A Sereia
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Fora a pior tempestade que já atingira aquela região nos últimos tempos. O céu não poupou esforço para parecer ameaçador e os marinheiros correram a seus postos assim que a chuva começou.
Elijah deixou-me sozinha e correu pelo convés bradando ordens a seus homens. Mas eu era a única a saber que seus esforços não serviriam para nada. Ao longe dava para ver as ondas se aproximando. Não ondas comuns. Ondas que camuflavam Sirens, furiosos, selvagens. Famintos.
A tempestade fora o chamado. Apesar de saber que em breve estaria livre novamente, havia consequências para o que eu tinha deixado acontecer. Naquele instante, quando a primeira onda quebrou contra a proa, só pude desejar em silêncio que não fosse tarde demais para minha espécie.
* * *
As batidas na porta me assustaram e me fizeram saltar do sofá num pulo automático. Sentia-me exausta e com fome. Corri até a janela sob o som dos esmurros contra a madeira velha. Anoitecera ou era madrugada? Estava incerta sobre as horas e confusa sobre todo o resto. Meus instintos estavam me enlouquecendo, afetando minha cabeça, bagunçando o raciocínio. A pessoa lá fora era humana, o que atiçava ainda mais meu lado selvagem. Era um perigo incalculável abrir a porta, mas eu sabia que se evitasse, talvez ela não fosse embora.
-Pare com isso – Resmunguei, puxando a porta com agressividade e presenteando-lhe com uma careta afetada. – Está me deixando com dor de cabeça.
-Desculpa – Jade entrou sem esperar convite, acomodando-se na poltrona da sala onde Bela costumava dormir. Ela lançou-me um meio sorriso e focou as mãos sobre os joelhos, hesitando.
-O que você quer?? – Perguntei, abrindo a geladeira em busca de algo que pudesse aliviar minha fome. Algo que desviasse minha atenção da única fonte de alimento decente naquela casa, sentada em minha poltrona.
-Por que está me ignorando? – Ela me respondeu com outra pergunta. Jade não estava chateada. Estava irritada.
-Eu estava dormindo – Respondi, suspirando depois de encontrar uma vasilha com filés de peixe.
-Eu não estou dizendo hoje – Ela virou-se para mim, muito séria. – A semana inteira, todos esses dias! Por que somente hoje resolveu abrir a porta? Pensei que tinha ido embora de Raven!
Segurei a frigideira sobre o fogão por um momento, analisando o que tinha acabado de ouvir.
-Espera – Eu olhei para ela, incrédula. – Você esteve aqui... Você quis dizer dias?
-É claro!! – Jade franziu as sobrancelhas, impaciente. – Faz dias que tento falar com você!! O que aconteceu? Olha, sei que não devia ter vindo, mas não precisava ter se isolado aqui, tá legal?
-Jade – Um calafrio subiu-me pela espinha e meu estômago afundou, vazio e oco. – Há quantos dias eu me isolei??
-Não sei bem – Ela bufou, se acalmando. – Uns seis, talvez sete? Olhe, que diferença isso faz agora...?
-Muita – Eu a fitei com apreensão. – E você não deveria estar aqui agora.
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