Notas iniciais
Mil desculpas, mil mil desculpas, MIL MIL MIL DESCULPAS. Eu sei, o meu sumiço foi uma atitude imperdoável. Mas as vezes a vida é uma cadela, e as coisas terminam assim. Anyway, eu espero que vocês ainda me leiam e se sim, vejo vocês lá nas notas finais. See you there.

— Certo, já que ninguém vai, eu vou. — Disse Aomine, mais laranja avermelhado pelo brilho da fogueira que a maioria dos pôr do sol existentes.

— Certo, isso é incomum. — Disse Akashi. — Mas levando em conta a circunstância total, vai lá.

Aomine se levantou, portando por uma vez na vida um semblante sério e composto. — Eu vou recitar um poema, de minha própria autoria, mas fazendo intertextualidade com um outro poema clássico, quase Grego, que tenho certeza que os senhores saberão qual é. — Ele fez uma pausa, respirando fundo e mexendo a cabeça e os braços em gestos exagerados e dramáticos. — É um pequeno poema que demonstra o meu interior, sabe? O que eu realmente sinto, meus medos e tudo mais.

Kagami rolou os olhos, achando engraçado a enrolação e o porte falso do amigo, perto dele Kise sentava-se meio encolhido, os cabelos molhados e os olhos mais brilhantes que a fogueira no centro de todos aqueles garotos. Kise prestava atenção demais à zombaria de Aomine, algo que somado àquelas estrelas brilhantes no lugar dos orbes fez as engrenagens do cérebro de Kagami girar.

Mas elas pararam quando Aomine começou a falar.

— Rosas são vermelhas. — Disse Daiki para logo receber uma capada na cara.

— Não acredito que fez todo esse drama para isso. — Kagami disse.

— Posso falar, seu ogro? — Ele pigarreou. — Rosas são vermelhas, violetas... Bem, elas são azuis. Vocês são muito legais, mas não vou deixar comerem meu cuscuz.

O poema conseguiu arrancar algumas risadas, Kagami conseguiu ver Akashi escondendo um sorrisinho enquanto balançava a cabeça.

— Você merece um nobel de literatura, Aomine.

— Obrigado, obrigado. Vocês podem comprar o meu livro na loja virtual da Amazon.

xXx

— Está tudo bem? — Aomine perguntou, arqueando as sobrancelhas.

—Yeah, por quê? — Kise respondeu.

— Seus lábios estão meio roxos.

— Ah. — Respondeu, coçando a nuca com a timidez na memória de um sorriso. — É porque estou com um pouco de frio.

— Mesmo perto da fogueira?

O loiro assentiu.

— Minha capa de chuva estava meio furada, então a fogueira não ajuda tanto assim... — Ele riu. — Só percebi quando senti um frio molhado do Canadá me dando arrepios.

— Do Canadá? Um frio do primeiro mundo, pelo menos.

Kise não chegou nem perto de rir, a piada era sem graça, mas deu um sorrisinho pelo esforço. Foram alguns segundos dele olhando o fogo até sentir um tecido sendo esfregado na sua cara.

— ‘Tá dormindo, Gisele Bundchen?

Momentos se passaram com ele com cara de palerma — Justamente na frente do Aomine — até Ryouta perceber que o outro estava oferecendo uma blusa. Ele levantou as mãos, as chacoalhando freneticamente. — Não, não precisa.

— Claro que precisa, tá parecendo seu celular quando conectou com a internet, todo tremendo. — Aomine disse com um sorriso.

— Aquilo era do grupo da família, okay? — Ele justificou, embora não fosse inteiramente verdade. Tinha de outras pessoas, mas a família falava demais. — E você vai ficar com frio, aí não adianta nada se eu pegar.

— Maldito popular... Tsc. Pega logo e para de manha, eu não estou molhado e não quero ser responsabilizado por uma provável hipotermia.

— Eu não estou molhado.

— Tu acabou de falar que estava todo... Molhadinha. — Kise percebeu o tom malicioso e rolou os olhos enquanto o rubor formigava por sua bochecha.

Desde quando conhecera o moreno esses momentos vinham acontecendo, Kise constantemente sentia o calor subir pelo pescoço, jugular, e pintar com cores expressivas as bochechas. As vezes acontecia de até as orelhas fumegarem.

Sempre que se despedia do outro no final do dia, parecia ter saído de uma daquelas guerras de tomate que tinha na Espanha: Vermelho vermelho.

E ele não gostava tanto disso.

— Vai se ferrar, cara. — Ele encarou o outro com o olhar duro. — Você vive me comparando com uma menina. Eu tenho piroca, entendeu? Pi-ro-ca. — O loiro fez questão de dizer a palavra pausadamente, logo acrescentando baixinho: — Para de me tratar como uma garota.

Daiki o encarou com os olhos, geralmente afiados, agora um pouco mais esbugalhados, como se as falas de Kise não se encaixassem. Mas logo riu.

— Ser gentil é te tratar como garota? — Ele deu de ombros. — Então tá. — Deu um soco no braço do Kise que fez o outro gemer. — Ô seu animal, troxão, pirocudo, te desafio a usar essa blusa, mostra que tu é homem usando ela. Tu não mata a cobra e mostra o pau? Tu não assiste futebol americano ao invés de Glee? Então coloca a blusa, senhor másculo... — Aomine parou para pensar em alguma palavra que se encaixaria perfeitamente, demorando um ou dois segundos. — Porra!

Kise pegou logo a blusa quando sentiu alguns olhos convergirem nos dois. Pegou, com uma careta e um olhar de desagrado, mas pegou. Era de tecido jeans desbotado, e ainda que não fosse tão aconchegante e quentinha, para alguém que tivera a própria toda molhada por uma chuva de nitrogênio líquido era muita coisa. — Você é um idiota. — O garoto de sorrisos quentes e cabelos cor de ouro derretido colocou a blusa ainda meio mal humorado, sem saber que mesmo com os cabelos molhados cheios de friz, com a camiseta suja com lama pelas patas do cachorro e com aquela cara irritadiça, ainda parecia um modelo.

Ele olhou para Aomine, procurando o olhar zombeteiro de sempre, mas só encontrou um sorriso que embora não fosse nada demais, para Kise parecia mais iluminado que Las Vegas, e dois orbes tão quentes quanto um banho de chuveiro depois de tomar uma chuva fria.

Ele sentiu o borbulhar envolvendo o pescoço e o formigamento habitual nas maçãs do rosto. Dessa vez as orelhas também foram atingidas, e o metal do brinco pareceu derreter com um constrangimento que não precisava estar ali e que Kise sabia muito bem o que significava.

O loiro bagunçou os cabelos, fazendo de tudo para não olhar nos olhos do outro. — Ér... Obrigado.

xXx

Enquanto Midorima se perdia declamando de cabeça algum poema de Whitman, enquanto ia adicionando comentários sobre a sonoridade e a construção dos versos, Murasakibara começara a se agitar sentado em um pedaço de terra mais elevado.

Poucos segundos depois, Kagami observou o mesmo grandalhão apoiar os cotovelos nas coxas e cobrir o rosto com as enormes mãos. Parecendo realmente sofrer com o poema. Midorima tomou aquilo como um elogio e continuou recitando, agora com mais vontade e teatralidade.

Quando Midorima terminou o poema, daquele jeito todo certinho que era característico dele, Murasakibara ainda continuava com as mãos emboladas nos fios médios.

O falso ruivo observou Himuro pousar a mão direita suavemente sobre o ombro do gigante, e com uma voz calma e suave perguntar se o outro estava tudo bem. Kagami realmente acreditava que se tinha alguém capaz de tratar da tristeza de outra pessoa do grupo, essa pessoa seria Himuro.

Ele falava sempre no volume certo, alto suficiente para que todos ouvissem, mas de uma forma que não deixasse as palavras saírem da bolha do grupo ou incomodasse o ouvido de alguém. Ele tinha uma voz de afago, e um olhar cordial, que embora não tão convidativo e amigável como o de Kise, ainda era completamente confortável.

— Eu sinto falta dela.

Dela? O pronome possessivo o pegou de surpresa, e pelo que conseguiu ver, pegou a todos, também. Atsushi tinha um envolvimento amoroso? Uma namorada, talvez? Era plausível. Murasakibara era um cara que mesmo sendo idiota e meio cabeça nas nuvens, as vezes, era legal e extremamente bonito.

Certo... Ele era muito idiota. Mas conseguia de alguma forma, com toda aquela indiferença com o mundo, atrair amigos.

Himuro ao lado do grandão ficou alguns segundos sem falar nada.

— Você quer falar sobre isso, Atsushi?

A cabeça de cabelos roxos se mexeu, indicando que sim, ele queria falar sobre o assunto. Os olhos violáceos que geralmente retratavam a preguiça estavam tristes.

— Aqui é muito chato... Não vocês, vocês são legais até. Mas todo esse local é muito chato. — Ele retirou alguns dos fios que teimavam em cair sobre os olhos, os empurrando para trás da orelha. — É quase uma prisão, às vezes. — Atsushi mordeu os lábios. — E ela é o que me faz feliz, é o que me faz continuar tentando, ao menos, tentando. — Ele parou pensando. — Não que vocês não sejam uma grande ajuda, mas... Mas... Mas eu não posso comer vocês, entendeu? — Oh... Okay, Kagami pensou enquanto ouvia o outro falando, teve vontade de interromper e falar que sim, devido a certas circunstâncias Murasakibara poderia sim comer alguns dos presentes ali, mas conteve-se e apenas trocou um olhar divertido com Kise apesar da tristeza aparente do momento. — Eu sinto falta da maciez, do cheiro... Da ansiedade de no sábado esperar até o interfone tocar para ela chegar e depois assistir um filme... Sabe, eu sinto falta disso.

Kagami observou Himuro comprimir os lábios um contra o outro, e passar o braço sobre o ombro de Atsushi.

— Hey, cara... — Himuro disse lentamente. — Eu sei que é um porre, mas paciência... A vida é assim. Por um lado, só mais alguns meses e o semestre acaba, e aí 'cê vai poder ficar com ela.

O menino que cheirava fermento quando criança assentiu. — Tem razão... Eu só espero que a pizzaria não feche enquanto isso.

[...]

Como?

Himuro lambeu os lábios, pensativo. — Perdão?

— A minha pizzaria favorita... Onde eu peço pizzas. — Ele disse como se fosse óbvio.

Himuro passou a mão pelo rosto, claramente pensativo. — Eu ainda não estou entendendo o que você quer dizer.

— Não estávamos falando de pizza, agora há pouco? Então... Eu espero que durante esse tempo a pizzaria não feche, porque eu comprava tanto lá que tenho certeza que só eu conseguiria pagar o salário de todo mundo. — Kagami viu o rosto de Himuro endurecer, enquanto ele próprio não acreditava. — Certo, não precisa me olhar bravo. Eu sei que mesmo se a pizzaria fechasse, existem outros lugares que podem fazer pizza de quatro queijos boa, também, mas nada, em minha opinião, ganha da La Bernotonni. — Himuro fechou os olhos com força, apertando os punhos. — Ah, então tá, Himucchin, se você acha que a sua pizzaria favorita é melhor, me passa o telefone depois que eu posso até tentar, mas não garan...

Himuro pulando em cima do grandão era um acontecimento completamente previsível no momento, então quando aconteceu, todos estavam prontos para segurarem o não-mais-tão-perfeitinho Himuro de socar a cara do Murasakibara.

Até Akashi tinha se levantado, protegendo o grandão. — Ele é só uma criança, Himuro.

— Não! Ele é um idiota, ele merece isso, Akashi.

— Mas o que que EU fiz? — Perguntou Murasakibara.

Minutos depois quando Himuro já estava calmo, tendo se desculpado por sem querer ter acertado um soco no olho de Midorima e um chute que castraria e impediria Aomine de perpetuar a linhagem, depois de Kise ter começado a rir e puxado todo mundo para rir com eles, eles se olharam e sorriram.

Até ouvirem Aomine fungar.

— Sabe, eu até consigo me conectar com o que Murasakibara sente, Naruto acabou recentemente e... — Ele fez uma cara de choro. — Eu sinto falta da porradaria, dos jutsus, do lámen, do Itadakimasu! — Daiki fungou de novo. — Eu te entendo, Murasakibara.

Os dois se abraçaram, os dois entendendo as angústias do seu par, encontrando um pouco de conforto nos braços amigos que sabiam sentir algo semelhante.

Midorima bufou. — Sinceramente, vocês são ridículos.

— Disse o cara do olho roxo.

xXx

Faltava pouco mais de uma hora para o sol começar a nascer e iluminar a cara de sono que eles tinham quando eles resolveram terminar aquela sessão.

Uma sessão improdutiva, sim, ninguém negaria isso. O propósito cultural dela sendo jogado para o segundo plano, mas fora uma sessão divertida. E essa diversão bastaria para eles terem que enfrentar o resto do dia quase sem ter dormido, o Sol nasceria espalhando toda aquela alegria que os estudiosos juravam ser vitamina D, e que parecia um quadro de Monet, todo perspectiva em luzes.

Eles apagaram a fogueira já com um sorriso de saudade e se despediram da caverna parcialmente cansados, sentindo pela primeira vez na noite o resultado de toda a empreitada. Kise protagonizou uma cena que fez Aomine e ele próprio rolarem os olhos com tanta intensidade que poderia resultar em um descolamento de retina.

— Eu volto amanhã para te trazer comida. — O loiro disse abraçando o cachorrinho que olhava aos outros com olhos de indiferença. — E temos que descobrir o que fazer com você.

— Meu ovo que temos. — Disse Aomine, delicado como sempre. — Não tenho nada a ver com isso, agora vamos, deixa de drama.

— Kise, se demorarmos demais não conseguimos entrar no dormitório sem sermos vistos. — Kagami argumentou.

No entanto, ambos os garotos terminaram se calando perante o olhar do loiro, que não admitia deixar o cachorro em segundo plano.

Midorima comentou irônico. — Aposto milhares de dólares que esse aí vai terminar sendo ativista do GreenPeace.

Fora mais difícil sair da caverna do que entrar, Kagami terminou com grama e terra por debaixo das unhas quando conseguiu. Só então perceberam que não mais chovia, e que tudo tinha um cheiro mais realçado e refrescante.

O pântano respirava uma névoa rala enquanto os tênis sujos corriam por entre árvores de folhagem desfalcada. A névoa podia ser rala, mas era muita; parecia que estavam em Woodstock, e que existiam milhares de hippies camuflados fumando tanta maconha que fariam os alunos dos cursos de humanidades da faculdade parecerem velhinhas moralistas fazendo caretas de horror a cada vez que viam um beijo gay.

Kagami e os outros chegaram perto de escorregar uma infinidade de vezes. Murasakibara era uma exceção, esse caía sem nenhuma leveza no chão de barro. Nem Jesus que, teoricamente, andara sobre as águas, conseguiria andar direito por ali sem pelo menos pisar em falso seiscentas e sessenta e seis vezes.

Quando eles deixaram para trás o último tronco de árvore esquálida, mais retorcida que o Quasimodo, Kagami viu um guarda lá para cima da colina, perto do portão de carros da escola. Ele não sabia se a névoa de fato tinha propriedades alucinógenas para ele estar vendo um homem de farda por aí ou se havia almas boas por entre os funcionários da escola, boa a ponto de não ir atrás deles.

O funcionário os olhou correndo-escorregando-esquiando. O falso ruivo até parou, sabendo que caso o guarda quisesse eles seriam pegos, eles ainda estavam longe do dormitório, não conseguiriam ter uma fuga eficiente a campo aberto. Mas o fardado apenas se virou e desapareceu no truque de perspectiva daquele terreno cheio de relevos e Kagami saiu do transe com um xingamento e um tapa na cabeça forte demais.

E logo eles se encontravam se escorando por entre as construções e as costas de guardas preguiçosos. Kagami não os culpava por eles não detectarem o grupo, provavelmente estavam ali havia anos já e tinham de ficar acordados durante a madrugada. Se ele próprio fosse um desses guardas, sabia que não teria pego os infratores, também.

Mesmo que estivessem andando por aí com uma capa amarela neon — Última moda nos portos da França e nas gôndolas de Veneza — e cabelos tão coloridos que quando estavam todos juntos Kagami esperava ver um duende com um pote de ouro ao redor já que pareciam ser um grande e imenso arco-íris.

Aliás, ênfase no imenso. Tirando Akashi, com seu ingênuo e humilde um metro e setenta e três centímetros, o que o fazia quase um Hobbit perto dos outros, todos eram grandes. Especialmente Murasakibara, que Kagami suspeitara ser tão grande apenas para fazer cosplay do Monte Everest.

Assim que chegaram na janela que saíram, começaram a tirar os sapatos e entraram. Cada um com seu par de calçados na mão, cada tênis pesando o dobro pela lama e pela água. Quando eles entraram no edifício, foram atordoados por um calor aconchegante. Nada da Atlantis lá fora, o chão era firme, o ar menos denso e a única coisa verde por ali era o cabelo de Midorima.

Depois disso, a mente de Kagami vagou para o fato de que havia uma cama para ele lá em cima, só isso já o fez quase dormir em pé. Os garotos entraram, todos cuidando para não fazer barulho, com os pés sem meias e gelados em contato direto com o chão e todos cheirando a cachorro molhado.

Cada um foi para um canto.

Ele não se lembrava se tinham se despedido, mas depois, quando voltou a pensar na ocasião, não fazia nenhuma diferença terem ou não se despedido. Não era um fator determinante. Porque era como se não estivessem se separando. Eles todos, não só Kagami, sentiam-se juntos demais, quase abandonando a forma e integrando a essência.

Pensar na separação era algo que pedia noção de tempo e no universo do Sandman, que todos estavam com um pé dentro, não havia tempo. Havia sonhos e pesadelos. E ele tinha certeza que naquele momento tudo parecia mais sonho.

Um sonho com cheiro de cachorro molhado e capas amarelo neon.

xXx

Tinha caído tanta água na noite anterior, que naquele dia não havia nuvens nos céus. Nem um resquício de algodão. Nada. Tudo era azul, azul. Quase da cor do cabelo de Kuroko, Kagami pensou.

E devido a essa falta de nuvens, o dia brilhava. Brilhava a ponto de fazer toda aquela água evaporar, toda a água do corpo evaporar, toda a vida e espírito evaporar.

Kagami era um grande exagerado, sim. Mas o dia estava calorento.

E ele se manteve fielmente acordado em todas as aulas, lutando contra si próprio e a interferência do Sol. Dentro da sala de aula seu cérebro parecia ter sido cozido. Quando o último sinal bateu, ele era a pessoa mais feliz e cansada da face da terra. Se pudesse, teria corrido de volta para o dormitório, da onde Aomine nem tinha saído.

Mas não conseguia correr, estava meio mole. Então ele apenas foi. Ele foi através da porta, e através dos corredores, foi até conseguir ver a grande porta aberta para a saída. Quando já conseguia sentir uma leve brisa tocar-lhe o rosto uma mão o puxou.

— Finalmente, alguém que pode me ajudar. — Disse uma voz bonita de mais para ser chamada de voz do demônio. — Kagami-kun, você pode carregar uns livros para mim? — Perguntou-lhe Kuroko.

Kagami sentiu a vontade de gritar um redondo não, mas se controlou para não o fazer. Cada momento gasto com o professor por quem nutria uma quedinha frívola tinha de ser bem gasto. Ele assentiu, então.

— Kagami-kun, você passou algo no cabelo? — O falso ruivo negou franzindo a testa. — Devia passar um pente, você está com uma cara péssima e olheiras terríveis.

Ele grunhiu, ótimo, nada melhor do que estar horrível na frente de alguém que você tem certo interesse. — O senhor é sempre muito gentil, professor.

Ele estava provavelmente pagando um mico, parecendo um mendigo na frente de Kuroko, mas ele nunca diria que não valeu a pena porque o homem da cabelos azuis riu, ou ao menos soltou uns sons que lembravam a alguma distância e com uma boa edição de voz uma risada. E tinha até um sorriso.

— Sabe? Se eu não soubesse que você é um garoto direito diria que você passou a noite acordado, andando por um pântano alagado apenas para ressuscitar um clube de literatura de loucos. — Kuroko deu uma risadinha pelo nariz. — Ainda bem que você é um garoto direito.

Taiga não sabia se ria ou rolava os olhos, na dúvida fez os dois, coisa que o fez parecer estar tendo um ataque epilético, mas que definitivamente expressou o que queria dizer.

— Os livros estão em cima da minha mesa, seria ótimo se pudesse me ajudar. — E ele olhou uma imensa pilha de livros. Coisa demais para uma aula. — Vamos, meu caro, não tenho tempo para desperdiçar não.

Ele andou meio desanimado, pegando os livros que pareciam pesar uma tonelada. Talvez a chance não fosse de toda ruim, ele teria a capacidade de se mostrar um pouco para o homem de cabelos azuis.

Kagami saiu da sala, sendo logo acompanhado por Kuroko que trancou a porta à chave. — Sinceramente, não sei para que tem que fechar essa merda. Te garanto, depois das aulas, nenhum dos alunos quer voltar. — Disse Kuroko e o falso ruivo apenas assentiu sem saber o que responder a isso.

E só então os dois caminharam pelo portal de luz que era a porta da saída. No momento que o ar lá de fora entrou em seus pulmões e o Sol tocou sua pele, Kagami sentiu-se em fogo. E não, isso não era uma frase com duplo sentido pelo fato dele estar andando perto de Kuroko.

A frase era a frase, assim como um vaso é um vaso, e um cachimbo é um cachimbo, embora o desenho dele não seja um cachimbo.

Do seu lado Kuroko se abanou, logo falando: — Céus... Será que o núcleo da terra ficou caro, e Lúcifer teve que se mudar para cá? Que calor do inferno.

— Não sei nada sobre bolha imobiliária, mas eu sei que esse Sol está tão forte, que conseguiu mudar minha etnia asiática para negra.

Os dois apressaram o passo entre piadas sobre o calor. Kuroko tinha afrouxado o nó da gravata — Que tinha um padrão de cristal verde igual ao do The Sims — e abrira dois botões da camisa que usava. E mesmo que seus pulmões se incinerassem, Kagami prendeu o ar quente lá dentro.

Talvez fosse impossível para Kuroko entender, com sua mente meio esquizofrênica e fora do comum, até que ponto ele conseguia ser sexy. De repente, o clima quente pareceu ter vindo no tempo certo só para combinar com o literário.

— Akashi me disse que houve certa confusão no encontro. Quase achei engraçado o olho roxo do Midorima-kun.

Demorou alguns segundos até que o grande garoto entendesse que eles estavam falando de outro coisa que não era aquela gota de suor escorrendo, invejosamente, em direção ao abdômen do professor.

— Ahn... Sim. — Ele riu enquanto pensava sobre o que falar. — Aparentemente, Murasakibara tem um relacionamento mais forte do que imaginávamos com comida. E Himuro não aceitou muito bem ser enganado.

— É, realmente, notável que um garoto como o Himuro-kun possa ter se exaltado. Ele é completamente inexpressivo nas aulas. — Disse Kuroko com aqueles olhos diretos e tom de voz monocórdio de sempre. Kagami teve que morder a bochecha por dentro para não gritar o quanto isso era irônico. — Mas acontece... As vezes porque tivemos um dia ruim, as vezes por causa de um idiota que liga demais para comida e as vezes porque esquecemos de tomar nosso Rivotril.

O falso ruivo franziu as sobrancelhas — Bem...

— Por aqui, Kagami. — O professor disse, abrindo a porta e apontando para as escadas. Só então notara que chegaram no edifício. A distância entre eles não era tão grande afinal.

Os dois subiram escadas que não rangiam, o que fez Kagami torcer o nariz em desgosto. Ele não confiava em escadas que não rangiam, elas não tinham história e nem personalidade.

Foram poucos passos, sem nada de especial até que a porta do quarto do professor fora aberta. Kagami viu um quarto pequeno, uma cama bagunçada e uma escrivaninha mais bagunçada ainda se possível. E o lugar todo repleto de livros, era um piso de chão feito com Nietzsche, Voltaire, Kafka, William Blake e...

— Paulo Coelho?

— A Madonna adora ele. — Kagami iria rebater. — Não ouse falar da Rainha.

E então Kuroko passou a pegar o livro do topo da pilha que Kagami segurava e colocá-lo em alguma pilha no chão. Tudo específico. Quase neurótico.

— Bem... Já que isso vai demorar um tempo, professor. — O homem de cabelos azulados assentiu e com um gesto de mão o incentivou a continuar. — Eu acho que falhamos na nossa primeira sessão.

— Por quê?

— Nós gastamos mais tempo, do que de fato conversamos sobre livros e coisas assim... — Ele respirou fundo, pensando. — Acho que foi mais um programa de amigos, perdemos tempo zombando e rindo...

Kuroko deu um sorrisinho de lado, ainda com os olhos fixos em sua organização aparentemente desconexa. — Em qualquer lugar no mundo, principalmente na internet, você vai encontrar gente que leu ou assistiu algo. Verdadeiros críticos literários ou de cinema. Verdadeiros poços de conhecimento. — Ele parou, parecendo confuso onde colocar um determinado livro. — Claro, tudo mentira. A maioria não saberia como escrever uma frase ou gravar um vídeo para o Youtube. Mas alguns realmente inteligentes. Caso é: Você dificilmente vai ser amigo deles, porque intelectuais são um cu. Então... Sinceramente, se quiser conversar sobre livros, filmes ou qualquer outra coisa com intenções mais profundas, pode conversar comigo. — Os braços de Kagami voltando a ter movimento, a pilha quase inteiramente desintegrada. — Mas aproveite os amigos, — E acrescentou com um sussurro de segredo. — Geralmente eles não duram muito.

Kagami sorriu, porque por mais irônico e safado que o discurso pudera ter sido, ele fora todo dito em um tom despretensioso. Quase ingênuo e inconsequente. O último livro foi pego com um gesto suave e facilmente depositado em cima de uma pilha tão grande que o professor poderia ser soterrado embaixo dela.

— Obrigado, Kuroko.

— E finalmente, uma última coisinha — Ele disse buscando um livro em cima da escrivaninha e o estendendo para Kagami. — É um livro que acredito estar relacionado com a gente.

Kagami poderia jurar sentir a cor de algo zombeteiro naqueles lábios pálidos. — Da gente?

— Yup.

A capa era antiga já, mostrava o título em uma fonte infantil e a marca de lábios em um rosa quase incolor já. — Eu lerei.

O livro era Lolita, de Vladimir Nabokov.

Notas finais
Okay, então. Antes de tudo, queria dizer: DEZ FAVORITOS, vocês são uns amorzinhos