por ela ser feia ou algo assim. Não importava muito. Ela poderia ser a gostosa das gostosas, mas tinha peitos e não pênis, o que já impossibilitava muita coisa.

A moça que era mais nova que si estendeu a chave da porta do escritório do tio. — Tudo bem. Não acho que você queira fazer mal ao seu tio.

Ele assentiu, mordendo a língua para não dizer nada irônico. Disse um obrigado, e calmamente adentrou a sala do tio.

O papel de parede eram estantes. Estantes cheias de livros, muitos e muitos livros. Era uma boa imagem a se passar em uma instituição educacional. Uma mentira, também, já que o tio sempre declarara intimamente o desafeto com os livros.

Quando ele próprio disse que estudaria línguas e literatura fora quase como um desafio ao pai de Seijuuro. Ele olhou as centenas de livros, que nunca foram lidos e que nunca seriam se continuassem ali. Ele sentiu dó daqueles exemplares.

Mas não perdeu tempo nisso e logo foi procurar nos arquivos da sala luxuosa que cheirava a tabaco os livros contábeis. Ele dizia uma sala, mas eram duas. O escritório grande, com os livros e decorado ricamente; e a sala anexa mais enorme ainda com os arquivos da escola. Ele tinha alguma esperança de que a mente velha e conservadora do tio ainda fizesse questão de guardar livros contábeis ao invés de fazer o processo todo informatizado.

Estava errado, aparentemente mesmo as mentes velhas e conservadoras tinham que se curvar perante a necessidade de rapidez eficiência do mundo. Não fora uma procura de todo inválida, ele sorriu quando encontrou as fichas com histórico, notas, e tudo que escolas guardavam dos alunos. Não se fez de rogado em tirar foto das fichas dos membros d’A Sociedade.

Ele procurou por entre os arquivos, do modo mais rápido que pôde, os documentos administrativos da própria escola. Mas não encontrou. Fechou tudo e saiu da sala anexa, deixando-a aparentemente intocada.

Ele olhou o computador na mesa do tio e resolveu arriscar. Com sorte conseguiria adivinhar a senha e encontrar o que queria. Ele riu quando a imagem do desktop abriu, sem necessidade de senha. Claro, o tio mal conseguia se lembrar a senha do próprio cartão ou do site pornô que visitava todo dia, como colocaria senha no computador?

Foi incrivelmente fácil encontrar os dados contábeis salvos no computador, e puxar mais algumas informações do site da Receita Americana. Ele tombou com algumas fotos da secretária pelada e alguns vídeos que ele definitivamente não tinha interesse — Ainda que ele teve que admitir, ela tinha nádegas muito bonitas; quase se invejara.

Quando ele copiou tudo que precisava para o próprio pen-drive saiu quase assobiando AC/DC. A secretária o olhou, e ele se controlou para não falar que tinha visto os seios dela.

— Achou o que procurava?

— Não... Vou ter que pedir para ele mais tarde, mesmo.

— Ah. Que pena.

— Não tem problema. Obrigado pela ajuda, fica com deus.

Ele não conseguiu segurar a ironia. Mas por sorte ela não entendeu; deus teria sido muito sacana por tê-la jogado justo naquela escola.

Andou calmamente pelos corredores com cheiro de poeira e prisão, se permitindo assobiar e cantar dessa vez.

I’m on the Highway to Hell, tan tan…

xXx

A chuva cegava o luar quando os garotos em capas de chuva saíram dos próprios quartos sem fazer barulho.

Quase como se qualquer som fosse feito, todos seriam pegos. Não trocaram palavras, nem olhares já que a noite era noite daquelas escuras e tão densas que eles quase podiam tecer uma corda de escuridão.

O único barulho que foi ouvido foram os mínimos sons dos passos, das respirações e da chuva que encharcava a terra lá fora.

Tinham combinado que fariam tudo no maior silêncio possível, tinham medo dos dois monitores que ali dormiam, e tinham medo dos próprios colegas. Quase como em uma ditadura, sabiam que poderiam ser dedurados. Por isso as reuniões foram decididas por serem completamente secretas, e que aqueles que tinham colegas que não faziam parte d’A Sociedade deveriam manter o segredo a todo o custo.

Descer as escadas fora um sacrifício, os degraus rangiam e ameaçavam denunciá-los. Lá embaixo, saíram pela janela do quarto de Akashi. Teriam que dar a volta na construção, mas não correriam o risco de abrir a porta velha e principal do dormitório.

Pularam a janela, um por um, o capuz já caindo sobre os olhos e impedindo que as gotas os tocassem demais. Mas a chuva era uma tarada aquela noite, e sempre encontrava brechas para tocá-los. Já fora da construção, eles permitiram-se falar e pisar firme: A melodia dos pingos era tão forte que era quase um fone de ouvido na orelha.

— Estamos parecendo pescadores. Vamos participar do Pesca Selvagem, no Discovery? — Aomine disse e os que ouviram riram.

Para Kagami eles pareciam monges ou uma espécie de membros de um culto satanista, com os capuzes pontudos das capas. Akashi logo deu a ordem para se moverem, e moveram-se.

Correndo... Melhor falando: Navegando e quase se afundando no barro que era mais líquido que toda aquela água. Cada poça um pequeno mar.

Escolheram uma hora de troca de turnos, assim era menos suscetível que fossem pegos. Se bem que com aquela chuva, Kagami duvidava que alguém fosse distingui-los. Eram quase espectros, fantasmas úmidos no momento.

Cruzaram as construções e áreas da escola com uma velocidade assustadora, e encontraram-se na boca do pântano com felicidade. Midorima tirou o celular do bolso, e colocou o GPS para funcionar.

— Tenham cuidado, no pântano a lama está mais escorregadia ainda. — Alertou Kagami assim que pisou naquela terra.

Mal disse isso, e viu Murasakibara cair de cara no chão. Uma montanha de mais de dois metros, em capa amarela e flora roxa despencando. Nem se preocupou em ajudar, Himuro já fazia isso, apenas riu.

Adentraram o pântano com respeito e passos de velho. Mais escuro do que nunca, mas parecia chover menos graças à vegetação do local. Todos seguraram nas capas um dos outros, sendo guiados pelo visor do celular do Midorima.

“A cem metros, vire levemente à direita”.

Todos olharam curiosos.

Midorima deu de ombros. — GPS do Google. Nunca questione o google.

Kagami rodou os olhos e continuaram a andar. Pela primeira vez ele agradeceu à colonização do lugar por ter extinto as cobras dali. Provável que já tivessem sido picados caso elas ainda andassem por ali, sibilando com suas línguas de Harry Potter.

Ele sabia que ainda tinha escorpiões, mas deliberadamente obscureceu esse ponto no pensamento.

A água não parava e o tempo era só um conceito filosófico distante quando eles ouviram a voz do oráculo google falar: “Destino Alcançado”. Estavam à frente de um pequeno morro, e com a ajuda do celular viram uma pequena entrada coberta de verde pantanoso. Tão baixa que Kagami sentiu dó de Murasakibara antes de lembrar-se que era alto, também.

— Mas eu não entro aí nem se o youtube e o facebook saírem do ar. —Disse Kise.

— É aqui mesmo, Aka-chin?

O ruivo deu de ombros. — Se o google falou... Então, quem vai primeiro?

— Bem... O líder deveria ir, sabe, Akashi? Cai sobre ele o dever.

— Discordo, Himuro. O líder deve ser protegido antes de tudo.

Era ridículo que o reino de Zéus despencasse sobre a cabeça de todos, enquanto eles debatiam sobre quem entraria primeiro. — Eu vou. — Disse enquanto empunhava o próprio celular na mão.

Abaixou-se e entrou, mas não teve que ficar muito tempo assim. Era quase como um túnel, estreito no começo, indo para baixo da terra, mas se expandindo em uma caverna, consideravelmente, espaçosa.

—Podem vir, galera. Não tem nada de mais.

Aomine foi o primeiro, logo os outros chegaram. Era úmido e frio lá dentro, mas nada comparado com a Atlantis que o mundo terrestre estava virando naquele momento.

— Me sinto em uma toca de Hobbit.

— E você está amando isso, né, Himuro?

— Com certeza, Midorima.

Eles ouviram um rosnar, e Kagami sentiu uma corrente marítima do atlântico seguir o rastro de sua espinha. Ele conheceria aquele som em qualquer lugar, seu pior pesadelo, sua morte e inferno pessoal.

— Oh, um cachorrinho. — Kise disse feliz, e foi pegar a criatura demoníaca. Kagami prendeu a respiração quando o loiro foi levemente mordido, mas riu com isso. — Tadinho, tá até sem força para morder.

— Ótimo, — Aomine usou seu tom de reclamação. — Temos um loiro veterinário e com possibilidade de ter raiva, agora.

— Para de ser rabugento, Aominecchi. — O loiro disse, tirando um pedaço de pão da blusa que vestia e dando pro cachorro. — Ele é tão pequeno, e tem olhos azuis.

Akashi andou para frente, parecendo levemente curioso. — Ele me parece com alguém que conheço.

Midorima concordou. — Agora que você comentou...

— Quem se importa? —Kagami interferiu. — Ele é um cachorro filhote, deve ter mãe. E se a mãe nos pega... Estamos perdidos.

Kise o encarou bravo. — Kagamicchi, deixa de ser viadinho? — Sorriu, agora com o cachorro nos braços. — Ele tá molhado, com frio, com fome... Tenho certeza que não vai te machucar.

Murasakibara que tinha que se curvar um pouco para ficar de pé fez uma careta. — Eu também estou com frio, molhado e principalmente com fome, e não vejo meu pedaço de pão.

Eles riram. De repente perceberam que estavam ali, no meio do pântano, com meias encharcadas — a pior sensação do mundo —, sujos de lama e com fome, e para quê?

É para quê?

— E agora, fazemos o que, Akashi? — Kise perguntou, tremendo de frio e com o cachorro nos braços.

— Primeiro uma fogueira.

Todos assentiram. — E?

— Aí daremos início à primeira sessão.

Vendo assim, de modo distante e quase a parte, tudo parecia meio idiota. Mas o som da água caindo, era como o som de uma cachoeira em alguma área tropical, o cheiro de lama pantanosa lembrava a infância meio boba, e quando a fogueira foi acendida eles puderam ter o prazer de quem se aquece, perto de morrerem de frio: Os dedinhos envoltos por algodão molhado se mexendo tentando chegar mais próximo do calor. E mesmo o rosnado do cão dava a Kagami aquele medo gostoso de se assistir filme de terror quando se tem sete ou oito anos de idade. Um gosto de liberdade.

E naquele momento eram tão livres e idiotas quanto poderiam ser.

Naquele momento eram loucos e esquecidos pelo mundo lá fora, e uma fogueira ao redor dos amigos aquecia muito mais calefação ou chocolate quente.

— Kagamicchi, o cachorro está fazendo xixi no seu pé.

Ou talvez fosse a urina de cachorro que aquecesse, ele nunca saberia.

Notas finais
Okay, esse capítulo não era para terminar aí, mas eu vi que estava ficando longo, e se eu continuasse acabaria escrevendo demais. Eu coloquei o cachorrinho do Kuroko na história, minha gêmea falou que o nome dele é Nigou. Então ele vai passar um tempo com a gente, e com os garotos. Quem gosta de cachorro fique feliz, quem não gosta chore. É a vida. Se você gosta ou não de cachorros, me diga nos comentários. Me diz se gostou, ou se tem algum erro ortográfico ou de gramática que eu deixei passar batido. Comenta se você acha que o Aomine deve honrar a promessa. XDD. Espero que tenham gostado. See you~.