A Salvação de um Uchiha
24 Capítulo vinte e três
Dois meses.
O tempo passou... mas não da forma que eu conhecia.
Havia algo errado nisso.
Eu percebia nos detalhes mais simples, na forma como meu peito se expandia sem esforço, no ar que entrava e saía sem aquele peso constante que antes me acompanhava como uma sentença.
Meu corpo lembrava de como deveria ser... e, justamente por isso, estranhava o que havia se tornado.
Antes... respirar era um ato consciente. Doloroso.
Cada passo era calculado, medido, como se qualquer descuido pudesse ser o último.
Cada missão não era apenas uma tarefa, era um limite sendo ultrapassado, uma linha sendo forçada até quase se romper.
Agora...
Havia silêncio.
Um silêncio interno que não me pertencia.
Meu corpo respondia com precisão.
Rápido demais.
Limpo demais.
Sem falhas. Sem tremores. Sem o atraso que antes denunciava o desgaste inevitável.
Era como se algo tivesse sido apagado.
Ou pior...
Reescrito.
Franzi levemente o cenho, ainda deitado, encarando o teto escuro do esconderijo. As sombras permaneciam imóveis acima de mim, familiares... e, ainda assim, estranhamente distantes.
Porque, pela primeira vez em muito tempo...
Eu não me sentia à beira do colapso.
E isso não era alívio.
Era inquietação.
A lembrança veio de novo.
Insistente.
Nítida demais para ser ignorada... e irreal demais para ser aceita sem questionamento.
Ela.
Sukui.
O som da voz dela ecoava na minha mente com uma clareza que beirava o absurdo. Não era fragmentado como um sonho. Não era confuso.
Era... vívido.
Quente.
O toque das mãos dela ainda parecia gravado na minha pele, como se o tempo não tivesse sido suficiente para apagar aquela sensação.
O chakra...
Envolvendo meu corpo.
Não de forma agressiva. Não como uma técnica comum.
Mas como... cuidado.
Como algo que me segurava quando eu já estava caindo.
Como se estivesse me puxando de volta de um lugar onde eu não deveria ter estado.
Minha respiração vacilou por um segundo.
Fechei os olhos.
E, por um instante, quase consegui sentir de novo.
A presença.
O calor.
Aquele silêncio estranho que não machucava.
Exalei devagar, tentando organizar o pensamento, mas ele escapava.
Porque havia uma única conclusão possível.
E eu a rejeitava.
Sukui estava morta.
Eu vi.
Eu senti.
Não havia espaço para dúvida nisso.
Então aquilo...
Aquilo só podia ter sido um sonho.
Um último delírio de um corpo falhando.
Uma criação da minha própria mente, tentando... suavizar o inevitável.
Mas...
Se foi um sonho...
Por que ainda parece tão real?
E por que...
Meu corpo insiste em agir como se tivesse sido salvo?
_ ...um sonho. — Murmurei.
Tinha que ser.
Porque ela estava morta.
Eu vi.
Eu senti.
E ainda assim...
Meu peito apertou.
De novo.
Como sempre fazia quando eu pensava nela.
Não... não apenas pensava.
Sentia falta.
Uma falta silenciosa. Profunda. Permanente.
Sukui nunca foi alguém fácil de entender... mas era impossível não sentir quando ela não estava.
Abri a mão lentamente, olhando para meus dedos.
Vazios.
_ ...idiota. — Sussurrei para mim mesmo.
Porque, no fundo... uma parte de mim queria acreditar.
Queria acreditar que não tinha sido um sonho.
Que ela esteve ali.
Que ela voltou.
Mas isso era fraqueza.
E eu não podia me permitir isso.
───※ ·❆· ※───
_ Você está estranho.
A voz surgiu atrás de mim, leve... mas carregada de observação.
Não precisei virar para saber quem era.
Tobi, mas o conhecia como Madara.
_ Estou funcional. — Respondi.
_ Não foi isso que eu perguntei.
Silêncio.
Ouvi os passos dele se aproximando.
Lentos.
Cautelosos.
_ Você deveria estar pior. — Continuou. _ Muito pior.
Não respondi.
Porque ele estava certo.
_ Sua respiração estabilizou... seu chakra também. — Ele inclinou levemente a cabeça. _ É quase como se você tivesse sido... tratado.
_ Você está imaginando coisas.
_ Estou?
Finalmente virei o rosto, encontrando o olhar único dele.
Observador.
Desconfiado.
Perigoso.
_ Seu corpo não mente, Itachi.
_ Nem o seu. — Retruquei.
Silêncio.
Por um segundo... o ar pesou.
Mas ele sorriu por trás da máscara.
_ Tocou num ponto sensível.
_ Você está desviando da conversa.
_ Não. — Deu mais um passo. _ Estou focando exatamente no que importa.
Uma pausa.
_ Sukui.
O nome.
Ainda tinha peso.
Sempre teria.
Meu olhar endureceu... mas por dentro algo vacilou.
_ Ela está morta. — Falei, seco.
_ Eu sei.
_ Então não há o que discutir.
_ Tem. — A voz dele ficou mais baixa. _ Você está pensando nela mais do que deveria.
Não respondi.
Mas ele percebeu.
Claro que percebeu.
_ Você sonhou com ela, não foi?
Meu corpo travou por um milésimo de segundo.
Mas foi o suficiente.
O sorriso dele se alargou levemente.
_ Interessante.
_ Foi só um sonho.
_ Hum.
_ Meu corpo estava debilitado. É comum alucinações.
_ E ela fez o que nesse "sonho"?
Minha mandíbula tensionou.
_ Nada relevante.
_ Cuidou de você?
Silêncio.
_ Tocou você?
Meu olhar encontrou o dele, frio.
_ Cuidado com o que você insinua.
_ Eu não estou insinuando. _ Ele inclinou a cabeça. _ Estou observando.
Mais silêncio.
_ Sabe...- Continuou. _ Pessoas próximas da morte costumam ver quem amam.
Aquilo...
Aquilo foi direto.
Preciso.
E irritantemente verdadeiro.
Fechei os olhos por um segundo.
_ Então foi isso.
_ Você acha?
_ Estava morrendo. — Minha voz saiu mais baixa agora. _ Minha mente criou algo... confortável.
Algo que eu queria.
Algo que eu...
Parei.
Mas já era tarde.
_ Você ainda a ama.
Não foi uma pergunta.
Abri os olhos.
_ Isso não importa.
_ Importa para você.
Silêncio.
Pesado.
_ Eu queria... — Minha voz falhou por um segundo, quase imperceptível. _ Uma vida diferente.
As palavras saíram antes que eu pudesse impedir.
_ Com ela.
O ar pareceu parar.
_ Uma vida... — Continuei, mais baixo. _ Sem isso.
Sem guerra.
Sem missões.
Sem sangue.
Sem mentiras.
_ Uma família. — Finalizei.
Madara não falou nada por alguns segundos.
E isso... era estranho.
_ Você não foi feito para isso. — Disse por fim.
_ Eu sei.
E era isso que tornava tudo pior.
_ Vamos até Konoha.
A mudança de assunto foi abrupta.
Estratégica.
_ Não.
Ele ergueu uma sobrancelha por trás da máscara.
_ Não?
_ Ainda não é a hora.
_ Ou você não quer passar por lá?
_ Não é estratégico.
_ Ou você não quer ver a lápide dela?
Silêncio.
Lento.
Cortante.
_ Não.
_ Por quê?
Olhei para frente.
Para o nada.
Mas vi.
Terra.
Pedra.
Nome.
Fim.
_ Porque... — Minha voz saiu baixa. _ Não é assim que eu quero lembrar dela.
Silêncio.
_ E porque... — continuei. _ Ainda não é o momento de capturar o Naruto.
_ Isso é desculpa.
_ É planejamento.
Eles sempre confundem os dois.
Madara me encarou por longos segundos.
Mas, dessa vez...
Ele não insistiu.
_ Hum.
Ele virou de costas.
_ Como quiser.
Os passos dele se afastaram.
Mas algo... mudou.
Eu senti.
No ar.
No silêncio.
Como uma presença... deslocada.
───※ ·❆· ※───
Obito parou no corredor escuro.
E então... Sua respiração falhou.
_ ... tch.
Ele levou a mão ao peito, arfando baixo.
Algo pesado se instalou ali.
Inesperado.
Desconfortável.
Errado.
Não era dor física.
Era...
Pressão.
Como se algo antigo tivesse despertado.
Como se...
Ele não estivesse mais sozinho dentro da própria sombra.
Os olhos dele se estreitaram atrás da máscara.
_ ...isso não é possível.
Mas ele sabia.
No fundo...
Sabia.
Algo havia mudado.
Algo grande.
Algo perigoso.
E aquele peso...
Só significava uma coisa.
Madara estava vivo.
───※ ·❆· ※───
Música preenchia o ar em camadas suaves, como se cada nota tivesse sido cuidadosamente colocada ali para sustentar aquele momento.
Risos se espalhavam pelo jardim, leves, despreocupados... vivos.
O cheiro doce de comida recém-preparada se misturava com a brisa da noite, trazendo consigo algo quase esquecido.
Normalidade.
As lanternas penduradas dançavam com o vento, oscilando de um lado para o outro, projetando luzes douradas sobre o gramado amplo, sobre os rostos, sobre as mesas decoradas. Tudo parecia... cuidadosamente perfeito.
Pessoas conversavam. Brindavam. Celebravam.
Celebravam a mim.
Dezessete anos.
O número ecoou na minha mente como algo distante.
Dezessete.
Engraçado.
Depois de tudo que eu vi... depois de tudo que eu fiz... aquilo soava quase irônico. Quase absurdo.
Quantas guerras cabem dentro de dezessete anos?
Quantas mortes? Quantas escolhas que ninguém deveria ter que fazer?
E, ainda assim... ali estavam eles.
Sorrindo para mim.
Me parabenizando.
Como se eu fosse apenas uma garota comum.
Como se minhas mãos não carregassem o peso de linhas do tempo inteiras.
Como se eu não tivesse tocado o passado... e reescrito o destino de pessoas que sequer sabiam disso.
Meus dedos deslizaram lentamente pelo tecido do quimono, sentindo a textura suave sob a pele, como se precisasse me ancorar ali, naquele instante.
Presente.
Real.
Porque era fácil demais se perder.
Entre o que foi.
Entre o que poderia ter sido.
Entre o que eu ainda precisava fazer.
Mas, por agora...
Eu respirei fundo.
O ar entrou leve, carregado de risos, de vida, de algo que eu quase não reconhecia mais.
E então... eu sorri.
Um sorriso de verdade.
Pequeno... mas sincero.
Porque aquele momento precisava existir.
Porque, por algumas horas...
Eu podia fingir.
Fingir que não era uma Deusa.
Fingir que não carregava o peso do tempo nas mãos.
Fingir que o mundo não dependia das minhas decisões.
Eu podia ser só...
Uma garota de dezessete anos.
_ Sukui! — Uma voz me chamou, animada.
Virei o rosto a tempo de ver Naruto correndo na minha direção, com um prato completamente desorganizado nas mãos.
_ Você precisa provar isso aqui! Está muito bom!
_ Isso parece uma bomba. — Respondi, arqueando uma sobrancelha.
_ É uma bomba de felicidade! — Rebateu, orgulhoso.
Atrás dele, Sasuke vinha mais devagar, os olhos analisando tudo... sempre atento.
Sempre procurando uma garota de olhos perolados.
_ Você devia comer antes que ele coma tudo. — Comentou, cruzando os braços.
_ Eu ouvi isso! — Naruto reclamou.
Sorri de leve.
Por um segundo...
Só por um segundo...
Aquilo foi suficiente.
_ Aproveitem a festa. — Falei, tocando de leve a cabeça dos dois ao passar.
Mas meus passos não pararam, mesmo quando a música ainda vibrava ao fundo e as vozes ecoavam atrás de mim como algo distante, quase irrelevante.
Havia uma sensação incômoda se formando dentro do meu peito, uma certeza silenciosa de que eu não estava indo embora por acaso, havia algo me chamando, algo me esperando além daquele brilho artificial e da leveza forçada da comemoração.
Afastei-me da luz das lanternas, deixando para trás o calor das pessoas, os risos fáceis e a ilusão de normalidade que eu mesma havia criado.
Cada passo me levava mais fundo na parte esquecida do jardim, onde as árvores se erguiam altas e densas, formando uma barreira natural contra o resto do mundo.
A música foi se tornando um eco distante, abafado pelas folhas e pela própria escuridão que parecia engolir qualquer som.
Quando finalmente parei, já não havia mais ninguém por perto. Só o silêncio.
Um silêncio real.
Respirei fundo, sentindo o ar entrar devagar, pesado, como se até mesmo respirar ali exigisse mais esforço.
Meu corpo reconheceu antes da minha mente, cada músculo ficando tenso de forma instintiva, como se algo estivesse prestes a acontecer, como se aquele espaço tivesse deixado de ser apenas um lugar e se tornado... outra coisa.
E então, aconteceu.
O ar mudou.
Não foi um vento, nem uma brisa. Foi algo mais profundo, mais errado. A atmosfera ao meu redor pareceu se comprimir, como se o próprio espaço tivesse sido distorcido à força, curvando-se sob um peso invisível.
Era como se a realidade estivesse sendo empurrada para os lados para dar passagem a algo que não pertencia àquele momento... ou àquele mundo.
Minha respiração falhou por um segundo.
Porque eu reconhecia aquilo.
Não como lembrança.
Mas como perigo.
_ Você demorou. — Falei, sem me virar.
O silêncio respondeu por um segundo.
_ Hum.
Grave.
Antigo.
Imponente.
_ Eu poderia dizer o mesmo.
Virei lentamente.
E encontrei ele.
Madara.
De pé.
Vivo.
Os olhos observando tudo com aquela calma perigosa... como se o mundo fosse apenas algo temporário sob seus pés.
_ Festa. — Comentou, olhando ao redor. _ Não combina com você.
_ Hoje combina.
_ Hoje? — Estreitou os olhos levemente.
_ É meu aniversário.
Uma pausa.
_ Dezessete anos.
O olhar dele pousou em mim com mais atenção agora.
Como se estivesse recalculando algo.
_ Interessante.
_ Nem tanto.
Silêncio.
_ Você me trouxe de volta. — Afirmou.
_ Sim.
_ Por quê?
Sem rodeios.
Sem emoção.
Típico.
Cruzei os braços.
_ Porque você ainda é necessário.
Um leve sorriso surgiu no canto dos lábios dele.
_ Cuidado com suas palavras.
_ Eu as escolho muito bem.
Silêncio.
O vento passou entre nós, levando consigo qualquer resquício de leveza que aquele lugar ainda tinha.
_ Danzo Shimura.
Os olhos dele brilharam de leve.
_ Continue.
_ Ele está conduzindo experimentos humanos.
_ Isso não é novidade.
_ Não nesses níveis.
Uma pausa.
_ E não com esse objetivo.
Madara ficou em silêncio.
Mas eu senti.
A atenção dele... mudou.
_ Qual objetivo?
_ Controle.
_ De quê?
_ De tudo que ele não pode dominar.
Dei um passo à frente.
_ Inclusive o legado Uchiha.
O nome... ecoou.
Pesado.
_ O clã foi destruído. — Ele disse, frio.
Silêncio.
Real.
Cortante.
_ Não foi.
Os olhos dele se estreitaram.
_ Explique.
Respirei fundo.
_ Eles estão vivos.
Outra pausa.
Mais longa.
Mais perigosa.
_ Você está brincando com coisas que não deveria.
_ Eu não brinco.
Segurei o olhar dele.
Sem recuar.
_ Eu garanti isso.
O ar ao nosso redor ficou denso.
Pesado.
Quase sufocante.
_ Como?
_ Interferência no plano.
Uma pausa.
_ E na história.
Madara me observou por longos segundos.
Tentando ler além das palavras.
_ E você espera que eu acredite nisso?
_ Eu não espero nada de você.
Inclinei levemente a cabeça.
_ Só preciso que você escute.
Silêncio.
_ Danzo armou para o clã Uchiha.
_ Isso eu já sei.
_ Não sabe tudo.
Me aproximei mais.
_ Eu tenho provas.
Os olhos dele mudaram.
_ De onde?
_ Shisui Uchiha.
O nome caiu como uma pedra no meio do silêncio.
Madara não se moveu.
Mas eu senti.
_ Ele está morto. — Sim, ele estava, ele entrou na base ANBU para ter essas provas que tenho...
_ Não quando me contou.
Silêncio.
Pesado.
_ Danzo roubou os olhos dele. — Continuei. _ Manipulou informações. Criou narrativas. Alimentou o medo dentro de Konoha.
Cada palavra era uma lâmina.
_ Ele precisava de um inimigo interno.
_ E escolheu os Uchiha. — Madara completou.
_ Exato.
Respirei fundo.
_ E enquanto isso ele conduz experimentos com humanos. Testando limites. Buscando formas de replicar poder.
Uma pausa.
_ Inclusive... o seu.
O sorriso de Madara voltou.
Mas dessa vez...
Era perigoso.
_ Agora você tem minha atenção.
_ Ótimo.
Cruzei os braços novamente.
_ Porque precisamos eliminar ele.
Silêncio.
_ E depois?
_ Depois... — Minha voz suavizou levemente. _ Eu conserto o resto.
— Como?
_ Revelando a verdade.
Uma pausa.
_ Principalmente para Obito.
Os olhos de Madara brilharam de leve.
_ Você pretende mexer com ele?
_ Pretendo mostrar a verdade.
_ Verdade... — Repetiu, quase testando a palavra.
_ Eu tenho tudo.
Olhei diretamente para ele.
_ Provas. Nomes. Experimentos. Registros.
Uma pausa.
_ E motivos.
O silêncio que se seguiu não era vazio.
Era... cálculo.
_ Você quer reerguer o clã.
_ Eu vou.
_ E acredita que isso vai trazer paz?
_ Não.
Uma resposta rápida.
Direta.
_ Mas vai impedir que a história se repita.
O vento soprou novamente.
Dessa vez mais forte.
Levantando levemente meu cabelo.
_ Você é interessante.
_ Eu sei.
Ele deu um passo à frente.
_ E perigosa.
Silêncio.
_ E o que você quer de mim... exatamente?
Sustentei o olhar dele.
Sem hesitar.
E, pela primeira vez naquela noite...
Eu sorri de verdade.
Porque o jogo...
Finalmente tinha começado.
_ Nada.
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