A Sereia do Bar do Seu Romão - Ilha Jambo #1
3 Capítulo 3 - A Aposta
Tudo bem. Ele sabia. Havia prometido. Mas só mais essa noite! Se nada der certo nessa noite, ele vai voltar a considerar chamar pra sair aquela garçonete da lanchonete e padaria Tia Anastácia.
– Cara, isso é loucura! — disse Sérgio — está mais do que na cara que ela não quer nada com você. Eu não sei muito sobre relacionamentos, mas se uma mulher fugisse de mim e fosse pra um cemitério, eu não continuaria a correr atrás dela.
– Falou o cara que dá chocolates pra Sara Nogueira toda semana.
– Quem disse que eu gosto dela?!
– Você me disse.
– Mas isso é diferente! — disse ofegante. Quando Sérgio ficava nervoso, ele costumava ofegar, às vezes suar. Era algo louco de ser ver.
– Eu não quero ser mau, mas se ela quisesse algo contigo, já teria dito.
– Talvez ela tenha vergonha de dizer, e esteja esperando eu falar algo.
– E por que você não fala?
– Ah... Porque ainda não é o momento certo.
– E quando vai ser?
– Pode parar, por favor? Você sabe que eu odeio que me pressionem!
– Está bem, então.
– Quando foi que você ficou tão intrometido? — apelou Sérgio, se enxugando com um lenço tirado do terno risca de giz.
– Foi mal, cara. — diz Luís, revirando os olhos, e se jogando para trás no assento da lanchonete Tia Anastácia, com os pisos de porcelana de cor marrom e as paredes engessadas de cor branca e rodapé semelhante ao chão. O lugar era tão limpo que brilhava, refletindo as mesas de madeira e as cadeiras acolchoadas em âmbar. Lá os sapatos faziam eco e a bancada da loja, além de ser de um mogno bem envernizado, tinha como atendente uma moça bela, de pele bronzeada e longos e cacheados cabelos castanhos, além de incríveis olhos que beiravam o verde. Ela era guardiã dos bolos, das tortas e da cozinha, separada por uma porta branca. As luzes eram amenas, e o local fechava às oito e se abria às oito. Era um ambiente agradável.
Voltando ao foco, Sérgio logo se sentiu culpado, e se desculpou. E lá estava Luís, quase ofendido pelo que o gordo bipolar estava falando, quando teve uma ideia.
– Tudo bem, cara. Vamos fazer uma aposta? — sugeriu, apoiando os cotovelos sobre a mesa, cuidando em não bater no suco de açaí ao lado, nem resto de hambúrguer à frente.
– Quê? — disse Sérgio, aéreo, pensando em comer mais alguma coisa. Dividido entre preço e tempo. Se o preço seria muito alto, e se haveria tempo de comer no resto do intervalo de almoço.
– Uma aposta. Vamos fazer uma aposta.
– Do quê?
– Se eu conseguir ficar com a sereia, você me dá duzentos reais. Se você conseguir sair com a Sara, eu te dou duzentos reais.
– Você está louco? Eu não posso chamar a Sara pra sair!
– Por que não? Você dá chocolates pra ela toda semana...
– Porque eu compro pra mim e nunca consigo comer tudo.
– Então divide comigo, e não com ela.
– Mas eu gosto dela, não de você!
– Então convida ela.
– E se ela dizer não?
– Pare de dar chocolates pra ela e passe a dar chocolates pra mim.
– Eu estou falando sério.
– Olha, não é algo complicado de se fazer. É só chamar ela pra sair. E ela provavelmente vai aceitar. Primeiro, porque você vive pagando rodadas de bebidas para o pessoal no bar. Segundo, porque você é um dos únicos daquela rádio que é gentil e educado com todo mundo. E terceiro, você é fofo e compra chocolates pra ela toda semana.
– Eu já disse que é porque sempre compro demais!
– De qualquer forma, você tem muito a seu favor. Está até mais fácil pra você do que pra mim.
– Isso aí está na cara, não é, Luís? Principalmente porque a mulher que você quer é a mulher mais cobiçada do bar mais bacana da ilha. E apesar de você ser uma gracinha, — continuou, sinalizando aspas para a última palavra — muitos caras marombeiros, ricos, e feitos a pincel já tentaram falar com ela. E nada.
– Então! É a sua chance de ganhar duzentos.
– Se você não pegou o ponto que eu estava tentando salientar, — dizia, gesticulando como professores de faculdade — o que eu quero dizer é que isso é impossível tanto pra mim quanto pra você. E por isso, não faria sentido eu aceitar essa aposta. Afinal, ela nunca iria ser completada.
– Nossa! Como você é pessimista! Vamos nos divertir um pouco!
– Eu não! Quer saber? Vai que, por algum milagre divino, você consiga ficar com a sereia. Meus duzentos reais são para outras coisas!
– É... Tipo comprar chocolate para alguém que você nunca beijou!
– Chega dessa brincadeira infantil! Eu não vou pôr em risco meu dinheiro.
– Está bem! Vamos apostar outra coisa.
– Eu não quero apostar nada!
– Calma! Minha ideia é boa. Que tal sair de cueca do edifício do trabalho até a praia?
– O quê? Ficou louco? Essa ilha é cheia de gente fofoqueira e de mente pequena. Se eles nos virem assim, imagina que reputação a gente vai ter!
– Bobagem, homem! Danem-se as pessoas. A vida é nossa! A gente faz o que a gente quer.
– Legal, bonitão. Proposta legal. Bem rebelde. Mas digamos que um de nós consiga sair com uma delas, você acha que se fizermos isso elas vão continuar saindo com a gente?
– É... Até que faz sentido. Então, que tal a gente sair vestido de mulher?
– Eu não vou me travestir!
– Qual é? Vai ser engraçado. E as meninas acharão fofo.
– Não acharão, não! Elas vão achar estranho e vão fingir que não nos conhece quando toparmos com elas nas ruas.
– Calma, Sérgio. A gente só vai fazer isso uma vez. Não todo dia! Depois, todo mundo vai esquecer disso. É só pra deixar as coisas mais interessantes.
– Está bem. Mas sem roupa íntima.
– Sem roupa íntima. Mas vai ter que ter peruca!
– E sem salto.
– Não! O salto é essencial! – disse Luís.
– Mas eu não sei andar de salto!
– Nem eu!
– Está bem. E a maquiagem? – questionou Sérgio.
– Tem que ter maquiagem?
– Se tiver salto, tem que ter maquiagem!
– E quem vai fazer?
– A gente faz.
– Cara. A gente já vai estar ridículo. E você ainda quer que eu faça uma maquiagem em mim mesmo? – argumentou Luís.
– É só pra deixar as coisas mais interessantes... — parafraseou, com um sorriso maligno, estendendo a palma para o amigo, que após pensar um pouco, a agarra pela mão.
– Da rádio para a praia...
– A pé...
– Em trajes de mulher...
– Com maquiagem e salto alto...
– Pela sereia e pela Sara...
– Desafio aceito.
Soltaram as mãos, e permaneceram em silêncio por alguns instantes. Deixaram aquele buraco sonoro invadir o ambiente, enquanto olhavam para o nada, cotovelos ainda sobre a mesa, expressões indignadas com alguma coisa que nem mesmo eles sabiam o que era.
– A gente precisa documentar isso. — disse Sérgio, sério.
– Verdade. Nada de palavras muito difíceis. Uma cópia para mim, outra pra você, e mais uma para um juiz.
– A gente precisa de um?
– Eu posso chamar meu irmão. Somente para ele guardar e nenhum de nós alterar o contrato.
– Boa. — mais buraco sonoro... — Será que dá tempo de eu comer mais um salgado?
– Acho que não. A não ser se for para a viagem.
– Não. Não posso comer salgados enquanto caminho.
– Então compra um chocolate. É aqui que você faz sua compra semanal?
– Não. Nem sempre tem o que eu quero.
– Vamos tentar? Aproveita e compra um pra mim. Faz tempo que eu não como um doce.
– Disse o cara que roubou minha barrinha de cereal ontem. — e levantaram-se, indo até a bancada pagar a conta.
– Barrinha de cereal não é doce. É integral.
– Dane-se. Estava vencida.
– Boa tentativa. Até parece que alguma comida que você compra consegue vencer.
– Tem muita gente passando fome para eu desperdiçar comida.
– Muito bem. Comer por dois mata a fome de muita gente.
***
– Então, você falou com ela?
– Não, cara! Essas coisas levam tempo!
– Cuidado, hein? Se levar tempo demais ela vai conhecer um lado seu com o qual ela nunca vai querer sair.
– Aconselhou o perseguidor...
– Eu não sou perseguidor!
– Não, imagina — ironizou Sérgio, abrindo a porta do carro e atirando nele seus pertences. Luís fez o mesmo antes de tornar a fechar o veículo e se apoiar sobre o capô.
– Eu admito que segui ela. Mas eu não persegui.
– Ah, não? E qual a diferença?
– Perseguir é o ato doentio de monitorar cada passo de uma pessoa específica, ela gostando disso ou não. E seguir é apenas acompanhar alguém... — argumentou, diminuindo o tom da voz, de modo a tentar ser ignorado.
– Que eu saiba, acompanhar alguém é ir para determinado lugar com alguém que quer que você faça isso. Não sair correndo atrás da pessoa como um estuprador drogado ex-presidiário.
– Eu só queria saber onde ela mora!
– Então pergunte.
– Mas ela não me disse nem o nome.
– Então deixa pra lá.
– Não posso.
– Por quê?
– Porque eu não quero me vestir de mulher sem tentar.
– Muito profundo isso.
– Eu sei... — disse ele, pensativo, ainda com os cotovelos sobre o carro. Antes que o amigo entrasse em seu veículo, pôs-se a perguntar — Eu também não sei se minha condição financeira me deixa ir para aquele bar todos os dias até ela ter vontade de falar comigo.
– Chocolates também não são baratos, mas eu compro. Estou quase falindo.
– Ah... Cala a boca! Você só gasta esse dinheiro por semana. Eu vou ter que investir todo dia. E outra, eu descobri que a loja onde você compra seus docinhos é da amiga da sua mãe, que te dá um monte de desconto.
– Primeiro de tudo, nunca se refira àqueles chocolates como docinhos, e segundo, se a situação está tão difícil, acho melhor você começar a dar em cima do barman também. — disse, rindo da própria piada. Gordo imbecil, pensou Luís.
– Que engraçado. Acho que o jeito é sair correndo do bar sem pedir a conta.
– Ah, sim. . . E você correria pra onde? Para o cemitério? Do tamanho que aquele barman é, ele te alcança e te faz ficar por lá mesmo.
– Quer saber? Se eu apenas jantar lá não acho que vai ficar tão caro.
– Quero saber quando tempo você vai aguentar comendo hambúrguer todo dia.
– Saiba que lá também é um restaurante.
– E a comida é boa?
– Não tenho certeza. O cheiro de bêbado sobrepõe a comida.
– Verdade... Mas sabe de uma coisa, Luís? — disse Sérgio, olhando para o nada — eu estou começando a gostar dessa aposta.
– Ah, é? — indagou, incrédulo.
– É. Não vai ser fácil, mas eu acho que vou conseguir sair com ela.
– Ah, vai...
– Pelo menos eu sei o nome dela. – ironizou.
– Questão de tempo, querido.
– Eu amo o seu jeito positivo. Boa sorte com sua desconhecida que prefere passear pelos mortos do que conversar com você.
– Ela estava assustada porque eu a persegui.
– Rá! — exclamou, apontando um dedo na cara do amigo. — Admite que perseguiu ela agora?
– Ah! — arfou com desdém — o que você queria que eu fizesse? Ela correu de mim primeiro.
– E isso não foi motivo suficiente para você notar que ela estava muito afim de conversar com você? — ironizou.
– Ela foi a primeira mulher a correr de mim. Nenhuma mulher correu de mim até hoje. Por que ela pensa que é melhor que todo mundo?
– Não fique bravo com ela, Luís. Eu também ficaria assustado se um maluco corresse atrás de mim.
– Ah, às vezes ela pode ter o costume de fazer isso quando alguém tenta forçar muito a barra pra conversar com ela.
– Ah, sim... — brincou novamente — porque é super normal correr pra um cemitério. Coisa do dia-a-dia, não aguento ver uma cova que dá vontade pular lá dentro.
– Afinal, de que lado você está?
– Do lado oposto ao seu.
– Percebi. Se é que você tem um lado. — atentou maldosamente o corpo de Sérgio, que nem se importou com a piada.
– Minhas curvas belíssimas vão conquistar minha garota antes de você conseguir descobrir o nome da sua.
– Sonha, filho.
– Você acha que ela vai recusar sair comigo depois de eu dar a ela tantas caixas de chocolates?
– Pra falar a verdade, acho que não. A questão aqui é mais sua coragem do que de fato o convite ser aceito.
– Em contrapartida, a sua questão é fazer ela aceitar o convite, porque você tem tanta coragem, que já assustou a menina dois minutos depois dela te ver.
– Eu vou tentar apenas mais duas semanas. Se eu não conseguir sequer falar com ela, eu desisto da aposta e saio travestido.
– Só duas semanas?
– É... Porque se em duas semanas eu não conseguir falar com ela, eu não vou conseguir nunca mais.
– Nisso eu concordo.
– A mesma coisa é você. Sara já sabe que você gosta dela. Se demorar demais, ela vai começar a recusar seus chocolates, porque vai estar saindo com outra pessoa.
Sergio sentiu o medo dessa possibilidade. Já fazia tempos que ele estava investindo em Sara, só que não chegava onde era interessante. Quando pensava em convidá-la, era invadido por um medo estranho e desconcertante. Sentia-se como um adolescente. Aquele sentimento imbecil de receio de ser rejeitado. Se ela o rejeitasse, ele pediria o dinheiro dos chocolates de volta. Mentira. Não teria coragem. Mas daria chocolate para a zeladora, em vez de pra ela.
Ele ia chamar ela — decidiu. Mas só daqui a duas semanas, se o amigo realmente fosse rejeitado, e ele fosse obrigado a ter de sair com a mulher. Não que fosse algo ruim sair com Sara. Seria ruim passar vergonha por Sara não querer sair com ele.
***
Luís tentava descobrir o porquê de ter sido rejeitado, ou evitado. Seria seu rosto? Seu corpo? Sua altura? Seu jeito? Sua reputação? Dane-se. Ele ia lá falar com ela.
Perguntou-se se não seria estranho demais abordar uma mulher usando aquela camiseta salmão. Gostava dela. E com a calça branca lhe dava um visual cheio de estilo – ao menos era o que achava. Talvez passasse a impressão errada. Mas sabia de mulheres que gostavam de homens que parecessem sensíveis. E nada mais sensível que usar salmão. E sabia de mulheres que gostavam de homens corajosos. E nada mais corajoso que usar salmão.
Desta vez, apresentou-se sem drinque algum. Nem sabia se ela responderia seu cumprimento.
– Oi — disse tímido à mulher de vestido chiffon azul escuro, sob uma jaqueta jeans que parecia importada dos anos setenta, mas de um jeito legal. A máscara era mais discreta, um simples preto que escondia seus olhos e nariz. Havia também vários colares grandes de prata, com pingentes estranhos de um mundo antigo.
– Olá. — respondeu, com um sorriso maldoso — bela camisa.
– Obrigado. — falou ele, se sentando à sua frente sem pedir — Queria me desculpar pelo outro dia, acabei te assustando.
– Não foi nada. Está tudo bem — e terminando a frase, já estava de pé. Rapidamente, seu admirador também se ergueu, segurando leve, porém firmemente seu pulso. Ela o encarou, depois as mãos, meio apavorada, sem compreender direito a cena.
– Não vá, por favor! Fique e converse um pouco comigo!
– Me desculpe, eu não posso ficar. — ela era educada, com todas aquelas desculpas e falsa consideração; contudo, ainda assim, era aquele tipo de pessoa que sempre parecia se sentir superior a todos. Uma pontada de arrogância, que alimentava seu charme. Ou seria seu carisma, que por ser tão grande, deixava escapar um pouco de soberbia? Não entendia. Entretanto, sabia que era bonito. O resto não importa.
– Você acabou de chegar.
– E daqui a pouco vou ter acabado de ir embora. — e soltou-se dele, caminhando a passos largos até a saída. E novamente, ele a seguiu.
– Responda pelo menos uma pergunta minha.
– Quem sabe outra hora? — afirmou mais do que sugeriu, e não diminuiu o ritmo.
– Você não pode ficar nem mais por cinco minutos?
– Desculpe, querido, mas já respondi sua pergunta.
Apressado, ele a alcançou na rua deserta e se pôs à sua frente, impedindo sua passagem:
– Com licença, por favor.
– Me diga ao menos uma coisa sobre você. — ela arfou.
– Eu até poderia perguntar o que quer saber de mim, mas sei que eu não iria responder de qualquer forma. — disse calmamente.
– Uma pessoa sincera. Gosto disso — ela tentou fugir de novo, sem sucesso — Por favor, só me conte uma coisa. Uma coisa e eu vou te deixar ir embora.
– Está bem. — disse ela, entreabrindo os lábios rubros, como se pensasse bem no que iria dizer em seguida. Com a mão na cintura, simplesmente disse — Minha cor favorita é azul.
– É isso? — perguntou ele, claramente decepcionando. Ela disse isso pra ele? Só podia estar querendo tirar uma com a cara dele.
– Turquesa, na verdade. — provocou mais um pouco. — Agora preciso ir. Me deixe passar, por favor.
Ele apenas continuou observando-a cruzar a calçada e seguir apressada, embora elegante, para seu destino. Desviou do seu caminho e a fitou; com os pensamentos divididos em como conquistá-la ou em como conseguir um salto tamanho 42, sem levantar muitas suspeitas desnecessárias.
***
As duas semanas já estavam no fim. E sabe o que Luís descobrira da sereia? Porcaria nenhuma. Ainda estava parado na sua cor preferida. Desde àquele dia, tentara, como nos outros, puxar assunto. Desta vez, com um pouco mais de intimidade, e tudo que recebera foi um balde de água fria. Um, não, uns. . . Se ele não conseguisse ao menos dialogar com ela, de verdade, teria de desistir, e sair correndo pela rua com um vestido da irmã mais nova. Por Deus que preferia sair de cueca. Não se sentia nem um pouco confortável com a ideia de desfilar por aí com um sutiã laranja néon. Não que ele fosse usar exatamente um sutiã laranja néon, ou que já tivesse pego emprestado de alguém ou comprado. Era porque se de algum jeito se imaginava mulher, se imaginava como aquelas mulheres de sutiã laranja néon. Mentira. Nunca se imaginou como mulher. Ele jura. Simplesmente passou na loja, viu, riu, e se auto desafiou.
De qualquer forma, voltando ao que interessa, ele havia, sim, a cumprimentado todos os dias que se seguiram àquele em que descobrira que sua cor favorita era turquesa. Entretanto, só ficara nisso. Ela não dava abertura para uma aproximação, e depois de cantar suas músicas de bossa-nova, abandonava o bar sem sequer beber alguma coisa.
Luís não costumava pensar mais de si do que era. No entanto, acreditava ser o culpado pelas súbitas saídas da moça. Isso soava bem e mal ao mesmo tempo. A última coisa que queria era que a mulher por quem estava interessado tivesse medo dele. Todavia, às vezes fantasiava que na realidade ela tivesse medo do sentimento que sentia por ele, e que um dia, já não suportando a paixão que queimava em suas veias, o beijaria loucamente no meio da rua escura e deserta em frente ao bar, dizendo que não aguentava mais se policiar — riu dos próprios pensamentos. Que lixo! — murmurou, abafando os barulhos da reprimida gargalhada – se sentindo em um daqueles filmes idiotas de adolescentes afetadas.
Notou que havia dito as últimas palavras em voz alta, mas tudo saía como murmúrios estranhos e indecifráveis, além de fazer gestos não muito articulados, e pior, ainda estava no bar. Percebeu que estava sendo observado por muitos olhares curiosos, com uma expressão do tipo "Isso é cerveja ou chá de cogumelo?", e decidiu se retirar dali, envergonhado.
Nesta sexta-feira, a sereia fora tão rápida que ele nem teve tempo de abordá-la. Por isso, não havia motivos para se demorar. Saiu, como sempre, pela larga porta de entrada, quando algo lhe chamou atenção.
– Aqui está o da semana — alguém sussurrou. Espera um pouco. . . Era o barman? Pra quem ele estava dando dinheiro? Para ela? Por quê?
– Obrigado.
– E o povo está bem? — perguntou com intimidade.
– Está.
– Eles ainda não perceberam suas fugas?
– Ainda não.
Os dois estavam recostados na parede, num ponto morto, onde por ora não passava ninguém. Eles se conheciam. Não um conheciam de já te vi. Mas um conheciam de sei quem é sua família. O barman Saulo, aquele marombeiro de pele bronzeada e olhos e cabelos escuros, sabia quem era a sereia.
– Um dia todo mundo vai descobrir.
– Bobagem. Só se você contar.
– Não brinca com a sorte, menina. Por que você não vem aqui sem máscaras e canta para todo mundo saber quem você é?
– Não posso! Se minha família descobre que eu venho aqui todos os dias, eu estou morta.
Hm. . . Família? Ela mora com os pais, então?
– Você nem mora com seus pais.
Então, por que. . .
– Mas eles não vão gostar nada disso. Sabe? Eles já têm um problemão pra cuidar. Não precisam de mais um.
– Mas você não é problema nenhum!
– Eles pensam que sim, e já é o suficiente. Se eles não precisam de um problema real, quanto mais imaginário. E outra, à essa altura, se eu revelar minha identidade, meus problemas vão triplicar.
– Ah, é mesmo. — disse Saulo, como se se lembrasse de algo importante, que não foi mencionado, assim como seu nome. Eles eram espertos.
Luís estava há dois metros deles, em um ângulo que não podia ser visto, num ponto escuro ao lado da porta, na sombra da parede com a mesma. Porém, se eles se virassem, poderiam enxergá-lo. E talvez fosse o fim. Fim do quê, ele não sabia exatamente. Mas seria o fim. E seria o dele. Quem sabe num ponto de desova. . .
– Você deveria sumir daqui, sabe? Parar com essa brincadeira.
– Do que está reclamando, Saulo? Quem mais está ganhando com isso é você!
– Eu sei. Mas eu não quero te ver mau.
O quê? Eles eram ex-namorados ou algo do tipo?
– E de certa forma, a culpa vai cair em mim. Nem que seja um pouco.
– Não se preocupe Saulo, se alguém descobrir alguma coisa, eu tomo a responsabilidade. Não vou culpar você. E você sabe, como eu preciso desse dinheiro.
– Existem outras formas de ganhar dinheiro.
– Eu sei que sim. Mas não posso fazer diferente. Você sabe das minhas responsabilidades mais do que ninguém.
Responsabilidades? Ela tem filhos? Marido?! Ai Meu Deus! Ela tem marido!
– É só por um tempinho. Só até eu conseguir juntar um pouco de dinheiro.
Para que ela precisava de dinheiro? Imaginava que ela devia tê-lo de sobra, simplesmente pelas roupas ostentosas que usava. Não eram roupas de gente pobre. Então por que precisava de dinheiro? Teria mesmo ela um marido? Um marido que lhe oferecia grandes coisas valiosas, mas não lhe dava amor? E ela precisava de dinheiro para se separar e recomeçar a vida? Parecia meio irreal, mas era a justificativa mais palpável.
Os dois começaram a se despedir. E, para não notarem que ele estava presente há alguns minutos, Luís bateu a porta do bar, para simular sua mentirosa chegada instantânea. Inocentes, assustaram-se, e fingiam um simples cumprimento. Saulo logo se pôs a entrar novamente no bar, para ajudar seu colega, e a mulher seguiu seu caminho.
Desta vez, Luís não a parou. Não saberia como. Não depois das declarações anteriores. Também, não adiantaria nada ele tentar como das outras vezes. Seria despachado em dois tempos. Não. Faria uma estratégia primeiro.
– Já sei! — pensou consigo. Confrontar-lhe-ia com a verdade.
Quando confrontados com a verdade, as pessoas dão indícios, ficam nervosas. E mesmo quando a verdade nem está completa, elas temem, se apressam, e relatam tudo, nos mínimos detalhes.
Isso! Tudo o que Luís precisava fazer era deduzir. Precisava deduzir alguma coisa. Descobrir alguma coisa. Nem que fosse mínima. Mas precisava desvendar alguma coisa. Se assim fizesse, ela própria se entregaria. Ela se revelaria. E com um segredo na mão, seria mais fácil conhecê-la. Jamais a chantagearia, se é que seu segredo fosse tão grave assim. Não. Apenas mostraria que realmente queria saber quem ela era, e que não era nenhum canalha que lhe forçaria a ficar com ele. Apenas um maluco perseguidor. Só isso. Apenas um maluco perseguidor, apaixonado, e patético.
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