A Sociedade Rubi
6 Círculo de um Demônio Ceifador
Notas iniciais
Eram cinco horas da manhã, podia escutar o relógio com o tic tac insano. Queria dormir, queria mesmo. Mas alguém batia loucamente na porta, alguém que não sabia que ainda era hora de estar dormindo, ainda mais depois de um dia tão estranho.
Levantei com a mesma preguiça de sempre. Calcei o chinelo e me arrastei até a porta. Era o que eu tinha que fazer para a pessoa parar de bater. Abri a porta e lá estava Doc.
– Temos uma missão. – ele sorria e já estava com uma mochila nas costas.
– O que vamos fazer que faz você sorrir desse jeito? – perguntei.
– Vamos ler uma mensagem. – Doc respondeu.
– E pra isso precisa de mochila?
– Claro que precisa. – ele respondeu já no fim do corredor. – Vamos para uma plantação a trinta quilômetros daqui.
Troquei de roupa o mais rápido que pude e isso significava calçar o tênis. Balancei a cabeça e tentei entender o que aconteceria de novo. Plantação + mensagem. Não tinha sentido nenhum pra mim. A não ser se tivesse ligação com alienígenas, já que na situação em que estava, acreditaria em qualquer coisa.
Desci as escadas e todos estavam de mochila nas costas, um dos lacaios cinza segurava uma também que em seguida entregou para mim. Todos vestiam preto, mas dessa vez nada de capa.
– O que houve dessa vez? – perguntei. – Aonde vamos?
– A uma plantação. – respondeu Rhodes. – Temos que receber uma mensagem, ou melhor, lê-la.
– Pra que uma plantação? – não fazia sentido. – Usa o celular, sei lá. Existem essas coisas sabia? Não estamos no século dezenove.
– Não é esse tipo de mensagem. – Doc queria me fazer parar de falar. – É bem mais complicado do que imagina.
– Então o que é? – perguntei.
Todos ficaram em silêncio e me observando. Doc iria respondeu, mas Yves lançou um olhar para ele que o fez desistir.
– É uma surpresa. – disse Yves. – Agora vamos, chega de enrolação.
O carro estava no jardim da casa. Eu imaginava que fosse uma van, mas era um rabecão de sete lugares, de vidros negros e pneus de faixa vermelha. Era um carro antigo e com uma miniatura de um vampiro de asas abertas na beirada do capô. Os invocadores eram bastante excêntricos.
Entramos no carro e quem dirigia era Jasper, do lado dele foi Gillis, atrás nós três, Yves, Doc e eu. Exprimidos sem necessidade, afinal tinha os bancos de trás. Mas lá eles colocaram os equipamentos e esse equipamento resumia numa mala apenas.
Jasper deu partida no automóvel e eu finalmente vi para onde aquela estrada ia. As árvores criavam um túnel que escurecia toda a estrada, tinham folhas escuras e o tronco coberto de musgo ainda mais escuro. Era sombrio, exatamente como minha vida estava se tornando.
Dentro do carro o silêncio predominava. O tipo de ausência de som que para mim só significava sono e eu estava começando a ficar. Foi aí que Gillis ligou o rádio e começou a tocar Scar Tissue do Red Hot Chili Peppers. Ele começou a assobiar baixo e Doc começou a cantar mais ou menos no mesmo tom. E foi no solo de guitarra que Yves começou a assobiar e Jasper começou a cantar também. Quando menos percebi, estava cantando também. Fomos de Scar Tissue até o final da estrada na mata.
A estrada acabava em outra estrada, essa asfaltada e com placas de verdade, mas não víamos quase nenhum carro. Jasper acelerava sem pena, parecia que a qualquer momento íamos sair da estrada. Até que a música parou e eu me distraí olhando para o chão e as rodas não estavam rodando no asfalto.
– Isso é sério mesmo? – olhei para eles.
– Claro que é. – Yves respondeu. – Esperava que fosse o que? Com um carro normal não íamos chegar rápido ao lugar. Acho melhor fixar logo na sua massa cinzenta que nós não somos humanos normais. Somos invocadores. Não é uma brincadeira de adolescente. Acorda Hooper!
Olhei para Yves e ela estava séria. Falando sério. Doc olhava pros joelhos. Uma garota havia calado a minha boca, era um soco no estômago que eu precisava para acreditar naquilo tudo, pelo menos para cair a ficha.
Os minutos passavam no seu ritmo e a música já era um mero detalhe. Não tornava a viagem menos cansativa e eu sempre me cansava em viagens, essa não seria diferente. Até que Jasper desligou o rádio. Estávamos nas primeiras plantações.
– Estamos chegando. – disse Doc, olhando pros lados e fungando o nariz como se estivesse gripado.
– Tá gripado? – perguntei.
– Não. – ele limpou o nariz. – Eu sou tipo um farejador pra essas coisas. Estamos chegando, lado esquerdo da estrada.
– Como sabe? – perguntei.
– O ar pesado e frio. – respondeu Doc. — As nuvens escuras no lado esquerdo da estrada, onde está a plantação que iremos investigar. A calmaria na estrada e o vento parado. Sem falar do cheiro de queimado e ferro. Muito ferro.
Legal. Doc era o farejador. Com um nariz e observação conseguia identificar coisas. Mas que coisa?
– E o que isso tudo significa?
– Que alguma criatura de alguma dimensão deixou seu rastro por aqui. – Doc respondeu. – E é uma das minhas criaturas preferidas.
– E que criatura seria?
– Demônio Ceifador. – ele riu feito um louco e esfregou as mãos. – Capa negra e rasgada, sem falar da foice com lâmina de fogo. Eles são incríveis!
Ok. Um demônio. O que seria a próxima criatura? Fada do dente ou coelhinho da páscoa? Segurei meus joelhos. Queria minha vida de volta, mas nunca mais a teria. Havia compreendido pelo menos isso.
– Pode desarregalar esses olhos Hooper. – disse Yves. – Não tem nenhuma criatura aqui. Ele apenas fez seu trabalho e foi embora. Sem falhas, sem atraso. Hora pra chegar e hora pra ir. Sempre direto.
– Um Demônio Ceifador trabalha a noite e o seu trabalho é deixar escrito nas plantações uma mensagem, provavelmente enviada por algum superior de alguma dimensão. – disse Doc. — Eles são fodas. Discretos, inteligente e não interferem em nada. Mas deixa os fazendeiros achando que é obra de alienígena.
– E existem alienígenas? – perguntei, já que não duvidava de mais nada.
– Tá vendo filme de ficção científica demais rapaz. – disse Jasper no volante. – Planetas são apenas dimensões. – e soltou uma gargalhada. – E todos nós no final somos aliens. Mas se desprenda das teorias científicas.
Respirei fundo. Eram muitas informações loucas para processar. Demônios, gnomos, vampiros, agora somos aliens de dimensões. Meu mundo estava virado de cabeça pra baixo e eu parei na metade do caminho, flutuando no nada.
– Deve estar cheio de gente lá. – suspirei.
– Relaxa. – disse Doc. – O Rhodes já veio aqui e preparou um feitiço de proteção. Ninguém entra lá se não for invocador.
Jasper parou o carro no acostamento de uma plantação. E foi a pior saída de um carro de toda a minha vida. Confesso que uma das piores sensações que já senti foi aquela. Cinco passos na plantação e meu corpo ficou zonzo. Minha cabeça doeu como se eu tivesse levado um tiro, como se eu já tivesse tomado um, o que nunca havia acontecido. Minhas pernas ficaram moles e eu tive que me apoiar em Yves e ela não disse nada. E eu subitamente soube o que havia acontecido. Eu havia acabado de cruzar um campo invisível de proteção.
Quando olhei para frente e não para o chão, como estava fazendo antes, pude ver um imenso círculo no chão, que antes eu poderia afirmar ter sido feito por aliens, mas dessa vez eu sabia a verdade. Era a mensagem de um Demônio Ceifador.
Jasper pegou a mala e a arrastou até o círculo. De dentro da mala ele retirou um enorme livro negro e velho. Ele caminhou até o centro do círculo e lá o abriu. Olhei curioso para a página. Estava em branco, sem nenhuma palavra escrita. Jasper sentou do lado do livro e não se levantou mais. Soltei de Yves e ela se sentou do lado de Jasper e entrou no mesmo transe. Eu estava começando a não gostar daquilo. Doc e Gillis tiraram da mala também um cristal negro, que parecia muito pesado se levarmos em consideração as caretas que faziam. Em seguida colocaram o cristal sobre o livro. E foi nesse momento que eu vi um cristal negro flutuar.
– Sente-se. – disse Doc. – Não é seguro ficar em pé agora. Você pode morrer.
Sentei-me sem pestanejar. Já estava com medo suficiente, não queria mais nada.
Demos as mãos e Jasper gritou:
– Lua negra.
Um vento forte me fez ter a impressão que iria arrancar todo meu cabelo. Um vento que me obrigou a fechar os olhos e repensar bem o que eu estava fazendo. Um maldito vento frio e pesado que me deixava com dor de cabeça.
O cristal brilhou de um jeito escuro. Deixando tudo a nossa volta negro como a noite, mas era uma névoa. E foi aí que uma voz começou a falar:
– Ouçam invocadores das criaturas, tempos ainda mais obscuros estão por vir. Mantenham-se fortes e formem alianças, pois o mal que se esconde atrás da lua de sangue está por vir. Não temem, sejam corajosos. Pois o dia em que o céu se fechará está chegando.
Tudo a nossa volta pegava fogo, um fogo negro e frio. Fechei os olhos e tentei não pensar naquela voz. Tentei não entender o que ela dizia. Mas no fundo eu intendia.
O cristal começou a sugar a névoa negra e o fogo. Sentia-me cada vez mais gelado. Até que tudo se clareou e me senti mais zonzo.
Olhei para Doc e ele sorriu como se estivesse bêbado:
– Sabe o que acabamos de fazer?
– O que? – perguntei.
– Só dá para descobrirmos a mensagem de um círculo de um Demônio Ceifador com magia negra.
Guardamos todas as coisas e minha cabeça ainda rodava. O enjoo havia passado, mas ainda me sentia tonto, muito tonto. O único que parecia bem era Jasper, talvez porque ele fosse mais velho. Doc era o que parecia pior. No rabecão ele sussurra palavras enquanto dormia, era sono de bêbado. Bêbado de magia negra. Yves começou a adormecer e sem querer encostou a cabeça em meu ombro e baixo ela deu um sussurro:
– As coisas irão ficar ruins.
– O que? – perguntei.
E então ela suspirou algo que soou pesado, como o início do fim do mundo:
– Bem ruins.
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