EM GERAL, AS PEQUENAS CASAS DE MADEIRA DO subúrbio de Bradford, St. Claire, não pareciam pertencer a famílias de classe média; todos os gramados eram perfeitamente aparados, não havia uma única erva daninha nos arbustos dos jardins e as janelas cintilavam de tão limpas... Mas por alguma razão, esta regra não se aplicava a residência onde o táxi estacionara. Diane bateu a porta do veículo, enquanto analisava a minúscula moradia de dois andares, feita de madeira branca, abarrotada de janelas — provavelmente a casa mais feia do bairro. O gramado seco em volta da residência se confundia com o gramado esverdeado e perfeito dos vizinhos, como se o Outono só tivesse chegado a casa delas.

Adentrando a casa, Diane reprimiu a vontade de analisar a mobília; estava exausta demais para fazer qualquer coisa que não fosse naufragar em sua cama. Subiu os degraus da escada dupla, cautelosa — passara a detestar subir e descer degraus depois do acidente —, deparando-se com um pequeno hall com três portas, as quais ela imaginou darem para o banheiro e os dois quartos. Melissa abriu a porta do quarto de Diane, em silêncio, e lançou um olhar curioso no aposento, como quem só vira aquele lugar raras vezes na vida. Em seguida, se afastou para dar passagem à irmã, se despedindo com um sorriso de cansaço e voltando para o andar inferior.

Por uma grande janela, o céu completamente alvejado e coberto de nuvens iluminava o aposento, que era definitivamente menor que o quarto de Diane na antiga casa de seus pais. Esgotada, tirou os sapatos e os colocou num amontoado de vários outros. Parou frente a sua cômoda e analisou uma pilha de diários velhos, amarrados com nós cegos, um notebook, e um anel, onde um diamante cintilava sobre: sua aliança de compromisso.

Diane colocou o anel em seu dedo e analisou a mão com um olhar crítico; ainda estava tentando se acostumar com a ideia de estar prestes a se noivar... e o primeiro passo para isso, era usar a aliança.



— ME PASSA O SAL? — MELISSA QUEBROU O SILÊNCIO QUE SE SEGUIU durante todo o almoço com Diane. Até então, ambas permaneceram caladas enquanto saboreavam suas respectivas fatias de lasanha, lentamente, quase com cautela, como se esperassem encontrar um espinho entre as camadas de macarrão e molho bolonhesa. Sem ânimo, Diane empurrou o saleiro com uma das mãos e cruzou os braços sobre a mesa.



— Sal na lasanha? — provocou ela. Melissa a encarou por um segundo, enquanto engolia ainda mais lentamente do que mastigava — Escute, eu já vou voltar pro meu quarto, então... se tiver algo pra me falar, é melhor falar agora.

— Eu só pedi para passar o sal, não quer dizer que eu quero te contar alguma coisa — protestou Melissa, azeda.

— Tsc, por favor, Melissa... Se tem uma coisa que eu não me esqueci, é o quanto você é previsível — Diane revirou os olhos e sorriu por um segundo, como se não tivesse acabado de cuspir uma ofensa — Você fez lasanha, para nós duas. Você só faz comida para mim quando quer me contar alguma coisa...

Melissa abandonou o garfo sobre a mesa, provocando um barulho metálico perturbador. Apanhou um guardanapo e limpou os lábios completamente limpos, soltando um suspiro de preocupação enquanto evitava encarar a irmã.

— Se lembra de quando estávamos no hospital e você me perguntou por que Michael não foi te visitar? — perguntou ela, depois de alguns segundos em silêncio. Diane franziu a sobrancelha, desinteressada em qualquer coisa que envolvesse Michael e o seu noivado com ele em duas semanas — Bom... a verdade é que... ele não sabe que você sofreu esse acidente.

Uma ruga fincou a testa de Diane.

— Como é?! — exclamou ela, seu tom de voz se elevando — Espera... está me dizendo que não contou a ele?

— Eu disse a ele que você foi visitar nossa tia, na Geórgia, mas que saiu com pressa e acabou esquecendo o celular... bom, parece que ele acreditou.

— Melissa...? — pronunciou Diane, mas fez uma pausa ao notar que sua voz havia falhado; ainda estava tentando processar o fato de que sua irmã havia escondido-a do mundo durante dois meses, como se o fato dela ter se acidentado a tornasse uma vagabunda ou algo do tipo — Por que você fez isso? Se alguém tinha direito de saber onde eu estava, era ele, não?

— Eu sabia que você seria forte e que se recuperaria rápido — Melissa interrompeu, tentando explicar seus motivos — Quero dizer, vocês dois estavam tão ansiosos para essa festa de noivado... Ia ser péssimo se tivessem que entregar outros convites, remarcar outra data, buffet, decoração... Tem parentes dele que estão vindo da Inglaterra só para ver essa cerimônia! Sei que você está fula agora, mas quando se recuperar, vai me agradecer.

— Será? — cortou Diane, seu tom de voz propositalmente sarcástico.

Melissa entortou o lábio, as sobrancelhas arqueadas denunciando sua insatisfação.

— Na hora eu não pensei muito nas consequências, mas... é isso que todos estão pensando que aconteceu... — Melissa fez uma pausa, arfou e fez uma careta que enrugou sua testa — É por isso que eu preciso que você me prometa que vai manter esse acidente e essa história de amnésia retrógrada em segredo... E se alguém disser que te viu no hospital, negue e diga que era outra pessoa...

Diane sentiu um soco no pâncreas, enquanto seu cérebro se recusava a continuar processando as insanidades que saíam da boca de Melissa; sua irmã estava mesmo pedindo para que ela mentisse para manter a mentira que ela contara? Que ela fingisse que se lembrava de tudo e de todos, quando ela mal sabia reconhecer qual era sua escova de dente?

— Diane? — Melissa cobrou, tentando acordar a irmã de seu estado de transe — Prometa que vai manter isso em segredo...

Nos olhos verde-esmeralda da irmã, Diane pode ver expectativa, receio e até mesmo medo... Mas não foi capaz de notar o mínimo de sinceridade. Ela não conseguia se convencer de que a irmã havia mentido para meio-mundo a preço de manter a data marcada da festa de noivado — não que Diane achasse que a irmã não faria algum sacrifício para que a festa ocorresse bem, mas aquilo tudo parecia absurdo demais...

Mas antes que Diane pudesse ceder ao impulso de voltar para o seu quarto, um ruído soou vindo da sala de estar... alguém estava batendo na porta. Melissa estava tão tensa esperando por uma resposta da irmã, que demorou alguns segundos até abandonar o assento e ir abrir a porta.

— Lee... — cumprimentou Melissa, ao ver quem estava em sua varanda.

— Hey... — o rapaz abriu um belo sorriso — Vi o táxi parando aí na frente e... Têm como você me emprestar duas cervejas? O bar da esquina está fechado, e daqui a pouco começa o jogo.

— Ahn... claro, pode entrar — Melissa deu passagem para Lee adentrar a casa.

Ao fechar a porta, Melissa recebeu um breve beijo de Lee — um cara alto e moreno, o cabelo escuro emoldurando o rosto malicioso —, que depois se encaminhou até a cozinha, abriu a geladeira sem cerimônias e pegou as cervejas que queria, enquanto murmurava algo sobre o dono do bar da esquina não gostar de trabalhar.

Diane fitou o estranho por cima do ombro, enquanto ele se curvava em uma pose quase sensual para alcançar as bebidas. Aproveitou que Melissa estava se distraindo com a paisagem e levantou em silêncio, a fim de voltar para o quarto, mas foi surpreendida quando Lee a cumprimentou, enquanto fechava a geladeira com o pé, segurando duas garrafas de Heineken.

— E aí, Diane, como foi a viagem? — perguntou ele, como se eles se conhecessem há tempos. Diane o encarou com uma careta esnobe, camuflando o fato de que seu rosto malicioso não lhe ser familiar. Sentiu Melissa gelar ao seu lado, como se ela tivesse acabado de apontar uma arma em sua direção... Houve alguns segundos de silêncio mortal.

— Simplesmente inacreditável — respondeu, por fim, em tom sarcástico, lançando um olhar de reprovação em Melissa e abandonando a cozinha a passos largos... Pode ouvir Lee perguntar a Melissa o que dera nela, mas não se importou; sua quota de paciência já havia sido prontamente consumida em uma única tarde.