O dia logo amanheceu, e nada da noite passada fora tão proveitosa quanto a conversa que Lûmia teve com o jovem elfo. Passou boa parte do desjejum lembrando-se de como o estranho a fez se sentir confortável com a conversa e riu, por achar tão incrível uma nova amizade. E em meio ao seu transe de memórias, alguém bateu à porta, devia de ser Ésthi, sua criada, pensou Lûmia liberando a entrada, e soltou um grito de reprovação ao ver que era Thorin.

— Thorin! Estou de pijama. — disse ela enfurecida.

— Mas, você permitiu que entrasse, imaginei que estivesse pronta para o café sempre venho lhe buscar quando se atrasa. — disse Thorin, com uma risada pairando no ar.

— Vire de costas, andes logo, só preciso colocar o vestido.- disse Lûmia, querendo rir da situação, que por vezes acontecia.
Ela se arrumou rapidamente, colocou um vestido azul escuro de mangas longas, com ombreiras costuradas com fios de ouro, e uma pulseira que ganhou na noite passada. Prendeu então os cabelos, pois estes estavam uma bagunça, colocou uma presilha de prata com pedrinhas de esmeralda, que fora dada a ela por Dwalin, quando tinha dez anos.


—Está bom?- perguntou ela a Thorin.


Que estático ficou, com tamanha beleza, ele a amava, porem era incapaz de lhe dizer isso, a amizade deles sempre fora forte e por um momento na noite passada ele sentiu de que ela, nunca seria dele.


Thorin e Lûmia cresceram juntos e por conta de terem idades próximas, se tornaram grandes amigos. Enquanto Thorin treinava no pátio com seu pai e os guerreiros, Lûmia treinava sua fala élfica, aprendia a ler runas, a cantar canções antigas e a dançar. E como dançava, Dwalin era seu parceiro de dança em todas as festas, passavam a noite toda circundando o salão, rodopiando e girando no ar, e quando paravam riam sem parar, pelos olhares que eram lhe lançados. Todos os dias após as aulas de etiqueta, Lûmia subia todos os lances de escadas, ate o portão do reino e olhava sobre os muros o mundo lá fora. A como queria descer e ver com seus próprios olhos todas as novidades e iguarias que entravam pelo portão, sentir a brisa da manhã na margem do Lago, ver a floresta dos elfos, conhecer Valfenda, todos os lugares que Balin falava para ela. E em todos estes dias, um garoto de cabelos negros e olhos azuis, a via se deliciar com as aventuras que poderia viver fora daqueles muros.

— Alteza!-cumprimentou um soldado ao se passar por Thorin.
Ele acenou com a cabeça, como um "Olá” e então virou- se para a garota que havia sumido. Ficou a procura dela, e ao virar- se, lá estava ela, olhando-lhe com seus grandes olhos violetas e os braços cruzados, com um desejo imenso de rir.

— Você sempre me segue, não?!-disse Lûmia.

— Só às vezes, você sempre arruma confusão para si mesma, alguém precisa estar de olho. — disse o garoto, que agora fazia cara de deboche.

— Não tenho mais dez anos Thorin, agora tenho doze e. -falou Lûmia com firmeza na voz.

—Agora tenho doze e bla bla. -falou ele junto a ela. — Você sabe que precisa de mim para te ajudar em suas peripécias, e então, para onde vamos fugir hoje?- questionou ele.

— Então, você viria comigo?- perguntou ela, louca para revelar a próxima aventura.

— Para qualquer lugar Lûmia, estarei com você sempre. — disse Thorin.

E então as crianças desceram correndo do parapeito acima dos muros e foram desbravar aventuras pelo reino, enquanto esse para eles, os portões permaneciam fechados.

—Thorin! Thorin? Thorin!- Lûmia o sacudiu. — Estou pronta vamos?- disse ela, impaciente pela demora.

—Eu só estava... -resmungou ele, fugindo do transe.

—Viajando, é eu sei.- ela riu.

°°°

Eles passaram por um corredor largo, contendo grandes retratos de histórias sobre os anões, e um em especial, o qual Lûmia sempre parava para olhar, era antiga, não tanto quanto as outras, mas antiga o suficiente para despertar saudade. Era o desenho de um Rei anão e uma Rainha acolhendo um bebê, que estava sendo entregue por uma mulher de longos cabelos loiros e olhos claros, e um homem de barba e cabelos negros, suas feições, de morte.


A porta então se abriu, e deu para um hall maior, contendo uma grande mesa, repleta de doces, pães, mel, e ate mesmo cerveja. As pessoas foram tomando seus lugares na mesa, havia ali muitos parentes, tios e tias distantes, que vinham apenas para festas, crianças que corriam para cima e para baixo, fazendo suas mães ficarem loucas. Havia também o Rei Thrór, e a Rainha dos Anões, sentados um ao lado do outro, seguidos de Thráin e sua esposa, e os filhos, Thorin e os mais novos. E assim se dava as posições nas refeições, Lûmia ao lado de Dwalin em frente à Thorin, que sempre lhe atirava lascas de pães, somente por diversão, e ela retribuía a brincadeira com um sorriso e mais lascas. Era assim, todos os dias.

°°°
Logo após a refeição, Lûmia deveria descer ate as forjas, para verificar o andamento das escavações, mas decidiu adiar a inspeção, e foi atrás do melhor conselheiro do reino, Balin.

Lûmia desceu cerca de 30 lances de escadas e chegou a um corredor escuro, e no fundo pairava uma luz, e o barulho de todo o reino por um momento sumia, e apenas havia o bravejo e os xingamentos de um homem, no fundo do corredor.

— Vejo que suas poções não andam dando certo. -riu Lûmia. Ela adorava descer ate a sala de Balin, e passar horas conversando com ele. Todas as pessoas a tratavam como princesa, lhe faziam reverências e mantinham-se sempre em postura de formalidade ao seu lado. Balin não, ele mantinha-se firme com ela, dizia- lhe seus erros e ajudava ela a conserta-los. Lûmia, desde pequena, sofria de pesadelos, o trágico inicio de sua vida, deixou-lhe sequelas, muito difíceis de curar. Balin então a recomendava chás, poções, que aliviavam os pesadelos e a faziam dormir melhor.
Ela confiava nele, e além de seu medico era seu
confidente.


—As coisas andam difíceis aqui em baixo. -praguejou Balin. — Já fazia tempo que não descia aqui, precisa de mais remédios? -perguntou ele.

— Não, não vim pelos remédios. Ainda surge o efeito pretendido. Afirmou ela. — Apenas, queria conversar. -disse ela com certo incomodo na voz.


Balin a analisou, e ficou ali a olhar para ela. Sempre fora muito alegre, e somente em seus pesadelos, permanecia fraca, era de grande força e vontade Lûmia, ele a admirava, e então se levantou de sua cadeira almofadada, foi ate a porta, fechou-a e voltou-se para Lûmia.

— Me conte criança, oque a incomoda? É Dwalin com suas brincadeiras sem graças? -questionou Balin que agora via a tristeza em seu olhar.

— Eu, eu estou perdida Balin, ontem à noite quando estava nos muros, pude ver centenas de pessoas vindo para meu aniversário, muitas delas não sabiam nem ao menos quem eu era, trouxeram presentes e depois foram embora. Por mais que eu ame estar aqui, ame todos aqui, ontem eu me senti, só. — lamentou Lûmia. Que há muito tempo não se sentia assim, ela entendia a importância da formalidade nas festas e sobre sua posição na Casa de Durin. Porém, sempre que chegava seu aniversario, ela se enchia de esperança de que em algum momento seu pai e mãe apareceriam para lhe cumprimentar. E mais um ano se passou e ela viu então, e admitiu, de que eles não estavam mais ao seu lado.

— Sabe Lûmia, você sempre foi querida por todos, foi trazida a Casa de Durin muito nova, com apenas um ano de vida. Entendo os medos que a afligem em seus sonhos, a dúvida de quem realmente é, de querer saber como seria diferente se seus pais ainda estivessem vivos, mas não se preocupe criança, você é uma de nós. Cresceu junto conosco, sabe ser mais anã do que muitas que nasceram dentro destes muros. Aprendeu as nossas necessidades, nossas vontades, sabe cantar nossas canções como ninguém, cuida de todos nós, e ainda não percebe que pertence a este mundo? -questionou Balin.

— Eu não sei Balin, este é o único mundo que eu conheço, e esta a única família que conheci, que me ensinou tudo, mas às vezes sinto de que não faço parte dela, porque não me encaixo em seu mundo. Eu o amo, mas parece que não fui feita para ele. – disse Lûmia.

— Que o ama? — indagou Balin. — Creio de que não é de uma família que estamos falando. — disse ele.

— Você sabe mais sobre mim do que eu mesma Balin. — disse Lûmia apreensiva.

— Acontece criança, que eu enxergo os mínimos detalhes, em uma vasta e gigantesca porção de coisas, as quais vocês, não dão mais importância. — disse Balin,que agora ria sem parar, pois vira que o problema de Lûmia na verdade era amor. — Você precisa entender que tudo acontece por um motivo, por uma razão, encontre a raiz de seus medos, pode-a e então fixe suas raízes em outro lugar. — aconselhou -lhe Balin.

— "Só então você achara a luz ".. — completou Lûmia. Que agora exibia um singelo sorriso, que podia- se notar de longe.


Ela se levantou, agradeceu a Balin, atirou-se pela porta e subiu correndo os lances de escada, feliz pelo conselho que lhe fora dado, e pelas soluções que então surgiam em sua mente. Uma alegria tomou conta dela e pela primeira vez, Lûmia se sentia em casa. Foi quando atravessou o grande salão e chegou ao hall do trono, que vira algo que lhe despertou uma sensação ruim, Lûmia viu Thorin fazendo corte a uma nova princesa.

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Passado já alguns dias que a princesa Clatrien estava no palácio, Lûmia e Thorin não conseguiram conversar por um momento sequer. Clatrien era filha de um grande general de guerra, que se hospedou no palácio de Durin, para debater alguns acordos de paz com o Rei Thrór. Lûmia evitava fazer corte a família do general, trancava-se em seu quarto na maioria das reuniões nas salas de visita, e pensativa, afundava o rosto em livros e mapas de batalha. Sua criada Èsthi trazia-lhe doces e chás das reuniões, e ficava o resto do dia a serventia de Clatrien, junto com outras servas.

Èsthi era uma boa criada para Lûmia, ao decorrer dos anos se tornaram boas amigas, e durante longas noites de pesadelo, Èsthi ficava ao seu lado, velando seu sono, e ao amanhecer a senhora lhe dava o dia de descanso. Mas agora, com Clatrien querendo a atenção de todos, e exigindo para si a maioria das servas, Lûmia se via só, durante a maioria das noites escuras.

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A noite fora longa para Lûmia, pesadelos, tomaram conta novamente de seus sonhos, e desta vez, nenhum remédio de Balin faria efeito. O sonho se iniciava no alto de uma colina, pequena a propósito, ela conseguia ver com seus olhos várias milhas a distancia com a maior facilidade, enxergava vastos campos esverdeados com grandes árvores de rameira e lagos que circundavam este pequeno vilarejo, conseguia sentir o aroma das frutas que ali deviam ser colhidas, o doce e amargo, tudo em uma sintonia imensa de cores e sabores. Ela então por um momento se via dentro de uma casinha, muito pequena ate mesmo para ela, via mesas em todos os cômodos, papéis e livros por uma mesa que devia de estar na sala, observava então uma sombra um tanto pequena andando pela casa, mas que pelo que Lûmia sugeriu, não conseguia vê-la, passou então a caminhar pela casa, e ao chegar a um corredor, viu uma espécie de tentativa para uma mesa, com uma, duas... treze cadeiras. E logo o sonho sumia, agora ela estava em uma caverna brilhante, iluminada por algo que deveria de ser ouro, Lûmia então sentiu um bafo vindo em sua direção, passos pesados que estremeciam tudo, e uma voz, uma voz que a enchia de uma sensação estranha, uma voz poderosa, prometendo a ela seus maiores desejos. Lûmia tentava saciar o desejo incontrolável de virar-se e ver quem era o portador da voz que lhe prometia tudo. Em todas suas tentativas de virar-se Lûmia acordava em outras noites, mas dessa vez o portador da voz não lhe impediu de se virar, e no momento que Lûmia viu seus olhos, ela sentiu todo o peso de uma vida de abandono e condenação. Ela tentava virar os olhos, mas a Fera lhe fazia sentir todos seus maiores medos, Lûmia chorava e gritava de dor, pelas imagens que surgiam diante de seus olhos, pegou então algo para espantar a Fera, uma lâmina. Negra e brilhante como a noite, Lûmia enfiou-lhe a adaga no olho e conseguiu fugir de todo aquele inferno, viu-se então correndo montanha abaixo e chegou a uma beirada de precipício, com as ondas quebrando lá em baixo. Por um momento subia-lhe uma vontade de se jogar e deixar que o mar a abraça-se, mas algo vinha e lhe puxava para trás, uma mão forte, que suada, tentava em vão puxá-la, e então a mão se desprende e Lûmia cai. E o sono acaba.


Lûmia acordou estática, suando frio, e viu ao seu lado Balin, sentado na beirada da cama.

— Balin!Eu... eu- disse ela, que não conseguia conter o desespero.

—Shii! Criança. Se acalme, vim ver como estava, e percebi que não estava bem, depois de três batidas na porta decidi entrar. Você estava suando muito, quer falar sobre o sonho? -perguntou Balin.

— Não sei se foi um sonho Balin. Eu sentia e via as coisas como se fossem reais. Podia tocar tudo a minha volta, e ... -Lûmia então desabou a chorar, ela não sabia explicar o porque essas visões lhe vinham a cabeça, porque perseguiam a ela em seus sonhos, ela queria apenas se livrar deles.

—Deite Lûmia, apoie a cabeça no travesseiro, e tente me contar com mais detalhes, podemos dar uma solução para eles.- disse Balin, tentando conter a emoção pois sempre quis aprofundar seus conhecimentos sobre os sonhos de Lûmia, ele sentia que algo a mais poderia ser tirado deles, como um aviso.


Lûmia passou a narrar o sonho para Balin, dando ênfase em como ficou ao ver a Fera, e como esta lhe fazia sentir seus piores medos, e logo então cair no precipício. Balin ficou analisando cuidadosamente as palavras de Lûmia. E no fim se levantou e retirou-se do quarto, dizendo a ela que retornaria em alguns instantes. Ela viu-se sozinha no quarto, a cama desarrumada pela noite mal dormida, todo o cômodo estava em desordem, tigelas e copos espalhados pelas mesas, vestidos e corpetes jogados pelo chão, rosas murchando nos vasos. Ela então se levantou, colocou uma espécie de manto preto em cima do pijama, calçou um par de botas, e atirou-se quarto a fora.

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Evitou fazer barulho ao passar pelos saguões de vigília, assim sua passagem passaria despercebida pelos guardas. Lûmia então chegou ao celeiro, montou em seu cavalo, um belíssimo Corcel branco, forte e veloz, o companheiro perfeito para onde quer que ela fosse. Ela precisava de um plano para sair pelos portões sem alertar ninguém, foi quando chegou à entrada do Reino, que viu uma figura semelhante, um guarda chamado Kino.


Kino era pequeno para um guarda da cidadela, porem seu desempenho nas funções se tornou algo reconhecível e ganhou então um posto no exército. Kino era alguns anos mais velho que Lûmia e como qualquer outro anão, era apaixonado por ela, assim, não precisou muito para que ele abrisse os portões para ela, deixando livre o caminho para Lûmia, restando para ele somente poeira.

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Lûmia não sabia para onde estava indo, não conhecia o lugar, porem sabia que o instinto a guiaria, foi quando passando por uma passarela chegou à cidade de Vale. A cidade era bem maior do que Lûmia imaginava, durante todos os dezessete anos que passou dentro dos muros do Reino, nunca imaginou uma sensação tão boa, como a de desbravar um novo lugar. Todos na cidadela não notaram sua presença, ela passou rápido sem deixar vestígios, e então chegando à beirada de um porto, pagou a um estranho, para que a levasse ate a margem do lago.