O silêncio da floresta era quase sufocante.

Nenhum som, nenhum movimento. Nem mesmo o vento ousava atravessar as árvores, como se o mundo inteiro tivesse parado para assistir àquela cena.

Eu estava sobre ele.

Meus joelhos firmes contra o chão, meu corpo pressionando o dele, e a kunai encostada diretamente em sua garganta. Fria, afiada, pronta para cortar ao menor deslize.

Obito Uchiha, ou o homem que dizia ser Madara, estava deitado sob mim, imóvel pela primeira vez na vida.

Atrás de nós, sentia a presença de Itachi. Silencioso, atento, analisando cada detalhe. Ele não interveio. Sabia que qualquer movimento errado poderia mudar tudo.

_ Você não é uma Uchiha comum, não é? — Perguntou o homem da máscara.

Sua voz era grave, controlada, quase divertida.

Mas conhecia a verdade por trás dela.

Sabia que ali não havia um Deus imortal, e sim, um homem destruído pela perda, um homem que ainda carregava o eco do grito de Rin em sua alma.

Mesmo que este corpo que eu ocupava fosse jovem demais para entender o que era uma guerra de verdade... minhas memórias sabiam.

Sua voz me trouxe arrepios.

Ainda assim, minha mão não tremeu.

A kunai permaneceu firme.

Ele estava preso.

Não podia usar o Kamui em mim. Não podia ativar seus olhos e não podia escapar sem a minha permissão.

Eu era algo que ele jamais havia enfrentado.

Seu inimigo natural.

_ E você mente. — Respondi, apertando um pouco mais a lâmina contra sua pele. _ Fique longe do Itachi. Está me ouvindo? — Riu.

Um som baixo, quase despreocupado.

Seu olho por trás da máscara desviou para o garoto às minhas costas, e eu soube exatamente o que ele estava pensando.

Para ele, aquilo era apenas um jogo.

Um contratempo interessante.

Ele não se importava com minhas ameaças.

Só queria Itachi, queria puxá-lo para seu lado, para a escuridão, muito antes da hora certa.

Cerrei os dentes.

Eu sabia de tudo. Cada passo, cada decisão, cada consequência.

Mas também sabia que qualquer erro meu poderia destruir o futuro que eu havia escolhido proteger.

Ainda assim... não podia permitir.

Não podia deixar que ele tocasse em Itachi.

Itachi deu um passo à frente.

_ Sukui. — Sua voz saiu baixa e firme. _ Já chega. — Não me movi.

Meus olhos continuaram fixos na máscara laranja, atentos a qualquer tentativa de fuga.

_ Ele não é alguém que possamos matar assim. — Continuou Itachi. _ Não aqui e nem agora.

Obito inclinou a cabeça levemente, como se estivesse se divertindo com a situação.

_Um garoto sensato. — Comentou ele. _ Gosto disso.

_ Cale a boca. — Rosnei sem desviar o olhar.

Ele suspirou teatralmente.

_ Isso é realmente curioso. — Murmurou. _ Uma kunoichi tão jovem... com habilidades tão inconvenientes. Quem exatamente é você?

Meu coração acelerou, essa era a pergunta perigosa.

Quem eu era?

Uma intrusa naquele tempo, uma alma deslocada. Alguém que conhecia um futuro que não deveria conhecer.

_ Sou apenas alguém que protege o que importa. — Respondi, mantendo a voz fria. _ E você não vai encostar um dedo no Itachi.

Senti o olhar dele pesar sobre mim.

Obito ficou em silêncio por alguns segundos.

Então algo mudou.

O ar ao nosso redor pareceu ficar mais pesado.

_ Você sabe coisas demais para alguém da sua idade. — Ficou sério. _ E isso me faz pensar que talvez eu devesse prestar mais atenção em você.

Pressionei a kunai com mais força.

_ Tente qualquer coisa e eu corto sua garganta antes que termine de piscar.

Um sorriso invisível surgiu por trás da máscara.

_ Ah... adoraria ver você tentar.

Itachi levou a mão discretamente à bolsa de armas.

_ Sukui. — Repetiu, desta vez em tom de alerta.

Respirei fundo.

Eu sabia que não poderia mantê-lo ali para sempre.

Obito não era um inimigo que pudesse ser derrotado naquele momento.

Mas também não permitiria que ele saísse ileso.

_ Vá embora. — Ordenei, retirando lentamente a kunai, mas sem me afastar. _ E não volte a se aproximar do Itachi.

Ele se levantou com calma irritante, como se nunca tivesse estado em perigo.

_ Por enquanto. — Respondeu. _ Vamos considerar isso um empate.

Seu corpo começou a se distorcer e antes de desaparecer completamente, ele inclinou a cabeça na minha direção.

_ Vou me lembrar de você, kunoichi misteriosa.

E então sumiu.

O silêncio voltou a dominar a floresta.

Soltei o ar que nem percebi estar prendendo.

Atrás de mim, senti o olhar de Itachi fixo em minhas costas.

_ Precisamos conversar.

Fechei os olhos por um instante.

Eu sabia.

E essa conversa seria muito mais difícil do que enfrentar Obito.

_ Sobre? — Guardei a Kunai e me virei para ele, me protegendo de algo invisível. _ Por eu ter te seguido? Ou por que eu quase matei alguém que nem mesmo conheço?

_ Os dois.

_ Você está estranho, e olha que converso com o Naruto e ele é estranho. — Sussurrei. _ Não sei o que está acontecendo e já deixei você ter o seu tempo para me contar, mas não me conta nada e isso me deixa aflita. Sou sua noiva, não mereço...

Puxou minha cintura e me abraçou, seu coração estava acelerado em seu peito, me fazendo me fez acalmar e calar a boca. Esse podia ser meu último momento com ele, antes dele me matar com sonhos bonitos de nosso futuro inexistente.

O seu cheiro, o seu calor... tudo isso sumiria se eu o deixasse partir mais cedo.

Eu perderia os olhos quentes que tanto amo, seus olhos que eram tão negros quanto o céu sem estrelas, com a imensidão do café preto que ele raramente tomava.

E isso me fez apertar ainda mais sua roupa.

Sentindo as lagrimas brotarem em meus olhos e sentir aquele aperto que senti tantas vezes ao assistir ele morrer.

_ Você quer dar um tempo? — Negou. _ Então o quê?

_ Estava preparando uma surpresa para você. — Estranhei, mas a raposinha que estava nos observando deu um sorrisinho, enquanto rebolava a bundinha peluda para longe.

Ela sabia, mas não me contou... isso... ela estava interferindo nas minhas visões! Raposa ardilosa!

_ Venha comigo.

Sua voz era baixa, calma... e carregada de algo que não conseguia decifrar, até quis protestar.

Quis exigir respostas.

Mas havia algo em seu olhar que me fez apenas assentir.

Ele começou a caminhar pela trilha estreita da floresta, e eu o segui em silêncio.

Nenhuma palavra foi dita.

Apenas o som leve de nossos passos sobre as folhas secas e o canto distante de algum pássaro perdido.

Eu sentia que ele sabia.

Sabia que eu o estava seguindo todo esse tempo.

Sabia que eu estava desconfiada.

Mas também parecia ter escolhido esperar o momento certo.

Caminhamos por vários minutos, cada vez mais fundo na floresta. O caminho parecia familiar e, ao mesmo tempo, completamente novo.

Até que o silêncio mudou.

Não foi um som alto.

Foi algo sutil.

Vozes.

Risos baixos.

Parecia... uma pequena movimentação.

Itachi parou de repente.

Olhou para mim por cima do ombro.

_ Feche os olhos. — Pediu.

_ Itachi...

_ Confie em mim.

Suspirei e fechei os olhos.

Senti sua mão segurar a minha e me guiar com cuidado, desviando de galhos e raízes pelo caminho.

Meu coração começou a bater mais rápido sem que eu entendesse o motivo.

Alguns passos depois, ele parou.

_ Pode abrir.

Quando abri os olhos, perdi completamente o ar, diante de mim havia um pequeno arranjo simples no meio da clareira.

Nada grandioso, nada extravagante.

Mas perfeito.

Flores brancas e vermelhas decoravam algumas árvores, tecidos leves pendiam entre os troncos, e pétalas estavam espalhadas pelo chão formando um caminho delicado.

E ali, no centro de tudo, estavam eles.

Sasuke, Naruto e Hinata.

Meu cérebro demorou alguns segundos para processar a cena.

Hinata segurava uma pequena tiara de flores nas mãos, com um sorriso doce e nervoso.

Naruto acenou exageradamente quando me viu.

_ Finalmente chegaram! — Cochichou alto demais.

Sasuke apenas cruzou os braços, mas podia ver um brilho diferente em seus olhos.

Olhei para Itachi completamente confusa.

_ O que... é isso?

Ele respirou fundo.

_ Você sempre disse que queria algo simples. — Respondeu. _ Sem plateia, sem clã, sem formalidades.

Meu coração falhou uma batida.

_ Itachi...

_ Então preparei algo simples, mas depois precisamos passar por todas as formalidades e quero que nossa família esteja presente.

Senti minha garganta apertar.

_ Você...

_ Um pequeno arranjo de casamento. — Completou ele. _ Do jeito que você sempre sonhou.

Levei as mãos à boca, incapaz de falar.

Hinata se aproximou com cuidado, estendendo a tiara de flores para mim.

_ Fizemos com carinho. — Disse ela, corando levemente.

Naruto coçou a nuca.

_ Ele estava planejando isso há semanas, sabia? Mandou a gente guardar segredo e tudo!

Olhei novamente para Itachi.

Então era isso, esse era o segredo.

Essa era a "surpresa".

Meus olhos se encheram de lágrimas.

_ Você é impossível. — Sussurrei.

Ele deu um pequeno sorriso.

_ Falei que precisava confiar em mim.

Apertei a tiara de flores contra o peito.

_ Confio.

_ Sukui... — A menina falou com um sorriso tímido. _ Posso?

Assenti sem conseguir falar.

Ela colocou delicadamente a tiara em minha cabeça, ajustando-a com cuidado.

Naruto fungou atrás de nós.

_ Eu juro que se alguém chorar primeiro, não vai ser eu!

Sasuke apenas revirou os olhos.

_ Fique quieto.

Acabei rindo entre as lágrimas, mas apenas olhei ao redor mais uma vez.

Nada de grandes cerimônias, nada de clãs, conselhos ou formalidades.

Apenas nós.

Do jeito que eu sempre sonhei.

Itachi estendeu a mão para mim.

_ Está pronta?

Respirei fundo.

Tudo o que vivi até ali passou como um filme em minha mente. O medo, as batalhas, as lembranças de um futuro que eu conhecia bem demais... e, acima de tudo, o amor que eu sentia por ele.

Segurei sua mão.

_ Sempre estive.

Caminhamos juntos até o centro da clareira.

Naruto pigarreou, assumindo uma postura estranhamente séria.

_ Eu nunca pensei que ia fazer isso. — Começou ele. _ Mas o irmão Itachi me pediu para... bom... meio que oficializar essa coisa toda.

Sasuke suspirou.

_ Vai direto ao ponto, Naruto.

_ Certo, certo!

Itachi ficou de frente para mim.

Seus olhos negros brilhavam de um jeito que eu raramente via.

Naruto respirou fundo, lendo um pergaminho amassado e mesmo gaguejando e sendo uma criança, estava tudo bem.

_ Vocês dois escolheram ficar juntos, apesar de tudo. Apesar do passado, dos medos, das coisas complicadas que eu nem entendo direito. — Coçou a cabeça. _ Então... acho que isso é o que importa.

Sorri.

Era tão a cara dele dizer algo assim.

Itachi apertou minha mão.

_ Sukui. — Disse ele, agora falando diretamente comigo. _ Não sei o que o futuro nos reserva, mas sei que quero enfrentar qualquer coisa ao seu lado.

Uma lágrima escapou sem minha permissão.

_ Você já enfrentou tanta coisa por mim... — Respondi com a voz embargada.

_ E eu enfrentaria tudo de novo, quantas vezes fosse preciso, só para estar aqui com você.

Ele ergueu minha mão até seus lábios e a beijou com delicadeza.

_ Então fique comigo. Hoje. Amanhã. Sempre.

Meu coração parecia prestes a explodir.

_ Sempre.

Hinata entregou a ele uma pequena fita vermelha.

Itachi amarrou-a suavemente em torno de nossos pulsos, unindo nossas mãos.

Um símbolo simples, mas carregado de significado.

Naruto sorriu largo.

_ Então... por mim, vocês já estão casados!

Sasuke deu um leve sorriso de canto.

_ Finalmente.

Eu ri, enxugando o rosto.

Itachi levou as mãos até meu rosto e me olhou como se o mundo inteiro estivesse refletido ali.

_ Minha esposa. — Murmurou.

_ Meu marido. — Respondi quase sem acreditar.

E então ele me beijou, um beijo calmo, sincero, cheio de promessas silenciosas.

O tipo de beijo que apagava todas as dores do passado e fazia o futuro parecer possível.

Ao nosso redor, Naruto comemorava, Hinata batia palminhas emocionada e até Sasuke estava feliz.

Por um momento, nada mais existia.

Sem guerras.

Sem destinos sombrios.

Sem profecias ou medos.

Apenas eu e ele.

Quando nos afastamos, encostei minha testa na dele.

_ Valeu a pena esperar. — Sussurrei.

Itachi sorriu.

_ Por você, eu esperaria a vida inteira.

Segurei sua mão com força.

E, pela primeira vez, tive certeza:

Aquele era o meu lugar.