Notas iniciais
Este é o último capítulo dessa história. É MUITO IMPORTANTE para mim que, se você gostou de Vale Branco e de seus habitantes, que você leia as notas finais deste capítulo.

As noites de segunda têm sido as mais tranquilas por estarem distantes de entregas de bolos e doces. É quando consigo ficar no sofá, assistindo qualquer coisa na TV quando estou sozinha. Ultimamente tem sido Star Trek, eu sempre conto para Heitor que estou vendo e ele tem se mostrado um ótimo comentarista. Tem inclusive respondido minhas mensagens com frequência!

Às vezes os assuntos deixam de ser as séries que estamos assistindo e passam a ser quaisquer outras coisas, como as pequenas novidades da rotina.

— Essa menina nova é muito perdida ainda, – Eu conto a ele de uma nova atendente do café em contrato temporário por áudio. – mas porque é o primeiro emprego dela! Ela tem dezessete anos, tadinha, e agora no começo a gente deixou ela só limpando as mesas e cuidando da louça na máquina. Deu umas duas horas, ela estava fazendo uma pausa e eu vi que estávamos com poucos pratos e copos na parte da frente, fui buscar na máquina. Cheguei lá e ela estava desligada, normal, mas quando abri a porta vi que estava tudo sujo ainda! Ela colocou tudo na máquina, colocou o sabão e esqueceu de ligar! A coitada teve que lavar algumas coisas na mão mesmo pra não atrapalhar o serviço.

Envio o áudio indo para a cozinha e eu sei que ele me ouve na velocidade 2 porque sempre responde muito rápido. Coloco seu áudio para tocar enquanto abro a geladeira. A risada saindo do falante do celular é quase tão boa quanto a que via pessoalmente.

— Tadinha! Eu imagino as reações da Priscila, ela faz cara feia até quando a Regina erra, imagina com uma adolescente que esqueceu de ligar a máquina de lavar louça.

— Ela fica falando mal da menina comigo! Fala “ainda bem que é uma temporária” com o maior desdém. Aí na frente da Evelyn, que é prima da menina, fica se fazendo de compreensiva falando “ah, ela é nova, pode aprender!” – Eu respondo enquanto vou mexendo na cozinha, limpando a bancada.

— Eu tenho uma pra te contar do meu trabalho também, essa é bem inusitada. Hoje mais cedo eu precisei mexer em uma planilha automatizada no meio de uma reunião, estávamos eu, o cliente e um colega meu que se chama Jean. Antes de fazer qualquer modificação, eu perguntei ao Jean “você já tem backup da planilha?” e ele me disse “temos”. Tudo bem, eu mexi, fiz modificações, comentários e deu certo, era pouca coisa para acertar, mas sempre pode dar problema, porque essas planilhas são feitas na gambiarra através de anos. A gente não sabe qual barbante com chiclete mantém as coisas em pé às vezes. – Dou risada. – Daí terminamos a reunião, o cliente saiu e eu fiquei na chamada com o Jean terminando a modificação. E assim, esse meu colega, ele é meio… estranho. É gente boa e engraçado, mas ele não tá sempre são, não sei. Bom, terminei de mexer na planilha, fiz backup, quando fui deixar o arquivo do backup junto com os das outras versões, eu não achei o arquivo da versão que eu tinha mexido lá. Aí eu falei “Jean, todos os seus backups estão na nossa pasta?” e ele disse “estão sim”. Eu tive até um arrepio na hora. Falei pra ele “a versão que você me disse que tinha backup não está aqui”. Aí, Amélia, eu juro que foi exatamente isso que ele me respondeu, juro pela minha vida. Ele deu risada e disse: “Isso é pra você aprender que não pode confiar em mim! Ihaaaa!” E saiu da chamada! – Eu estou gargalhando enquanto ouço. Ele também ri, mas nervoso. – Eu fiquei de cara, ainda bem que deu tudo certo, mas estou tentando resgatar agora mesmo a versão anterior.

Meus olhos estão cheios de água do tanto que estou rindo. Deixo o que estou fazendo sobre a bancada da cozinha e olho para trás querendo vê-lo para comentar essa história. Mas olhando para trás só tem meu celular sobre o balcão. Às vezes tem sido como se ele estivesse comigo, mesmo não estando.

Respondi essa mensagem e voltei aos meus calmos afazeres quando minha campainha tocou. Eu não estava esperando ninguém, mas sabia quem podia ser.

Abro a porta e a visão de Gustavo não me surpreende. Ele acabou de sair do trabalho e entra me abraçando e buscando meu cheiro em meu pescoço.

— Boa noite, lindinha. – Ele sorri ao dizer.

— Boa noite! – Eu não gosto de quando ele me chama de “lindinha”, mas ele parece colocar tanto carinho quando fala que eu fico com vergonha de reclamar. – Eu não sabia que você vinha, quase não me pega acordada.

— Eu só fiquei pensando no meu apartamento vazio e pensei que podia passar pra te ver um pouco. Quem sabe você aceite companhia para dormir também… – Ele me mantém em seus braços.

Gustavo tem sido uma boa companhia. É presente, faz pequenas surpresas… Eu sorrio para ele entendendo o que está oferecendo.

— Está uma noite fria, eu acho que a companhia pode ser boa.

Ele sorri satisfeito e me beija antes de me soltar, ficando a vontade na minha casa e buscando um copo de água para si.

— Como foi seu dia? – Ele me pergunta.

— Quase tranquilo. O café teve algum movimento, mas consegui descansar chegando em casa hoje. – Respondo voltando aos meus pequenos afazeres.

— Olha só, ela não é uma máquina imparável!

— Pois é, uma hora eu precisaria descansar. E o seu?

— Foi bom! Alguns amigos estiveram no hotel hoje.

— Mesmo? Eu os conheço?

— Não, ainda não, mas… – Ele lava o próprio copo enquanto fala. – Eu marquei para nós jantarmos com eles na quinta-feira.

— Nós?

— Sim! São pessoas muito queridas e… eu gostaria que vocês se conhecessem.

Ele marcar sem me consultar me incomoda um pouco, eu torço a boca porque tenho algo para fazer nesse dia.

— Tem que ser na quinta?

— É minha única folga essa semana, você sabe. – Ele parece preocupado com a minha expressão.

— É que eu tenho encomendas.

— Bom… é muita coisa?

Não sei no que muda ser muita ou pouca coisa, mas abro minhas anotações no celular buscando a lista de entregas para sexta.

— Um bolo e 60 docinhos.

— Não é tanta coisa.

— Mas se eu não fizer a massa do bolo, dos docinhos, o recheio e montar o bolo também na quinta, fica impossível enrolar os doces e decorar o bolo na sexta até a hora de virem pegar.

Olho para ele, que está pensativo e parecendo um pouco chateado.

— Eu vou estar de folga na quinta, posso deixar algumas coisas feitas pra você. – Ele sugere olhando para mim.

— Como assim?

— Você me deixa as receitas, eu faço as massas e o recheio, daí você só precisa montar na quinta e dá tempo da gente ir! – Ele parece satisfeito com a própria ideia, mas sinto minha boca torcendo contra minha vontade.

— Não sei, Guto.

— Por que não?

— Porque eu não consigo te ensinar todos os detalhes do meu preparo antes de quinta-feira.

— Você acha que eu não consigo? – É exatamente o que eu acho, apesar de ele ser um ótimo cozinheiro. Eu sou uma chata perfeccionista e não quero outra pessoa fazendo os bolos que eu entrego, mas tudo que consigo responder agora para não ser grossa é um suspiro irritado. – Não é como se eu não soubesse o básico.

— Eu sei que você sabe bem mais do que o básico, mas se a massa não ficar perfeita eu vou ter que fazer de novo de qualquer jeito!

A esse ponto estamos os dois nos encarando na cozinha, eu de braços cruzados apoiando o quadril na pia e ele apoiando costas e as duas mãos em outra parte da bancada.

— Mila, eu te garanto que já trabalhei com as pessoas mais exigentes possíveis. Confia em mim. – Ele parece confiante e eu sei que ele quer ajudar, mas essa insistência é bem irritante. – Eu só tenho a quinta e queria muito estar com você e que você conhecesse eles.

— Você poderia ter me consultado antes.

— Sim, eu podia, você tem razão. – Ele suspira. – Mas a gente ainda pode dar um jeito.

— Gustavo, não dá. – Ele abre a boca para falar e eu acho que vai insistir, mas nem o deixo começar, já estou irritada e segurando um choro nervoso que sempre me acontece em qualquer discussão. – Eu estou esclarecendo um limite, não te convidando para ultrapassar ele.

Eu respiro aliviada em conseguir me posicionar, mas preocupada com a recepção de Gustavo. Ele está quieto do outro lado da cozinha, parece que está recalculando alguma coisa. Começa a dizer alguma coisa, mas a porta da sala abrindo chama nossa atenção.

— Boa noite, casal! – Rebeca entra ajudando a aliviar o clima.

— Rebeca! – Ele dá um breve sorriso para ela a cumprimentando.

— Oi, amiga. Nem ouvi seu carro entrando. – Eu reorganizo copos na bancada para fingir que estou fazendo alguma coisa.

— Você comprou um carro? – Gustavo é bom de fingir que está tudo bem.

— Sim, é uma história curiosa! Um senhor excêntrico, pai do gerente de uma loja do shopping, faleceu recentemente e deixou uma coleção de Unos. A família está vendendo a maior parte deles.

Rebeca passa por nós também fingindo que não notou que o clima estava estranho. Ela vai pegar um copo de água na geladeira gesticulando como se estivesse em uma festinha animada, mas sei pelo olhar que ela me dá que ela está preocupada com nós dois.

— Então comprou um Uno? – Gustavo fala para manter a conversa.

— Vermelho, super bem cuidado, a coisa mais gracinha!

— E nas mãos da Rebeca, uma arma de devastação em massa. – Só consigo apelar para esse tipo de humor.

— Eu dirijo mal porque dirijo pouco, ok? Logo eu pego o jeito. – Ela se defende deixando o copo na cuba da pia. – Vou tomar um banho, tenham uma boa noite!

— Você vai deixar esse copo aí? – Quem cobra é Gustavo, que é muito metódico para conviver com um copo usado na bancada.

— Eu vou, porque a casa é minha! – Ela responde dando risada já do corredor.

— Ela é assim, chega bagunçando tudo e depois vai botando no lugar. – Eu falo em um tom mais baixo, voltando para o clima ruim da discussão mesmo sem querer.

Gustavo olha para mim com cara de cachorro abandonado. Ele está tão desconfortável quanto eu, umedecendo os lábios antes de falar.

— Acho que talvez não seja uma boa eu continuar aqui hoje.

— É…

Ele se aproxima e me abraça, beijando minha cabeça.

— Vou desmarcar na quinta e venho pra cá.

— Pode ir com eles se você quiser…

— Melhor não.

— É sério, tá tudo bem.

— Não vamos discutir de novo. – Ele me pede, eu respiro fundo e faço que sim com a cabeça. – Boa noite, lindinha.

— Boa noite.

Ele me dá um selinho sem graça tocando meu rosto e se vai, me deixando ali com sentimentos conflitantes.

— Tá tudo bem? – Ouço a voz de Rebeca vindo do corredor depois que a porta se fecha.

Meus olhos a buscam, ela está com a toalha em mãos e os cabelos soltos.

— Tá, só… tivemos um mal entendido. Eu já vou dormir.

— Se quiser conversar, me avise.

— Não precisa, amiga. Eu só tenho que descansar.

Ela sabe que vou procurá-la quando eu conseguir falar.

_

O dia seguinte é um dia comum na cafeteria, um pouco menos movimentado do que tem sido o normal neste final de ano. Arthur está em sua mesa favorita, perto do balcão e de frente para o ar-condicionado, e eu sirvo seu pedido com atenção.

— Obrigado, menina. – Ele me agradece.

— Não há de quê, Arthur. Está tudo como sempre, aproveite.

Estou me afastando alguns passos dele quando ouço o sininho da porta anunciar alguém entrando, mas desta vez não é um cliente.

— Amélia?

O entregador com um buquê de flores pergunta por mim enquanto olha para Evelyn atrás do balcão.

— É ela ali! – Evelyn aponta para mim.

Flores? O entregador vem em minha direção, o buquê tem astromélias brancas e cor-de-rosa, são delicadas e de bom gosto. Recebo o buquê vendo que há um cartão, mas ainda sem acreditar que estou recebendo flores no trabalho, isso me faz corar um pouco.

Abro o cartão enquanto o entregador vai embora. A mensagem é simples:

“Me desculpe. Reconheço que fui insistente e inconveniente. Espero que as flores melhorem seu dia e que possamos ter uma noite agradável na quinta.”

— Um buquê?! – Priscila está voltando dos fundos quando me vê.

— Algumas pessoas têm sorte, né? – Evelyn a responde.

Ainda estou observando as flores quando ouço a voz de Arthur atrás de mim.

— Recebeu flores, Amélia?

— Oi, Arthur. – Me aproximo dele de novo, parando ao lado da mesa para que eu possa respondê-lo sem aumentar a voz. – Recebi sim. São astromélias brancas e cor-de-rosa.

— Um trocadilho com seu nome.

Amélia, astromélia. Faz sentido.

— Eu não tinha pensado nisso! Bem pensado.

— Você sabe quem as mandou?

— Sei sim, tem um cartão. É alguém que estou vendo nas últimas semanas.

— Muito atencioso! Eu fico feliz que você esteja sendo bem tratada.

Sorrio fazendo que sim com a cabeça, mas me lembro que ele não está vendo isso.

— É sim, ele me trata bem.

— Posso ser um pouco xereta e fazer um comentário?

— Claro, Arthur! Somos amigos. – Acho a pergunta engraçada.

— Eu só acho uma pena que não seja Heitor. – Eu não esperava por isso, engulo a seco me sentindo um pouco desconfortável, remexida. – Eu vi vocês conversarem poucas vezes, mas pareciam ter algo especial.

Isso me frustra tanto. Realmente, só não via quem não queria. Se é óbvio até para Arthur, só faltou ser para uma pessoa. Solto um suspiro pesado, até um pouco irritado.

— Sabe que eu também achei que tínhamos? Eu não sei o que faltou, dei abertura, ele simplesmente nunca fez nada. E vive aparecendo e sumindo. – Eu não devia desabafar com um cliente, mas não consigo, preciso expressar isso para alguém que também conheceu Heitor melhor.

— Ele não era assim. De um tempo para cá ele tem mesmo se afastado das pessoas, achando que vai ser um problema para elas no futuro. Um grande tolo! – Arthur parece muito revoltado, talvez mais do que eu. – É uma pena, porque ele é um ótimo rapaz.

— Por que ele seria um problema, Arthur?

— Infelizmente, não me cabe dizer. Mas ele ainda vai se arrepender de ter deixado isso frear a vida dele. Na verdade, temos nos falado, e sei muito bem que ele já se arrepende amargamente.

Minha cabeça dá voltas nas conversas que tivemos. Nunca houve menção a algo que fizesse Heitor parecer um problema. Do que ele poderia estar falando? E do que exatamente ele teria se arrependido?

— Bem, é uma pena! Se você também sentia alguma coisa… – Ele continua, tomando um gole do cappuccino. – É uma pena que agora já seja tarde.

— É…Obrigada pela conversa, Arthur. Eu preciso colocar essas flores em um vaso.

— Claro, claro! Cuide das suas flores.

— Com licença.

_

Quando chego em casa, no fim do dia, Rebeca está sentada no sofá lixando as próprias unhas.

— Oi, Mila!

— Oi, amiga. Você não trabalha hoje?

— Troquei com a Renata, ela queria ir na colação de grau do sobrinho dela.

Deixo minhas coisas no gancho ao lado da porta com pressa, tenho muito o que fazer, mas estranho um pacote amarelo dos correios sobre a mesa de jantar que fica entre a sala e a cozinha.

— O que é isso?

— Chegou pra você essa manhã.

Estranho. Eu não me lembro de ter pedido nada. Começo a abrir o pacote com uma tesoura da cozinha. Dentro dele havia uma caixinha azul bebê da Turquesa, é uma marca de semijoias. Acho curioso, duas surpresas no mesmo dia, seria algo no meu horóscopo? Rebeca já está logo se aproximando para saber o que é também, quando abro.

É uma pulseira de berloques. Eu vi uma parecida com Heitor enquanto comprávamos presentes para a família dele, lembro de ter a achado bonita, mas essa não é a mesma, ela possui pingentes muito específicos: uma xícara, uma cafeteira italiana, um pedaço de bolo. Seria um presente dele? Rebeca olha para o presente e para mim em seguida, me dizendo com o olhar que ela sabe que aquele não é um presente de Gustavo. No fundo da caixa há um cartão, mas não quero ler na frente dela.

— Amiga, o Guto vem pra cá hoje?

— Vem. – Solto um suspiro enquanto falo. – E eu tenho que fazer os bolos.

— Está bem! – Começo a juntar a caixa, os embrulhos e a pulseira enquanto ela observa. – Ótimo gosto da sua compra, sua cara!

Vou para o quarto com o presente, abrindo o cartão em seguida. Me decepciono por ser um bilhete impresso, mas faz sentido por ser algo que chegou pelos correios. O cartão confirma minhas suspeitas:

“Querida Amélia,

Este é o seu presente de natal. Me perdoe por não poder te entregar pessoalmente. Meu ano foi particularmente cheio de surpresas, algumas certezas que eu tinha simplesmente desmoronaram sob meus pés e até alguns medos se concretizaram. Mas você também foi uma dessas surpresas, com certeza a melhor delas, a que compensou todas as outras! Gostaria de escrever mais, mas há um limite de caracteres.

Espero que não gere um problema entre você e Gustavo, ele parece gostar muito de você.

Agradeço imensamente sua amizade!

Heitor”

Olho a pulseira novamente, há um sorriso gigante em meu rosto. Finalmente reconheço, são referências a Cantinho Café, o lugar onde nos conhecemos! Definitivamente não é algo com o que um homem esbarra por acidente pela internet, é algo atencioso. Mas leio de novo o final do cartão e me sinto triste. Minha amizade. Claro, minha amizade. Por que a mensagem me enche de tanta alegria e logo em seguida sinto vontade de revirar os olhos? Por que você simplesmente não me diz o que há de errado, Heitor?

Penso em mandar uma mensagem, mas não vou falar com ele agora, não quando tenho tanto a fazer.

Eu me dedico à cozinha. Já preparei e assei a massa do bolo, estou terminando de preparar o recheio e a massa dos docinhos quando ouço a campainha. Rebeca abre para mim enquanto estou para lá e para cá na cozinha, eu ouço ela e Gustavo se cumprimentando. O cara que até Heitor sabe que gosta muito de mim.

— Não se preocupe, eu vou me arrumar para sair no meu quarto pra vocês ficarem à vontade. – Rebeca vem falando com Gustavo até a cozinha.

— Você vai no jantar do João?

— Não, nem sabia que ele estava dando um jantar hoje. Vou a um bar mesmo.

— Bem, divirta-se! – Ele para pela bancada e olha para mim como um cachorrinho que caiu da mudança, estou terminando de secar as mãos. – Boa noite!

— Boa noite! – Eu me aproximo dele para cumprimentá-lo.

Eu quero ficar bem com Gustavo, é claro. Ele é excelente! Nos abraçamos e ele me beija enquanto Rebeca se retira. Eu dou um segundo beijo nele e acaricio seu rosto enquanto ele me aperta entre os braços dele.

— Você está bem? – Ele pergunta.

— Estou sim. E você?

— Estou. Você gostou das flores?

— Gostei, claro que gostei, eu te disse! – Sorrio buscando o tranquilizar.

— Fiquei muito mal depois, pensando que te pressionei.

— Eu fiquei feliz em você ter reconhecido.

Ele olha para mim com carinho. Dou mais um beijo antes de soltá-lo.

— E como estamos aqui?

— Bom, a massa está esfriando, daqui a pouco posso cortar e rechear.

— Bem adiantada até!

— Sim, depois eu só preciso limpar tudo.

— Que horas você geralmente termina tudo?

Ele se acomoda perto do balcão e eu volto a pesar ingredientes, colocando colheres de cacau em uma vasilha sobre uma balança.

— Umas… nove, nove e meia. Por quê?

— Eu estava pensando em sairmos para algum lugar depois daqui.

— Ah… Não sei, eu gostaria de descansar.

— Sim, entendo. Eu conheço uma pizzaria muito boa, não é tão longe, mas podemos ir de carro e você fica mais tranquila.

— Acho que eu prefiro pedir.

— Mesmo? Pode ser. É uma pena, o lugar é muito bom, eu conheci o pizzaiolo em um workshop.

A voz de Gustavo vai perdendo minha atenção enquanto ele fala. Não é proposital, eu até tento focar, balanço a cabeça e sorrio enquanto ele me conta dessa figura curiosa que parece ser o dono da pizzaria. Ele realmente faz conexões de negócios com todo mundo.

— Tem certeza que não quer ir? Eu posso lavar essa louça, nós saímos um pouco.

Eu torço a boca em dúvida, deixo meus utensílios e ingredientes de lado e ele continua falando. Diz que podemos tomar um ar fresco, que os drinks lá são ótimos, que ele quer aproveitar esse tempo comigo. Meu Deus, o que eu daria pra calar a boca dele?

— Eu não quero sair! – O interrompo. Por que ele me irrita tanto? Acho que soei grosseira. — Desculpe. Eu…

— Tudo bem.

— Não, é que você é um cara cheio de energia e disposição, tem uma vida noturna animada, e eu sou mais… quieta.

— Tudo bem, nós pedimos então.

Ele não parece satisfeito e algo se agita dentro de mim de novo. Sinto meu estômago revirar mais com o acordo que com o desacordo. Eu tenho certeza de que geralmente eu adoraria sair de casa para comer em um bom restaurante. Por que não me sinto empolgada? Por que eu não consigo me interessar por esse cara na minha frente?! E a resposta é tão óbvia! Mas me revolta e entristece.

— Guto, eu… não sei se isso vai funcionar.

— O que?

— Nós somos bem diferentes, você não acha?

Ele parece começar a entender do que se trata, tem uma expressão ainda de dúvida, mas olha para mim diretamente.

— Como assim? Na verdade eu achei que tínhamos muito em comum.

— Tipo o que?

— Coisas que eu acho importantes, como… paixão por gastronomia, vontade de termos o próprio negócio, determinação para isso. – Ele enumera lentamente contando em uma mão.

— É que… – Eu suspiro. Ele fala de coisas importantes, mas não para um relacionamento, ou não para mim. Eu não sou uma empreendedora comprometida, eu sou uma sonhadora! Ele não deveria notar essa diferença se estivesse mesmo tentando me conhecer? E tem o fato de ter alguém que eu sei que consegue ver isso e que não sai da minha cabeça. – Gustavo, você é um cara incrível. De verdade, você deve valer ouro, mas…

A expressão dele muda completamente. Tem uma profunda sobriedade, ele endireita as costas e se levanta.

— Eu já entendi. – Ele diz.

Ele parece decepcionado, eu odeio decepcionar.

— Calma! É… Deixa eu te explicar!

— Não é necessário. Você não precisa fazer o “não é você, sou eu” comigo.

— Eu não ia…! – Meu Deus, eu ia sim! – Me desculpe, é que eu tenho todos os motivos lógicos para gostar de você! – Eu odeio quando minha voz fica fina, assim como está agora, e eu sinto que preciso falar mais alto. – É só que…

Eu não consigo terminar o que ia dizer. Ele até dá uma risadinha fraca, se aproxima de mim dando tapinhas nas minhas costas como se eu estivesse me tornando uma irmã mais nova nessa discussão.

— Está tudo bem, eu consigo viver com isso. – E ele ainda me consola.

— Sinto que te fiz perder seu tempo.

— Não. Bom, você podia ter simplesmente me rejeitado, mas eu fiz o possível para tentar te convencer do contrário. – Como ele pode estar tão calmo? – E não deu certo, tudo bem, eu imaginava que isso poderia estar próximo.

— Você não está com raiva? – Eu que estou terminando e estou lacrimejando!

— Não. Acho que agora sim te conheço melhor. – Ele se afasta de mim respirando fundo. – Bom, acho que é melhor se eu for embora.

— Eu… Obrigada por compreender.

— Não foi nada. Boa noite, Amélia.

Ele sai de casa sem deixar nada para trás. Eu tenho que terminar de fazer um bolo e docinhos, mas não antes de ficar parada encarando a pedra da bancada e enxugando lágrimas.

Rebeca aparece minutos depois, com os cabelos molhados e de roupão, tendo acabado de sair do banho. Eu estou mexendo o brigadeiro na panela. Ela me vê ali sozinha, chega mais perto, repara algo em meu rosto que, pelo espelho do microondas, sei que são meus olhos vermelhos e inchados, e volta correndo para o próprio quarto. Mais alguns minutos depois ela está de volta, na mesa da cozinha tirando o próprio esmalte. Longe o suficiente para me dar espaço, perto o suficiente se eu quiser falar.

Eu levo mais um tempo para conseguir falar, já estou até montando o bolo.

— Você não ia a um bar? – Pergunto.

— Não tinha mais ninguém que eu conhecia lá. – Ela me responde ainda mexendo nas próprias unhas.

Estou colocando a segunda massa sobre o recreio, dentro da forma e da folha de acetato, finalizando a montagem. Finalmente posso respirar. Afasto a forma de mim enquanto falo, choramingando:

— O que tem de errado comigo, Beca?

— Como assim, amiga?

— Gustavo é perfeito, Rebeca! Inteligente, gato, disponível. Por que eu tive que me interessar justo pelo cara que some e aparece o tempo todo?!

Rebeca se aproxima de mim com um sorrisinho no rosto, me oferecendo um abraço e me acolhendo como a irmã que ela tem sido nesses anos da nossa amizade.

— Ele que te mandou a pulseira, né? – Faço que sim com a cabeça e aceito o abraço de Rebeca. – A gente não escolhe por quem vai se apaixonar, Mila. Heitor tem sido relapso, eu preferia que você não gostasse dele! Mas quando ele está presente, você parece bem felizinha… Você deve ter bons motivos, ele parece legal, te faz rir.

— Não é bem só isso. – A solto devagar e vou colocando os utensílios sujos dentro da pia. – Tem várias coisas que eu aprecio em Heitor, ele tem um tipo de gentileza que eu acredito ser mesmo necessária para o mundo, sabe? E ele é inteligente, me faz rir, mas… Eu faço ele rir. Quando nós estamos juntos, conversando, nós nos divertimos e eu vejo que naquele período eu que sou a pessoa interessante e engraçada para ele! Com ele, eu consigo ser coisas para além do meu trabalho. E eu sei que ele aprecia isso. – Respiro fundo, parando de mexer na cozinha para me recostar na bancada. – Eu tenho certeza que nos daríamos muito bem, mas parece que ele tem alguma coisa o travando de tentar, então…

— Então toma iniciativa você!

Olho para Rebeca, ela está com as duas mãos apoiadas no balcão, com dois sóis brilhando em seus olhos de tão determinada.

— Eu?

— Mila, nós não passamos um século de luta feminista e uma pandemia mundial para você perder a chance de ficar com alguém que te faz sentir tudo isso que você disse. Pelo menos não por não ter tido coragem de mandar uma mensagem e dizer pra ele colocar a língua dentro da sua boca! – Eu quero rir, mas ela está seríssima. – Eu nunca vi você falar com tanto amor por alguém. Manda a merda de uma mensagem!

Respiro fundo enquanto deixo que esse momento de clareza me toque. Ela está certa! Atravesso a cozinha pegando meu celular do outro lado da bancada. Abro a conversa com Heitor e percebo que meus dedos tremem levemente.

— Eu falo o que? – Olho para Rebeca.

— Que quer falar com ele, qualquer coisa assim, vocês só precisam se encontrar. – Ela me encoraja com o olhar.

Olho para a tela de novo e começo a digitar:

“Oi, Heitor! Eu recebi seu presente, adorei a pulseira! E aproveitando a deixa, também queria te dizer umas coisas. Sem limites de caracteres. Será que a gente poderia se encontrar nesse final de semana?”

Envio a mensagem e deixo o celular sobre a bancada.

— Enviou?

— Aham!

— É isso aí, estou orgulhosa.

Começo a guardar o que é preciso na geladeira, ansiosa pelo som de notificação, e ele não demora muito a chegar. Me apresso até o balcão, desbloqueando a tela o mais rápido que consigo.

— E aí? – Pergunta Rebeca.

— Calma!

Eu leio a resposta dele:

“Poxa, eu gostaria muito! Mas estou indo para a casa da minha mãe em Serra Alta essa noite, por isso optei por enviar o presente direto pra você.”

— Merda! – Estou com raiva.

— O que foi?

— Ele está indo pra cidade da mãe dele.

— Ué, pergunta quando ele volta.

Eu mando:

“Você vai ficar muito tempo lá? Podemos marcar para depois da sua volta.”

Fico agitada, aguardando a resposta, que vem em forma de áudio. Dou play assim que chega:

— Então, como eu faço home office, eu ia ficar lá para as festas de final de ano. Eu devo voltar só em janeiro.

— Janeiro?! – Rebeca quase grita.

— Mas a gente pode marcar depois sim, eu vou adorar te ver! – O áudio termina.

— Janeiro é tempo demais… – Estou ficando mais preocupada.

— Pô, é um mês!

Eu não vou conseguir manter minha coragem por um mês. Repenso nossas interações, repenso o que sei de Heitor, e a voz de Arthur me vêm a cabeça dizendo “ele ainda vai se arrepender de ter deixado isso frear a vida dele. Na verdade, temos nos falado, e sei muito bem que ele já se arrepende amargamente”. E eu não quero me arrepender por não tentar. Mando mais uma mensagem:

“Entendi. Nossa, eu não sabia que saíam linhas tão tarde para subir a serra.”

E ele responde rápido:

“Tem o último às 21:40, eu chego lá antes das 23 ainda, é uma viagem bem tranquila…”

Não leio o resto da mensagem, dá pra saber que é como ele gosta de viajar a noite, e eu adoraria ouvir sobre isso, mas agora não vai dar tempo.

O relógio de parede da cozinha marca 9:05.

— Beca.

— Hum?

— Você me dá uma carona?

— Que? Agora? Para onde?

Começo a digitar enquanto vou para o quarto, enviando a mensagem:

“Legal! Você vai pegar o ônibus na rodoviária?”

Troco de roupa olhando para o celular.

— Amiga? – Ouço Rebeca me chamando da cozinha.

— Calma!

A mensagem chega:

“Sim.”

— Para a rodoviária! – Eu grito avisando Rebeca. — Vai tirando o carro!

Termino de me trocar o mais rápido que consigo, pego a caixa com a pulseira que deixei dentro do armário, uma jaqueta, coloco meus tênis pensando que terei que amarrá-los no carro.

Bolsa.

Carteira.

Celular.

A pia toda suja vai ter que esperar, o importante é que os doces estão na geladeira.

Ouço o carro de Rebeca ligando lá fora e ela grita para mim:

— Pega minha blusa!

Eu pego a blusa de malha que está sempre ao lado da porta e saio de casa trancando tudo, esquecendo algumas luzes acesas. Ela tira o carro rapidamente, eu fecho o portão e entro no banco do passageiro em seguida.

— Vamos! – Apresso.

— Procura no GPS a melhor rota!

Faço o que ela disse, as mãos tremendo um pouco.

— Aqui! – Mostro a tela para ela. – É só seguir aqui e virar na Santa Cândida.

— Certo! – Ela olha para mim e depois para frente. – Meu Deus, seu cabelo! Tem uma escova no porta-luvas!

— Que?

Abaixo o parasol e mal dá para me ver pelo espelhinho, mas consigo ver alguns fios rebeldes, nem me chamam tanta atenção, mas minha cara de cansada que parece estar um lixo.

— O que mais tem aqui? – Abro o porta-luvas procurando a escova.

— Tem um batom, máscara, tem umas coisas!

Eu vou me arrumando enquanto falo.

— Eu não acredito que vou fazer isso.

— Eu estou muito orgulhosa de você!

Rebeca dirige parecendo que não se importa se vai atropelar alguém, se vai cruzar um sinal vermelho, se o sinal de pare era para ela. Ela simplesmente buzina e passa enquanto eu conto para ela sobre a conversa que tive com Arthur na cafeteria, em que ele menciona Heitor se achar um possível problema.

— Você consegue pensar em qualquer coisa que te faça parar de gostar dele? – Ela me pergunta.

— Não, eu sei lá que problema é esse. Para mudar minha opinião sobre ele teria que ser sei lá, tráfico humano!

— Então não se preocupe, amiga! – Ela coloca a cabeça para fora da janela e grita com o carro da frente. – Me deixe passar, otário!

Já estamos quase na rodoviária quando Heitor me manda outra mensagem:

“Mas sobre o que você queria falar?”

— Agora ele está perguntando sobre o que era!

— Não fala! A gente tá quase chegando!

Envio para ele:

“Acho melhor conversarmos sobre isso pessoalmente.”

A rodoviária de Vale Branco é pequena, há apenas uma entrada, alguns guichês, duas lanchonetes e uma tampa que dá acesso para a área de embarque e desembarque. Não deveria ser difícil encontrar alguém nesse espaço, mas a temporada está chegando, e enquanto nos aproximamos eu percebo o alto fluxo de carros e turistas saindo do prédio. Os taxistas fazem fila, o estacionamento em frente está cheio e movimentado.

— Mila, eu vou te deixar ali e procurar onde estacionar.

— Você acha melhor?

— Sim. Até chegar em frente ao prédio, esse boy já está na terceira curva da serra. Vai, depois me avisa, eu vou estar por aqui!

Rebeca para o carro quase subindo na calçada, eu saio já me apressando em direção a entrada, desviando de turistas. Meu celular começa a tocar. É Heitor. Atendo o procurando na multidão.

— Alô?

— Amélia?! Você está em casa? Eu… – Eu não consigo ouvir a segunda parte.

— Oi?

— Eu preciso te falar umas coisas também! – Ele fala mais alto. – Desculpe, aqui está muito cheio!

Estou me aproximando da entrada quando vejo Heitor saindo da rodoviária puxando uma mala de rodinhas. Ele se apressa em direção a um táxi.

— Eu não estou em casa!

— Tudo bem, me diga onde você está!

Ele tropeça nas malas de outras pessoas pelo caminho, desajeitado, se vira e ouço a voz dele pelo telefone pedindo desculpas. Pega a mala dele de novo e volta a caminhar para o táxi.

— Eu estou bem aqui! – Respondo. – Não precisa entrar no táxi, eu estou bem aqui!

— O que?!

Ele começa a olhar para os lados, me procurando.

— Eu estou indo até você!

Ele olhou na minha direção algumas vezes, mas não me viu. Olha para um lado e para o outro um tanto desnorteado. Eu desligo a ligação e o chamo:

— Heitor!

Seu olhar vem em minha direção, há algumas pessoas na minha frente, só depois que as passo que ele parece me reconhecer. Eu não sabia que Heitor enxergava tão mal.

Ele vem ao meu encontro, estamos parados perto da entrada, mas fora do caminho. Ele parece estar preocupado, mas ao mesmo tempo feliz em me ver.

— Por isso que você perguntou se eu estava indo para a rodoviária? – Ele pergunta.

— Sim! – Respondo, dando uma risada nervosa. – Você não ia pegar o ônibus?

— Eu ia, mas… Eu também tinha algo a dizer. Eu não sei nem se eu devia…

— Eu terminei com o Gustavo.

Parece que eu consigo ver todos os músculos do corpo desse homem relaxarem, a expressão dele é de alívio.

— Terminou?

— Sim. – Ele tem um sorriso tímido no rosto. – Eu terminei porque não é dele que eu gosto, Heitor. E vim porque fiquei todo esse tempo esperando você tomar uma iniciativa, mas…

— Eu sei, eu demorei! Eu hesitei.

— Eu não sei o que você acha que pode ser um problema, mas… seja lá o que for, eu gostaria de tentar.

Ele se aproxima um passo.

— Quando eu comecei a entender que para você não seria um problema, você já estava…

— O que é?

Ele respira fundo, olha ao redor antes de olhar para mim de novo.

— Amélia, eu vou ficar cego. – Não tenho reação. – Eu já estou ficando, é uma doença genética que geralmente passa de mãe para filho. – De repente faz sentido. A graduação, a dificuldade em encontrar presentes ou de me encontrar em meio a outras pessoas. – Eu faço um tratamento para atrasar esse processo, mas… Há uma boa chance de que eu perca totalmente a visão. – Ele parece constrangido, incomodado, engole a seco me esperando dizer alguma coisa.

— Isso jamais seria suficiente.

— Eu percebo. Mas tive medo, já me enganei uma vez.

— Sua ex? Ela te deixou por causa disso?

— Sim.

Que monstro.

— Eu não sou ela.

Ele ri.

— Eu sei.

Esse sorriso ainda aquece meu coração. De repente me lembro de algo, mexo na bolsa, tiro a caixinha com a pulseira de dentro.

— Eu trouxe a pulseira, quer me ajudar a colocar?

Ele ri de novo, fazendo que sim com a cabeça.

— Com certeza. – Ele responde e pega a pulseira. Eu estendo meu braço e ele se concentra no fecho, a colocando em mim. – Eu senti que você seria especial desde a nossa primeira conversa no café. – Isso me faz corar. – Eu nunca quis ficar longe de você. Eu sequer consegui, te evitava por uns dias, mas logo precisava de uma desculpa para falar com você de novo.

A pulseira está presa em meu braço. Ele segura minha mão e beija meu pulso, me puxando gentilmente para perto em seguida.

— Não desista dessa vez, por favor. – Eu peço enquanto ele se aproxima.

Ele faz que não com a cabeça.

— Já errei uma vez. Na verdade, talvez você tenha que me pedir para parar.

Eu sorrio e seus lábios logo capturam os meus. Ele me beija com desejo e carinho, suas mãos mantêm nossos corpos colados. Apesar de mais introvertido, o jeito com que ele me segura e me beija não tem insegurança alguma. Eu sinto meu coração descompassado e meu corpo leve em finalmente poder sentir seu cheiro, tocar sua pele. Quando nossos lábios se separam, ele me segura em um abraço apertado e beija todos os lugares que consegue do meu rosto, me fazendo rir.

Ele não foi para a casa da mãe naquele final de semana. E quando foi, me levou junto. Nós passamos o ano novo em Vale Branco, assim como quase todos os dias juntos.

Com Heitor eu vivo a mesma rotina cansativa de sempre e ele passou a compartilhar comigo suas questões. Eu não o deixo mais beber, porque isso pode acelerar a progressão de sua doença, e todas as quintas e sextas ele passa a noite em casa e massageia meus pés depois que termino de fazer meus doces. Nós assistimos séries juntos e damos risadas de coisas que só nós notamos ou de piadas já internas demais para explicarmos. Rebeca nos chama de casal glicemia porque somos doces demais.

Estar com Heitor não resolveu meus problemas, não acelerou minha caminhada rumo aos meus objetivos, mas fez o caminho melhor, mais fácil de suportar. Um caminho que vale a pena viver independente do que apareça.

Notas finais
Oi! Primeiramente, gostaria de agradecer a você que está lendo essa história até o final. Eu a escrevi com muito carinho e espero que ela tenha feito sentido para você! Um comentário obviamente me faria muito feliz (uma recomendação então nem se fala). PARTE IMPORTANTE: Eu planejo uma outra história nesse mesmo universo, com a presença destes e novos personagens, mas protagonizando ele - ele mesmo -, nosso amante perfeito, Gustavo. Caso você queira ler isso quando sair, me avise por comentário ou por mensagem que eu te escrevo avisando quando sair (pode demorar um pouquinho). Eu tenho mais uma história também "na fila" e não sei qual vai sair primeiro. Também será um romance! Caso tenha interesse, me avise também. Um grande abraço e muito obrigada!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!