A Roda Da Fortuna
1 Capítulo 1
QUANDO SE CONSEGUE ESCAPAR DA LINHA TÊNUE que divide a vida e a morte, as pessoas costumam dizer que você passa a valorizar sua vida mais do que nunca... Bom, isso não funcionou comigo; não funcionou depois das centenas de sonhos em que eu morria de diferentes formas, e muito menos depois que eu sofri um acidente na escada da minha ‘nova’ casa em St. Claire, Geórgia.
Não bastasse eu estar com uma p*ta dor de cabeça desde que acordei de um coma de dois meses, eu ainda tinha que descobrir que estou com um quadro de amnésia retrógrada — isso significa que consigo me lembrar perfeitamente da minha infância, das tretas que passei na adolescência e de toda aquela conversa de responsabilidade que rola quando você decide se mudar para o seu próprio teto... Mas os últimos quinze meses eram um completo borrão. Era como acordar com a dor de mil ressacas de uma só vez, numa única manhã. E pior que isso, foi descobrir que estou de noivado marcado com um cara que não faço ideia de quem seja, já que ele não se deu ao trabalho de vir me visitar no hospital.
Meus pais faleceram quando eu tinha dezesseis anos, mas antes de sofrerem o acidente que tirou suas vidas, fizeram questão de mostrar um rápido vislumbre de como casamento definitivamente não foi algo feito para mim. Até hoje acredito que o quê os fez baterem o carro foi uma discussão sinistra, do tipo que eu e minha irmã — gêmea — Melissa presenciávamos todos os dias, quando morávamos juntos em uma casa de grama verde e cerca branca em Gainesville, Geórgia.
Desde aquele dia, prometi a mim mesma que nunca amaria nenhum cara, nem me casaria — assim, quem sabe, eu estava pelo menos protegida de morte por discutir-em-um-carro-à-120km/h... Dito isso, alguém naquele lugar fedido a álcool e morte poderia me explicar o porquê de eu ter mudado de opinião em tão pouco tempo? Melissa não era uma opção; ela se negou a dar detalhes do que acontecera nos últimos quinze meses, além do fato de eu estar prestes a me noivar...
Sempre detestei quando alguém próximo mantinha segredos. E descobri que eu era capaz de detestar mais, pelo simples fato de que o quê estava escondendo... Era sobre mim.
Diane Burnett se revirou no banco desconfortável do táxi quando uma trovoada soou e interrompeu sua linha de pensamento... O veículo estava parado na longa avenida principal, a caminho de sua até então desconhecida residência no subúrbio de St. Claire, Bradford. E era inegável que, depois de tanto tempo no hospital, tudo o que Diane mais queria naquele momento... Era chegar em casa.
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