A Receita Secreta do Amor
3 Você e ele estão...?
Os turnos em novembro ficam mais cansativos, o comércio fica mais movimentado por promoções que antecipam a Black Friday. A maior parte dos clientes nas mesas fala de promoções que eles ainda não acham boas o suficiente e eu ando muito cansada. Mentalmente cansada de tentar lembrar se quem pediu suco foi ele ou ela, se o cappuccino da mesa 12 era mesmo sem chocolate…
Ao menos os negócios vão bem. Comecei a receber várias encomendas de sobremesas para confraternizações no final do ano, e isso deve gerar uma boa reserva. Alguns clientes inclusive são indicações de Gustavo. Ele passou pelo café em sua última folga para me ver, Rebeca me disse que ele faz mesmo isso. Chegou, conversou um pouco, tomou café, foi embora e gerou muitos comentários de Evelyn e Priscila.
É sábado, nosso turno é mais curto hoje, já está quase acabando, e eu estou um tanto ansiosa. Tento fingir que não sei o porquê, mas provavelmente tem algo a ver com ajudar Heitor a fazer compras. Toda vez que o sininho toca, eu olho para saber se é ele quem entra. Em uma dessas vezes, vejo Arthur entrar na cafeteria.
— Arthur! – O chamo indo até ele. Hoje compreendo esse modo com que Heitor fazia isso, o ajudava a saber que já estávamos indo em sua direção. – Como vai?
— Menina Amélia! – Ele estende a mão para mim, eu o cumprimento como sempre. – Estou bem. E você está com uma voz mais animada hoje.
— Mesmo? Devo estar empolgada com o final do ano.
Eu o guio para uma mesa perto da climatização, como sempre, e faço seu pedido. Atendo também outros clientes enquanto preparam o pão na chapa com cappuccino e levo os itens para ele assim que está pronto.
— Prontinho, Arthur!
— Está com um cheiro delicioso.
Estou colocando seus itens na mesa quando o sininho toca novamente. Dessa vez sim é Heitor. Sorrio ao vê-lo entrar e olhar para os lados me procurando.
— Seu amigo acabou de chegar.
— Quem? – Arthur me perguntou.
— Heitor! – Eu chamo.
Os olhos de Heitor me encontram e ele sorri, mas se surpreende e ri quando vê que estou atendendo Arthur.
— Heitor? – Arthur quer confirmar, ele abre um sorriso.
— Quanto tempo, meu amigo! – Heitor se aproxima e Arthur se levanta para cumprimentá-lo.
Eu gosto de quem consegue preservar com carinho uma amizade verdadeira. Acho bonito o como eles se cumprimentam. Arthur volta a se sentar, ele não precisa de ajuda, mas seguro sua cadeira só para garantir.
— Sente comigo! Quero saber do seu novo trabalho. – Arthur parece fazer questão.
— Nós temos tempo? – Heitor olha para mim para confirmar.
— Temos! – Eu respondo e ele logo vai se sentando. – Eu saio em alguns minutos.
Volto a servir os itens na mesa de Arthur.
— Você precisa me passar seu número, Heitor, para não perdermos contato. – Arthur o pede.
— Claro!
O senhor pega o celular em seu bolso, pronto para anotar.
— Antes de continuarem, – eu interrompo – Arthur, agora utilizamos sachês de açúcar.
— Tiraram o açucareiro?
— Sim. Havia muito desperdício das pessoas molhando a colher em café e suco e depois devolvendo no açúcar. – Eu explico. – Mas os sachês estão em um recipiente quadrado às nove horas, junto dos sachês de sal, adoçante e os palitos de dente. – Observo a mão dele tocar o recipiente, é assim que tenho certeza de que ele sabe onde está. Aparentemente, ele também já sabe diferenciar cada coisa pelo tato. – O restante está como sempre!
— Obrigado, Amélia.
Quando ele me agradece, percebo o olhar de Heitor sobre mim. É como se ele estivesse me reconhecendo de outro lugar, ou vendo algo muito curioso.
— Tudo bem? – Pergunto.
— Tudo! – Ele sorri e balança a cabeça. – E você? Eu nem perguntei.
— Eu estou bem! O senhor deseja um cardápio? Talvez pedir algo?
Heitor ri.
— Hoje não vou querer nada, obrigado.
— Então com licença.
Os deixo enquanto acaba meu expediente. A cafeteria está funcionando até mais tarde, Priscila é quem tem cuidado do horário da noite, então vou para os fundos do café me trocar enquanto eles ainda conversam.
Depois de pronta, volto para a frente do café. Arthur já pagou a conta, está em pé perto do balcão conversando com Heitor, que sorri ao me ver.
— Ah, ela chegou. – Heitor avisa.
— Aonde vocês vão? – Arthur parece curioso.
— Eu sou muito ruim em escolher presentes de natal, Amélia vai ao shopping comigo me ajudar.
— Deixe ela escolher algo para ela também! – A ideia me deixa tímida, eu dou risada.
— Bom, eu espero ser recompensada com ao menos um sorvete.
— Achei que minha eterna gratidão seria suficiente! – Heitor se faz de surpreso.
— Gratidão se mostra com um presente. – Arthur arrumava a bengala se preparando para sair. – Heitor, você é um cavalheiro, aja como tal.
Heitor levando sermão? Levantei as sobrancelhas olhando para ele, que dava uma risada fraca.
— Quando voltar aqui, pergunte a Amélia o como eu a agradeci.
Essa frase me deu um frio na espinha porque me faz imaginar algumas maneiras.
— Eu vou perguntar mesmo! – Arthur riu e se colocou a andar em direção a porta. – Não deixe de me mandar notícias, garoto!
— Pode deixar! – Heitor respondeu.
— Uma boa noite, Amélia! – Ele dizia já da porta.
— Para o senhor também! – Respondi.
Eu e Heitor caminhamos para o shopping lado a lado, falando do que poderia me ajudar a escolher presentes para a família dele. Era uma família dominada por mulheres, foi criado pela mãe e pela avó, o avô já tinha falecido, mas tinha uma irmã, duas tias, um tio e duas primas. Todos do lado materno. Era praticamente o único homem das festas de família. Minha família parecia muito maior que a dele. Eu sou filha única, mas meus pais têm muitos irmãos e eu tenho mais primos do que posso contar. Entrando nesse assunto, ele me perguntou:
— Você tem alguém com deficiência visual na família?
— Não. Por que?
— O jeito que você explicou para o Arthur.
— O que tem?
— Explicando a mudança do açucareiro, dizendo que ele estava “às nove horas”...
— Eu pesquisei na internet as melhores formas de explicar esse tipo de coisa e depois ele me confirmou que funcionaria com ele. Você acha que poderia ser melhor?
Eu havia notado que ele estava prestando atenção, e agora estou preocupada com o que um especialista em acessibilidade pode dizer.
— Não! Mas parece ter sido bem simples pra você.
— Mas é bem simples, não é?
— Quem me dera... Muitas pessoas esquecem de avisar que o lugar do açucareiro mudou. Ou que não tem mais açucareiro e agora usam sachês.
— Bom… Pra mim, foi simples.
Ele faz que sim com a cabeça, parece que ficou preso nos próprios pensamentos por um tempo, como se estivesse calculando.
— Você está pensando no trabalho? – Pergunto.
— Não! – Ele sorri sem graça. – Desculpe, eu só… divaguei.
— Tudo bem. – Sorrio para ele. – Por onde vamos começar?
Aos poucos já éramos nós de novo. A energia daquele primeiro encontro, as piadas bobas e risadas fáceis entrando e saindo de loja em loja. Eu sinto que Heitor sabe apreciar partes de mim que geralmente ficam esquecidas, partes que gosto muito de ser. Qualquer coisa era material para assunto entre nós, desde o excesso de luzes e espelhos de algumas lojas até estampas do Bob Esponja em roupas de adulto. Nada contra, eu até gostei de uma.
Com metade dos presentes comprados, paramos para tomar sorvete. A sorveteria é perto da loja onde Rebeca trabalha e estávamos com dificuldade para achar algo para uma prima especialmente difícil.
— Rebeca poderia ajudar. – Eu dou a ideia. – Ela trabalha ali na Crisálida, tem umas roupas mais refinadas.
— Não é roupa de madame?
— Eu diria que são elegantes, mas… “Madame” não é o que sua prima quer ser?
— Bom ponto.
Terminamos o sorvete e vamos para a loja. Heitor avalia a vitrine e balança a cabeça.
— Isso parece bem a cara da Lorena.
Entramos. Eu procuro Rebeca com os olhos e a vejo perto do balcão do caixa, em uma cena que me embrulha o estômago. Percebo que acabo de me colocar em uma situação delicada, e da qual não tem mais volta, porque eles já me viram. Rebeca e Gustavo. Ele está com uma camisa de botão na mão e estavam conversando até me verem. Ele sorri, parece satisfeito em me ver. Eu sorrio de volta, um tanto tensa. Dou graças a Deus que Heitor parece distraído com um manequim.
— Olha só quem está aqui! – Gustavo diz se virando para mim, esperando que eu o cumprimente.
— Oi! – Respondo com um sorriso no rosto, me aproximando deles.
Rebeca coloca a mão na boca, ela olha para mim e Heitor engolindo a seco, mas rapidamente disfarça e sorri.
— Oi, amiga! Até te mandei uma mensagem falando que o Guto estava aqui.
Ela tentou me alertar! Cumprimento os dois com beijinhos no rosto, Heitor vem logo atrás de mim e reconhece Rebeca, acena para ela.
— Nossa, eu nem cheguei a ver! Quase não te encontro então.
— Pois é! Fazendo compras? – Gustavo sorri para mim.
— Auxiliando na verdade. – Respondo.
— Eu sou péssimo com presentes. – Heitor entra na conversa.
Eles se cumprimentam, Heitor e Gustavo, e enquanto trocam nomes eu imagino mil cenários em que ambos estão constrangidos e furiosos. Como logo eu fui me meter nisso?
— Eu conheci Heitor no café, ele me pediu ajuda para escolher presentes para a família… – Explico da forma mais neutra possível.
— E ela fez a bondade de aceitar me ajudar. – Heitor sorriu terminando de explicar.
— Amélia é mesmo desse tipo de pessoa doce, o que combina com os talentos dela, não é? – Esse olhar intenso de Gustavo para mim entrega todas as intenções dele sem dizer nada. Eu coro imaginando que é fácil notar. – E ainda fica linda com vergonha.
Heitor olha para mim, a expressão dele muda para dúvida, eu percebo.
— Amigo, você estava com pressa. – Rebeca fala para Gustavo pegando a camisa da mão dele. – Já vou passando isso para você. Era só essa camisa mesmo?
Isso toma a atenção de Gustavo, que se afasta um pouco para dar atenção a Rebeca.
— Por hoje sim, mas você disse que ia me avisar quando chegasse a marinho dessa. – Ele responde para ela.
— Aviso, amigo, claro. – Rebeca está fazendo o papel de uma boa amiga, ajudando a conversa a seguir com certa naturalidade. – E vocês, amiga, pensaram em alguma coisa daqui?
— Pois é! Tem uma das pessoas que ele quer presentear, Lorena, eu acho que ela pode gostar de alguma coisa daqui.
— Eu ajudo vocês!
O olhar de Heitor está estranho. Eu percebo de relance, ele se coloca um pouco de lado, como se querendo saber o que vai acontecer.
— Eu estava perguntando para Rebeca – Gustavo olha para mim enquanto pega sua sacola e cupom fiscal – se o café está aberto aos domingos.
— Ah… não, não está. – Respondo ficando sem graça.
— Eu estou pensando em algo para te convidar, depois te mando mensagem.
— Eu estou com muitas encomendas chegando então não sei quanto tempo livre vou ter… – Eu quero que Heitor entenda minha resposta como desinteresse, mas não quero que Gustavo me ache grossa. Que tipo de resposta seria melhor? Eu não sei!
— Tudo bem, depois conversamos para não ser algo estressante para você. – E Gustavo que quer arrumar solução pra tudo! – Mas eu tenho que voltar para o Hotel. Ah! E quinta posso passar de tarde na sua casa te deixar seu chocolate rosa.
— Você não precisava ter comprado para mim, você sabe, né?
— Imagina, não foi nada.
Ele se despede de mim e Rebeca com beijinhos no rosto, aperta a mão de Heitor e sai pela porta em toda sua pompa, Heitor se aproxima de mim de novo com uma postura retraída, com as mãos nos bolsos.
— Você e ele estão…? – Ele não termina de falar.
Eu fico sem saber o que dizer, o quanto será que ele já entendeu? Eu também não quero mentir para o Heitor, mas como eu posso falar alguma coisa que não o afaste totalmente?
— Assim… – Começo e travo de novo.
— Namoro namoro mesmo não é né? – Rebeca tenta me salvar, embora eu ache que essa não tenha sido a melhor escolha de palavras. – Ele tá aí tentando.
— Uhum… – Heitor olha para mim, parece que esperando que eu diga alguma coisa.
— Nós tivemos um encontro, ainda não é um relacionamento mesmo.
— Entendi! – Ele sorri. Algo dentro de mim espera que não seja um sorriso sincero, eu nem sei o que falar. – Que bom que está conhecendo alguém legal!
Rebeca me deu um olhar preocupado. Percebendo que eu não estou sabendo agir nessa situação, ela vai tomando a frente.
— Bom, vamos escolher o presente da Lorena? É Lorena, né?
— É sim. – Heitor a responde.
Aos poucos o clima de tensão vai passando, mas também a empolgação de antes. Como se alguma chance com Heitor fosse algo só da minha cabeça. Nós compramos todos os presentes que faltavam ali, com Rebeca, e quando saímos já era possível ver a noite lá fora. Nós ainda conversamos sobre diversas coisas, fizemos piadas, e parecia haver certa normalidade, mas… Estava diferente.
De saída, já em frente ao shopping, eu esperava saber o que ia acontecer.
— Bom, eu vou chamar uma corrida para conseguir ir com essas sacolas. – Ele pegou o celular. – Você precisa de uma carona?
— Eu… Acho que não, consigo ir andando mesmo. Você não quer comer alguma coisa antes?
— Melhor não, estou sem fome e quero guardar tudo isso. – Ele olhou para mim com um sorrisinho ensaiado. – Obrigado pela ajuda hoje, você é uma ótima amiga.
— Não foi nada. – Eu não sei se consigo disfarçar minha decepção. – Bom, então eu já vou indo.
— Está bem!
Nos aproximamos para a despedida com beijinhos no rosto. Eu sinto que a mão dele toca de leve meu braço, como se quisesse me segurar ali, mas logo recua, assim como aquele quase beijo que demos na minha cozinha.
— Boa noite! – Ele me deseja.
— Pra você também!
Nos afastamos como se houvesse normalidade. Talvez para ele seja isso mesmo, algo diferente do interesse que eu nutri, apenas uma boa amizade que ele não quis estragar um dia. Eu vou embora caminhando com uma boa mistura para decisões erradas: tristeza e raiva.
_
Não houve sequer uma mensagem de Heitor desde sábado. É preciso compreender que nem sempre o que sentimos é recíproco. Mesmo quando a pessoa sorri o tempo todo ao te ver. Mesmo quando ela provavelmente acha que você está se envolvendo com outra pessoa. A indiferença depois de conhecer Gustavo, o como ele agiu normalmente, ainda mais que eu sentisse que algo estava mudado, me faz ficar repensando até hoje todas as interações que tivemos.
É quinta, eu estou preparando os bolos que vou decorar amanhã para entregar no sábado, quando ouço meu celular tocar. Ninguém me liga, geralmente desligo imediatamente, mas dessa vez que é um número salvo: Gustavo. Eu atendo.
— Alô?
— Oi, você tá em casa?
— Estou sim, por quê?
— Eu ia passar aí, mas me enrolei para um compromisso familiar. Estou mandando um entregador te levar o chocolate.
— Ahn? Mesmo? – Eu estou um tanto constrangida com essa situação.
— Bom, eu teria menos uso para isso do que você, e agora já comprei!
— Ai, Gustavo… – Dou uma risada sem graça. – Quanto foi?
— Não vou dizer, você não precisa me pagar.
— Mas eu me sinto mal…
— Amélia, relaxe. Eu sequer te consultei antes, só quis ajudar.
Suspiro, eu não sei receber favores muito bem.
— Obrigada mesmo.
— Foi um prazer! Você está ocupada?
— Ah, sim, fazendo dois bolos. O fim do ano é movimentado, todo mundo tem uma confraternização. – Volto a mexer a massa o deixando no viva voz.
— Isso é muito bom!
— Sim, alguns clientes inclusive foram indicação sua!
— Eu falei muito bem do seu bolo, e meus amigos sabem que sou exigente.
Dou uma risada fraca.
— Bom, só posso agradecer.
— Eu quero te fazer um convite também. Você deve estar cansada, então não é nada complicado! Um jantar na minha casa, eu faço tudo, você só tem que ir e ficar sentadinha sendo servida.
Eu estou realmente tão cansada que “ficar sentadinha sendo servida” é a proposta mais indecente que alguém pode me fazer. Suspiro deixando de mexer minha massa, ele me faz querer sorrir um pouco.
— Então eu vou ganhar um jantar todo preparado pelo entremetier do restaurante do hotel mais luxuoso da cidade.
— Sim. – Ele fala como se não fosse nada demais.
— E não levo nada?
— Exato. Não é nada complicado, como eu disse.
— Nem uma sobremesa?
— Eu não quero que você tenha qualquer trabalho. – Isso é bom demais pra ser verdade. – Pelo que temos conversado, você sempre está trabalhando.
— Sim, é verdade…
— Então pode ser bom para nós dois. Você descansa e eu tenho sua companhia. Combinado?
Eu penso um pouco. “Sentadinha sendo servida”, a comida de um chef, parece muito bom.
— Combinado.
— Ótimo! Eu tenho que correr, mas logo seu chocolate estará aí. Fique bem!
— Você também.
— Um beijo.
— Outro.
Eu pego meu celular assim que ele desliga a chamada e conto tudo para Rebeca por mensagem. Ela começa a me responder minutos depois:
“Que bom que você disse que vai, um convite desse não se nega!”
E eu pergunto:
“Mas o que você acha?”
Ela não demora a responder:
“Acho que você é a sobremesa que ele espera degustar, mas você é solteira e nada te impede!”
Eu dou uma risada um tanto nervosa antes de responder mais uma vez:
“E se na hora eu não achar que vai rolar a sobremesa?”
Ela demora para responder, mas recebo a mensagem:
“Aí você chama um carro e vai embora pra casa. Gustavo não é um maluco. Se ele está fazendo isso pra você é porque ele quer.”
_
Eu até recebi uma mensagem de Heitor. Era sobre Star Trek, nós conversamos um pouco, mas foi só sobre a série. Ele parece querer manter nossa amizade. Eu não seria contrária a isso, ele é uma boa pessoa, só não me quer. E como disse Rebeca, eu mereço alguém que me queira.
No domingo, eu fui para a casa de Gustavo. Ele mora em um apartamento no centro da cidade, um prédio novo com arquitetura moderna, um pouco longe da parte turística. Quando saio do elevador em seu andar, que é o sexto, ele está me esperando na porta do 63 com um sorriso simpático no rosto. Sou bem recebida, a cozinha tem uma ilha que é o sonho de consumo de muitos cozinheiros. Não é um lugar particularmente opulento, mas é tudo novo, sóbrio e com acabamentos em inox.
Apesar de viver no exato oposto da casa que moro e amo tanto, havia algo familiar: o cheiro do caldo a base de cenoura, cebola e aipo.
— Um mirepoix? – Pergunto enquanto o sigo até a cozinha.
— O básico é o básico por um motivo. – Ele sorri e olha para mim, estou curiosa observando os ingredientes sobre a bancada. Aponto para os cogumelos que precisam ser limpos.
— Eu posso-
— Não, não, não! – Ele nem me deixa terminar de falar. – Seu lugar hoje é naquele banco logo ali. – Isso me faz rir, ele me guia até um banco alto na ponta da ilha. – E o único trabalho que você vai ter será escolher uma música.
— Pediu para a pessoa errada, eu sou péssima escolhendo música. – Me acomodo na banqueta.
— Eu posso fazer isso, mas me diga se não for do seu agrado.
— Eu ouço qualquer coisa, pode colocar.
Ele ouve uma mistura de rock e ritmos latinos que eu achei interessante. Nos serviu vinho branco e ficou de lado para mim enquanto cozinhava. Ele tinha agilidade, mas não parecia estar com pressa.
— Quem é esse cantando? – Pergunto.
— Cantando? Eu não tenho certeza, mas acho que é o Gregg Rolie. É que é a banda do Santana, conhece? O guitarrista.
— Eu não conheço.
— Ele é um guitarrista famoso, eu gosto bastante de cozinhar ouvindo ele.
— O nome até é familiar, mas não tenho certeza de onde.
— Meus pais gostam bastante dele, eu cresci ouvindo. E pensando agora, eu tenho certeza que é o Gregg Rolie, porque ele também cantou e tocou teclado no Journey.
— Journey?
— A banda de Don’t Stop Believin.
— Mesmo? Nossa, mas a voz dele não parece nada!
— É porque já não era, o Gregg foi o primeiro vocalista, em Don’t Stop Believin, já era o segundo.
Eu dou risada.
— Como você sabe tanto?
— Alguns homens gostam de futebol e decoram escalações de times, eu por algum motivo lembro de formações de bandas que ninguém se lembra mais.
— É um talento!
— Um talento que tem pouca utilidade além de iniciar conversas.
O cheiro do lugar vai ficando melhor enquanto ele cozinha, o suficiente para me dar fome. Ele fala bastante, conta que nasceu na cidade, que seus pais ainda moram por ali, parece realmente querer compartilhar quem ele é comigo. Eu vou ficando à vontade, é fácil quando alguém está cozinhando sua comida, servindo sua bebida… Ele faz algumas perguntas para mim também, que eu sempre respondo fazendo piadas e elas até tiram risadinhas dele, mas não gargalhadas.
A comida é excelente. Comemos crostata com pesto e burrata de entrada, um risoto de cogumelos com um medalhão de carne perfeito no prato principal e ele estava servindo um tiramisu de sobremesa. Cada item feito do zero aparentemente para impressionar a minha pessoa.
— Posso te fazer uma pergunta? – Eu já havia bebido taças suficientes para ser um pouco mais direta.
— Sempre. – Ele respondeu me trazendo a sobremesa e parando em pé ao meu lado com uma tigelinha de vidro na mão. O jeito que ele levava uma colher à própria boca e lambia o creme de mascarpone me hipnotizava um pouco, mas consegui manter meus olhos nos dele.
— Eu até agora não entendi quando foi que você viu algo em mim. – Eu dou minha primeira colherada. Está bom, me faz fechar os olhos.
— Como assim? – Ele dá uma risadinha depois de perguntar. – Pela sua reação, vou entender que está aprovado.
— Aprovadíssimo. Fechou o jantar perfeitamente.
— Fico feliz em agradar.
Ao abrir meus olhos, percebo o olhar dele sobre mim. Como sempre, é intenso, mas dessa vez a proximidade já sugere que ele quer conseguir algo.
— Mas então – Ele fala enquanto dá outra colherada com delicadeza. – o que exatamente você quer saber?
— Você me viu fazendo compras no Liège e resolveu que falaria comigo, é simples assim?
Gustavo ri, como se agora sim eu tivesse dito algo muito engraçado. Ele se apoia de costas sobre a ilha, se mantendo próximo de mim.
— Eu não te vi só comprando. Vou te explicar: eu sou um autodidata. Isso significa que eu preciso absorver o máximo de conhecimento possível observando outras pessoas. – Ele deixou o próprio pote sobre a bancada, livrando suas mãos. – Eu sempre reparei em outros chefs cozinhando e comprando perto de mim, então te vi analisando rótulos, procurando os ovos mais frescos da gôndola, falando sobre percentuais de proteína de marcas diferentes de leite condensado com atendentes… E eu pensei “essa mulher é exigente, ela não se contenta em só pegar a mesma coisa sempre”. Para melhorar, você é muito bonita, acho que você sabe disso. Isso ganhou minha curiosidade. – Percebo o toque das mãos dele nas minhas, tirando a sobremesa das minhas mãos para poder segurá-las. – Então teve a festa da Rebeca, onde confirmei o que já imaginava: você é simpática. E ainda descobri que também é divertida. Aliás, eu já ouvia falar da amiga confeiteira da Rebeca, saber que a amiga confeiteira e a moça bonita do Liège eram a mesma pessoa, pareceu o destino!
Eu tenho certeza que estava corando, minhas bochechas estavam quentes.
— É, foi uma coincidência interessante.
— É muito interessante. E determinada. Isso me atrai para caralho, com perdão do linguajar.
Acho engraçado, mas não consigo rir porque meu coração está acelerado. Ele está próximo de mim, e eu estou ansiosa porque me sinto desejada. Gustavo toca minha cintura enquanto se aproxima, seu perfume é amadeirado, sua pele é quente. Então assim que é alguém disponível, que não parece ter dúvidas. Eu me inclino para frente, ele me segura pela minha nuca e me beija.
Não é exatamente o que eu queria. Mais precisamente, não é com quem eu queria.
Mas é bom. Inegavelmente bom.
Fale com o autor