Notas iniciais
A história foi aceita no evento Romance Clichê! Comentar ao fim da sua leitura me ajudaria bastante.

— Isso é muito estranho. – A conclusão de Rebeca sobre meu encontro não é nada que eu já não saiba. – Ele é quem? O cinderelo?

— Eu fiquei pensando muito nisso. Depois ele até me seguiu no instagram, eu segui ele de volta, achei que ele ia me dar uma explicação, mas… nada. – Explico entre suspiros enquanto cuido da decoração de um bolo de aniversário em nossa cozinha.

— Não faz sentido. – Rebeca começa a andar de um lado para o outro, fazendo os caminhos mais longos até um copo, a geladeira, a garrafa de vinho que já repus.

— Eu comecei a achar que ele é casado. – Quase erro uma flor do bolo que estou decorando ao falar isso. – Mas não faz sentido, Evelyn me disse ainda na minha primeira semana que ele estava solteiro, que tinha terminado um relacionamento havia meses.

— Você tentou perguntar mais alguma coisa para ela sobre ele?

— Não, eu não quero gerar especulação. Melhor que elas não saibam de nada.

— Ele pode ter voltado com a ex? Mas não faz sentido, um cara comprometido que te acompanha até em casa, entra, janta, te mostra videozinhos engraçados, não ia desistir só na hora do beijo. A crise de consciência viria antes ou só não viria mesmo.

— Nós falamos de muita coisa, se ele tivesse uma namorada eu acho que ele teria mencionado.

Faço os últimos detalhes do bolo com delicadeza, é para o aniversário de 70 anos de uma senhora japonesa que migrou para o Brasil ainda muito jovem. Os filhos pediram uma decoração que lembrasse flores de cerejeira e passei a última hora fazendo pequenas flores na lateral.

— O que você acha? – Pergunto para Rebeca.

— Deixa eu ver. – Ela se aproxima de novo. – Nossa, amiga, está maravilhoso! Acho que foi um dos melhores que você já fez. Deixa eu fazer uma foto boa antes de você embalar.

Ela pega o celular enquanto eu tiro os utensílios de trás do bolo para a foto.

— No sábado eu devo fazer uns docinhos. Se eu fizer uns a mais você fotografa para mim? – Vou lavando a louça enquanto peço, sempre posso contar com Rebeca.

— Claro! Eu posso comer um de cada depois?

— Por isso que eu vou fazer a mais.

— Por que você não faz um ensaio, amiga? Você precisa mostrar sua cara. A gente faz umas fotos de você com um avental fofinho, passando um chantilly… Gera um conteúdo.

— Eu morro de vergonha, Beca!

— Mas precisa vender, ué. – Eu sei que ela está certa, mas esse tipo de exposição me assusta um bocado. Ela faz as fotos e para do meu lado no balcão, com olhar de quem vai pedir alguma coisa. – E por falar nos seus doces e bolos, você lembra que data importantíssima está se aproximando?

Dou risada. Não há data mais importante para Rebeca que o próprio aniversário.

— Claro que sim. Você vai fazer festa?

— Mas é claro, tenho mais é que celebrar a minha vida, né? Você pode fazer meu bolo? – Ela pergunta como se já não soubesse a resposta.

— Já sabe o sabor?

— Esse ano eu pensei em chocolate com frutas vermelhas. Assim, bem chocolatudo.

— Com recheio de mousse de chocolate e a geleia azedinha que você gostou daquela vez, é isso? – Ela faz que sim com a cabeça muito empolgada em resposta. – Pode deixar.

— Você é minha melhor amiga de todas! Eu compro os ingredientes, tá?

— Eu compro, você me faz o pix.

— Fechado!

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Trabalhar em seis dias da semana enquanto faço bolos em algumas noites não tem sido uma rotina fácil. Mesmo assim, tento manter certa gentileza e boa vontade com os clientes da Cantinho Café.

Já é quase novembro. Logo cedo vejo um aviso na sala de descanso comunicando que faremos uma confraternização de fim de ano adiantada, eu ouço Priscila e Regina organizando o evento para comermos com toda a equipe enquanto montamos uma árvore de natal. As duas também falam muito dos horários de fim de ano, parece que Priscila quer ficar com o turno da tarde e eu sinceramente não ligo muito. Não sei como alguém pode preferir sair do trabalho às oito da noite, na verdade. Já é meio da tarde quando vejo Arthur entrar pela porta, o sininho anuncia sua chegada e eu vou ao seu encontro.

— Boa tarde, Arthur! – Ele sorri quando ouve minha voz. – Como está?

— Menina Amélia! – Ele estende a mão para mim, eu o cumprimento. – Estou bem, obrigado. Está uma tarde quente hoje.

— Bom, então vamos aproveitar o ar-condicionado!

Dou as costas para ele esperando que ele toque em meu ombro, ele o faz e eu o guio até uma das mesas que ele mais gosta, bem perto da climatização. Ele guarda a bengala com presteza e tira a boina, a deixando sobre a mesa.

— E Heitor? Você tem sabido dele? – Ele pergunta ao se ajeitar na cadeira.

— Ah… conversei com ele há algumas semanas. – Me lembrar daquele encontro gera um conflito de emoções dentro de mim. — Ele estava bem, se adaptando ao novo trabalho! Parece que a empresa tem vários treinamentos.

— Ele é um rapaz muito competente, com certeza vai se dar bem nessa carreira.

— Vai sim, sem dúvida alguma.

— E você, menina? Está gostando de trabalhar aqui?

— Eu?! – Me surpreende que ele tenha perguntado. – Ah, eu estou sim. É um ambiente muito agradável.

— Achei sua voz um pouco cansada.

Isso porque ele não pode ver minhas olheiras.

— É, eu estou mesmo. – Dou uma risada sem graça. – Além de trabalhar aqui eu também faço bolos à noite. Quero abrir minha confeitaria.

— São muitas jornadas de trabalho!

— É sim… Mas é algo importante para mim, quero fazer dar certo.

— Você não deve ter muito tempo livre. Parece solitário.

— De certa forma é sim. – Suspiro, mas não quero que ele ou qualquer pessoa tenha dó de mim. – Mas ao menos eu falo um pouco sozinha, sou uma companhia divertida para mim mesma.

Ele dá risada.

— Quando conheci Heitor ele estava terminando a especialização, ele vivia cansado também. – Ele gesticula enquanto fala, mas não é expansivo em seus gestos. – Mas não desista, menina, se esse é seu sonho você deve sim batalhar por ele.

— Eu faço o meu melhor. – Tento encerrar a conversa e pegar o pedido dele, mas antes que eu possa começar a próxima frase, ele fala de novo.

— Só não se esqueça que descansar também é uma necessidade básica. E alguma companhia também, de preferência uma tão boa quanto a sua.

Eu gostaria mesmo de companhia. Queria eu que fosse fácil arrumar alguém que faça mesmo as obrigações parecerem um fardo mais leve de se carregar. A risada de Heitor me vem à mente, é uma pena que ele tenha simplesmente saído pela porta de casa aquele dia.

— Eu não vou me esquecer, Arthur. Você vai querer o de sempre?

— Sim, menina Amélia. Por favor.

— Então eu já volto com seu pedido.

Arthur passou cerca de trinta minutos por ali. Às vezes conversa com um estranho que ele aborda aleatoriamente, toma seu cappuccino sem pressa, aproveita a música ambiente como se fosse algo digno de nota. O tema da solidão fica em minha mente o restante do dia. Eu não me sinto sozinha sempre, aliás, sozinha não é bem a palavra certa para descrever o que sinto. Eu sinto falta. Falta de alguém com quem ser íntimo, ser transparente, completo.

Vou para casa no fim do expediente, acabo ficando no celular por alguns minutos jogada no sofá passando stories. Heitor postou há horas atrás uma foto brega de uma tela mostrando uma reunião online com a frase “finalmente encerrando os treinamentos”. É uma deixa. Eu me odeio por isso mas respondi o story iniciando uma conversa no histórico anteriormente vazio.

“Arthur perguntou por você hoje no café. Eu disse que você estava se adaptando bem ao novo trabalho, espero ter acertado hahahaha”

Ele demorou um minuto para visualizar, ainda mais um tempo para responder, depois que eu já havia desistido de assistir aquela animação de pontinhos subindo descendo.

“Arthur é um querido! Espero que ele também esteja bem”

Leio aquela mensagem decepcionada. Parece até que foi friamente calculada para que eu não tenha possibilidade de assunto para puxar a partir dela, a não ser que eu resolva falar de Arthur. Para o meu alívio, os três pontos começam a mexer de novo. Não preciso esperar muito para a segunda mensagem:

“Regina me chamou para a confraternização da Cantinho. Estou pensando em ir.”

Essa sim é uma mensagem que consigo responder.

“Vai sim! Vamos montar a árvore de natal e comer tudo que tiver ficado na vitrine. E de graça!”

Ele visualiza imediatamente e responde:

“Hahahahaha”

“O difícil para mim é que é no meio da semana, mas vou fazer um esforço.”

A perspectiva de vê-lo novamente me deixa um pouco ansiosa. Eu escrevo:

“Com certeza vão gostar de te ver lá.”

Talvez dizer que eu vou gostar de o ver seria mais sincero, mas eu não consigo ser tão direta. Envio essa mensagem, ele vê e reage com um coração amarelo. De todos, por que o amarelo? Por que não o vermelho? Para minha ansiedade isso parece a confirmação de que ele não está interessado.

_

As festas de aniversário da Rebeca são sempre marcadas por pessoas novas que eu não faço ideia de onde ela conheceu. Mesmo trabalhando a noite, ela consegue ter uma vida social que para mim é invejável. Ela disse que chamou apenas seu círculo mais íntimo e permitiu que algumas dessas pessoas trouxessem um acompanhante e, mesmo assim, há mais de vinte pessoas circulando entre nossa sala e o quintal nos fundos que ela decorou muito bem.

Geralmente é Vanessa, uma amiga da época de faculdade, que me faz companhia nessas festas, já que Rebeca está ocupada sendo uma boa anfitriã. Mas dessa vez ela se enrolou em um compromisso familiar e isso resultou na minha sensação de estar deslocada em minha própria casa. Tento me enturmar em um grupo pequeno que está jogando Uno na sala, eles são divertidos, mas não obtive sucesso. É no deslocamento para minha cozinha, a fim de pegar minha terceira taça de vinho, que ouço uma voz grave atrás de mim:

— Com licença? – Me viro para ver quem me chamou, é um homem de rosto familiar, mas não faço ideia de onde o conheço. – Você pode me dizer seu nome?

— Amélia. – Ao menos ele também não me conhecia.

— Amélia, por acaso você é cliente do Liège?

— Sim? – Eu estou confusa. Liège é uma loja de itens de confeitaria que eu frequentava antes de arrumar o emprego no café. – Você trabalha lá? Eu tenho a impressão que já te vi.

— Não, eu sou cliente lá. – Ele sorri meio sem graça. – Desculpa, isso é estranho, é que eu sempre te via lá. Prazer, meu nome é Gustavo.

— Ah, que curioso! Muito prazer. – Talvez ele seja alguém com quem conversar. – Você também é confeiteiro?

— Não, doces não são bem meu forte. – Ele falou rindo. – Eu trabalho na cozinha do Entremontes, mas tenho me especializado em padaria.

Sinto minhas sobrancelhas subirem de surpresa. O Entremontes Resort é com certeza o hotel mais luxuoso da cidade, o restaurante sempre tem filas de espera, o que me faz pensar que ele deve cozinhar muito bem. Outra coisa que não consigo evitar pensar é que ele tem braços muito fortes, parece ser o tipo que realmente se dedica à academia.

— Com esses músculos, você deve sovar qualquer massa com muita facilidade. – Droga, eu não ia dizer essa parte em voz alta! Ele me encarou levantando uma sobrancelha e dando um sorriso de canto, talvez ele tenha entendido que é um flerte! Sinto minhas bochechas corarem, desvio o olhar e abro a geladeira em busca da garrafa de vinho. – Bom, qualquer amigo da Rebeca é meu amigo também, fique à vontade!

— Obrigado, eu estou. – Percebi ele se apoiando no balcão ainda olhando para mim. – Você que mora com a Rebeca?

— Sim, sou eu sim.

— Me falaram muito bem dos seus bolos. Fiquei até me perguntando se não estavam te superestimando.

Pego a garrafa de vinho ainda lacrada na geladeira e olho para ele logo que ele termina essa frase. Quando se trata do meu trabalho, eu sou um tanto confiante, talvez até orgulhosa demais.

— Eu não sou de me gabar, mas… Acredito que não estavam. – Eu sorrio.

— Acho que vou ter que esperar para ver. – Ele me observa levar a garrafa até o balcão e pegar o saca rolhas. – Posso te servir?

Ele tem um olhar intenso e confiante, parece que quer me atravessar. Estende a mão esperando receber o saca-rolhas, que entrego, e deixo minha taça sobre o balcão. Ele me serve com gestos sofisticados de quem segue a etiqueta gastronômica rigorosamente. Tenho que admitir que isso chama atenção, eu estou intrigada.

— Faz tempo que você trabalha no Entremontes? – Me apoio no balcão enquanto ele termina de servir minha taça.

— Há alguns anos. Eu entrei como auxiliar de cozinha, hoje sou entremetier. – Palavra difícil, será que ele fala mesmo francês? – Cuido de guarnições, massas… Aqui está.

Ele posiciona a taça na minha frente.

— Obrigada. Parece um trabalho intenso.

— É sim. Mas eu gosto de coisas intensas. – Ele sorri e busca na bancada uma taça limpa, ficando à vontade na minha cozinha. Se serve com os mesmos trejeitos sofisticados. – É muita coincidência eu te encontrar aqui.

— Na minha casa?

— Justo na sua casa! Eu estava decidido a ir falar com você na próxima vez que te visse no Liège, mas você não apareceu mais. Nessa semana mesmo estava pensando no por que nunca mais te vi.

Eu estou corando de novo. Que cara atacante! Eu tinha um admirador e não sabia? Bebo um gole de vinho antes de responder.

— Realmente… Eu estou trabalhando em um café em período integral, então agora compro suprimentos pela internet. A próxima vez poderia demorar um pouco.

— Então o acaso me favoreceu mesmo. Mas qual é o café?

Ele parecia não querer ir a qualquer outro lugar. Eu conto do emprego como atendente, da minha vontade de economizar para a minha confeitaria, e ele parece muito interessado nos meus planos! Um outro homem passou por ele avisando que ia fumar do lado de fora, ele avisou que depois o encontrava lá, mas não foi.

Gustavo também me falou dele mesmo, de como gosta de trabalhar no hotel, mas ao mesmo tempo a jornada é muito cansativa. Seu plano é montar uma padaria artesanal, onde ele possa trabalhar em horário comercial e não chegue em casa tão tarde. É uma vontade genuína. O que nos diferencia é que ele já tem um ótimo salário trabalhando no hotel e parece saber investir suas reservas. Já eu praticamente acabei de começar.

Cantar o parabéns para Rebeca sempre é uma bagunça, as pessoas nunca se cansam, repetem a canção em looping quantas vezes conseguirem. Mas depois de minutos dessa bagunça, consegui sair do meio do tumulto com dois pedaços de bolo. Encontrei Gustavo ainda perto do balcão, bebendo água com gás.

— É a hora da verdade. – Ele me diz.

— Amora ou framboesa? – Pergunto antes de entregar um dos pedaços.

— Framboesa. – Ele responde com certeza.

Entrego o pedaço que possui uma framboesa em cima para ele, que analisa o pedaço fazendo charme e segurando um sorriso.

— Está bonito. – Ele olha para mim.

— É uma parte importante. – Eu respondo já colocando o primeiro pedaço na boca.

— Sim, de fato.

Ele dá uma garfada pegando todas as camadas do bolo e o levando à boca. Enquanto mastiga, percebo um sorrisinho se formando no canto dos lábios. Eu aguardo com uma pose relaxada e confiante, ainda mais depois de perceber a aprovação em sua expressão. Ele olha para mim balançando a cabeça, me estende a mão.

— Parabéns!

— Eu sabia que ia gostar.

Eu dou risada e aceito seu comprimento lhe estendendo a mão. Ele a segura e depois não a solta. Não faz força para manter minha mão ali, mas não recolhe a dele e eu também acabo deixando ali a minha. Ele tem mãos quentes e confortáveis, percebo que estamos os dois observando nossas mãos, ele massageia o dorso da minha com o polegar.

— Você gosta de cinema? – Ele ergue os olhos para mim de novo.

— Gosto. – Eu me sinto um pouco à mercê.

— Eu folgo às quintas. Posso te levar num encontro?

— Na quinta?

— Sim. Deve ter algum filme interessante por volta das oito.

Hesito. Não sei dizer por que, talvez porque pareça conveniente demais? Ele parece um cara vaidoso, é bonito, os cabelos são raspados e a barba é bem aparada, os braços fortes parecem exigir alguma disciplina.

— Eu acordo cedo na sexta. – Ainda não me decidi.

— A que horas você fica disponível?

Faço uma conta mental.

— Eu conseguiria estar pronta às sete, se me apressasse.

— Se eu te pegar aqui às sete e quinze e te trazer de volta às onze, é cedo o suficiente para você?

Eu penso em criar mais um obstáculo, mas, sinceramente? O fato de ele se adaptar rapidamente às minhas necessidades é atraente. E m encontro seria bom. Na pior das hipóteses, o que é mais um na minha lista de decepções?

— Combinado. Escolha um bom filme!

Ele sorri. Um sorrisinho convencido, tenho que dizer.

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Na quinta-feira, entro em casa às onze e quinze. Eu estou com sono, mas Rebeca está na cozinha comendo macarrão instantâneo e bate eufórica na mesa assim que me vê.

— Como foi? Me conta tudo! – Ela está muito animada.

Eu dou uma risada fraca, mas sorrio.

— Foi bom! Ele é muito sofisticado, chega até a ser um pouco metido. Fomos ao cinema e depois ele me levou a um barzinho. Ele seguiu a cartilha todinha, fez questão de pagar tudo, me deixou à vontade… – Dou risada já antecipando a reação dela pelo que vou dizer. – E ele beija bem.

— Obrigada, meu Deus, por atender minhas preces! – Ela levanta as mãos para teto, agradecendo. – Agora termine de tirar a minha amiga dessa seca maldita!

— Ai, não exagera, Beca! – Dou risada. – De onde você o conhece, aliás?

— Temos amigos em comum. Eu sempre achei ele um gostoso, mas um amigo dele me pegou antes. – Ela fala empolgada enrolando o macarrão no garfo. – Mas no fim assim foi melhor, porque já me confirmaram que ele está super interessado por você.

Eu estou caminhando a passos lentos para o corredor, dou uma risada fraca.

— Te “confirmaram”?

— A Giovanna falou para o Marcelo e ele me falou.

— Bom, no cinema a gente não conversou muito, mas a parte física foi… muito boa. Agora vamos ver nas outras partes, né?

— Claro. – Já estou quase sumindo da vista dela quando ela me chama de novo: – Mas ei, Mila. – Eu paro de andar para olhar pra ela. – Tô achando que você não está tão animada com isso, pode ser por causa dos seus últimos encontros que não deram em nada, mas… Vocês têm bastante em comum! E você merece estar com alguém que te queira. Tenta se abrir para uma chance.

Eu sorrio, sou feliz de ter uma amizade como a de Rebeca. Me aproximo dela e a abraço.

— Obrigada, amiga.

_

Daniel, um dos cozinheiros da Cantinho Café, havia preparado uma fornada de biscoitos de gengibre para nossa confraternização de natal. O cheiro era delicioso. Era o início de novembro e a cafeteria já não seria a primeira a investir em decorações de natal entre os comércios do centro.

Os últimos clientes vão embora, Evelyn prontamente tira seu avental e se espreguiça.

— Finalmente! – Ela deixa sua posição no balcão e vai indo para os fundos avisar que podemos começar. – Você fecha a porta, Amélia?

— Pode deixar!

Vou para a frente empolgada para colocar nossa plaquinha dizendo que estamos fechados, quando ouço o sininho indicando que alguém entrou. Não consigo sequer ficar decepcionada, porque logo reconheço os cabelos desgrenhados passando pela porta. Ele parece ansioso por estar ali, mas sorri pra mim e eu sorrio para ele com a estranha sensação no peito, parece que eu só noto agora o quanto eu senti falta dele, ao mesmo tempo que lembrar do nosso último encontro me deixa desconfortável.

— Boa tarde! – Ele se aproxima vindo me cumprimentar com beijinhos no rosto.

— Boa tarde. – Eu respondo reagindo ainda de forma lenta, o abraço. – Você veio mesmo!

— Sim, eu precisava. – Ele me dá um sorriso meio triste quando me solta, mas não consigo perguntar por quê.

— Ah, não é que ele veio? – Ouço a voz de Priscila nos fundos do café.

— Vai lá. – Sorrio e termino de passar por ele para trancar a porta.

Heitor é bem recebido e logo as pessoas da cozinha e do administrativo, que pouco vejo, chegam para a confraternização. O sistema de som da loja começa a tocar músicas natalinas, Regina libera itens do cardápio de natal para experimentarmos e começamos a montar a árvore de natal.

Estou sentada no banco da área de descanso amarrando enfeites a um fio dourado para serem pendurados na árvore quando Heitor se aproxima. Ele se senta ao meu lado com um copo de suco na mão.

— Me falaram que você está se saindo muito bem.

Eu sorrio, mas é um sorriso meio tenso. Eu estou feliz por vê-lo, ao mesmo tempo que acho que não deveria ficar tão feliz.

— Bom, era pra te substituir, eu tinha que fazer bem feito, né? – Noto um hematoma em seu braço, o que me gera curiosidade. — O que aconteceu?

— Ah… eu estava distraído, esbarrei, nem sei como ao certo. – Ele não dá importância, suspira. – Eu queria falar com você rapidinho.

— Claro, pode falar.

— É para te pedir desculpas. – Ele fala meio baixo. Eu paro de amarrar enfeites, ainda olhando para esse pinheirinho de plástico apoiado no meu colo. Fico em silêncio para que ele continue. – Eu saí de repente, te deixei lá sem explicar nada. Eu… achei que você estaria brava ou algo assim.

— Confusa é uma palavra melhor.

— É… Eu não consigo te explicar meus motivos, mas eu sinto muito.

Olho para Heitor. Ele está com as duas mãos ao redor do copo, corado por ter que falar, de cabeça baixa. Alguma coisa revira dentro de mim, eu não sei o que o aflige, mas não gosto de o ver assim.

— Esquece isso. Você não me deve nada, eu não tenho nenhum ressentimento de você! E se tivesse, já é quase natal, seria hora de te perdoar.

Ele sorri pra mim ainda tenso. Eu também não estou me sentindo tão confortável quanto estava na última vez que nos vimos, mas sorrio de volta.

— Obrigado, Amélia. Você é muito gentil, talvez o mundo precise de mais pessoas como você.

Eu coro um pouco ouvindo isso.

— Você também é muito gentil.

Ele sorriu e olhou para os enfeites que estavam tomando o espaço.

— Você gosta do natal?

A pergunta me fez olhar para todos ali, empenhados em colocar estrelinhas douradas em uma árvore.

— Minha família não é bem religiosa. – Respondo. – Eu acho que não carrego o significado original dessa data, mas eu gosto da ideia de um momento para nos lembrarmos do que é importante de verdade. Para estarmos com pessoas que nos amam e que amamos.

— É importante que a gente se lembre que tem com quem contar, né?

— Sim. – Essa frase me pareceu um tanto estranha. – Não só no natal, é claro.

Ele faz que sim com a cabeça e o vejo abrir a boca para falar alguma coisa quando Regina o chama.

— Heitor, empreste sua altura para penduramos essas luzinhas! – Ela está tentando alcançar um lugar difícil.

— Bom… Eu sabia que esse convite tinha segundas intenções. – Ele olha para mim se levantando. Eu dou risada.

— Depois falamos mais.

— Sim. Com licença.

Passamos o resto da noite ajudando a arrumar enfeites, comendo, participando de brincadeiras pensadas por Evelyn. Eu percebo que ele olha para mim mesmo de longe em vários momentos, sorrindo sem graça ao perceber que notei seu olhar. Em uma das vezes, ele está do outro lado da árvore de natal, e ri:

— Você está cheia de glitter!

Olho para minhas mãos e percebo o pó brilhante dourado por elas e por meus braços, provavelmente estão caindo de enfeites novos que acabamos de tirar da caixa.

— Isso está no meu rosto? – Pergunto.

— Sim!

— Diga, Bella. Alto e claro. Diga. – A piada veio rápido à minha mente, me pergunto se ele entenderá a referência. Ele começou a rir alto.

— Vampira!

— Essa é a pele de uma assassina.

Como eu adoro assisti-lo rir. Desse jeito, fechando os olhos e os cobrindo com a mão. Eu dou risada com ele, Evelyn nos olha como se fôssemos patéticos e fofos ao mesmo tempo. Heitor se afasta indo até o balcão e me traz um paninho multiuso descartável.

— Boa sorte se livrando disso.

— Obrigada.

Sorrio aceitando o pano e me afastando da árvore começando a tirar glitter das minhas mãos. Meu celular vibra em meu bolso enquanto estou afastada e eu o checo. Recebi uma mensagem de Gustavo:

“Boa noite! Como foi seu dia? Estive no Liège hoje e vi que estavam com pouco chocolate rosa, sem previsão para receberem mais. Eu comprei para caso você precise.”

Gustavo tem sido frequente, não de forma sufocante, ele parece que gosta de me fazer favores às vezes desnecessários. Talvez assim que um interesse contínuo se pareça. Guardo meu celular no bolso, eu o explicarei que não o respondi de imediato por causa da confraternização e ele deve entender, porque parece levar o trabalho muito a sério.

Por outro lado, mesmo não me escrevendo sempre e me perguntando sobre o meu dia, Heitor me faz querer sorrir só por estar no mesmo espaço que eu. O que deveria contar mais?

A noite seguiu com ótimos comes e bebes. Já estamos no final quando Heitor se aproxima de novo, bagunçando o cabelo por onde havia caído neve falsa, enquanto ri das palhaçadas de Daniel e Cristiane da cozinha. Eu estou colocando os copos que usamos na lava-louças quando ele para ao meu lado. Ele parece cauteloso, meus olhos ganham sua atenção.

— Amélia, posso te pedir uma coisa?

— Claro.

— Eu devo visitar minha mãe e minhas tias para o natal, lá em Serra Santa.

— Aham… – Estou tentando entender o que uma viagem de três horas pode precisar de mim.

— E quero levar presentes para elas, mas eu sou muito ruim com isso. Sempre erro nos tamanhos, nas cores… Você poderia me acompanhar no shopping para me ajudar com isso?

— Sim! – Até eu me impressiono com o quão rápido aceito. Por que eu simplesmente não pensei?

— Tá! Então pode ser no final de semana?

— Sim, pode sim.

Sorrimos um para o outro, ele parece satisfeito. Nós trocamos números para combinarmos melhor o como faremos e, não parece, mas isso será um encontro, certo?