A Sereia do Bar do Seu Romão - Ilha Jambo #1

2 Capítulo 2 - Cemitério Frutos da Memória


Segunda-feira. Luís mal esperava para começar o dia.

– Hoje eu vou falar com ela — resolveu em frente ao espelho.

Não se gabava disso, porém havia passado o fim de semana pensando naquela mulher. Até havia procurado saber dela por outras pessoas. Vai que, sei lá, alguém dissesse:

– Ah, rapaz! Aquela menina? É só a moça do caixa eletrônico da padaria da esquina. Ela sofreu um acidente já três anos atrás e bateu a cabeça. Agora pensa que é a Marisa Monte. Pobre menina! Aqueles vestidos? São tudo do brechó da dona Rita.
Entretanto, ninguém falou nada parecido. A coisa mais criativa que falaram sobre ela, e acreditem, a menos absurda, era que aquela mulher era ninguém além de Laura Gucker, a finada mulher de Vagner Gucker, um ricaço da cidade, que além do mais era casado com uma jovem perfeita, que não era nem dez anos mais velha do que a filha do homem, uma adolescente metida a besta — é isto que se ouve quando se pergunta qualquer coisa à dona Raimunda, faxineira do albergue mais famoso e badalado da ilha Jambo; a cinquentona mais boca aberta da região. Se ela não sabia alguma coisa, desista, ninguém mais sabe.

Era interessante como em três dias, Luís havia feito uma nova amizade. Sérgio Dantes, do setor de finanças. Ele era um gorducho de trinta e cinco anos, apaixonado por batatas fritas, pelos jogos do time do São Paulo, e por Sara Nogueira, locutora das notícias dos esportes e entretenimento. Na realidade não eram bem amigos. Não conversavam muito. Luís costumava ouvir mais monólogos da personalidade de Sérgio, e de como aquilo de tentar beijar a Sereia do Bar do Seu Romão à força foi só uma maneira de fazer ciúmes para seu verdadeiro amor. Sinceramente, ele mais parecia uma criança. E sabe o mais engraçado? O gorducho era querido no escritório. Pois era gentil e apostava nas partidas do jogo de dominó jogadas nos intervalos de terça e quinta-feira. E o melhor, nunca menosprezava quem perdia. Em vez disso, oferecia um prêmio de consolação para o último lugar. Tudo bem, isso era humilhante, não legal. Todavia, em suma, ele era uma boa pessoa. Era um bobão falante que dava uma de machão, mas que era fofo e educado, e tinha como sonhos casar e ter filhos — essa parte fica entre nós.

Resumindo, era o cara que fazia amizade com todo mundo, separava a briga de todo mundo, e pagava a primeira rodada do pessoal no bar às sextas-feiras, depois do expediente.

No fim do dia, Luís convidou Sérgio para ir no Seu Romão.

– Mas eu nem curei a ressaca de ontem! — reclamou, Sérgio.

– O melhor jeito de curar ressaca é ficando bêbado de novo!

– Você que paga.

– Pode ser. A gente toma só uma cerveja.

E lá foram os dois.

***

Segunda-feira definitivamente não era o melhor dia de Sérgio. Ele praticamente estava dormindo na mesa do bar, que inclusive tinha um idiota num caraoquê. Pelo menos o idiota não estava bêbado.

Depois de algumas horas, Sérgio decidiu ir pra casa. Estava na hora de dormir. Meio a contragosto, Luís permitiu sua saída, mas continuou ali.
Sua espera não foi em vão. Um tempo após a saída de seu amigo, a sereia apareceu. Desta vez, ficaria atento.

A pedido de alguém, ela cantou umas duas músicas internacionais, e desceu do palco, para a mesma mesa do outro dia.
Luís pegou dois drinques no bar e se aproximou dela.

– Olá. — disse. A mulher virou os olhos para Luís antes de desviá-los novamente. Estava com um vestido verde escuro de mangas e decote modesto que batia em seus calcanhares. Tinha um blazer escuro posto sobre os ombros, e a máscara de sempre. — Posso me sentar aqui?

– Você e mais quem?

– Somente eu.

– Fique à vontade. Já estou de saída. — respondeu, já de pé.

– Não precisa se retirar. Vamos conversar um pouco.

– Está um pouco tarde. Quem sabe uma outra vez? — negou ela, já a caminho da porta. Insistente, Luís deixa os dois drinks sobre a mesa e a segue. Já fora do bar, aborda-a novamente.

– Pelo menos me diga o seu nome, por favor.

– Laura. — brincou ela, com um sorriso maldoso, se perdendo na escuridão.

– Ah, mas dessa vez eu não perco! — e seguiu a mulher, que corria bem demais pra alguém que usa salto alto. Será que aquelas coisas tem tipo uns dispositivos secretos com turbos super especiais? Só pode!

Atravessou ruas, dobrou avenidas, passou por bairros estranhos e até por calçadas de paralelepípedos. E por fim, parou. A menina olhou para trás e viu que ainda estava ali. Seu vulto então, adentrou numa construção à frente, no cemitério. Cemitério Frutos da Memória. Um lugar repassado por uma cerca de grades de ferro pintadas de preto, misturadas a uma vegetação que se enroscava nas suas breves colunas, com flores murchas e galhos espinhosos. O portão, enorme no meio, tinha sobre si o nome do local. Um local aberto ao público, cuja assistência era nula.

Isso só podia ser pegadinha! Nem morto ele entraria ali... Quer dizer... Ah! Tanto faz! Aquela mulher era paga por um circo ou algo assim? Seria despedida se falasse com outras pessoas? Ou se tirasse aquela máscara ridícula? Ou será que era deformada? Queria publicar lendas locais ou algo do gênero? Por que entraria num cemitério? Era uma gótica exibida ou uma punk qualquer? Seria filha do coveiro? Então por que teria vestidos assim? Comprara em um brechó? Mas qual brechó venderia roupas assim naquela ilha? Que droga! Por que aquela maluca estava fazendo isso? Quer saber? Dane-se. Se não quiser aparecer ou dar uma de difícil, que faça seu teatrinho idiota sozinha. Ele que não ficaria ali, naquela rua escura, em frente a um local cujas extremidades possuíam corujas esculpidas, com olhos grandes e brilhantes... Oh meu Deus!! Aquelas corujas eram reais?!

Nem se deu conta de quando saiu correndo. Só se lembrou que estava em movimento quando voltou ao bar para tomar mais uma antes de voltar pra casa e se esconder debaixo dos cobertores, com as janelas fechadas e as portas trancadas.

Ele não estava com medo. Não. Estar próximo a um lugar com vinte e cinco baratas por metro quadrado assusta qualquer um. De qualquer forma, ele deixaria de correr atrás daquela mulher. Faziam só quatro dias, e ele já estava cansado. Que pessoa complicada! Só a tinha visto dois dias e tudo que sabia dela era que cantava bem e não temia nenhum tipo de bicho rastejante.

Seria casada? Quer dizer, fantasma ela não era. Ou era? Tecnicamente, ela era tocável, todos podiam vê-la, e ela conseguia beber alguma coisa. Embora só cantasse músicas de mil novecentos e me esqueci, e usasse vestidos da Nora Ney, ela não era assim tão do século passado. E ela não tinha história macabra. Se fosse realmente a Lara não sei das quantas, o máximo que se falaria dela era que foi uma mulher bonita que gostava de fumar e de festas, e que morreu de câncer no pulmão. Não que Luís fosse maldoso ou não respeitasse os mortos. É só que um fantasma que morreu de câncer é muito chato, e se ele fosse a algum lugar, não seria num bar, e sim, na sua casa, sei lá. E além disso, se realmente tivesse falecido por doenças, não voltaria tão glamorosa. Se é que aquela máscara não fosse um jeito de esconder os olhos muito pequenos, ou muito grandes, ou muito separados, ou muito juntos, ou muito saltados pra fora, ou muito fundos, tanto faz, da moça que a usava. Talvez ela nem fosse assim tão linda. Aliás, por que ele estava considerando a possibilidade dela ser um fantasma? Ou melhor, por que ainda estava pensando nela?

E pelo visto passaram-se horas, e horas, e horas, e nada dele adormecer. Com sono? Com certeza estava. Mas ainda assim não conseguia dormir.

Lembrou-se da canção de Pixinguinha, a tal de “Carinhoso”. Era uma canção deveras fabulosa. E ainda mais na sedosa voz da moça maluca. Recordou seus sonhos um breve momento, e sentiu uma breve admiração pela dita cuja. Ela precisava se esconder de alguma coisa, e apesar de Luís não saber exatamente o que nem por que, percebia que ela se empenhava por algo que gostava: cantar.