A Sociedade Rubi
37 Sangue negro
Notas iniciais
Haviam passado três dias do ataque do dragão possuído. Estávamos bem se considerarmos tudo que vinha acontecendo. Estarmos vivos já era uma vitória. Uma grande vitória.
Treinamos magia, espada, revolver, lança e arco. Era necessário. Todos estavam empenhados no treinamento. Tínhamos que nos armar, evoluir. Estar preparado para qualquer coisa era nossa maior missão naqueles dias.
Naquele momento eu estava treinando espada junto com Gaspar. Ele achava que um dia eu iria conseguir aprender aquilo, mas eu sabia que era impossível.
– Vamos lá Hooper, você tem jeito. – ele era muito insistente. – Só falta a boa vontade. – e excessivamente irritante.
Girei os olhos. Eu não levava jeito, sabia muito bem disso. Se tinha uma coisa que eu odiava, era gente que mente.
Segurei firme a espada e fiquei na posição novamente, era só isso que poderia fazer e a única coisa que eu sabia direito. As espadas tilintaram e rapidamente Gaspar me fez perder a espada. Minha habilidade sem dúvida não era aquela.
– Mais atenção Hooper. – era incrível o quanto Gaspar era insistente. – De novo. Vou te fazer um grande espadachim.
Quando peguei a espada que estava no chão, Rhodes apareceu. Estava com as mãos nos bolsos do enorme casaco que usava. Sua feição era séria. Ele tinha algo para dizer.
– O que houve? – perguntou Jasper que estava ensinando arco e flecha para Rivera.
– Aposto que não é coisa boa. – disse Yves que estava sentada num tronco de árvore, nos observando treinar enquanto anotava algo em seu caderno.
Rhodes assentiu, por mais que não quisesse. Veio até nós com passos lentos, como se não estivesse a fim de fazer aquilo. Nós já estávamos acostumados com as más notícias, havia se tornado rotina. O senhor do casarão limpou o suor que escorria na testa, colocou as mãos na cintura, respirou fundo, mas ainda não estava pronto. Nunca estaria.
– Uma iniciação. – disse Rhodes. – Vamos para dentro do casarão. As coisas não serão tão simples.
– Por quê? – Yves perguntou. – O que aconteceu ou pode acontecer nessa iniciação?
– O pior. – Rhodes virou de costas e respondeu.
Entramos rapidamente no casarão. Não guardei a espada, algo me dizia que eu precisaria dela. Que eu usaria aquela lâmina que me detestava. Todos se reuniram na parte inferior da casa. Todos seguravam suas armas. Eu estava certo.
– Invocadores de criaturas e cavaleiros do obscuro, hoje temo em dizer que vamos encarar a pior iniciação da história da Sociedade Rubi. – Rhodes começou a falar. – Um apartamento está pegando fogo. Toda a família da garota está lá. Ela tem dezesseis anos e será uma de nós. Pelo menos eu espero.
– Isso é normal. – disse Rostock. – Sempre acontece isso, você sabe. É normal Rhodes. Está ficando maluco?
– Rostock, é normal sim. E eu não estou enlouquecendo. – Rhodes pegou seu cajado. – A pior parte é que vamos enfrentar as invocadoras de damas da noite para ter a garota. Já que ela também foi escolhida pelas bruxas.
Quem ainda não havia pegado alguma arma, pegou logo em seguida. Todos estavam alvoroçados. A confiança estava ali, por mais que o medo fosse uma tentação. Um invocador para as damas da noite poderia nos levar a derrota, um invocador para nós nos levaria a vitória. Pelo menos era o que acreditávamos.
Colocamos novamente a roupa do dia dos dragões. Toda proteção era bem vinda. Rhodes nos entregou pedras de proteção, a que impediu Eudora de mudar os pensamentos de Doc. Em seguida uma pedra foi colocada em cada arma, era um rubi com rabiscos imitando chamas.
– Pra que serve? – perguntei.
– A arma fica mais poderosa nas mãos de um invocador de vampiros. – Yves explicou. – Digamos que a lâmina fica superaquecida.
Em seguida Yves colocou em meus olhos uma espécie de lente de contato. Pisquei os olhos algumas vezes e ela riu.
– Com alguns minutos você acostuma. – Yves ficou séria de novo. – Não são lentes comuns, com elas você não vai sofrer com feitiços que mexem com a visão. Nada de ilusões visuais.
Todos estavam prontos. A Ordem do Obscuro iria tomar conta do casarão, junto de Kellie e Jules. Rhodes fez um feitiço de proteção na casa. Mas quando nós nos viramos fomos surpreendidos com três invocadores. O garoto de elmo verde era Collins, ele parecia mais magro e mais velho. Veio até mim e deu um toque de mão. A outra era uma garota da Sociedade Ametista. Seus olhos arroxeados eram como os de Murphy. Estava séria, muito mais que qualquer invocador que eu já conheci. Seu cabelo era curto, crespo e pintado de roxo. A outra pessoa era um homem alto, malhado e de cor dourada. Era da Sociedade Safira e Rivera parecia animada em vê-lo.
– O que tá fazendo aqui Otto? – Rivera foi até ele. – O que houve?
– O que vai acontecer, que você quis dizer peixinha. – ele sorriu, era idêntico a Rivera, mas a relação dos dois era fraternal. – Rhodes, que bom que nos comunicou, chegamos o mais rápido possível e como pode ver, nós já estamos prontos para o confronto.
– Otto Safira, fico feliz em ver que está bem. – Rhodes sorriu. – Parece que os dragões lá não foram tão brutais. Collins, vejo que você também está bem. Pelo visto se adaptou. – ele assentiu. – Johanne, fico ainda mais feliz em ver o quanto cresceu.
– Os ogros me fizeram mais forte. – ela segurava o machado com se fosse decapitar logo alguém.
– Bom, mas não podemos enrolar. Vamos. – disse Corea já recuperada do ferimento no braço. – Vamos detonar aquelas vadias.
Corremos pela floresta o mais rápido possível. Rhodes abriu o portal para a cidade e nós cruzamos rapidamente. A pressa havia se tornado uma virtude para nós.
Na cidade tudo estava escuro. Era um lugar bem longe do casarão. Não tinha ninguém nas ruas. Tudo vazio. Mas havia um brilho que não era dos postes de luz, nem das luzes em algumas casas. Corremos atrás da luz mais intensa e lá podíamos ver o prédio com o andar em chamas.
– São treze andares. – disse Hank. – Não podemos perder tempo.
Abrimos o portão de entrada. Na portaria o porteiro dormia. Era de se esperar. Tudo trancado. Fechado para nós. Mas isso não era o pior. Foi então que elas chegaram.
– Olá invocadores de criaturas. – a voz era de Eudora. – Sentiram saudade?
Valentina havia assumido sua forma, era Eudora, uma invocadora de damas da noite. Os cabelos negros estavam soltos e ela sorria com uma maldade evidente. Seus olhos continuavam negros e vazios. Suas unhas agora eram maiores e negras. A pela extremamente branca continuava. Usava um vestido cor de ameixa com uma abertura na perna que ia até o meio da coxa. Estava descalça, com um dos pés em cima de uma bola negra. Na mão direita segurava uma vassoura. A outra mão ela levou na boca sensualmente. Era estranho vê-la desse jeito.
– Não vão dizer olá para as primas más? – ela continuou onde estava, era notável que ela estava calculando movimentos. – Não esperava isso de vocês. – ela fez beicinho e Corea girou os olhos, já estava sem paciência.
Mais quatro invocadoras pousaram no asfalto. Nada de armadura, elas não precisavam disso. Eram más, qualquer um podia deduzir isso. Era a beleza mortífera, pronta para nos matar. As invocadoras eram muito parecidas com Eudora. Cabelos negros e peles pálidas. Um sorriso atraente e olhos negros. As únicas diferenças estavam nas roupas, mas todas eram vulgares.
– Olha só. – disse a que parecia ser mais velha, cabelos negros e até o final das costas. – Os invocadores já estão aqui para morrer.
– Digo o mesmo. – disse Corea já com a mão sobre os botões. – O que vocês preferem? Morrerem queimadas como na inquisição ou de uma forma nova?
– Que tal a morte de vocês? – Eudora gostava de provocar.
– Não hoje. – Gaspar correu de encontro a Eudora.
A invocadora carregava nas costas um bastão com três lâminas de cada lado. Soltou a vassoura e pegou sua arma. Enquanto ela fazia isso, Rivera também pegou seu tridente e avançou contra a invocadora mais velha. Ataque seguido de ataque. E o tilintar infernal. Sim, ali havia se tornado o inferno. Eudora avançou sobre mim com sua arma.
– Não quer esquecer de novo? – ela provocou.
– Que tal você bater a cabeça e esquecer de continuar vivendo? – eu tinha que revidar.
Avancei sobre ela também com a espada do treino. Eu era muito ruim, mas algo estava me fazendo mais forte e eu sabia o que era. A lâmina ficou vermelha. Superaquecida. Num golpe de sorte, depois de desviar da lâmina de Eudora, consegui revidar, fazendo um corte em seu rosto. O sangue era negro e ela arregalou os olhos para mim.
– O que é isso? – ela não parecia bem, tocou o ferimento, estava assustada.
– Nós também somos fortes. – respondi. – E não temos medo. Assim como você também é humana e também sangra.
Eudora começou a recuar. O sangue escorria muito. Ela de fato não estava bem. Tocou o ferimento mais uma vez. O líquido negro sujou seus dedos e seus dedos sujavam sua roupa. Podia ver que pela primeira vez Eudora sentia dor, que nem sabia mais que sangrava.
– Monstro! – ela gritou. – O que fez comigo?
– O que vocês fizeram conosco. – respondi e avancei mais uma vez sobre ela, mas uma outra invocadora de bruxas caiu na frente da lâmina, que atravessou seu corpo.
O grito emitido pela invocadora de damas da noite era de horror. Uma dor intensa. Suas mãos se contorceram e ela tocou o próprio coração. Sentindo a morte. E o sangue negro escorreu. Mais e mais. Dor e mais dor. Mas não era o meu sangue, era o da inimiga. Eudora olhava furiosa para nós, mas cheia de medo enquanto via a parceira agonizando enquanto morria.
– O que aconteceu com vocês? – ela estava assustada.
– Não temos mais medo. – respondi. – Somos mais fortes do que vocês. Sinto muito Eudora, mas a invocadora é nossa. Vocês perderam essa batalha.
Tirei a espada do corpo da invocadora. Eudora me fitava cheia de medo. O mesmo sentimento que tivemos com ela. Pela primeira vez Eudora perdia uma batalha. Ela pegou o corpo da colega ainda assustada. Estava morta, ela sabia disso, mas provavelmente também existia um ritual para elas. Naquele momento todas as invocadoras se juntaram, fugindo da batalha. Deixamos as invocadoras recuarem, era meio que um respeito ao inimigo. E elas sumiram no céu. Menos uma.
Tínhamos um problema maior. Um grito agudo de dor. Todos nós olhamos para o prédio e todos os andares pegavam fogo. As borboletas de Gillis haviam encontrado um destino. E aquele incêndio inteiro era culpa delas e mais um para nós. Talvez nossa vitória estava junto àquela nova invocadora.
Um humano comum desceu as escadas correndo e bateu na morta de vidro. Estava desesperado, tentando fugir. Mas o porteiro dormia profundamente. Ele não teria um socorro. Não dava tempo para nós o salvar. Pulamos o portão, estávamos tomados pelo nosso herói interior, mas era tarde e no último soco no vidro o humano desmaiou com a fumaça que inalou.
– Por Drácula, são as primeiras baixas humanas. – disse Corea com as mãos no vidro, onde a mão do humano deixou uma marca de cinza. – Temos que subir imediatamente.
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