A Rosa De Masyaf

11 Jornada de Desmond


Notas iniciais
Eu decidi colocar todas as Jornadas em um único capítulo. Há a reprodução do que é dito nessas partes do jogo com algumas mudanças devido ao acréscimo de informações acerca de Sophie Miles.

A Rosa de Masyaf

Jornada de Desmond

Dúvidas

Incrível. Este deve ser o núcleo do Animus. Nada de simulações nem ambientes. Não consigo nem sentir meu corpo! Tudo é apenas... Dados brutos. Então, eu continuo sendo eu... Ou sou apenas algum tipo de programa de computador?

Minha casa. Eu nasci aqui. A Fazenda. Isso. Eles chamavam esse lugar de Fazenda. Meus pais, minha irmã, mais vinte e quatro casais, algumas crianças. Uma comunidade. Isolada.

Pequenas casas nas montanhas. Isso. Céu claro. A fumaça da madeira queimando, o vento e o fedor de gasolina. Geradores funcionando dia e noite. Eu me lembro.

A gente tinha uma vida simples, quase nômade. Longe de tudo. Prontos para juntar tudo e partir num piscar de olhos. Se a gente fosse descoberto. Se eles encontrassem a gente.

A Fazenda. Não era bem uma fazenda, era? Não exatamente. A gente plantava alguma coisa. Mas não me lembro de nenhum animal. Talvez alguns cães.

Os Assassinos. Eu nasci no meio deles. Não tive escolha. Foi como... Uma marca de nascença. Você é um assassino, eles me disseram. Mas o que significava isso?

Desde pequeno, nunca pararam de falar isso. Você é um assassino. Você é um assassino. E este é nosso Credo...

Nada é verdadeiro.

O que queriam dizer? Um mundo sem propósito?

Tudo é permitido.

Tudo é permitido?

Eles estão procurando por nós. E não vão parar até que o último de nós esteja morto.

É, eu acreditei por um tempo, mas nunca entendi. Esse é o problema de quando você já nasce fazendo parte de alguma coisa. Acaba acreditando sem entender de verdade. Todos eram tão sérios. E assustados também. Toda aquela conversa sobre Assassinos e Templários. O fim do mundo.

Viva de acordo com o Credo, Desmond. Se fortaleça.

Todo homem tem seu limite, eu acho. Não consigo me lembrar quando foi que parei de acreditar. Quando foi que parei de me importar.

Deus, tudo parecia tão estúpido. Não conseguia ouvir a palavra “Templário” sem rir. E Assassino, esquece...

Falavam de uma guerra antiga. Uma luta sem fim. Mas nunca me importei. Quem iria imaginar que fosse possível criar uma criança com histórias de guerra?

Por um tempo, eu achei que ela também não acreditava e não se importava. Sophie. Sophie questionava. Por que vivíamos daquele jeito? Por que seguíamos um Credo? Alguma coisa que fazíamos realmente causava alguma diferença?

Você acha que podemos mudar o mundo, Desmond?

Ela questionava, mas acreditava. Sophie acreditava no Credo, o entendia. Ela erauma Assassina, de corpo e alma. E ela sabia que eu não acreditava.

Acho que me sentia... Solitário. Sozinho no meio da multidão. Se tivesse conseguido contar isso para eles, talvez tivessem me ouvido. Se eu pelo menos pudesse voltar. Pudesse dizer para eles que sinto muito...

Treinamento

O sino matinal. Deus, como eu o odiava. Tocando cinco dias por semana, sempre antes de amanhecer. Acordava antes dos passarinhos. Eu e as outras crianças.

Vamos, Desmond! Levante-se! Pare de enrolar.

Exercícios. Obrigatórios. Um mergulho no riacho para ficar limpo. E, então, aveia com manteiga e suco de maçã para o café da manhã. Argh.

Qual é, maninho, o gosto não é tão ruim assim.

Devo ter andado mais de um milhão de quilômetros antes de completar dez anos. Mas era legal. Eu gostava daqueles dias nas montanhas. O silêncio, o ar puro, a escuridão total da floresta. O som das botas pisando no chão ressecado.

Dá para ver a cidade daqui?

Não, não, ela fica muito mais ao leste.

Qual o motivo dessa guerra? Pelo o que estamos lutando? Nunca me contaram muita coisa. Só o suficiente. Eles escondiam as coisas. Tinha sempre um ar de mistério. Diziam que era para o nosso próprio bem.

Sophie questionava mais do que eu, mas, ao mesmo tempo, aceitava o silêncio. Era como se ela tivesse acesso a respostas que eu não conhecia, que eu não podia conhecer.

Então, continuamos escondidos. Escondidos nas montanhas. Se alguém descobrisse quem nós éramos ou o que estávamos fazendo, a gente teria problemas.

Eles estão em todos os lugares, Desmond. Eles têm influência em todo lugar. Política, guerra, finanças, alta tecnologia, agricultura. As pessoas dormem e, enquanto sonham, a Abstergo cria um pesadelo.

Abstergo. A primeira vez que vi esse nome foi em um frasco de ibuprofeno. Minha mãe riu quando perguntei sobre aquilo para ela. Não dá para fugir, ela disse.

Bem, nós escolhemos nossas batalhas, eu acho. Mas são tantas para escolher.

Ela me disse que a casa de um norte-americano comum sempre tem mais de trinta produtos da Abstergo. Que se você tentasse tirá-los completamente de sua vida, seria um trabalho de tempo integral.

Então, era isso. A conspiração global. Abstergo. Envolvida em tudo. Governos, corporações, universidades. Minha mãe e meu pai faziam tudo parecer tão assustador. Mas eu não me sentia assustado. Um inimigo precisa de um rosto. Mas tudo que conseguia ver era um frasco de analgésico.

O que me assustava era o treinamento. Suor, lágrimas, a boca sangrando de vez em quando.

Concentre-se, Desmond! Concentre-se!

Até onde eles iriam me pressionar?

Força, velocidade, agilidade. Nada de desculpas.

Não podia aguentar! Qual o sentido daquilo? Durante anos, pensei que alguma grande catástrofe estava por vir. Eu não sabia o que esperar.

Um dia você vai entender. Você vai ver. Todo esse desconforto valerá a pena algum dia. Eu prometo.

Lembro-me que Sophie costuma rir ao ouvir essas palavras, essa promessa de nosso pai. Eu nunca entendi. Qual era a graça? Ela não acreditava? Na verdade, a companhia de minha irmã era a única coisa que aliviava um pouco a pressão de todo treinamento.

Sophie era excelente. Acho que entendo por que Clay se referiu a ela como uma das melhores da Ordem. O treinamento nunca foi um problema para ela como era para mim. Sophie era rápida, forte, tinha bons reflexos. Eu nunca a derrotei em um corpo a corpo. Mesmo quando parecia que ela estava desfocada. Nesses momentos, era quando ela se tornava ainda mais letal.

Mas se meus pais tivessem sido mais claros comigo, me mostrado coisas, me levado a lugares... Talvez tivesse feito mais sentido...

Fuga

Eu queria sair. Queria minha própria vida. Viver do meu jeito.

Dezesseis anos de idade. E para onde eu estava indo? Não fazia ideia. Estava indo para longe. Era isso. Esse era o plano. Um péssimo plano.

Eles nunca adivinharam o que eu estava fazendo, porque nem eu sabia o que estava fazendo. Simplesmente sai andando. Alguém percebeu que eu tinha sumido. Eles gritaram. Eu comecei a correr.

Desmond! Desmond!

Apenas corri e corri. Todo aquele treinamento finalmente valeu a pena. Deus, estava tão escuro quando fui embora. E a floresta era... Interminável. Não podia arriscar ir pela estrada.

Desmond, cadê você?

Minha mãe me chamando. Implorando para eu ficar. Mas eu não podia. Estranhamente, a única voz que não escutei gritar por mim foi a de Sophie.

Desci as montanhas. Desci até chegar num riacho. O segui até chegar num rio, e do rio cheguei numa antiga via de acesso.

Andei por horas naquele dia, com o sol de verão me mantendo quente até a noite. Encontrei uma clareira depois que escureceu. Caí no sono debaixo das estrelas. Nunca tive uma noite mais tranquila que aquela. Nem antes. Nem depois.

Andando, eu estava assustado demais para pegar carona. O que diabos eu estava fazendo? Perdido num lugar seco como esse por um dia. Pareceu uma semana. Um oceano infinito de terra rachada. Difícil de acreditar que um lugar possa parecer tão morto.

Eu vou morrer, não vou? Eu vou morrer aqui.

Finalmente, conheci umas garotas de Illinois. Tão alegres. Tão legais. Um dia dirigindo até Omaha. Mais um até Chicago. Então, em algum lugar, alguém disse para mim...

Se você não tem nada, você vai para Nova York. Lá, se for embora sem nada, ninguém faz perguntas. E se sair com alguma coisa, você é um filho da mãe sortudo.

Então, foi para lá que eu fui. Para a cidade de Nova York. Para os arranha-céus e metrôs. Para a sujeira e estupidez. Para a multidão enlouquecida.

Metrópole

Voltava ao trabalho quando o sol se punha. Pegava o metrô no Brooklyn e ia até a cidade. Fazia baldeação na Washington Square. Descia até a Triangle.

Vindo de baixo como os morto-vivos, no sol, a luz fazendo meus olhos doerem. Andar aqueles dez minutos entre o metrô e o bar era sempre muito bom. Mas essa sensação nunca durava. Certos dias, a cidade é como um vampiro. Ela rouba seus melhores momentos. Eles vêm e vão em segundos e desaparecem. Você acaba se lembrando só dos piores.

Havia dias em que me lembrava das caminhadas que costumava fazer com Sophie sem que nossos pais soubessem. Mas sempre afastava essas memórias.

Servir bebidas no Bad Weather. Eu só entrei e eles me deram uma coqueteleira. Me contrataram por causa da minha aparência encantadora. Acho que a dona teve uma quedinha por mim. Pelo meu sorriso conquistador.

Ei! Qual é mesmo aquele drink que você inventou?

Eu ria do meu passado. Eu ria da minha família. Fazia piada com tudo, até mesmo como o fim do mundo.

Eu bebi da última vez.

O Shirley Templária?

Shirley Templária? O que vai nele?

O de sempre, só coloco um pouco de gim.

Beleza. Eu quero quatro!

Tinha um grande sonho flutuando lá fora. E toda noite eu via as pessoas o sonhando. Eu não sei como eles conseguiam. Neste lugar, se gasta tanto dinheiro para sorrir quanto para pagar o aluguel.

Quanto mais eu sentia falta da minha família, mais sentia raiva de mim mesmo. Eu disse para mim que queria uma nova família. Que queria começar do zero.

Des! Vai para o after-party?

Não. Não estou me sentindo muito bem.

Luzes. Agitação. Música alta. Não conseguia pensar em nada. Cento e vinte e quatro batidas por minuto. Duas vezes mais rápido que o batimento cardíaco.

Então, de onde você é?

Ele foi criado em culto ou algo do tipo. Você sabe, lá no oeste!

Meus pais acreditavam em teorias de conspiração. Eles viviam isolados no meio do mato!

É sério?

Deus, elas eram tão lindas. As garotas de saia, piscando, as gotas de suor escorrendo. Todo mundo ficava tão bonito com aquelas luzes piscando.

Quer dançar?

Eu era um novo homem. Nascido de novo. Sozinho, mas vivo. Tentando esquecer.

Vamos!

Vamos, Desmond. Apenas relaxe. Esqueça.

Arrependimento

Depois de ter ficado nove anos longe, minha velha amargura estava de volta. Eu estava cansado de novo. Não queria admitir que ir adiante podia significar dar um passo para trás. Mas a cidade tinha perdido o brilho. A liberdade que eu sentia era vazia sem meus velhos amigos, sem minha família.

E, então... Eles vieram me buscar. Abstergo. Estavam procurando por mim. Não conseguia acreditar.

E, agora, não consigo acreditar que eles tenham pegado Sophie primeiro.

Senhor Miles?

Aham...

Passei metade da minha vida tentando esquecer tudo que meus pais tinham me ensinado, tudo que eu achava que era mentira.

Desmond Miles?

Sim, o que vocês querem?

E, de repente, queria tudo de volta. Todo aquele treinamento, todo aquele tempo. Mas eu não podia. Aqueles dias... Eles se foram.

Por que estão fazendo isso comigo?

Você tem informações de que precisamos, senhor Miles.

Informações? Eu sou um bartender, pelo amor de Deus!

Nós sabemos quem você é. O que você é.

Não sei do que está falando!

Não se faça de tímido comigo, não há tempo. Você é um Assassino. Você tem algo que meus chefes querem. Escondido aí dentro dessa sua cabeça.

Desgraçados!

Em poucos meses, minha vida mudou para sempre. Eu sei que meus dias mais tranqüilos já se foram. Mas não os quero de volta. Não agora.

Meu nome é Desmond Miles... E eu sou um Assassino.

Eu SOU um Assassino.

Notas finais
Por favor, deixem comentários. Críticas e sugestões são sempre bem vindas. Obrigada.