A Sociedade Rubi
7 Sociedades de pedra
Notas iniciais
Voltamos em silêncio para o casarão. Aquela notícia escondida e aquela última frase estavam me atormentando. Só conseguia pensar que aquilo tudo se ligava a uma questão que eu nem fazia ideia, mas na verdade fazia. O fim do mundo. Um mundo de verdade e omissões. A verdade que eu estava começando a descobrir.
Naquele momento estava na sala de estar, estava chovendo e as gotas caíam ritmadas do céu. E eu já não gostava de chuva, não gostava de fogo, nem terra, nem ar. Nada que me lembrasse daquela maldita visão.
Esfreguei os olhos e me esforcei a não cochilar. E foi naquele momento que Rhodes entrou com doze pessoas. Eram os dois grupos que estavam fora. Eram muito parecidos conosco, vestidos de preto e vermelho, em maioria com camisas de banda.
– Oi, somos invocadores de vampiros. – disse uma mulher de cachos claros e longos, parecia ter trinta e cinco anos. – Sou Paris e esses são meus companheiros, Jules. – era um homem de cabelos negros e olhos puxados, ele apenas sorriu. – Marie. – era uma mulher baixa e com o cabelo curto, mas ainda assim cacheado como o de todos. – Rostock. – era um homem alto e forte, do tipo armário. – Hank. – era magro e usava armação retangular, branco como papel. – E Corea. – era idêntica a Jules, a única diferença era que ela era mulher e tinha uma feição de louca. – Estávamos de folga.
– E nós estávamos em uma missão difícil na Ásia. – disse um homem moreno. – Sou Gaspar e esses são meus colegas, Pierre. – era um cara com aparência de menino. – Arthur. – era muito parecido com Jasper, só que mais sombrio. – Kellie. – o cabelo era negro e cheia de sardas, uma pequena nerd de vinte e tantos anos. – Loo. – era baixo, parrudo, de expressão séria, do tipo marombado. – E Richard. – era altivo e usava terno, parecia o mais velho e já tinha cabelos grisalhos.
– Oi. – respondi tímido.
Eram doze estranhos. Simpáticos e antipáticos ao mesmo tempo. E eu era o tímido que os encarava por baixo, como se estivesse com receio de algo e é claro que eu tinha.
Rhodes caminhou até o centro e começou a falar novamente. Ele gostava muito de falar.
– Já avisei as outras sociedades. – ele começou. – Em questão de vinte minutos ou três horas eles estarão aqui. Com os iniciados deles, assim como Hooper é o nosso. Não podemos entregar um cristal de invocação para um iniciante.
– Como assim? – perguntei.
– Hooper, fique calmo, todos nós já passamos por isso. – disse Gaspar. – É só um teste, ou um encontro. – ele sorriu lateralmente e parecia que todos naquele recinto também.
– Então eu ainda não sou um invocador? – perguntei.
– Só depois de ganhar o rubi você vira de fato um. – disse Paris. – Tenha boa sorte garoto, a cicatriz que Loo tem nas costas foi ganha nisso. Nunca sabemos o que pode acontecer, toda vez é diferente.
Abaixei a cabeça e tentei ficar calmo. Uma cicatriz. E nossa! Desde quando havia me tornado tão medroso? Respirei fundo e puxei os cabelos para trás. E não vinha calma. Eu não conseguia.
– Acho melhor descansar Hooper. – disse Yves. – Logo eles chegarão e tudo se inicia a meia noite. Pelo menos é o de costume.
Caminhei para o meu quarto em silêncio. O casarão estava cheio e estaria ainda mais. Outras sociedades, mais pessoas, mais invocadores estranhos e de olhar intimidador. Mas ainda não era pior do que a escola.
Deitei na cama e fechei os olhos. Tudo que eu via era um dia cansativo, um cansaço ainda por conta de um círculo demoníaco. Aquela sensação era fraca, mas o que escutamos ainda ecoava. Era o fim do mundo. Tudo era o fim do mundo. Desde que tudo pegou fogo. Eu estava vivendo uma verdade que corria perigo.
Aos poucos fui apagando e aos poucos entrei em um novo transe. Uma nova visão.
O fogo queimava tudo ao redor. Escutava gritos de desespero, escutava o vento soprando pelas árvores.
E as chamas queimavam ferozes.
Sussurrado no vento escutava algumas palavras. E as palavras eram o meu nome.
Hooper.
E eu respondi gritando, perguntando quem era e o que queria. Mas a voz apenas respondia...
O tempo está acabando.
Suava frio e as chamas me tocavam. Mas nenhuma queimadura. Elas me davam força.
Era parte de mim.
Outra voz ecoava pelo local e o grito era o mais estridente. Como o de uma pessoa em desespero. E aquela pessoa estava. E as frases eram a que eu não esperava.
Não morra. Reviva.
E a pessoa que gritava atravessou as chamas e me abraçou. E eu caí de joelhos, mas não estava assustado. Pois a pessoa era como parte de mim.
E era Yves.
Acordei sufocado e com o corpo quente. Era como se estivesse no meio de um incêndio. Mas era uma visão. E era praticamente a mesma coisa. Abaixei a cabeça e a sacudi. Senti uma vibração e tentei recuperar o fôlego.
A visão novamente tinha fogo. Novamente me lembrava do fim do mundo. O que me atordoava novamente. Segurei a cabeça e tentei me sentir melhor. Mas senti que em questão do tempo, minha vida iria mudar ainda mais.
Foi aí que Yves bateu na porta. Junto com ela estava Doc e Gillis. Todos pareciam preocupados, exalando uma espécie de medo.
– Tome um banho e coloque a capa. – disse Yves. – A hora está chegando.
Todos usavam capas negras e a que me entregaram era vermelha como sangue.
Fecharam a porta e eu tentei raciocinar o que estava fazendo com a minha vida. E a única coisa que eu queria fazer de verdade era mover o relógio para a hora certa.
Tomei o banho e deixei apenas as gotas pingarem. Apenas isso. Mas a droga da ansiedade estúpida não chegava. E realmente não sabia o que estava acontecendo comigo. Saí do banho e fitei no quarto, em cima da cama, a capa vermelha como sangue. A vesti num impulso e foi nesse mesmo impulso que saí do quarto. E no final do corredor estava Rhodes.
De capa negra como a noite, segurando um cajado de vidro que na ponta possuía um cristal vermelho como o fogo, como o olho de um vampiro. Trazia no pescoço o mesmo cristal que todos os invocadores de vampiros usavam. E parecia que os de todos estavam brilhando mais que o normal. Como se algo especial fosse acontecer. E eu sabia disso.
– Está na hora Hooper. – disse Rhodes. – Todos os iniciados estão aqui, todas as sociedades. Preparado?
– Talvez. – respondi.
– É a mesma resposta que eu dei. – ele riu e desceu as escadas, fui logo atrás dele.
Lá embaixo estavam as sociedades. E eu nunca imaginei aquilo na minha vida. Nunca pensei que aquele tipo de gente existia. Mas ali estavam e ali estava eu.
Contando com a Sociedade Rubi, existiam mais quatro, para mais quatro elementos. Eram seis representantes de cada sociedade. Num total de vinte e quatro estranhos naquele lugar. Estranhos mesmo.
Todos estavam em silêncio e me encarando. Caminhei até meus colegas e a pressão parecia aumentar ainda mais. Rhodes estava no meio do círculo que havia se formado. Respirou levemente e foi para perto de nós, como se estivesse perdido.
Foi aí que notei que cada grupo possuía uma cor. Nós com o vermelho, as outras com azul, roxo, verde e branco. E me encarando estava uma garota de cabelo curto, olhos castanhos e de capa branca. E Rhodes fez as honras de apresentar as sociedades, depois de minutos tentando se situar.
– A Sociedade Diamante. – disse Rhodes perto da garota de capa branca e olhar curioso. – Invocadores de lobisomens, tocados pelos raios.
Eles sorriram e nos olhos traziam a mesma curiosidade da garota. Em cada pescoço estava um medalhão nele preso uma pedra, e era diamante, assim como no nosso, o rubi.
Rhodes prosseguiu para o próximo grupo.
– A Sociedade Safira. Invocadores de sereias, tocados pelas águas.
Eram extremamente bonitos, assim como eram as sereias segundo a mitologia. Quem usava a capa azul era uma garota alta e de pele dourada, cabelos lisos e com pontas azuladas. Os outros carregam seus medalhões com as pedras de safira fixas.
– A Sociedade Esmeralda. – disse Rhodes. – Invocadores de dragões, tocados pelos ventos.
Em sua maioria eram orientais. Com olhos puxados e exalando segurança, como se fossem donos do mundo. Nos medalhões as esmeraldas reluziam. E nos olhos verdes de um garoto oriental baixo e de óculos, usando uma capa verde, senti que aquelas pessoas eram as que estavam comigo na visão.
– A Sociedade Ametista. – Rhodes parecia ainda mais sério dessa vez. – Invocadores de ogros, tocados pela terra.
Com seus medalhões de ametista, olhavam de frente, de braços cruzados e cheios de confiança. O olhar oriental de dono do mundo não era nada perto daqueles, que olhavam para nós como se fosse o estopim de uma guerra, como se marchássemos juntos para a cova. Abaixei a cabeça e tentei desviar o olhar, mas o garoto de capa roxa também olhava para mim. Um garoto forte e de traços brutos.
– Bom, estamos apresentados. – disse Rhodes recuperando o entusiasmo. – Podemos começar.
– Aqui? – perguntou a garota da Sociedade Diamante.
– Não. – Rhodes riu. – Na clareira dos portais.
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