A Sociedade dos Loucos e Esquecidos
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Notas iniciais
Era uma noite de filme de terror.
Não é que Kuroko tivesse um cara que nunca morria perseguindo ele pelos bosques com uma máscara horrível na cara e a merda de uma serra elétrica. Nem uma menina anoréxica com um cabelo que parece que nunca viu uma tesoura escalando um poço.
Era uma noite de filme de terror surrealista. Bem coisa de Buñuel, mesmo. Ele tinha a impressão que em breve alguém pularia na sua frente e ele teria o olho arrancado, fatiado, explodido, mastigado...
O que poderia dizer? Os pesadelos da sua infância vinham por filmes do espanhol, não era culpa dele se achava um filme da década de trinta do século passado mais assustador. A culpa era plenamente da indústria atual que fazia filme mais filmes ruins do que bons.
O último filme atual de terror que vira fora Atividade Paranormal, e no final, ele quase acionou os advogados para iniciar um processo contra Hollywood e sua equipe de Marketing por fazer o mundo acreditar que aquilo era um filme. Quanto mais um filme de terror.
Só de vingança, sempre que ia ao cinema deixava o celular ligado.
Só para eles aprenderem.
O som do vento tornara-se particularmente forte em algum momento. Talvez por estar tão escuro, os outros sentidos se atentassem mais. Ou talvez por ele estar em uma região mais elevada da escola.
Lá em cima, muito mais para cima, tinha nuvens, o suficiente para filtrar estrelas a ponto de fazê-las fontes de luz antissociais na vastidão do universo. E o pouco brilho da lua que escapava parecia um gás perolado.
Ele estava cansado de esperar naquela escuridão, escondido entre galhos secos e folhagens caídas, reproduzindo da mais variada forma possível os sons de Do you wanna build a snowman? de Frozen. Mais a sua frente, depois de um declive acentuado de uns bons dez metros, encontrava-se o antigo celeiro do monastério. Uma construção razoavelmente grande, mesmo para os padrões da escola. Em nenhum momento fora usada por alunos ou por qualquer outra seção da instituição. Sempre um edifício mais separado, excluso.
Mas por algum motivo era um lugar sempre muito bem guardado.
Com soldados com armas e tudo.
Kuroko podia até ser neurótico, esquisito e idiota as vezes, mas burro ele não era. A presença dos soldados com armas era algo que sempre o deixara confuso, desde quando estudara ali, mas que indicava algo. Não demorou para que ele associasse o fato de que, mensalmente, dois caminhões adentravam o terreno da escola durante a noite e iam por entre o caminho esquecido do celeiro.
E nem demorou para que ele associasse esse fato com os negócios diversos da família.
Os negócios da família eram outra coisa que sempre o deixara confuso. Ele nunca entendera exatamente o que eram. Como eram feitos... Ele sabia que em algum momento, a família de militares desde antes do bisavó, se arriscara na abertura de um negócio. Uma empresa de produção de cimento. Depois acabaram usando o dinheiro para se expandirem para diversos ramos da economia, algo que os fizera sobreviver à recessão e os levaram a negócios no oriente.
Como recompensa o bisavó casou com uma Japonesa, e era por isso que ele e o primo tinham esses charmosos olhinhos puxados.
Ele só fora saber a natureza dos negócios da família quando o pai morrera e ele herdara quase tudo. No dia em que vestira preto, o tio o convidara para uma reunião com outros membros mais afastados da família — Ele nunca vira a maioria deles na vida — e lhe explicaram no que consistia toda a riqueza que acumularam.
Grande parte vinha do tráfico de drogas vindas da américa latina, sendo transportadas com a benção dos familiares da Marinha e que depois era distribuída pelos familiares que eram do exército. Seu avó, pai e tio se enquadravam ali, e a partir daquele momento, ele também.
Tinha um ramo da família que se iniciara a pouco tempo no tráfico de armas. Ele soubera que o pai tinha grandes influências no mercado negro e tráfico de obras de artes. Só então, a aceitação que ele demonstrara quando Kuroko afirmou que não queria ser militar e sim estudar literatura fez sentido.
Ele também não aceitara fácil assim, mas também não fora uma luta muito ardorosa.
Quando Kuroko soubera sobre tudo que a família fazia, não poderia dizer que se decepcionara. Ele já tinha se decepcionado tanto com ela, que aquilo era só mais um parágrafo. Mas ele fez questão de deixar claro que não faria parte dos esquemas da família, não mais faria parte da rede de distribuição de drogas e todas as obras de artes legítimas que eram guardadas em uma infinidade de lugares, ele doara para museus.
Foi uma batalha fazer isso sem causar toda uma investigação da onde tudo aquilo vinha, mas também descobrira que o tráfico de arte era algo bem comum, e que na maioria das vezes, uma desculpa esfarrapada já servia para o diretor de algum museu que agora tinha mais uma peça única.
As empresas ele esfarelou todas, fez questão de não vender uma grande porção para uma única pessoa e de destruir internamente a sua utilidade para o tráfico.
No final, a maioria do esforço fora inútil. Grande parte voltara a seus gestos de destruição da sociedade pelo simples fato de ser extremamente lucrativo.
É o mercado afinal.
Só que essa escola não deveria ser usada para esses fins. Nenhuma instituição de ensino deveria, e ela era, provavelmente, o ponto mais forte de toda a ligação criminosa da família. Exatamente por isso, Kuroko queria desmascará-la a ponto de ser impossível maquiar o uso dela para o tráfico.
Ele não odiava o tio a ponto de querer que fosse preso, só que perdesse bastante dinheiro para deixar de ser idiota. Se o avó fosse vivo, ele iria querer que o velho fosse preso. O que ele vira e sabia que o avó fizera o deixava com ânsia de vômito, mas era um enjoo inútil.
O velho estava morto, vivera bastante até, mas não se encontrava mais no mundo dos vivos.
Ele estava quase sem paciência para esperar os caminhões militares chegarem. Quase sem paciência para comprovar que o que pensara por muito tempo estava certo. Quando ele se levantou, convencido de que tinha conseguido a informação errada sobre o dia que as mercadorias eram trazidas e armazenadas, ele ouviu o ranger duro do portão na entrada da escola e, segundos depois, quatro círculos de luz se despontaram na escuridão, os faróis brilhando mais do que suas pupilas dilatadas pela noite escura poderiam suportar.
Ele apertou a câmera que carregava consigo nas mãos.
Hora das provas.
xXx
Aomine não era uma pessoa com muito animo.
As vezes ele até duvidava que fosse uma pessoa.
Adentrar o pântano daquele maldito lugar, enquanto ele poderia estar dormindo sem estar soando bicas era algo que não o alegrava muito. Ele não acordava e pensava: “Ah, vou escovar os dentes, comer algo e fazer uma trilha nesse pântano de merda, escorregadio, em que toda hora um galho cheio de espinhos bate na minha cara”.
Mas aparentemente era algo que deixava o Kise feliz, então ele aceitara em acompanhar o loiro.
— Não parecia tão longo assim, de noite. — Ele reclamou. — O cachorro não vai morrer porque você o deixou um dia sem comida.
— Deixa de reclamar, cara.
— É impossível não reclamar nesse calor. Eu poderia estar dormindo no meu quarto, agora.
Kise riu pelo nariz, enquanto se apoiava em uma árvore para subir um terreno mais inclinado. — Seu quarto estaria pegando fogo agora, você não conseguiria dormir nele.
— Eu dormiria em outro lugar.
— Eu não te deixaria dormir.
Aomine apertou os olhos. — Você parece minha mãe. — E Kise riu em resposta.
Era bom ouvir Kise rindo. Alguns dias atrás ele recebera um telefonema, fora chamado para atender pela direção da escola até. E ele voltara triste. Quando perguntaram se algo acontecera, Kise negou dizendo que não era nada de importante.
Mentira pura.
Olhos tão alegres não se tornavam tristes repentinamente. E era horrível admitir isso, mas Aomine se acostumara com aquele idiota rindo alto e aquecendo todo o grupo com um olhar de mel.
Ele imaginou que era uma questão de alguns dias até o loiro se alegrar de novo, ou contar finalmente o que acontecera. Mais de uma semana se passara, mais de uma sessão da Sociedade se passara, e nenhuma sílaba de confissão saíra da boca de Kise e nem aquele gelo no olhar se derreteu.
— Sinceramente, eu não sei o que você vê de tão interessante nesse cachorro.
Kise continuou andando, fazendo Aomine se apressar um pouco. Os cabelos loiros brilhando e se colando um pouco à testa suada do garoto que mesmo suado não ficava feio. Toda vez que Aomine percebia que em nenhuma circunstância Kise continuava feio, ele se irritava. Deus era um ser muito injusto com a partilha de beleza.
— Animais são legais, eles não te julgam. Se você os trata bem, eles te tratam bem. — Ryouta respondeu em um tom frio demais para ele.
Era, na realidade, um tom tão frio quanto ficar alguns segundos na frente da geladeira, mas Aomine se acostumara com um sorriso de verão e brisas de primavera, então qualquer coisa mais frígida parecia uma nevasca.
— Eu te julguei? Não foi minha intenção.
Kise o olhou meio atordoado. — Que? Não, não foi você.
— Quem foi então? — Perguntou o moreno.
O garoto com cheiro de shampoo feminino sorriu. — Por que quer saber?
— Para chutar as bolas do infeliz que te julgou.
Kise riu. — Você tem uma gentileza engraçada, Aominecchi.
— Você anda meio triste desde aquele telefonema que recebeu. — Disse, fazendo o outro suspirar ficando irritado.
— Já disse milhares de vezes que não estou irritado.
— Por que você precisa mentir, caralho?
— Eu não estou! — Kise respondeu em um tom mais alto do que costumava.
— Se você falar a verdade prometo assistir todos os vídeos do YouTube que você me manda.
— Você não assiste? — O loiro perguntou parecendo alarmado. — Seu traidor.
— São muitos vídeos, okay?
— Mas são do Dan e do Phil, e de youtubers legais...
— Eu lá ligo para a merda do Dan e do Phil.
— E o sotaque britânico... Argh, não sei porque ainda falo com você. — O loiro disse, enquanto virava o rosto fingindo ignorar Daiki.
Faltava pouco para chegarem na caverna. — Se você me contar, eu começo a falar com sotaque britânico.
Isso fez o outro sorrir, mas Kise apenas passou a mão pela boca em um gesto rápido, como se estivesse fechando a zíper a boca.
— Você é detestável, Kise.
— Eu ouvi alguma coisa? Hum... Acho que não.
— E depois acham que você é perfeitinho e eu sou infantil.
Kise rolou os olhos. — É que eu sou bonito e você não. — Disse como se fosse óbvio.
Uma coisa que era preciso saber sobre Kise: O adolescente era pior do que seus primos encapetados. Pior que a Miley Cyrus fazendo twerk. Pior que a Katy Perry cantando Live. O garoto era a encarnação do mal, às vezes. O moreno suspeitava que se Ryouta pisasse em um solo sagrado sua cabeça começaria a rodar e sua voz melodiosa se perderia em um discurso em aramaico antigo.
Enquanto Aomine decidira chutá-lo, ele saíra correndo sem olhar para trás. Era engraçado o modo como Kise corria, meio desengonçado enquanto pulava as raízes das árvores. Os cabelos loiros sempre brilhando, parecia que a luz do Sol fazia sempre um caminho específico para colocá-lo em evidência. E era tão natural que Aomine não poderia nem alegar ser culpa de alguém.
Kise era tão natural quanto se poderia ser na era atual. Tão natural quanto produtos orgânicos sem agrotóxico.
E ele, obviamente, correu atrás.
Só foram parar quando finalmente avistaram a caverna. Kise o esperava se apoiando em uma árvore seca, enquanto puxava respirações quase vítreas de tão afiadas, as bochechas levemente mais rosadas pela corrida.
E ele sorria.
Só que Aomine não queria uma resolução superficial, afinal isso não serviria para nada se depois de dez minutos o outro ficasse triste de novo. Ele observou o outro se virar, a blusa amarrada na cintura — sua blusa, que até então não fora devolvida — acompanhando o movimento do corpo. E sem pensar, antes que adentrassem a caverna, ele segurou o pulso mais perto da forma mais dura possível.
— Você não vai desistir, né?
— Eu vou quando você parar de cu doce e me falar logo que merda está acontecendo.
Aomine o observou torcer o nariz. — Cara, ‘cê nunca viu aqueles filmes em que um personagem não quer falar e o outro respeita, falando que esperará seu tempo?
— Nos filmes que eu gosto tem explosões, gente morrendo e caras que lutam muito bem, não essas baboseiras românticas. — Ele viu Kise se confundir entre risadas breves e meneios de cabeça negativos. — Se queria um amigo assim, deveria ter se aproximado do Himuro.
Aomine teve sua mão afastada por um balançar tão suave que era como se Kise dissesse que não fugiria. Ele viu o loiro se jogar entre as raízes das árvores, os tênis quase tão sujos como no dia que tiveram a primeira sessão d’A Sociedade. Aomine sentou-se enquanto observava que Kise não se importara em arrumar o cabelo.
Geralmente o outro era completamente neurótico quanto à ordem dos fios.
— Você nunca teve receio de confessar ou dizer algo?
Aomine pensou por alguns segundos. — Não, sempre fui muito descarado.
Ryouta rolou os olhos.
— Pelo menos é sincero... Eu quero dizer para você, para todos, mas não sei se tenho o direito.
— Por quê?
— Porque é algo que eu já deveria ter contado, que eu não deveria nem ter escondido. Vocês deveriam falar comigo já sabendo isso.
— Bem... — Aomine disse. — Que bobagem da porra, deixa de ser trouxa e fala logo. Antes tarde do que nunca, né.
— Delicado como sempre.
—Sinceramente, eu não ligo, eu não vou ficar bravo com você. A menos que você fale que o Michael Jordan não é o melhor de todos os tempos eu não vou socar sua cara.
— E os outros?
— Se eles forem idiotas eu chuto a bola deles até eles menstruarem.
Kise levantou o olhar com um sorriso. — Jura?
— Claro que não. Já viu o tamanho do Murasakibara? Nunca conseguirei alcançar as bolas dele. — Ele recebeu um olhar incrédulo do loiro. — Mas prometo tentar. Juro pela minha pasta pornô de cento e quarenta gigabytes que tentarei. — Estendeu a mão quando terminou de falar.
— Nem ferrando que eu vou apertar sua mão direita com você tendo tanto pornô no computador. — Disse se levantando.
— Cara... Eu lavo ela, sabe?
A essa altura do campeonato, Kise já adentrava o buraco para a caverna sagrada do grupo. Todas aquelas raízes e folhagem seca escondendo parcialmente a entrada de olhos não atentos. Mas os olhos que não passaram desatentos foram os do loiro, Aomine viu eles como espelhos d’água e no fundo lava vulcânica tão quente quanto era possível mesmo por baixo de toda aquela água.
Os ombros de Aomine, que sem ele perceber estavam tensos, nunca pareceram pesar menos.
— Não sei quanto a sua mão, mas eu sei que fiz bem em me aproximar de você e não do Himuro. — E se fora pelo buraco.
xXx
Kagami terminou de ler o livro em um almoço à mesa do refeitório. À sua frente um cadáver de vaca parcialmente comido com alguns grãos e um suco.
Quando ele depositou Lolita sobre a superfície amadeirada, percebeu que estava sentado com os amigos. E aquilo o assustou um pouco, porque ele fora tão completamente tragado pelo livro, que os dias passaram em um borrão de cores com cheiro e páginas cor de creme com letras meio apagadas.
Ele nunca fora um leitor voraz. Nem mesmo um leitor em dieta. Ele nem se achava leitor, lia o que era obrigado a ler, mas se pudesse pulava até a bula do remédio, mesmo que depois se ferrasse por algum efeito colateral. Preferia passar seu tempo fazendo coisas mais físicas ou algo que julgava ser mais divertido. E então lá estava ele, lendo por causa de um cara.
Sério, isso tinha que ser amor.
— Finalmente terminou de ler, Kagami? — Perguntou Miidorima.
— Yeah.
— O que achou?
Kagami olhou a capa, os lábios desbotados que ganhavam significado na história, quase conseguindo ver a sombra dos dedos de Kuroko quando lhe estendera o livro.
O que aquilo significava? Céus, o professor estava brincando com sua cara? Porque a mensagem parecia clara e direta demais para ser o que parecia.
— Eu não sei. — Respondeu simplesmente.
O garoto de cabelos verdes franziu a testa. — Sempre soube que era meio burrinho, mas a esse ponto... — Disse Midorima com aquele sorrisinho irônico que mostrava que uma de suas diversões naquele lugar era pegar no pé do falso ruivo.
E Kagami inesperadamente não respondeu à provocação, passando os dedos brutos pela lombada do livro, voltando aos próprios pensamentos. Akashi o olhava com um olhar acusador.
— É um dos livros favoritos do me primo, sabia?
Kagami olhou para os lados, meio desesperado, soltando uma risada meio desesperada. — É mesmo? Que coincidência. — Ele disse tentando disfarçar e fazendo os talheres caírem no chão.
Kise começou a rir. — Você é tão gracioso, às vezes.
— Calado
Ele pegou os talheres leves de metal e passou a brincar com a comida. De repente, fez-se claro a lembrança de uma noite japonesa, dentro de um apartamento pequeno, e com um notebook rodando filmes antigos. Lolita era um filme ainda da época do preto e branco. E ele se lembrava dele.
Afinal, ele conhecia a história. Só não se lembrava muito dela, além das diferenças entre o filme e o livro, claro.
Ele passou a mão pelos fios grossos e avermelhados, fazia um bom tempo que não os pintava, as raízes já apareciam com um comprimento um tanto quanto acentuado.
A mão ficou lá, coçando o couro cabeludo em uma série de movimentos repetitivos e quase duros. Como se a fricção fosse liberar uma espécie de neurotransmissor que o faria entender o mundo.
Certo, o mundo não. Só o Professor. E às vezes Aomine. E talvez Kise.
O mundo logo, que seja.
— Então, o que me diz? — Perguntou Daiki.
Ele parou, observando os olhos de pantera do outro. — Hun... Desculpe, não estava prestando atenção.
Kagami observou o outro bufar. — Uma partidinha agora que terminou? Que tal, já que você me largou por causa desse livro.
Murasakibara repreendeu-lhe pelo olhar. — Kaga-chin, que coisa feia. Abandonar o Ao-chin assim, ele precisa de você.
— Eu, geralmente, ficaria irritado com você por novamente sugerir que eu e Kagami temos algo, Murasakibara. Só que eu realmente quero jogar... — O olhar se afiou contra o do Kagami. — Que coisa feia, me abandonar por um livro. E tudo que passamos juntos?
— Aomine, para de graça. E não, estou sem saco para jogar. — Os garotos o encararam, as sobrancelhas arqueadas, não demorou para que Kise viesse medir sua temperatura com a mão.
— Estranho... Parece normal.
— Talvez seja um parasita adquirido nos pântanos? — Sugeriu Himuro.
— Não parece isso. — Midorima negou. — Talvez um choque com a cabeça?
O moreno voltou a pensar, cutucando a pintinha negra que tinha embaixo dos olhos. — Nós estamos esquecendo o súbito interesse por livros, Midorima. Uma súbita e acentuada mudança nos hábitos, de esportes para a leitura, pode indicar um problema social ou psicológico.
Kagami fez a única coisa que era possível fazer naquele instante, jogar ervilhas na cara dos dois.
Ele odiava ervilhas.
— Deixem de ser idiotas, é só um acontecimento isolado, okay?
Antes que alguém pudesse dizer algo, eles viram Akashi se mexer. Preparando-se para falar. Era quase como um jaguar se preparando para o ataque, os olhos brilhavam atentos, as duas cores diferentes brilhando tanto quanto podiam.
— Na realidade, acho que ambos, Midorima e Himuro, estão parcialmente certos. — Ele parou, tomando um pouco do seu suco. — Melancia, ótimo para o calor. Mas voltando... A mudança de hábito indica sim um fato relacionado com o psicológico e também com uma provável doença, é só se lembrar dos gregos antigos, sempre eles.
Aomine o olhou com tédio. — ‘Que tem eles, Seijuuro?
— Eles usavam uma palavra interessantíssima para isso... Pathos.
Midorima deu um leve tapa na mesa. — Claro, como pude me esquecer? Pathos será a raiz da palavra patologia, que é basicamente doença.
E logo Himuro completou. — E também originará a palavra Paixão, indicando uma relação entre patologia e paixão.
Aomine continuou com seu olhar de tédio, meio branco. Até Midorima rolar os olhos e concluir: — Kagami está apaixonado.
Do seu lado, Kise pareceu brilhar e deu um pulinho no banco de madeira.
— Kagamicchi está apaixonado? — Perguntou ele, enquanto virava-se para si e agarrava sua manga e parte do blazer da escola.
— Eu não estou, Kise.
— Admita, Kagami. — Akashi disse. — Ou teremos que levar o caso para julgamento popular.
Por mais que doesse e que seu senso de sobrevivência gritasse para que não desafiasse o verdadeiro ruivo de modo algum, ele não conseguiu evitar a frase de negação sair de sua garganta em um volume encorpado. — Eu não estou apaixonado!
— Quem está apaixonado? — Perguntou Kuroko, a voz repentina sendo o suficiente para sucos serem derramados e chutes instintivos por debaixo das mesas acertarem as canelas alheias.
Kagami sentiu as maçãs do rosto tão rubras quanto uma verdadeira maçã. Se a Branca de Neve estivesse por ali, teria mordido suas bochechas. Do seu lado Kise sorriu mais abertamente, os dentes perfeitos de quem vai ao dentista regularmente aparecendo.
Pelo menos isso tinha de bom, Kise sorrindo um pouco.
— Kagamicchi está.
— Que fofo, Kagami-kun. — Kuroko disse com um brilho quase irônico no olhar. — Tenho certeza que com seus atributos não sentirá dificuldades em conquistar seu par.
Se fosse possível, o rosto de Kagami se incendiaria mais. — Obrigado, Professor. Mas isso não importa.
Akashi assentiu. — Eu estou mais preocupado com meu coração, que você, primo, fez a gentileza de quase fazer parar.
— Você me considera tanto assim, Seijuuro? Estou honrado.
Midorima rolou os olhos, se intrometendo no assunto. — Sempre que você aparece alguma coisa acontece: A criação d’A Sociedade, o Aomine apostando o ânus dele, qual é o mal agouro da vez?
Só agora o falso ruivo prestava atenção em Kuroko. Ele usava roupas mais informais que o usual, uma calça com bolsos demais, uma camiseta do Fullmetal Alchemist — Algo que fez Kagami assentir mentalmente, já que acreditava que era dever cívico e humanitário de todos assistirem aquela obra de arte em formato de animação. — um tênis All Star e uma mochila cinza.
Kuroko nunca parecera velho, mas daquele modo, sob a luz de um dia comum e com roupas comuns, que ele mesmo usaria, o professor pareceu um deles. O azul cerúleo, mais displicente que o habitual, caindo em mechas grossas sobre o olhar limpo lhe dava uma imagem inocente demais e que provavelmente era falsa. Kuroko parecia um deles.
— Você nasceu para o drama, Midorima. Uma verdadeira drama queen. — Respondeu Kuroko. — Eu na verdade só estava preocupado com meu priminho aqui. — Bagunçou o cabelo do dito cujo, naquele gesto que fazia todos os presentes prenderem a respiração.
— Fofo, mas não preciso, obrigado, Kuroko.
O professor fez um gesto com a mão. — Claro que precisa, minha preocupação é legítima. Percebeu que quando eu encostei em você todo mundo gelou de medo? Pois é, vamos mudar isso. — Ele disse, sentando do lado de Kagami, as coxas se encostaram, fazendo Kagami desviar o olhar. — Eu trouxe algo muito especial na minha mochila, hoje.
Himuro sorriu. — Só eu tenho receio de perguntar o que é?
Kuroko o ignorou, enquanto começava a vasculhar a bolsa e tirar de lá objetos retangulares. — Para acabar com o medo que vocês sentem do meu priminho, eu trouxe fotos de quando ele era pequeno para vocês. — Disse, erguendo alguns álbuns.
Os olhos de Akashi se alargaram. — Não, se você mostrar isso, estaremos em guerra.
Kuroko empinou o nariz. — Lembra quando você quebrou, “sem querer”, meus DVD’s de Kill Bill? Naquele momento, já estávamos em guerra. — Ele retirou, vagarosamente, uma mecha azul que caía sobre o olho. — E se mesmo assim você não aceitar, vou ter que falar de quando eu passava pelo seu quarto e ouvia aquelas vozes de dubladora japonesa de hentai com tentáculos e tudo mais.
Por mais incrível que pareça, Kagami jurou poder ver um tom rosado colorir as bochechas desacostumadas com o riso de Akashi.
— Você acabou de falar, seu idiota!
— E você sabe que eu sei mais.
Seijuuro massageou as têmporas com um olhar raivoso. — Faça o que quiser, adeus dignidade.
— Esse aqui tem ele brincando com meu gatinho quando tinha cinco anos, esse na festa de aniversário dele e ele se lambuxou inteiro de bolo... — E assim ele foi distribuindo os álbuns. — Esse último é o mais especial, tem a foto dele pequeninho, tomando banho... Pelado.
Akashi bateu com a mão no próprio nariz, enquanto os outros garotos lutavam pelo álbum. Aomine ganhou e soltou uma gargalhada logo na primeira foto. — Olha a piroquinha dele, galera. — Levantou tão alto o álbum que era provável que conseguissem ver desde lá longe, na guarita. — Pelo menos cresceu um pouquinho, Imperador?
— Você vai averiguar por você mesmo quando eu te obrigar a cumprir sua promessa. — Aomine engoliu em seco.
Kagami teria sido tragado pela correnteza do grupo, se o Professor não tivesse gentilmente encostado em seu braço, chamando sua atenção, e perguntado baixinho, com uma voz mais sexual do que o PornHub, o que Kagami achara do livro.
— Hum... Bem... — Ele parou para pensar, enquanto tentava sustentar o peso dos orbes azuis, nítidos e pesados demais. — Se for consentido, a partir dos quatorze anos não é mais pedofilia, certo?
Kuroko sorriu de canto. — Você seria um ótimo jurista, Kagami-kun.
Jurista ou não, Kagami pela primeira vez sentiu algo mais acalentador pelos Estados Unidos. Para alguma coisa aquele livro cheio de leis tinha que servir.
— E é consentido, Kagami-kun?
— Imagino que sim, só não sei no livro.
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