A Salvação de um Uchiha
23 Capítulo vinte e dois
_ Concentrem o chakra nos pés, ou vocês irão continuar caindo. — Respirei fundo, quantas vezes repeti isso?
Na verdade, quantos anos se foram? Dois? Três anos? Só sei que Sasuke cresceu e Naruto também.
Às vezes Hinata aparece para ficar conversando sobre qualquer coisa que seja interessante para eles.
O clã Hyuuga é o único que sabe onde estamos, para o meu mestre, sou uma foragida, sou uma renegada.
Ainda mais por ter não apenas levado Sasuke, mas Naruto também. Quando escutei isso por aí, tive que rir para não pensar em qualquer coisa naquele momento.
Eles iriam maltratar Naruto se eu o deixasse ali, iriam fazer exatamente o que faziam antes de eu intervir em sua vida.
Mas agora, ele é apenas uma criança treinando com seu melhor amigo, era tudo o que eles precisavam ser.
Eram ninjas? Sim, mas continuavam sendo crianças e eu não queria que eles passassem o terror que eu e Itachi passamos quando os adultos falavam da guerra.
Eles seriam fortes, mas não precisavam sofrer tanto para isso.
Olhei para o céu claro, vendo as nuvens passarem devagar, escutando os resmungos frustrados dos dois.
Mas sabia que eles iriam conseguir.
Apenas que eu queria conversar com uma raposa esperta sobre uma coisinha. Ontem a peguei conversando com a Kurama, mesmo a raposa de nove caudas estando selada, um pouco do chakra ainda vazava em certos momentos.
_ Sukui... isso é impossível! — Naruto reclamou, caindo de novo de costas no chão, com as pernas ainda tremendo.
_ Não diga que é impossível, vários ninjas conseguiram e continuam conseguindo. — Sorri, levantando-me do chão.
Sasuke, ao lado, apenas bufou baixo, claramente irritado consigo mesmo. Ele não caía tanto quanto Naruto... mas também não dominava como queria.
_ De novo.
Eles se levantaram.
E caíram.
De novo.
Fechei os olhos por um segundo. Respirei fundo. Não era sobre técnica... era sobre foco. E, no fundo, eu sabia que hoje não era um bom dia.
Porque eu também não estava focada.
Suspirei.
_ Continuem tentando. Não parem até conseguirem pelo menos dez passos seguidos. — Sabia que eles iriam conseguir.
_ EI! — Naruto reclamou. _ Você vai sair?!
_ Vou. E se vocês pararem, eu vou ser uma bruxa má.
Isso foi suficiente para calar qualquer protesto.
Afastei-me lentamente, sentindo o vento bater contra o rosto, até chegar a uma área mais isolada, cercada por árvores altas e silêncio. Mas ali tinha nossa casinha, longe de qualquer vila.
_ Você demorou, mestra.
Revirei os olhos, enquanto entrava na casa.
_ Estava ocupada, ao contrário de certas criaturas que ficam conversando escondidas.
A raposa estava deitada no sofá, a cauda balançando lentamente, como se não tivesse a menor preocupação do mundo.
_ Ah... então é sobre isso.
Cruzei os braços.
_ Você acha que eu não percebi?
Ela inclinou a cabeça, com um ar quase inocente.
_ Percebeu o quê?
_ Você falando com a Kurama.
O nome pareceu pesar no ar.
Por um breve segundo... muito breve... a cauda dela parou.
Mas então voltou a se mover.
_ Eu só estava conversando com outra raposa.
Simples.
Natural.
Leve demais.
Estreitei os olhos.
_ Só isso?
_ Só isso.
Dei um passo à frente.
_ A Kurama está selada. O chakra que vaza é instável, fragmentado. Não é... "conversável".
Ela sorriu.
E odiei isso.
_ Para você.
_ Então explica como você conseguiu se comunicar com ela.
A raposa deu de ombros.
_ Somos da mesma espécie. — Não seria tão simples assim, ainda mais que a Kurama era uma Bijuu. _ Às vezes... não precisamos de palavras.
_ Isso não responde nada.
_ Responde o suficiente.
A irritação começou a crescer no meu peito.
_ Você está escondendo algo.
_ E você está desconfiando demais.
_ Tenho motivos.
Ela me encarou diretamente agora. Os olhos brilhavam de um jeito diferente... mais profundo.
Mais antigo.
_ Você sempre tem.
Aquela resposta... não foi só uma resposta.
Foi uma provocação.
Apertei a mandíbula.
_ O que você quer com a Kurama?
_ Nada.
_ Você mente.
_ Prove.
Silêncio.
Droga.
Ela sabia exatamente onde me atingir.
Não tinha prova.
Eu só tinha... sensação.
Intuição.
E experiência suficiente para saber quando algo não estava certo. Ainda mais que ela consegue no mundo humano bloquear minhas visões.
_ Você não falaria com ela "por nada". — Insisti, mais baixo agora. _ Você não faz nada sem motivo.
A raposa inclinou a cabeça, observando-me com mais atenção dessa vez.
_ Talvez eu só estivesse... curiosa.
_ Curiosa?
_ Sim. Ela está presa, sozinha, irritada e cheia de ódio.
Uma pausa.
_ E ainda assim... consciente.
Meu coração bateu um pouco mais forte.
_ E?
_ E eu quis ver como ela pensava.
_ E o que ela disse?
A raposa sorriu de novo.
Mas dessa vez... não foi leve.
Foi perigoso.
_ Isso já não é mais "só conversar", não acha?
O silêncio voltou, mais pesado.
Eu sabia.
Sabia que tinha algo ali.
Algo maior.
Mas...
_ Eu não posso te impedir de fazer isso... ainda. Mas se isso colocar o Naruto em risco...
A pressão no ar mudou.
Instantaneamente.
A raposa ficou de pé.
Os olhos, antes brincalhões, agora estavam frios.
_ Eu não faria isso.
_ Espero que não.
Nós nos encaramos por longos segundos.
Uma disputa silenciosa.
Sem chakra.
Sem movimento.
Só intenção.
Até que ela desviou o olhar primeiro, soltando um suspiro leve.
_ Você está ficando paranoica.
_ Estou ficando cautelosa.
_ Mesma coisa.
_ Não.
Mais silêncio.
Então, ao longe...
_ Sukui... — Escuto Naruto gritar, e o vejo correndo. _ Consegui! — Sasuke estava logo atrás.
_ Acho que devo me preocupar com outras coisas.
_ Tem mesmo. — A raposa respondeu.
Parei por um segundo.
_ Isso não acabou. — Não falou mais e fui até os meninos ao lado de fora, vendo-os subir com certa facilidade na árvore _ Parabéns, meninos.
Naruto abriu um sorriso tão largo que parecia iluminar o próprio fim de tarde. As mãos ainda tremiam levemente, os pés grudados no tronco da árvore com esforço visível, mas… ele estava lá.
De pé.
Sem cair.
_ Eu consegui! — Gritou, como se o mundo inteiro precisasse saber.
Sasuke, alguns passos acima, olhou para baixo com aquele ar contido de sempre… mas havia algo diferente. Orgulho. Silencioso, quase escondido.
_ Fui mais rápido. — Murmurou, mas não desceu.
Cruzei os braços, apoiando o peso em uma das pernas.
_ Dez passos. Eu fui bem clara.
Naruto fez uma careta.
_ Ah, qual é...
_ Dez passos. — Repeti, mais firme.
Ele bufou… mas começou a andar.
Um passo.
Dois.
Três…
No quinto, ele vacilou. O chakra oscilou, o pé escorregou...
_ Concentra. — Falei, mais baixo dessa vez.
Ele fechou os olhos por um segundo.
Respirou.
E continuou.
Quando chegou ao décimo passo… ele simplesmente parou.
E então começou a rir.
Rir alto, solto, como criança que finalmente vence algo que parecia impossível.
Sasuke desceu logo depois, mais controlado, mas seus movimentos estavam mais firmes.
_ Eu fiz antes. — Enquanto desviava o olhar envergonhado.
_ Parabéns, Sasuke. — Fui até ele, acariciando seus cabelos arrepiados.
Naruto caiu sentado na grama, olhando para o céu.
_ A gente vai ficar mais forte, né?
Olhei para os dois.
Para aquele momento.
Para aquela paz que… eu sabia que não duraria para sempre.
_ Vai. — Respondi. _ Mas não hoje.
Eles me olharam, confusos.
_ Hoje vocês vão comer e dormir. Como crianças normais.
_ Mas... — Sasuke começou.
_ Sem discussão.
Naruto levantou o braço imediatamente.
_ Eu apoio essa decisão!
Sasuke revirou os olhos.
_ Idiota.
_ Chato.
Suspirei, sentindo um leve… alívio.
Momentos assim eram raros.
E por isso… preciosos.
───※ ·❆· ※───
A noite caiu devagar.
O céu escureceu em tons profundos de azul, pontilhado por estrelas tímidas. O som dos grilos tomou o lugar das vozes, e a pequena casa ficou envolta em um silêncio tranquilo.
Naruto dormia esparramado, como se tivesse lutado uma guerra.
Sasuke, ao contrário, dormia de lado, quieto, quase imóvel… mas ainda assim, tenso.
Como se nem o descanso fosse completo.
Fiquei parada à porta por alguns segundos, observando.
Protegendo.
Sempre protegendo.
Fechei a porta com cuidado.
E então… o silêncio mudou.
Não de forma brusca, não como antes, quando tudo havia sido arrancado de mim à força, mas de um jeito quase imperceptível, como uma rachadura fina surgindo em algo que parecia perfeito demais para quebrar.
Mas o ar…
O ar já não era o mesmo.
Ele ficou mais denso, mais pesado, como se algo invisível estivesse se infiltrando naquele lugar, contaminando cada detalhe aos poucos. A brisa suave que antes acariciava minha pele agora parecia fria, estranha… errada.
Meu corpo percebeu antes da minha mente.
Os músculos se tensionaram.
Minha respiração falhou.
Um instinto antigo, primitivo, sussurrou dentro de mim.
Algo está errado.
_ … Não. — Minha voz saiu baixa, quase inaudível, como se eu tivesse medo de que o próprio mundo me ouvisse.
Mas já era tarde.
Porque não era mais sobre perceber.
Era sobre lembrar.
As imagens vieram sem pedir permissão.
Violentas.
Como uma lâmina atravessando minha consciência, rasgando aquela falsa paz com precisão cruel.
Desordenadas.
Rápidas demais para acompanhar.
Dolorosas demais para ignorar.
Sangue.
O vermelho vivo, manchando tudo, invadindo minha visão como um grito silencioso.
Tosse.
O som quebrado, sufocado, desesperado, como se cada respiração fosse uma batalha perdida.
Um quarto escuro.
Frio. Fechado. Sem ar.
E então…
Ele.
Meu coração falhou uma batida.
Não foi só dor.
Foi reconhecimento.
Foi medo.
Foi a certeza esmagadora de que aquilo… aquilo era real.
Muito mais real do que o sol quente, do que o jardim perfeito, do que os risos das crianças que ainda ecoavam atrás de mim como uma lembrança distante.
Porque aquilo não era um pesadelo.
E não era passado.
Era algo que ainda existia.
_ Itachi…
A visão estabilizou.
E eu vi.
Ele estava encostado contra uma parede, o corpo levemente curvado, a mão cobrindo a boca… sangue escorrendo entre os dedos.
Os olhos… cansados.
Muito mais do que deveriam.
Doente.
Sozinho.
Sempre sozinho.
_ Droga… — Minha voz saiu falha.
A visão desapareceu.
Mas a sensação ficou.
Pesada.
Insuportável.
Não pensei.
Não hesitei.
Minhas mãos se moveram quase por instinto, o chakra se moldando ao meu redor, rasgando o espaço em um ponto específico.
Um portal.
Instável.
Rápido.
Perigoso.
Mas suficiente.
_ Fiquem dormindo… — Murmurei, mesmo sabendo que não podiam me ouvir.
E eu atravessei.
Não houve som, não houve resistência e nem mesmo a sensação de passar de um lugar para o outro. Ainda assim… tudo mudou.
O ar do outro lado me atingiu primeiro.
Frio.
Não o frio suave de uma noite tranquila, mas um frio úmido, pesado, que se infiltrava pelos pulmões e parecia se agarrar por dentro, tornando cada respiração mais difícil do que a anterior.
Havia algo ali… algo denso, quase palpável, como se aquele espaço estivesse saturado de dor, de tempo, de tudo o que foi abandonado.
Eu soube, antes mesmo de olhar ao redor, que aquele lugar não era feito para ser habitado por lembranças felizes.
O quarto era pequeno.
Pequeno demais.
As paredes pareciam próximas, como se estivessem se fechando lentamente, aprisionando o pouco de ar que ainda restava.
A única luz vinha de uma lamparina esquecida em algum canto, sua chama instável tremulando de forma irregular, lançando sombras vivas pelas paredes, sombras que se moviam devagar demais… ou rápido demais.
Não sabia dizer.
Tudo ali parecia… errado.
Como se o tempo não fluísse da maneira que deveria.
E então eu o vi.
De costas.
Parado no centro daquele quarto sufocante, como se não houvesse saída, como se nunca tivesse existido uma.
Os ombros levemente curvados.
A postura quebrada de alguém que já carregou peso demais.
E a respiração…
Falha.
Pesada.
Irregular.
Cada inspiração parecia uma luta. Cada expiração, uma derrota silenciosa.
O som preenchia o quarto de forma insuportável.
Raspando.
Arrastado.
Como se o próprio ar estivesse ferindo-o por dentro.
Meu corpo inteiro travou.
Não por medo.
Mas por reconhecimento.
Porque, naquele instante…
Eu entendi que não era apenas o ambiente que estava carregado.
Era ele.
_ Você sempre foi teimoso. — Falei, baixo.
Ele congelou.
Por um segundo… apenas um segundo.
E então virou o rosto lentamente.
Os olhos encontraram os meus.
E, por um instante…
Algo quebrou.
_ …Sukui?
A voz saiu rouca. Fraca.
Quase incrédula.
Dei um passo à frente.
_ Não fale como se eu fosse um fantasma.
_ Pensei que você estivesse… — Parou.
_ Morta? — completei.
Silêncio.
Ele desviou o olhar.
Aproximando-me mais, pude ver melhor.
A palidez.
O cansaço.
O sangue seco.
Meu peito apertou.
_ Você está doente.
_ Não é novidade. — Respondeu, seco… mas sem força.
_ Está pior.
Ele não respondeu.
Porque sabia que era verdade.
Levantei a mão lentamente.
_ Fica parado.
_ Eu não preciso de...
_ Itachi.
A forma como eu disse o nome dele fez tudo parar.
Não foi alto.
Não foi desesperado.
Mas carregava peso suficiente para atravessar aquele quarto inteiro… e alcançá-lo.
E ele se calou.
Por um momento… apenas por um momento.
A respiração falha cessou. O som áspero que preenchia o ambiente desapareceu, deixando para trás um silêncio ainda mais sufocante, mais denso, como se o próprio mundo estivesse esperando pelo que viria a seguir.
Ele permitiu.
Não se virou.
Não fugiu.
Apenas ficou ali.
E aquilo… doeu mais do que qualquer reação.
Dei um passo à frente. Depois outro.
O chão parecia pesado sob meus pés, como se cada movimento exigisse mais força do que deveria. Como se o próprio espaço tentasse me impedir de chegar até ele.
Mas eu continuei.
Porque eu precisava ver.
Precisava sentir.
Minha mão se ergueu lentamente, hesitando por um breve segundo no ar antes de finalmente tocar seu rosto.
Quente.
Quente demais.
Fechei os olhos por um instante, canalizando chakra com cuidado, de forma precisa, deixando minha energia se infiltrar na dele, percorrer cada parte, cada falha, cada ruptura escondida sob aquela aparência silenciosa.
E então…
Eu senti.
Não foi imediato.
Veio em camadas.
Como se algo dentro dele estivesse sendo arrancado aos poucos, não de forma limpa, não de forma natural, mas de um jeito bruto, cruel, errado.
O chakra dele estava instável.
Quebrado.
Fragmentado como algo que havia sido forçado além do limite… e continuava sendo empurrado mesmo depois de já ter se despedaçado.
Havia dor ali.
Não superficial.
Profunda.
Entranhada.
Se espalhando como veneno por cada ponto do corpo dele.
E não era só isso.
Havia interferência.
Algo externo.
Algo que não deveria estar ali.
Algo que estava consumindo-o de dentro para fora.
Meus dedos se contraíram levemente contra sua pele.
E, naquele instante…
Algo dentro de mim quebrou junto.
Não foi tristeza.
Não foi medo.
Foi pior.
Foi entendimento.
E a compreensão veio acompanhada de algo muito mais perigoso.
Lenta.
Silenciosa.
Implacável.
Raiva.
_ Você deixou isso chegar nesse ponto?
_ Não é algo que eu possa simplesmente evitar.
_ É algo que você poderia tentar.
_ Eu estou tentando sobreviver. — A resposta veio baixa… mas firme.
Silêncio.
Aquela não era uma discussão simples.
Nunca era.
Suspirei, suavizando o fluxo de chakra.
_ Então deixa eu ajudar. Consigo curar você. — Era só reverter esse infortúnio em sua vida.
Ele me olhou.
Longo.
Profundo.
Como se estivesse tentando entender se aquilo era real.
_ Você não deveria estar aqui.
_ Eu nunca faço o que eu deveria.
Um canto quase invisível do lábio dele se moveu.
Quase um sorriso.
Quase.
Aproximei mais.
_ Você vai descansar.
_ Não posso.
_ Vai.
_ Sukui!
_ Não estou pedindo.
O olhar dele mudou.
Menos resistência.
Mais… cansaço.
Ele fechou os olhos por um segundo.
E cedeu.
Com cuidado, guiei ele até se sentar.
Depois se deitar.
Minhas mãos trabalharam em silêncio, o chakra envolvendo o corpo dele, aliviando… ao menos parte da dor.
Não era cura, a cura iria demorar a madrugada toda e eu tinha que aliviar isso primeiro.
_ Você ainda se mete em problemas… — Ele murmurou, a voz já mais fraca.
_ E você ainda se deixa morrer aos poucos.
Silêncio.
Respiração.
Calma… aos poucos.
Sentei-me ao lado dele.
Sem pressa.
Sem falar.
Apenas ficando.
Porque, naquele momento…
Ele não precisava de palavras.
Só de alguém que não fosse embora.
E, pela primeira vez em muito tempo…
Eu não fui.
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