Era solstício de primavera, e como toda vez, Lûmia subia as várias escadarias do reino, para acompanhar o fim do dia, na muralha que separava a Montanha Solitária da Cidade de Valle. Aguardava ansiosa os últimos raios de sol, dotados de cores fortes e vibrantes, como o final de um livro, que há de ter continuidade. Esperava ali ate os últimos raios tocar-lhe o rosto branco, por muitas vezes rosado quando alguém lhe fazia um elogio, a brisa quente a tocar seus longos e negros cabelos cacheados, sempre difíceis de se pentear nos momentos de atraso para o café da manhã. E então o sol a aquecia, e a luz que agora eram refletidas em seus olhos violetas, faziam que por um momento se sentisse completa, trazia-lhe a sensação de liberdade, algo que há muito tempo não sabia oque era, lembrava-se vagamente da ultima noite em que ouvira os gracejos de sua mãe, ou os braços fortes de seu pai a lhe carregar pelo jardim. Sua vida mudou quando ela tinha apenas um ano.


Seu pai era um importante mago, conselheiro de muitos reis na Segunda Era, e então quando menos parecia possível que a vida lhe traria o amor, ele se apaixonou, por Éiwn, uma elfa, dotada de sabedoria e que ensinou a Mewlor oque era o amor. Eles se apaixonaram perdidamente um pelo outro, prometeram se proteger a qualquer custo, e assim veio o fruto deste amor, Lûmia, que significa “ luz na escuridão”. O tempo passou e sua filha completou um ano de vida. Mas aqueles eram tempos difíceis, e Mewlor se esqueceu dos erros que cometeu, e sua família pagou por isso.


Sobreviveu então um doce bebê, que foi acolhido pela Rainha dos Anões, amiga de longas datas de Éiwn, e que prometeu cuidar de Lûmia como se fosse sua própria filha. Lûmia recebeu um lugar na família real, e não tardou muito para que todos a tratassem como uma filha de Durin. Os anos se passaram e Lûmia cresceu, se tornou uma jovem linda e destemida, e uma grande espadachim do exercito real, ao lado de seu melhor amigo, Thorin.

—Mais uma vez aqui?-perguntou Balin à Lûmia.

—Você me achou. — disse Lûmia com certo sorriso no rosto.

— Todos estão à sua espera — disse Balin. — Thorin tem algo para lhe dar.

—Oque é? Mais um tapinha nas costas, e "Fico feliz por ter superado mais uma guerra"?! — disse ela com um ar de deboche e certo desapontamento. Balin riu.

— Vamos, terá um banquete em sua homenagem. – respondeu Balin.


Convencida de que talvez Thorin, não a tratasse como um soldado, desceu alguns lances de escada e chegou ao salão principal, acompanhada de Balin, e sentou-se ao lado de Dwalin.


Ela trajava um lindo e longo vestido de seda verde musgo, que valorizava suas curvas e um véu transparente, que prendia de seus ombros e caia por suas costas, o cabelo solto, levantado no alto por um pequeno adorno de ouro, dava a ela sinal de riqueza. Possuía grandes qualidades e por muito, muitas, viam lhe defeitos, era a mais bela da Casa de Durin, uma verdadeira anã, digna do trono. Era invejada, e ao certo disputada, arrancava sorrisos bobos e sem graças dos rapazes, e até mesmo os mais velhos, se encantavam com sua beleza.


Um brinde foi feito ao seu octogésimo aniversário. Todos levantaram as taças e brindaram a ela, porem desta vez algo estava diferente, havia muitos oficiais, reis homens e élficos que foram convidados para a festa. Lûmia reparou em um belíssimo jovem elfo, alto, loiro e com belos olhos azuis, seu nome, ainda não sabia, ele estava acompanhando Oropher o grande rei do Reino da Floresta das Trevas, um dos mais antigos elfos Sindar*.

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A noite fora longa, houve muita dança, muitas canções antigas e Lûmia foi o centro das atenções, porem nada conseguia fazer lhe tirar os olhos do jovem elfo. Ganhou diversos presentes dos convidados e então o estranho jovem elfo se aproximou, e lhe entregou uma espécie de caixa prata com uma runa lunar escrita em sua superfície.

— Ouvi dizer que era a melhor guerreira de Thrór. — disse o jovem elfo.

–Tento ser boa nas coisas práticas- disse Lûmia, que de certo estava apaixonada pelo belíssimo rapaz.


— Vejo que sua fama lhe precede. Espero que goste do presente. -disse ele, que agora não tirava mais os olhos de Lûmia.

Ela então abriu a caixa, e surpresa viu duas adagas negras como a noite, leves como uma pena, e detalhes percorrendo toda a lâmina, era apaixonante a nova aquisição, e percebeu então que em seu cabo estava escrito “Luz na Escuridão” em élfico.


— Adorei o presente, mas, acha responsável dar uma arma tão perigosa a uma senhorita?- questionou Lûmia, ansiosa pela resposta.


—Bom, sei que estará em boas mãos. Ou a "senhorita" preferia joias? — questionou o jovem elfo.


Lûmia riu. — Parece que o senhor sabe escolher presentes, convenhamos joias é oque mais têm por aqui.


—Espero que da próxima vez, se surpreenda se trouxer talvez uma armadura. — o jovem então riu, e esboçou um sorriso sarcástico.


— Talvez isso não me surpreenda. — disse Lûmia, com um sorriso surgindo no canto da boca.

E no canto do salão, cercado de generais e reis, Thorin observava toda a conversa animada dos novos conhecidos, e não gostou nada do que viu, nada mesmo.

Notas finais
*Elfos Sindar: elfos de origem Telerin que viviam em Ossiriand. A palavra Sindar foi inventada pelos noldor para designar os elfos que não eram da luz tampouco da escuridão (elfos cinzentos).