A Rosa de Masyaf

Erro

Através dos olhos de Ezio, Desmond assiste aos dias passarem em Constantinopla. O poder da Irmandade é lentamente restabelecido, esconderijos são recuperados, assassinos são recrutados e inimigos são mortos. Com objetivos próximos aos do príncipe Suleiman, o Mentor trabalha sob as direções do nobre, matando um alvo que não deveria morrer e então planejando uma viagem até Capadócia para reparar o erro. Antes de partir, o italiano decide visitar Sofia, aproveitar um pouco a companhia da bela e fascinante veneziana antes da longa jornada.

Ao entrar na livraria de Sofia, porém, Ezio é surpreendido com uma situação curiosa. A bela Sartor se encontra em sua mesa, lidando com alguns papéis. Ao lado dela, sentada em uma cadeira próxima, se encontra Anna, lendo. Curioso, o assassino se aproxima, mas sua presença não é percebida por nenhuma das mulheres. A jovem Auditore para a leitura e fecha o livro, dirigindo um suave sorriso para a mais velha.

– Mandarei esse livro para Antonio. – Anna diz – Tenho certeza de que ele irá gostar.

Antes que Sofia possa responder, a voz de Ezio captura a atenção das duas.

– Há uma grande chance de isso acontecer. – ele comenta com um fraco sorriso.

– Ezio! – Sofia chama se levantando e caminhando até o italiano – Bem vindo de volta!

– Eu farei uma viagem em breve, mas antes pensei em passar aqui para vê-la, Sofia. – um sorriso carregado de charme é oferecido pelo Mentor à livreira. Sofia sorri de volta em um misto de embaraço e lisonjeio. Anna percebe o pequeno flerte e apenas revira os olhos, colocando o livro que estava lendo em cima da mesa – E o que você faz aqui,piccola? – a pergunta é dirigida à Anna enquanto Ezio se afasta de Sofia e se aproxima da filha.

– Eu disse que não me envolveria em nenhum assunto da Irmandade, a menos que estivesse relacionado com as chaves de Masyaf. – a jovem Auditore responde – Portanto, tenho que achar com o que ocupar meu tempo livre, certo, padre?

– Pai?! – Sofia repete confusa e então olha para o Mentor – Você não me disse que tinha uma filha, Ezio.

Com a visão periférica, Ezio vê Anna tentando segurar o riso.

Mi dispiace, Sofia. – o Auditore pede – Anna é realmente minha filha.

– Então você é casado? – a livreira questiona e o barulho de Anna engasgando tentando conter a própria risada ecoa pelo lugar.

– Não, eu não sou casado.

Sofia parece pouco convencida e um suspiro exasperado escapa por entre os lábios de Ezio. Engolindo a risada, Anna se levanta e se aproxima do pai, mas mantendo o olhar na veneziana.

– Ele não é casado, Madonna Sofia. – a ladra diz.

– E sua mãe...?

Mia madre vive em Roma. – Anna responde, interrompendo a pergunta de Sofia – Ela e meu pai tiveram um... Caso... Quando jovens, que acabou resultando em mim. Mas eles nunca foram casados. – percebendo o olhar incrédulo que Sartor dirige à Ezio, a ladra respira fundo e decide deixar os dois a sós – Eu vou indo. Yusuf prometeu me ensinar a correr pelos telhados com a bico-de-águia. Voltarei mais tarde para pegar o livro,Madonna. – Anna se vira para Ezio e as sobrancelhas do assassino se juntam quando ele percebe os cantos da boca da filha tremerem no esforço para não sorrirem – Padre.

– Ezio? – Sofia chama após Anna deixar a livraria. A única palavra já é um extenso pedido por explicações.

– Ela disse a verdade. – Il Mentore responde – Eu conheci a mãe dela, Rosa, durante o tempo em que eu morei em Veneza muitos anos atrás. Sendo jovens e dados a atitudesapaixonadas, nós nos envolvemos.

– E então Anna nasceu. – Sofia completa.

. – Ezio confirma com um sorriso – Mas eu só fui saber sobre isso quinze anosdepois.

– O quê? Por quê? – a desconfiança deixa as feições da veneziana, dando lugar à surpresa e à curiosidade.

– Por causa da minha vida. – Ezio responde e o sorriso desaparece dos lábios do assassino – Rosa não queria que Anna fizesse parte da vida que eu tenho e, honestamente, eu entendo isso.

– Você ainda mantém contato com ela?

. – Ezio responde voltando a sorrir – Rosa é uma amiga querida e uma valiosa aliada.

Sofia sorri mais calma e se aproxima. Em silêncio, Ezio estica a mão, envolvendo a palma da veneziana. Olhares são trocados e mais nenhuma palavra precisa ser dita.

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Ao retornar para o esconderijo em Gálata em ordem de arrumar os últimos preparativos, Ezio vê Yusuf e Anna correndo pelos telhados e deslizando pelas tirolesas. A risada de ambos ecoando pelo vento faz com que um sorriso nasça nos lábios de Il Mentore. Após tantos anos, Ezio se sente satisfeito ao ver que a filha parece começar aaceitar a Irmandade.

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Ao deixar as memórias do Auditore, Desmond é surpreendido por uma súbita pergunta vinda do Sujeito 16:

– Você se arrepende de alguma coisa, Desmond?

– Como o quê? – o ex-bartender questiona se virando para o outro rapaz.

– Fugir. – Clay responde – Deixar seus pais e sua irmã para trás. Achar um emprego inútil e fingir que é produtivo. Como é passar sua vida inteira evitando as decisões difíceis? – há desafio na voz do assassino.

– Qual é. – Desmond diz tentando se afastar, mas tendo o caminho bloqueado por Kaczmarek.

– Você é um assassino, claro. – o loiro continua a pressionar – Mas não foi sua escolha.

– Você tem um ponto?

– Eu quero saber se você se arrepende de alguma coisa.

– Claro. – o mais novo responde ficando de costas e dando alguns passos sobre a areia – Eu gostaria de ter sido mais paciente com meus pais, queria ter escutado. E Lucy... Talvez as coisas tivessem sido diferentes se eu... Não tenho certeza.

– Obrigado.

– Pelo quê? – Desmond questiona voltando o olhar escuro para o mais velho.

– Por fazer sentido. – a voz de Dezesseis suaviza e ele abaixa o rosto, parecendo prestes a sumir, mas mudando de ideia no último minuto – Ela falava sobre você, sabia? Sophie. – ele completa voltando a levantar o olhar azul.

– Falava? – há ceticismo e esperança na voz do ex-bartender.

– Eu soube pelos outros assassinos que Sophie tinha um irmão. – Clay começa a explicar – Um irmão que tinha fugido anos antes. Então, um dia, eu perguntei a ela sobre você. Se ela guardava alguma mágoa de você. – um pequeno sorriso surge nos lábios do assassino ao perceber como suas palavras deixam Desmond ansioso.

– E o que ela disse?

– Que ela não guardava nenhuma mágoa. – uma pausa – Na verdade, ela me disse que parte dela ficou feliz por você ter fugido. Por você não ter que viver essa vida.

– Que vida? Do que ela estava falando?

– Saia daqui e pergunte para ela. – Clay responde e desaparece.

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Ao retornar de Capadócia após um tenso encontro com o tio de Suleiman e Grão-Mestre Templário, Ahmet, Ezio imediatamente se dirige para a livraria de Sofia. O auge da discussão com Ahmet havia sido a ameaça feita pelo príncipe à Sofia e o Auditore não está disposto a deixar que o templário tenha alguma chance de cumpri-la.

Entretanto, ao chegar à livraria, Ezio é recepcionado por um dos membros da Ordem. A posição rígida e controlada e os olhos vermelhos do rapaz fazem com que medo se infiltre no coração do Mentor. O italiano entra no estabelecimento, encontrando-o bagunçado, como se uma intensa luta tivesse acontecido ali. Ezio procura por Sofia, mas ao invés da veneziana, é Yusuf que ele encontra.

O jovem assassino se encontra sobre um comprido banco, uma adaga fincada nas costas. Sentindo a dor e a raiva se misturarem ao sangue, o Auditore se aproxima do amigo, retirando a lâmina e lendo o bilhete deixado junto a ela. Yusuf é deitado sobre a pedra e tem os olhos fechados.

– Você ganhou seu descanso merecido, irmão. – Ezio diz – Requiescat in pace.

Um ponto escuro chama a atenção do Mentor e, ao virar o rosto para ver melhor, Ezio encontra Anna caída no chão. Rapidamente, o Auditore se aproxima da filha, pegando-a e apoiando-a contra seu próprio corpo. Sobre o tecido negro da roupa da ladra, Ezio sente o sangue escapar dos ferimentos. Na face jovem, vermelho marca a pele macia.

Sincronizado, Desmond é capaz de sentir o desespero que congela o coração do experiente assassino e seu próprio coração. O ex-bartender se vê chamando pela ladra juntamente com Ezio, seu medo tão palpável quanto o do italiano.

– Anna! – Il Mentore chama – Anna!

– Hm... – um baixo gemido é toda a resposta que Ezio consegue, mas é o suficiente para acalmá-lo. E a Desmond também. Anna está viva.

O líder dos Assassinos olha para cima e encontra diversos irmãos o observando. Respirando fundo, ele volta a deitar a filha no chão, deixando-a sob os cuidados de uma assassina. Olhando nas faces conhecidas com convicção, o italiano diz:

– Irmãos. Irmãs. A cidade toda se levanta contra nós enquanto o assassino de Yusuf espera no arsenal, observando e rindo. Lutem comigo e mostrem para ele o que acontece quando se opõem aos Assassinos! – todos assentem e o mentor se vira para a assassina que se encontra verificando os ferimentos de Anna – Cuide dela. – Ezio ordena.

– É claro, Mentor.

Assim, Ezio e os assassinos seguem para o Arsenal onde uma sangrenta busca por Ahmet acontece. O Auditore consegue encontrar o príncipe, mas segura sua lâmina pelo bem de descobrir onde Sofia está. Ahmet propõe uma troca: as chaves de Masyaf por Sofia. Não há como Ezio não aceitar. Após uma breve conversa com Suleiman, que se encontrava escondido ouvindo a tudo, o Auditore se dirige com os assassinos para a Torre de Gálata na esperança de resgatar Sofia.

Ao chegar à Torre, Ezio entrega as chaves, mas Ahmet havia preparado uma armadilha. O Auditore escala até o topo pensando ser Sofia quem ele vê lá em cima sendo segurada por guarda, mas ao chegar ele vê o engano que cometeu. O Mentor mata o guarda e solta a prisioneira, percebendo então, lá embaixo, Sofia pendurada em uma árvore com uma corda no pescoço.

Usando um dos paraquedas projetados por Da Vinci, Ezio salta da Torre e chega até Sofia a tempo de soltá-la e evitar que ela morra sufocada. A partir desse momento, uma longa perseguição à Ahmet acontece e durante todo o processo, Ezio tem o auxílio de Sofia.

Depois de cair de paraquedas de um desfiladeiro com Ahmet o segurando pela perna, Ezio consegue recuperar as chaves de Masyaf e encurralar o príncipe. Porém é nesse momento que Selim, irmão mais velho de Ahmet e pai de Suleiman aparece e mata o irmão. Ezio tenta atacá-lo, mas é parado por Sofia. Selim aproveita a ocasião e deixa claro que se fosse por Suleiman, o Mentor seria morto naquele exato momento, mas que ele deve deixar Constantinopla e nunca mais voltar.

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Escuridão toma conta da mente de Desmond por um momento até que começa a se dissipar. O assassino pisca algumas vezes sentindo o corpo dolorido e a cabeça apoiada em algo macio. Ele sente dedos contornarem sua face e levanta o olhar, encontrando os olhos calmos e o sorriso carinhoso de Sofia.

Madonna? – ele questiona e ao ouvir a própria voz, percebe que, dessa vez, está sincronizado com Anna.

– Como se sente? – a veneziana mais velha questiona em um tom suave.

– Bem. – a ladra responde e olha para o lado, encontrando Ezio sentado e mostrando a sacola onde as chaves de Masyaf estão guardadas.

– Vamos para Masyaf? – o Mentor responde sorrindo e segurando a mão da filha.

Anna apenas assente e aperta a mão que envolve seus dedos. Ansiedade e alivio brigam no coração da jovem veneziana. Finalmente ela irá para o castelo de Altaïr. Será que uma vez lá, ela poderá encontrar o que o antigo Mestre Assassino tanto tem tentado mostrar para ela?

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Desmond retorna para a Ilha do Animus, mas a encontra se desfazendo em pequenos pontos brilhantes, sumindo. A poucos passos de onde ele se encontra, está Clay. Dezesseis abre os braços, mostrando tudo o que está acontecendo.

– Está vindo... – ele diz, a perna direita brilhando tanto quanto o resto da ilha.

– O que é isso? O que está havendo?! – o ex-bartender pergunta.

– Isso é o fim, Desmond. O apagamento estava agendado. – Clay explica e ao redor deles tudo começa a brilhar mais, a desaparecer mais.

Dezesseis corre e abraça Desmond com força. Pego de surpresa, o mais novo não sabe como reagir.

– O que está fazendo?! – ele questiona.

– O que é um homem, além da soma de suas memórias?! Nós somos as histórias que vivemos! Os contos que nós mesmos contamos! (1) – é a resposta dada por Clay. O brilho no corpo do mais velho começa a se espalhar e ele começa a sumir.

– Não faça isso! – Desmond pede.

– Eu estou te salvando, seu idiota! Vai! – e antes de empurrar Desmond em direção ao portal, Clay sussurra – Diga a Sophie que eu fico feliz por ela ter sobrevivido. – ele empurra o ex-bartender mantendo-o em um círculo de luz que o protege – VAI! – é a última coisa que Dezesseis grita antes de sumir por completo.

Sem alternativa, Desmond volta a passar pelo portal e a sincronizar com seus antepassados.

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Dessa vez, Desmond encontra Ezio em Masyaf, acompanhado por Sofia e Anna. Os três sobem as escadas que levam à entrada da fortaleza e, no caminho, o Auditore explica sobre Altaïr, o castelo e os assassinos.

– Você mencionou um Credo mais cedo. – Sofia comenta – O que ele diz?

– Nada é verdade. Tudo é permitido. – Ezio responde e compartilha um sorriso com Anna.

– Isso é bem cínico. – a livreira diz.

– Seria se fosse uma doutrina. Mas é apenas uma observação da natureza da realidade. – o Mentor explica – Dizer que nada é verdade, é perceber que as fundações da sociedade são frágeis e que devemos ser os pastores de nossa própria civilização. Dizer que tudo é permitido, é entender que somos os arquitetos de nossas ações e que devemos viver com suas consequências, sejam elas gloriosas ou trágicas. (2)

O trio entra na fortaleza e enquanto ouve Sofia, Ezio observa a atenção com que Anna analisa ao redor, como se estivesse absorvendo cada detalhe e cada sensação provocada pelo lugar.

– Arrepende-se de sua decisão? De viver como um assassino por tanto tempo? – Sofia pergunta e as palavras da italiana trazem a atenção de Anna de volta ao pai. Il Mentore percebe isso e também o eco das perguntas feitas pela ladra há muitos anos.

– Não me lembro de ter tomado essa decisão. Essa vida... Ela me escolheu. – Ezio responde olhando nos olhos azuis de Anna – Durante trinta anos, servi a memória de meu pai e de meus irmãos e lutei por aqueles que sofriam a dor da injustiça. – enquanto o assassino fala, Sofia percebe que a resposta para sua pergunta não é dirigida a ela, mas não se atreve a interromper. Ela sente que há algo especial nessas palavras, uma ligação entre Ezio e Anna — Não me arrependo desse tempo, mas já é hora de viver por mim mesmo e esquecê-los. Esquecer tudo isso.

Anna sorri e volta a caminhar, seguindo por um corredor lateral até a entrada de uma escadaria que leva para os andares inferiores da fortaleza. Ezio e Sofia a seguem.

– Então esqueça. – Sofia diz tocando o pulso do assassino – Vai ficar tudo bem.

Eles seguem pelas escadas até uma porta e através dela por mais escadas até encontrarem a porta da biblioteca de Altaïr. Anna se aproxima e toca o metal, contornando os desenhos esculpidos. O Auditore percebe que o corpo da filha treme levemente.

– O fim da jornada. – Ezio diz e Anna dá um passo para trás.

– O que vocês esperam encontrar atrás dessa porta? – Sofia questiona enquanto observa o italiano colocar as chaves nos locais certos.

– Respostas. – Anna responde.

– Conhecimento acima de tudo. – é a resposta de Ezio – Altaïr era um homem culto e um ávido escritor. Ele construiu esse lugar como um depósito para toda sua sabedoria. Ele viu muitas coisas em sua vida e descobriu muitos segredos, tanto perturbadores quanto estranhos. Um conhecimento que levaria homens comuns ao desespero.

– Isso não o preocupa? – Sofia pergunta.

– Sofia, já deveria saber. Eu não sou um homem comum. – Ezio responde fazendo a filha rir.

A porta é aberta e o Mentor se aproxima de Sofia para se despedir.

– É melhor você sair daí de dentro vivo. – a livreira diz tocando o peito do assassino – Vocês dois. – ela acrescenta olhando para Anna.

Ezio e Anna, então, seguem para a biblioteca lado a lado. O mais velho carrega uma tocha e, com ela, acende o caminho. Ao finalmente atingirem a biblioteca propriamente dita, pai e filha tem uma surpresa.

– Nada de livros... Nem sabedoria... – Ezio diz se aproximando da cadeira colocada no centro, onde um esqueleto com as vestes de um assassino descansa – Apenas você,fratello mio. – o Auditore se ajoelha e, ao seu lado, ele pode ouvir os soluços de Anna -Requiescat in pace, Altaïr. – Il Mentore pega a última chave, que começa a brilhar intensamente revelando a última memória do grande Altaïr.

Quando a memória de Altaïr se despedindo do filho e escondendo a Maçã se esvanece, Ezio segue até onde ele viu que o antigo assassino escondeu seu Pedaço do Éden. Por um breve momento, o assassino tem vontade de tocar a Maçã, mas se controla.

– Não. Você fica aqui. – ele diz, chamando a atenção de Anna, que se encontra ajoelhada aos pés do esqueleto de Altaïr, marcas de lágrimas desenhadas na face jovem – Já vi coisas suficientes para uma vida inteira. – o artefato começa a brilhar, envolvendo todo o lugar em sua luz dourada – Desmond? – Ezio chama.

Ele está falando comigo? O assassino moderno pensa surpreso.

– Já ouvi seu nome uma vez antes, Desmond, há muito tempo. E agora ele fica na minha mente como a imagem de um sonho antigo. Não sei onde você está ou de que modo pode me ouvir, mas eu sei que está me ouvindo. – o Auditore começa a se desfazer de sua armadura e de suas armas, deixando-as no chão – Vivi minha vida da melhor maneira possível, sem conhecer seu propósito, sendo arrastado para frente, como uma mariposa em direção a uma lua distante. E aqui, finalmente descubro uma verdade estranha. Que sou apenas um condutor de uma mensagem que ilude minha compreensão. Quem somos nós, que fomos abençoados de tal forma a compartilhar nossas histórias dessa maneira? A falar através dos séculos? Talvez você responda todas as perguntas que fiz. Talvez você seja aquele que fará esse sofrimento valer algo no final.

– Desmond? – Anna questiona familiar demais com o nome.

A ladra se levanta e caminha até onde o pai está, próximo ao compartimento que guarda a Maçã. Ezio faz menção de explicar, de dizer onde ouviu esse nome e por que diz tudo o que diz, mas Anna não espera para ouvir. A veneziana estica a mão, pegando a Maçã. Nesse momento, o brilho aumenta e Desmond sente como se agora fizesse parte de tudo isso e não estivesse como um mero espectador. Ele olha para frente, voltando a olhar para a face que o tem assombrado desde Monteriggioni. A face que é ao mesmo tempo igual e diferente da de Sophie. Mas Anna não é Sophie. As duas são muito diferentes, Desmond percebe isso agora.

– Você. – a ladra diz – Tem sido sempre você. – ela faz uma pausa e o ex-bartender tenta questionar, mas perde a oportunidade – Todo esse tempo, era a você que ele queria me levar. – as palavras de Anna apenas confundem Desmond. A italiana olha para a Maçã e em seguida de volta para o assassino – O que eu vi... O que eu deveria achar e mostrar a você... Ainda não é agora. Mas você deveria saber que isso nunca vai parar.

– O que...? – Desmond começa a perguntar, a mão erguida e tocando a Maçã. Ao sentir o metal do artefato, todas as palavras morrem nos lábios do assassino.

– Isso nunca vai parar. – Anna repete – Essa guerra nunca vai terminar, mas você tem uma escolha. Todos têm. E algumas escolhas levam a caminhos que não estavam programados, a trilhas que não foram vistas. Escolhas constroem a realidade, Desmond. Você abriu a metade de um caminho. E, talvez, agora a outra parte se abra.

– Do que você está falando? – Desmond pergunta, mas uma onda de energia deixa a Maçã acompanhada de uma voz.

– Não! – a voz diz e Desmond a reconhece. Ele já a ouviu antes. Em Monteriggioni e depois no Coliseu. Juno. – Isso não estava programado! – ela diz – Isso não foi previsto!

– Alguns erros são bons. – Anna diz voltando a atrair a atenção do assassino moderno e um medo frio invade o peito de Desmond quando ele vê as linhas vermelhas que escapam do nariz e por entre os lábios de Anna – Mas erros sempre sofrem. – a ladra se desequilibra e Desmond a segura. Pela primeira vez, ele pode tocá-la. – Construa seu destino, Desmond, sem medo. – ela diz com a cabeça apoiada no ombro do rapaz – Siga em frente. E, quando o momento chegar, eu vou te mostrar o caminho.

A Maçã escapa dos dedos de Anna e ela cai. Imediatamente, a luz some e Ezio corre até a filha. Atônito, Desmond pode apenas observar enquanto o Auditore envolve a ladra nos braços e um fantasma de branco se aproxima.

Mi dispiace. – Anna pede tentando sorrir para Ezio – Diga à madre que ela estava certa, eu não vou voltar para casa. – lágrimas caem dos olhos do Auditore direto na face da veneziana e se misturam as que ela mesma deixa cair – Mas diga a ela que eu a amo. Eu amo vocês dois, padre. – os olhos de Anna se fecham e o Mentor abraça a filha com força.

Requiescat in pace, Anna. – ele sussurra contra o cabelo negro.

O fantasma de branco toca o ombro de Ezio em um toque reconfortante e então se dirige até o ex-bartender. O Filho de Ninguém (3) também toca o ombro de Desmond.

– A mensagem para você ainda não foi totalmente entregue. – Altaïr diz.

Um segundo depois, a biblioteca some e Desmond se encontra conversando com um homem da primeira civilização. Júpiter. Esse homem mostra o destino que acometeu a Terra muitos milênios atrás, deixando-a destruída e praticamente desabitada. Ele pede para que Desmond siga até onde eles, da primeira civilização, trabalharam e falharam e, ao mesmo tempo, ele mostra onde esse lugar fica. Ele mostra o caminho.

E Desmond o segue.

Notas finais
(1) Eu absolutamente adoro essa fala do Clay. Na verdade, Revelações fez com que Dezesseis se tornasse um dos meus personagens preferidos de AC. Ainda mais depois que joguei a DLC 'Os Arquivos Perdidos'. Alguém já jogou? (2) Segunda melhor fala desse jogo. Excelente reflexão e explicação sobre o Credo dos Assassinos. (3) Eu li que o sobrenome do Altaïr pode ser traduzido como 'Filho de Ninguém'. Por favor, deixem comentários. Críticas e sugestões são sempre bem vindas. Obrigada.