A Rosa Fantasma

2 Prólogo I


Notas iniciais
Agora vamos ao início do primeiro arco. Boa leitura.

Apesar do céu estar iluminado graças a lua cheia, a terra estava imersa nas trevas. O mundo parecia estar afundando, lentamente em um mar de miasma¹.

O vento frio soava como um canto fúnebre, misturado ao som de passos desesperados contra as folhas secas, espalhando o medo e a agonia pela grande floresta que deveria estar desabitada.

[...] deixou seu corpo cair ao lado do tronco de uma árvore. Lágrimas corriam sem controle pelo seu rosto. Sua garganta queimava. Seu coração batia descontroladamente. Seus membros estavam pesados como rochas. Sua mente estava perdida em uma escuridão muito mais densa e fria do que a daquela floresta.

“Não consigo acreditar... Não pode ser verdade... Ele não pode ter mentido para mim por tanto tempo...”

[...] sussurrava enquanto escondia seu rosto entre os joelhos.

“Eu o farei pagar... Ele pagará por todos os seus pecados...”

Com um sopro forte de vento, passos desconhecidos ecoaram, seguido por uma risada que fez o coração de [...] saltar para a garganta.

“Quem está ai?!”

“...”

“Você abandonaria toda a sua humanidade para realizar um desejo?”

Em um piscar de olhos uma mulher apareceu, caminhando em direção à [...] com um sorriso sádico no rosto.

Ela aparentava ter no máximo 25 anos de idade, possuía longos cabelos pretos como as trevas. Sua feição era um completo mistério. Aquele sorriso assustador não combinava com seu rosto de boneca. Essa mulher vestia uma blusa preta sem alças e uma saia larga e escura, que por pouco não tocava o chão. Nas suas mãos luvas roxas estendiam-se até a altura dos cotovelos.

Essa mulher ergueu um de seus braços e imediatamente fragmentos de luz que pareciam vaga-lumes, transformaram-se em uma longa capa vermelha com capuz. Essa simples vestimenta parecia reluzir, mesmo na escuridão da noite.

“Eu ouvi seu desejo, e estou aqui para realizá-lo.”

[...] não conseguia se mover. Seus lábios tremiam. Nenhuma palavra escapava pela sua boca.

“Não precisa ter medo. Eu não farei nada para te machucar.”

“...”

“Sua fúria, sua angustia, seus desejos mais profundos chegaram até mim. Você não quer ter uma casa, uma família? Você não quer... vingança?”

No momento em que aquela mulher de cabelos pretos deu seu próximo passo, centenas de vaga-lumes cercaram suas pernas, e no segundo seguinte ela deslizava graciosamente pelo ar. Os vaga-lumes pareciam estar carregando-a.

Ela parecia um anjo negro, que agora estava a apenas um passo de distância.

“Chega dessa filantropia. Eu posso dar a você um poder capaz de reconstruir este mundo amaldiçoado por humanos ingratos, corruptos, assassinos... Ou se assim desejar, essa mesma força pode mandar tudo para o inferno.”

“Qu... Quem... é... você...”

A voz de [...] era apenas um sussurro na calada da noite.

“Eu? Sou apenas uma simples vendedora.”

“...Em troca desse poder... O que você pede em troca...?”

“O mesmo de sempre. Sua alma e um pouco de diversão.”

Antes que [...] percebesse, suas lágrimas haviam secado. No seu rosto apenas uma feição sombria era iluminada pela luz da lua.

“Eu quero destruir a fortuna que ele tanto preza... Eu quero acabar com tudo que ele mais ama... Você pode me dar isso...?”

Com um sorriso malicioso a mulher de cabelos negros tocou o rosto de [...] e prendeu suas duas mãos contra o tronco de uma árvore. Em seguida calou qualquer grito ou sussurro com um beijo, longo e profundo. [...] sentia como se fosse explodir a qualquer momento, mas não conseguia escapar, não queria escapar. Seu desejo de vingança era ainda mais forte que a dor agonizante.

[...] não ligava para quem fosse essa mulher. [...] tinha em sua mente apenas uma palavra ecoando, de novo e de novo, como um hino sem fim. Vingança... Vingança... Vingança...

Seus lábios se separaram. A mulher de cabelos pretos deu um sorriso entretido, ainda segurando firmemente as mãos de [...].

“Então, qual é a sua resposta?”

“Eu... aceito.”

A mulher de cabelos pretos recuou.

Barulho de passos voltaram a ecoar sem sessar, vindos de todos os cantos da floresta. Dezenas de olhos começaram a brilhar na escuridão em meio a vultos negros, que aproximavam-se lentamente. Eram lobos, formando aos poucos um círculo, com a mulher e [...] em seu centro. Esses lobos enfim deitaram-se.

“O que é isso?! O que está acontecendo?!”

“Eles são o seu prêmio. Você é capaz de controlá-los como desejar.”

A mulher de cabelos pretos lambeu os lábios e levantou sua mão esquerda, oferecendo o capuz vermelho.

“Em alguns dias, duas pessoas aparecerão. Use isto e esconda seu rosto, pois no momento em que eles descobrirem quem você é, seu fim chegará.”

[...] tremeu em resposta.

“E... quem são essas pessoas.”

“Owen e Ellenia...”

A mulher de cabelos negros tocou o rosto de [...] com seu dedo indicador, em seguida voltou a caminhar, de volta para a escuridão da floresta. Os vaga-lumes que a seguiam, aumentavam ainda mais sua beleza assustadora.

“Só me faça um favor... Não tenha uma morte chata.”

A mulher então desapareceu nas trevas.

“...”

“...”

“...Ah...Ah... AH!”

[...] caiu de joelhos, sem ar. O interior de seu corpo queimava, como se centenas de insetos destruíssem seus órgãos um por um. Os ossos de seus braços torciam violentamente e consequentemente quebravam. O mesmo acontecia com o resto de seu corpo.

[...] estava mudando. Suas mãos estavam crescendo, seu pescoço girava de uma forma nojenta e grotesca.

[...] não existia mais.

Os lobos acompanhavam aquela mutação como cães adestrados. Deitados enquanto uivavam para a lua cheia que brilhava no céu.

Notas finais
*1 - Miasma - Emanação vinda de animais ou vegetais em decomposição.