A lua vermelha estava bem alta, me dizendo sem palavras que hoje era o dia que Itachi viraria outra pessoa.

Um homem procurado, meu marido seria procurado por todo o mundo e eu apenas poderia aceitar isso.

O anel girava em meu dedo sem parar, me fazendo suspirar e ir até a janela, tocando o vidro frio daquela noite.

Meu pai estava lá embaixo preparando o jantar, cantarolando alguma música que minha mãe cantava com ele.

Mamãe... Pensei que poderia esquecer ela, ou apenas não sentir tanta falta, mas sinto. É uma lembrança tão doce que a torna dolorosa no processo.

_ Me dê forças para continuar. — Sussurrei, esperando que algo acontecesse. _ Raposinha, por que está escondida aí? — A observei pelo reflexo da janela.

_ Não sei exatamente o que vai acontecer, não consigo ver. — Sorri e fui até ela.

_ Não consigo ver também, mas não se preocupe, vai dar tudo certo. — Acariciei sua pelagem estranha. _ Vamos? Estou morrendo de fome.

_ Mestra...

_ Está tudo bem, Frosh. Nada vai acontecer, tenha um pouco de fé em mim. — Veio até mim, acariciando meus tornozelos.

_ Eu tenho, e esse é o problema, você sempre foi imprevisível. — Sacudi a cabeça, saindo do quarto com ela ao meu lado.

Desço cada degrau, a vendo se transformar em uma tatuagem em meu pulso. arrumo minha roupa e desço o último degrau.

A casa estava quente. O cheiro do jantar já tomava o corredor, algo simples, mas que sempre parecia perfeito quando meu pai fazia.

Passei pela sala quase correndo, deslizando a mão pelo encosto do sofá como fazia desde criança.

_ Pai! — Chamei antes mesmo de chegar à cozinha.

Ele estava de costas, mexendo alguma coisa na panela. Quando ouviu minha voz, virou um pouco a cabeça.

_ Já desceu, pequena?

Não respondi. Apenas corri e o abracei pela cintura.

Ele soltou um pequeno "oh" surpreso, mas logo riu, apoiando uma das mãos na minha cabeça.

_ O que foi isso? Missão concluída ou só fome?

_ Os dois. — Murmurei contra a camisa dele.

Riu de novo e me afastei um pouco, me apoiando na bancada.

_ Hoje foi divertido. O sensei quase caiu no rio tentando pegar um ladrão.

_ Quase caiu? — Arqueou a sobrancelha. _ Você deixou seu sensei quase cair?

_ Eu não deixei! — Protestei, rindo. _ Só... observei a situação.

_ Hum. — Mexeu a panela com calma. _ Observou.

Fiquei observando-o cozinhar por alguns instantes.

Era uma cena simples, quase banal, o tipo de normalidade que passa despercebida, mas que, de alguma forma, parecia frágil demais para durar.

Girei o anel no dedo, distraída, como se, naquele pequeno gesto, eu pudesse prender o tempo e impedir que aquele momento me escapasse.

_ Pai...

_ Hum?

_ Estava pensando em começar a juntar dinheiro.

Parou de mexer a panela.

_ Dinheiro?

_ É. — Dei de ombros. _ Para comprar uma casinha.

Ele se virou devagar para me olhar.

_ Uma casinha.

_ Pequena. — Expliquei rapidamente. _ Não precisa ser grande. Só... confortável.

Ele me encarou por alguns segundos, então começou a rir.

_ E quem vai morar nessa casinha?

Olhei para o anel no meu dedo.

_ Eu e o Itachi.

Meu pai apoiou o cotovelo na bancada, segurando o riso.

_ Vocês mal cresceram.

_ Não é agora. — Retruquei. _ Só... no futuro.

_ No futuro... — Repetiu, divertido. _ Você sabe que não precisa juntar dinheiro para isso, não sabe?

_ Eu sei. — Murmurei. _ Mas eu quero.

Ele me observou por um momento.

Depois sorriu daquele jeito calmo dele.

_ Então junte.

Voltou a mexer a panela.

_ Mas faça isso depois de comer. Planejar o futuro com fome é sempre uma péssima ideia.

Sorri.

Foi então que... As luzes se apagaram.

Não houve aviso, foi abrupto. Violento. Como se algo tivesse arrancado a energia do mundo com as próprias mãos.

A casa inteira mergulhou na escuridão, não apenas sem luz, mas tomada por uma ausência sufocante, densa, quase palpável.

O ar pareceu mudar.

Mais frio. Mais pesado.

E então... o silêncio.

Não um silêncio comum.

Nenhum som da rua.

Nenhum inseto.

Nenhum vento.

Era como se tudo lá fora... tivesse parado de existir.

Senti um arrepio subir lentamente pela minha espinha, enquanto meus dedos se contraíam sem que eu percebesse. Até minha respiração soava alta demais naquele vazio.

Meu pai franziu a testa no mesmo instante.

O olhar dele não era de confusão.

Era de reconhecimento.

Como se aquilo... não fosse apenas uma queda de energia.

Como se algo estivesse ali.

Observando.

_ Estranho...

Ele limpou as mãos rápido no pano e, quase por instinto, puxou uma kunai da bancada.

O movimento foi rápido.

_ Fique atrás de mim.

Mas eu já sabia.

Aquela sensação já tinha se enraizado em mim antes mesmo das luzes se apagarem, antes mesmo do silêncio se tornar algo vivo dentro daquela casa.

Meu coração se apertou no peito de um jeito estranho, como se estivesse tentando se preparar para algo que ainda não tinha forma, mas que, de alguma maneira, eu reconhecia.

O ar parecia denso demais para ser apenas ar. Cada respiração vinha mais pesada, mais lenta, como se o próprio ambiente estivesse resistindo à minha existência ali.

A casa, que antes carregava calor, vozes e pequenos sons cotidianos, agora parecia... oca. Errada.

Meu pai não relaxou nem por um segundo. A kunai firme em sua mão refletia quase nada naquela escuridão, mas sua postura dizia tudo. Os olhos fixos na porta, atentos, calculando, esperando.

Não era medo. Era preparação. Era alguém que já conhecia aquele tipo de noite e sabia que ela nunca vinha sem um motivo.

Foi então que o som rompeu o silêncio.

Batidas.

Fortes demais para serem educadas. Rápidas demais para serem calmas.

O som ecoou pela casa como um golpe direto no peito, fazendo meu corpo inteiro reagir antes mesmo da minha mente acompanhar.

Não era apenas alguém chamando. Havia urgência ali. Ou desespero. Ou algo pior.

Meu pai se moveu primeiro. Sempre ele.

Os passos foram controlados, mas firmes, cada movimento calculado como se o chão pudesse ceder a qualquer instante. Ele não desviou o olhar da porta nem por um segundo, e eu pude ver, mesmo na penumbra, como seus músculos estavam tensos, prontos para qualquer coisa que estivesse do outro lado.

_ Quem está aí?

A porta se abriu antes mesmo da pergunta terminar.

Itachi entrou.

Ofegante.

As mãos manchadas de sangue.

Os olhos arregalados.

_ Preciso de ajuda. — A voz era baixa e urgente. _ Tem alguém... alguém está matando todos.

Meu pai franziu a testa.

_ O quê?

Itachi passou a mão pelo rosto, deixando mais sangue espalhado pela pele.

_ Eu vi... vi corpos. O complexo... — Ele respirava rápido demais. _ Precisamos avisar os outros.

Eu fiquei parada por um instante que pareceu longo demais para caber no tempo. Apenas observando.

Meu coração batia pesado no peito, tão forte que chegava a incomodar, como se quisesse me avisar de algo que eu ainda não tinha coragem de encarar.

Havia um ritmo estranho nele, irregular, inquieto... quase como se estivesse em conflito com o que meus olhos viam.

Ele estava atuando.

Eu sabia disso com uma clareza dolorosa. Conseguia enxergar nas entrelinhas de cada gesto, na precisão quase perfeita de cada movimento, no controle exagerado da própria respiração.

Nada ali era espontâneo. Nada era real, pelo menos, não da forma como deveria ser.

E ainda assim... doía como se fosse.

Cada palavra dele parecia cuidadosamente escolhida, moldada para sustentar uma mentira que só ele insistia em manter de pé.

E o pior não era isso. O pior era perceber que, mesmo sabendo de tudo, uma parte de mim ainda queria acreditar.

Queria fingir que era verdade.

Queria fingir que aquilo não estava prestes a desmoronar.

Engoli em seco, sentindo a garganta apertar, enquanto meu corpo começava a reagir por conta própria.

Antes que eu pudesse pensar, antes que pudesse me impedir... meus pés se moveram.

Um passo.

Depois outro.

Como se algo invisível estivesse me puxando em direção a ele, ou talvez em direção ao fim inevitável daquela ilusão.

_ Sukui, espere. — Meu pai disse.

Ignorei.

Caminhei até Itachi.

Ele me olhou.

Por um instante, só por um instante, a máscara dele falhou.

E eu vi.

Culpa.

Desespero.

Amor.

Estendi a mão devagar e toquei seu rosto manchado de sangue.

_ Itachi...

Meu pai se aproximou atrás de mim.

A kunai dele abaixou um pouco.

_ Calma. Vamos entender o que está acontecendo.

Aconteceu em um instante tão curto que minha mente se recusou a acompanhar.

Rápido demais.

Um lampejo metálico cortando o ar, frio, preciso, inevitável. Um som seco, quase abafado, ecoou pelo ambiente como um estalo que partia algo muito maior do que o silêncio.

E então... já estava feito.

Não vi o movimento completo, não consegui entender quando começou, nem como terminou. Só vi o resultado, brutal e definitivo.

A kunai estava cravada no pescoço do meu pai.

Por um segundo, um único segundo cruel, o tempo pareceu hesitar. O corpo dele ficou imóvel, como se ainda não tivesse entendido o que havia acontecido.

Os olhos se arregalaram lentamente, carregados de surpresa... não de medo. Nunca de medo.

E isso foi o que mais doeu.

O sangue começou a escorrer devagar, quente e espesso, deslizando pela pele como um traço silencioso de realidade. Uma realidade que eu não podia desfazer.

O mundo ao redor perdeu o som.

Não havia mais nada além daquela cena.

Além dele.

Além daquilo que eu não consegui impedir.

_ Pai...?

Ele ainda tentou dizer algo.

Eu vi.

Os lábios dele se moveram, trêmulos, como se lutassem contra algo invisível que o impedia de falar.

Como se houvesse palavras presas ali, importantes, urgentes... talvez as últimas.

Mas nenhum som saiu.

Nem um sussurro.

Nem um suspiro.

Nada.

Só o silêncio.

Um silêncio cruel, sufocante, que engolia tudo ao redor.

Então o corpo dele cedeu.

Sem força. Sem resistência.

Caiu no chão com um baque pesado que ecoou pela casa inteira, um som denso, definitivo, que pareceu atravessar meus ossos e se fixar dentro de mim.

Foi ali que tudo parou.

Meu mundo... simplesmente parou.

O ar não entrava nos meus pulmões. Meu peito não se movia. Eu não piscava. Não reagia. Não existia nada além daquela cena gravada à força diante dos meus olhos.

Era como se meu corpo ainda estivesse ali, de pé, imóvel, mas todo o resto tivesse sido arrancado de mim.

Eu não sentia frio.

Não sentia calor.

Não sentia dor.

E, ao mesmo tempo...

Sentia tudo de uma vez.

_ Sukui.

As mãos de Itachi seguraram meu rosto.

Ele me virou para ele.

_ Não. — Sussurrei.

Minha voz parecia distante.

_ Não... não... não...

Ele me puxou para perto.

Não houve aviso.

Não houve escolha.

A mão dele envolveu meu braço com firmeza, quente, real demais, e, no instante seguinte, eu já estava contra ele.

E então ele me beijou.

Não foi um beijo suave.

Não foi gentil.

Foi desesperado.

Como se estivesse tentando me arrancar dali. Como se aquele toque fosse a única forma de me salvar... ou de me prender.

Por um segundo, ou talvez uma eternidade, tudo deixou de existir.

O cheiro metálico do sangue desapareceu.

O frio do chão sumiu sob meus pés.

A imagem do corpo do meu pai...

Sumiu.

A casa.

A escuridão.

O silêncio pesado.

Tudo foi engolido.

Era como se o mundo tivesse sido apagado à força, arrancado de mim sem pedir permissão, como uma página rasgada de um livro que eu ainda estava lendo.

E quando eu abri os olhos...

O sol brilhava.

Quente. Dourado. Suave.

A luz tocava minha pele como um carinho, completamente oposta ao horror que, segundos atrás, ainda estava cravado em mim.

Diante de mim, um jardim se estendia até onde a vista alcançava.

A grama era de um verde vivo, vibrante, como se nunca tivesse conhecido a morte.

Flores de todas as cores dançavam com o vento leve, exalando um perfume doce demais, quase irreal.

No meio daquele cenário...

Uma pequena casa de madeira.

Simples. Aconchegante.

Perfeita.

E então eu ouvi.

Risos.

Leves. Soltos.

Reais.

O som ecoava pelo ar como algo proibido, algo que não deveria existir depois do que eu tinha acabado de ver.

Meus olhos seguiram o som, quase sem que eu percebesse.

Duas crianças corriam pelo quintal.

Pequenas. Livres.

Uma menina de cabelos escuros corria rápido demais, tropeçando na própria empolgação. Ela caiu na grama... e, ao invés de chorar, começou a rir.

Um riso puro.

Limpo.

Intacto.

Um menino, um pouco mais velho, parou imediatamente ao lado dela. Ajoelhou-se com cuidado e estendeu a mão, ajudando-a a se levantar com uma delicadeza que apertou algo dentro do meu peito.

E enquanto ela ainda ria...

Enquanto ele sorria para ela...

Algo dentro de mim se quebrou.

Porque aquele mundo...

Era bonito demais para ser real.

E gentil demais...

Para ser meu.

_ Mamãe! — Chamaram.

Eu olhei para minhas mãos.

Um anel brilhava no meu dedo.

_ Você está pensando demais de novo. — A voz de Itachi veio atrás de mim.

Ele apareceu no jardim com um sorriso tranquilo.

Sem sangue.

Sem dor.

Sem sombras nos olhos.

Apenas... Itachi.

Meu marido.

Ele passou um braço pela minha cintura.

_ Venha. — Disse, olhando para as crianças correndo. _ Eles estavam esperando você.

E, por um momento...

Tudo parecia real.