Assim que os agentes coletores saíram, corri para a floresta ao lado de minha casa e me desmanchei em prantos quando não conseguia mais correr. O pior havia acontecido, sim, mas a parte ruim ainda estava por chegar, eu ainda não tinha uma aliança no dedo, ainda podia desfrutar da pouca liberdade que sobrara.

Os agentes deixaram bem claro que voltariam daqui uma semana, o que julgaram ser tempo o suficiente para eu me despedir de todos aqueles que eu amava. Uma assistente social também seria mandada para a minha casa amanha cedo, a fim de acompanhar a minha rotina e se certificar de que eu receberia tudo o que quisesse num estalar de dedos.

Os ventos do norte por fim deram as caras, e apertei o casaco contra o meu peito. Queria voltar para casa, mas se fizesse isso, o que iria encontrar? Talvez eu encontrasse uma família muito animada por me ver partir e ser a princesa dos contos de fadas. Mas sabia de uma pessoa que há essa hora deveria estar se lamentando. E falando nessa pessoa, como iria poder viver sem ela por perto? Meu irmão, meu Loras.

Voltei assim que o tempo começou a esfriar mesmo. As janelas da casa ainda estavam acesas, e dava para escutar a festança que estava em seu interior. Adentrei a casa sem fazer baralho e corri para o meu quarto, onde Loras já estava em sua cama, debruçado em um álbum de fotos. Juntei-me a ela, debruçando-me sobre o álbum.

– Você lembra quando fomos passar as férias no lago das raposas? – Loras me perguntou, parecendo fora de si, maravilhado com suas lembranças.

– É claro que me lembro! Você me empurrou do barranco então eu quebrei o braço! – recordei o quanto eu tinha ficado brava com ele, e de como ele ficou rindo da minha cara. Ele assentiu com a cabeça, com um sorriso discreto nos lábios. Então virou as paginas muito mais a frente.

– Você se lembra dessa foto?- ele apontou e colocou o álbum em minhas mãos. Sim, como esquecer o dia do meu recrutamento no exercito? Era uma foto de perfil do exercito, eu estava vestida com o uniforme verde escuro, com o símbolo que se tratava de uma estrela de seis pontas dentro de um circulo vermelho. Eu até que estava bonita na foto, com um olhar confiante. Lembro quando nos convidaram para nos alistarmos, dizendo a seguinte frase “juntem-se a nós, e a nada lhes faltara”, mas acontece que justo o que mais queríamos que era proteção, nos faltou.

Loras arrancou a foto do álbum e me entregou – É para você nunca esquecer suas raízes. – ele colocou na palma da minha mão e depois a fechou com força. Abracei-o forte, o amo tanto mais tanto, que nem sei o que me aconteceria se um dia eu o perdesse.

O resto da semana foi de pura agitação. Como o prometido, a assistente chegou no dia seguinte à primeira hora da manha, se mostrando mais prestativa do que eu imaginava. Mamãe ficava cantando o tempo todo, e Zuzete me fez prometer que eu escreveria cartas e mandaria fotos do castelo. Papai só ficava me dizendo que o príncipe iria enlouquecer quando me visse, e também me disse para que eu não fosse tão geniosa com as pessoas de lá. Loras se fechou no seu canto e só falava comigo quando eu o perguntava algo, mas tirando isso, ele passou a semana inteira com a cara enfiada em livros e mais livros, novos ou antigos.

Finalmente, o dia da minha partida chegou, e ninguém estava mais em prantos do que mamãe e Zuzete. Loras permaneceu em nosso quarto, lendo o mesmo livro sobre pássaros e animais silvestres.

– Tudo bem, estamos todos prontos, não estamos? Esse carro ira levar vocês para a praça publica, e você terá o seu ultimo adeus dos que não são seus familiares. Depois você entrara no carro, sozinha, e o carro irá conduzi-la até o aeroporto mais perto, onde o jatinho real já está a sua espera. – disse Brienne, minha fiel e competente assistente. Brienne era bem magrinha e baixinha, era morena, mas havia muito tempo tingido os cabelos de loiro e tinha uma voz aguda que me fazia rir.

Todos nós entramos no carro, que em minha opinião, era grande demais para ser chamado de carro. Eu nunca havia entrado dentro de um carro antes, a não ser pelas vans escolares, ou do exercito, mas esses não contam. Os bancos eram de couro, e tinha um arzinho quente dentro. E acho que eu não fui à única que gostei do carro, mamãe e papai estavam se deliciando com os aromas que o arzinho quente trazia.

Quando chegamos à praça publica, eu me toquei o quanto o evento era grande. Parecia que todas as pessoas da minha cidade estavam lá, muitas delas segurando cartazes sobre suas cabeças com as frases “vai fundo, garota!”, “ vida longa a princesa!” ou “ loiras arrasam!”.

Quando o carro estacionou, levei uma salva de palmas e gritos de alegria. Para ser sincera, até que gostei de todo aquele amor superficial. Mas esse bem estar comigo mesma passou assim que eu vi o rosto carrancudo do governante da cidade. Para ser franca, sempre senti medo dele, dês do dia em que eu o vi molhando os lábios finos e nojentos quando uma menina do tamanho de Zuzete passou pela sua frente, toda a minha devoção e respeito ao meu país havia acabado.

Mas aparentemente hoje, o homem pedófilo e de mau caráter, decidiu dar um sorriso para mim e minha família. Mamãe sabia sobre o ocorrido com a menina do tamanho de Zuzete, então eu e ela compartilhávamos do mesmo pensamento, mas enquanto papai e Loras, os dois o saudaram alegremente.

– É um prazer ver uma filha do norte se dando bem em novos horizontes! – o comandante disse, folhando os lábios mais uma vez. Notei que ele fitava meus seios, então apertei o caso contra o peito. E por mais que não queria deixar minha família, simulei impaciência, aquele homem me deixa mais nervosa do que eu já estava.

– Brienne, quando é que vamos embora? As únicas pessoas que eu tenho que dizer tchau são para a minha família. – comecei a bater o pé mais rápido. O comandante ainda me fitava de uma maneira assustadora, como pode meus pais ou até mesmo Loras não terem visto isso? Brienne então se pois em seu posto de garota prestativa e deu um aceno para o carro.

– Estamos prontas para ir. Estarei esperando dentro do carro. – e assim, Brienne nos deixou a sós.

Apenas consegui olhar para Loras, cujos olhos já estavam marejados de lagrimas. Eu o abracei até que Brienne teve que me apressar de dentro do carro, e sussurrei um tchau — como seu fosse nosso ultimo segredo- para todos eles.

Entrei no carro com meus olhos marejados, mas estava disposta a segurar o meu choro até que eu estivesse sozinha. Notei que só tinha uma mala de bagagem, e que esta continha apenas objetos de valor como fotos, livros, jóias e etc. Brienne me garantiu que nada mais do que isso seria necessário, pois assim que desembarcasse no Sul, teria roupas novas, utensílios novos e tudo o mais que eu quisesse.

Foi meia hora de viagem até chegarmos ao aeroporto mais próximo, e para minha surpresa estava bem cheio. Nunca tivera visto um avião, nem em fotos, mas ouvira falar muito sobre eles. Caminhamos até um balcão, onde duas moças vestidas elegantemente já estavam a nossa espera. Uma delas me chamou a atenção. Mais do que isso, ela me reconheceu, e quando se deu conta de onde ela me conhecia, fez um decreto “não” com a cabeça, e voltou a sorrir para mim.

– Já podemos embarcar? A Srta. Pierce está um pouco impaciente. – Brienne disse rispidamente olhando para um aparelho em suas mãos que não soube reconhecer o que era, parecia como uma agenda... Uma agenda eletrônica.

– Ele já está pronto e a sua espera. Vou avisar que vocês já chegaram, mas já podem ir se dirigindo para o portão A-2 a sua direita. – respondeu a moça que me chamou a atenção, com uma voz tão mecânica que fiquei até chocada.

Brienne sorriu para mim e me mostrou o caminho. A no momento em que chegamos a pista de decolagem meu coração deu um salto, quero dizer, como é que uma coisa desse tamanho podia voar?

– Brienne... Eu estou com medo! – comecei a tremer, e sabia que estava a ponto de começar a chorar. Brienne rapidamente sacou um frasco cheio de pílulas azuis de sua bolsa, e me deu um rapidamente.

– É para você dormir. Tome um quando já tiver entrado e colocado o sinto. Você só irá acordar quando chegarmos.

Entrei dentro do jato, e seu interior até me acalmou um pouquinho. Era tão bonito! Sentei-me em uma das quatro poltronas de couro bege e reclinei-a. coloquei a pílula na boca e Brienne me deu água para eu engolir com mais facilidade, e de repente, minha visão foi ficando mais pesada, até que por fim, cai em um sono profundo.