A Sociedade Rubi
36 Corpo de pedra
Notas iniciais
Rhodes correu até nós. Trazia um desespero no rosto e eu me perguntava se referia a Corea, mas logo tive a resposta. A invocadora híbrida veio até nós. Seu braço estava enfaixado, parecia preocupada.
– Vocês estão bem? – Corea perguntou.
– Estamos. – Yves respondeu. – Queimei um pouco meu rosto, mas estou bem. O resto está tudo bem. Menos para a Ordem do Obscuro.
– O que houve? – Rhodes perguntou.
Os cavaleiros do obscuro levaram o corpo petrificado de Lucinda para dentro do casarão. Colocaram em cima de uma mesa na base da casa. Todos ficaram observando o corpo de Lucinda.
– Quem fez isso? – Otan perguntou.
– Não parece óbvio? – Jasper girou os olhos. – Elas estão despertando.
– Como isso aconteceu? – Otan não conseguia acreditar, tampou os olhos com as mãos. – Ela era minha filha.
O clima pesado estava tomando conta. Nós invocadores estávamos acostumados com isso, todos nós havíamos perdido nossas famílias. Mas a Ordem do Obscuro não sabia lidar com isso, eles são uma única família, perder alguém não fazia parte de sua história.
Otan limpou os olhos. Ele não queria demonstrar fraqueza para seus subordinados. A dor era intensa. O cavaleiro não tinha um corpo para enterrar, mas sim uma estátua. E Lucinda era seu orgulho.
– Não acredito. – disse Otan. – O que ela fez para morrer assim?
– Foi teimosa. – Rivera respondeu. – Hooper pediu para todos fecharem os olhos, mas ela quis ver a bruxa. Sinto muito, mas regras são regras, devem ser seguidas. Nunca abra os olhos para uma dama da noite, seu poder de hipnose é muito maior que o de uma sereia. Sentimos muito Otan Helsing, acredite, estamos acostumados com isso.
– Obrigado. – ele foi se distanciando. – Abram logo o corpo dela, vocês precisam saber mais sobre essa pedra. É parte das damas da noite. Não consigo mais vê-la assim. – Otan saiu andando e com ele foi a maioria dos cavaleiros.
Rhodes nos encarava. Não tinha mais um olhar tão perdido. Ele sabia muito bem o que tinha que fazer. O pedido de Otan tinha que ser atendido. Era o melhor para todos.
– O que faremos agora? – Yves perguntou. – Temos que fazer algo.
– E vamos. – Rhodes respondeu. – Peguem formão, martelos. Vamos abrir esse corpo. Precisamos estudá-lo.
– É uma pessoa! – disse Malleus com um tom de indignação.
– Malleus, você escutou Otan, devemos estudá-lo. – disse Ramone. – Não é mais Lucinda, é só pedra. O que ela sempre foi, você sabe disso.
Hazel estava num canto, sentada numa mesa e observando uma adaga que carregava. Ela não gostava de aparecer e nem de dar opinião, mas impossível não nota-la ali.
– Lucinda era irmã de Hazel. – disse Malleus. – Só que Hazel é a bastarda. A mãe de Hazel era uma humana comum, só que como tem sangue de amazona do obscuro teve que ir para a ordem assim que completou dois anos, nunca mais teve contato com a mãe. Otan foi obrigado a se casar com uma amazona do obscuro, para manter tudo em família entende. Aí veio Lucinda. As duas meninas se odiavam, mas eram irmãs.
– E a mãe de Hazel? – Yves perguntou.
– Soubemos que ela teve mais dois filhos, mas Hazel não podia se aproximar, ela nem conhece os irmãos. – Ramone respondeu. – Ninguém comenta muito. Otan não gosta. É meio que proibido. Lucinda também odiava quando tocávamos no assunto, mas Hazel não ligava. Ela sempre foi mais compreensiva. Talvez porque fosse filha da outra.
– A mãe de Hazel não era a outra. – disse Doc. – Se você pensar bem, a mãe de Lucinda que é.
– Diga isso a Otan. – Malleus riu, conhecia o chefe teimoso que tinha. Diga isso a todos os velhos da Ordem do Obscuro.
– Humanos idiotas. – Corea nunca perdia a chance.
Rhodes limpou as mãos. Colocou as luvas e ficou sério, olhando para nós. E aquele olhar queria dizer para nós pararmos de fofocar e trabalhar.
Todos pegaram os materiais. Distribuímo-nos pelas mesas, duas pessoas em cada uma. Yves estava comigo e parecia nervosa. Havia ganhado uma pequena queimadura perto do queixo que eu só havia notado naquele momento.
– O que foi isso? – perguntei.
– Você sabe. – ela respondeu e girou os olhos. – Esqueça está bem. Vamos trabalhar logo.
Na mesa principal estava Rhodes, Hank, Gaspar e Doc. Eles partiram o corpo de pedra em pedaços e foram entregando cada parte para os demais invocadores ali.
– Por Drácula. – pude escutar o suspiro de surpresa de Corea, o que ela havia visto?
Gaspar nos entregou um dos braços de pedra, que havia sido partido do corpo onde era o ombro. Yves pegou o braço e me mostrou algo estranho. As veias estavam ali, como um pequeno curso de água que sujou a mesa.
– Era para isso estar petrificado também. – disse Yves. – O que a bruxa fez? – a invocadora estava surpresa, assim como todos ali.
Aos poucos fomos raspando o corpo. Camada por camada. Podíamos ver o desenho do músculo petrificado, os nervos, as unhas crescendo nos dedos, até os ossos. Mas a única coisa em perfeito estado era o sangue. A cada trinca feita mais sangue sujava a mesa. E foi assim em cada parte que recebíamos para estudar. Sempre igual. Sempre o sangue.
Todos haviam estudado as partes do corpo petrificado. Faltava uma única. A última camada para alcançar a bomba sanguínea. O coração. Rhodes chamou todos e nós nos reunimos novamente em volta da mesa principal. A trinca foi feita e lá estava o coração. Intacto e não petrificado. O mais surpreendente era que ele ainda batia, de uma forma lenta, mas ainda estava trabalhando. Rhodes o segurou, sua mão se sujou com o sangue e todos ficaram pasmos com o que viam.
– Como alguém petrifica um corpo inteiro e só deixa o sangue e o coração inteiros? – Doc não conseguia compreender.
– Quando se é uma dama da noite. – Yves respondeu. – Tem que haver uma explicação.
– Pergunte para elas. – Corea riu. – Vamos ter muitas oportunidades.
– Não é hora para brincadeira Corea. – Rhodes estava sério. – Alguma suposição?
Hank abriu um armário e tirou de lá um livro de capa negra, com uma lua e sol desenhados na capa, ambos unidos. Ele limpou onde estava sujo de sangue e colocou o livro sobre a mesa. As páginas eram azuladas e escritas a mão.
– O livro de magia negra. – disse Hank. – Todas as magias conhecidas pelos invocadores de vampiros em todos os séculos estão aqui. É claro que o que aquela bruxa fez é magia negra. Mas qual?
– Petrificação. – Yves respondeu e todos olharam pasmos para ela. – Petrificação total do corpo, retirando a energia vital da pessoa para deixar sua alma livre. Ela pegou a alma, forma imortal.
– Como sabe? – Hank perguntou curioso, até então ele era o maioral na magia negra.
– Eu estudo. – ela respondeu naturalmente. – Leio esse livrão todos os dias, fui eu que o trouxe para cá. Desculpa Hank, mas acho que perdeu essa.
O invocador riu e fez um “ok” para Yves. Ela apenas sorriu. Era divertido ver um invocador aceitar que o outro era melhor. Essa é a parte legal, somos uma família.
– Então o que significa? – Doc perguntou.
– Que as damas da noite estão formando um exército imortal de almas. – Yves respondeu. – Essas almas são o que chamamos de fantasmas, eles são originados por essa magia, costumam ficar presos em casas antigas. Costumam ser comum com os humanos, eles fazem isso até sem querer. Não é tão difícil. O dos humanos é bem fácil de deter, é só ajudar o fantasma. Já os seres das damas da noite, provavelmente são mortais para todos.
– Tem como reverter? – Hazel perguntou. – Tem como trazer minha irmã de volta?
– Sinto muito Hazel, mas é impossível. – Yves respondeu. – Não vamos lidar só com damas da noite, mas também com fantasmas. – ela respirou fundo e olhou para a luz. – Algo me diz que essa ainda é uma das menores coisas que estão para acontecer.
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