A Receita Secreta do Amor

1 Exemplo de Cordialidade


“Não se esqueça de estender a roupa se quiser ter o que vestir amanhã”.

Eu analiso meu bilhete no topo da bancada pensando se as letras são garrafais o suficiente para chamar atenção de Rebeca, minha amiga e com quem eu divido o aluguel dessa casa antiga. Coloquei este bilhete na porta da geladeira e um segundo no controle remoto da TV, dizendo apenas:

“Sério. A roupa.”

Rebeca tem sido minha melhor amiga desde que entramos na faculdade, continuou sendo mesmo depois que ela mudou de curso. E desde então aqui estamos, duas garotas ferradas encarando a vida.

Vale Branco é, dentre outras coisas, uma cidade turística. Localizada bem no pé da serra, é um destino para famílias e também para casais. Muitos casais. Eu moro em um bairro próximo do centro e, nos quinze minutos de caminhada até a cafeteria, consigo observar alguns deles andando de mãos dadas na calçada, olhando vitrines de lojas que ainda abrirão, ou voltando de piqueniques onde observaram o nascer do sol.

A Cantinho Café fica em uma esquina, suas janelas e porta de vidro exibem seu ar acolhedor e eu consigo ver que já há funcionários trabalhando lá dentro, mesmo que a placa na porta ainda diga “fechado”. Bati de leve no vidro da porta e uma mulher de cabelos tingidos de ruivo veio abri-la para mim. Era Regina, a dona, eu a conheci na entrevista.

— Bom dia! – a cumprimentei com simpatia, afinal de contas ela é minha chefe.

— Bom dia, Amélia. As meninas estão se trocando lá nos fundos, você pode deixar suas coisas no armário. – Ela fechou a porta atrás de mim e verificou um relógio de pulso. – Abriremos em dez minutos.

— Vou me apressar.

Sorri para ela e logo caminhei para trás do balcão, me preparando para o primeiro dia. Deixei minha bolsa e minha jaqueta em um espaço vazio no armário, prendi meus cabelos, coloquei meu avental e voltei para a frente da loja sem a mínima ideia do que fazer. Geralmente eu trabalho na cozinha, eu vendo bolos e doces que faço em casa, não sei muito do que se faz da cozinha para fora.

Minha expressão devia ser de confusão, porque Regina logo me abordou. Seus olhos são gentis, embora ela mantenha um ar distante e profissional.

— Me acompanhe, por favor. – Claro que eu passei a segui-la. – Você está entrando para substituir o Heitor, então ele que vai fazer seu treinamento.

Vejo um homem alto e de cabelos escuros repondo os guardanapos de papel das mesas, ele tem um ar casual e estranhamente familiar. Regina o chama com uma mão e ele a vê, olhando para mim em seguida.

— Bom dia! Você deve ser a Amélia! – Ele se aproximou estendendo a mão para mim.

— Bom dia! É, sou eu. – Também sorri e estendi minha mão para cumprimentá-lo.

— Se você tiver qualquer dúvida, você pode procurar Heitor ou a mim. – Regina explicava de forma clara e polida para mim. – Tente conhecer nosso cardápio hoje e veja como atendemos nossos clientes. Heitor é um ótimo exemplo da cordialidade que procuramos oferecer.

— Gentileza sua, Regina. – Ele respondeu e eu ainda estava o observando, por algum motivo. Talvez sejam os olhos doces.

— Me chamem se precisarem de qualquer coisa. – Ela nos deixou entre as mesas do café.

Ele olhou para mim, percebi que eu estava o encarando fixamente e desviei o olhar tentando não corar.

— Eu posso te ajudar a repor os guardanapos. – Me ofereci, torcendo para conseguir disfarçar.

— Pode ser! Falta toda essa parte do salão.

Os guardanapos são dobrados um por um e posicionados em um suporte de cerâmica branca sobre a mesa, ele já tem certa agilidade com os dedos para fazer isso, algo que eu não consigo replicar.

— Não precisa pensar demais, Amélia. A dobra é só pra ficar mais fácil do cliente pegar. – Ele me explicava gentilmente enquanto os movimentos de duas mãos resultavam em triângulos perfeitos e os meus pareciam até tristes. – Você vai acabar gostando daqui, é um lugar acolhedor.

— Eu costumava vir como cliente. Anos atrás. – Tentei só continuar o assunto.

— É mesmo? O café mudou bastante nos últimos anos.

— Sim. Era um lugar bem mais simples, menos chamativo para os turistas.

— Você é daqui de Vale Branco mesmo?

— Na verdade não, eu vim para estudar. Mas agora já faz tempo o suficiente para me sentir em casa.

— É uma boa cidade, eu gosto daqui. Do café você já está perto de tudo e a chefa é bem compreensiva.

— Eu imagino que sim. Não é de todo trabalho que a gente pode sair amigavelmente e… bem, você está aqui.

— Sim, sim.

— Regina comentou na entrevista que você tinha arrumado um emprego na sua área.

— É sim! Eu sou especialista em acessibilidade no desenvolvimento de softwares. – Me surpreendeu, me parecia uma área complexa. – Diferente, né?

— Bom, nada a ver com atendimento ao cliente.

— Acho que vou jogar um ano de experiência servindo café fora. – Ele ironiza.

— Bom, até onde eu sei, os profissionais de tecnologia gostam de muita cafeína.

Ele ri. Continuamos arrumando as mesas por mais um tempo, até que ele decidiu me mostrar onde ficava cada coisa atrás do balcão. Eu entendi, ao longo do treinamento, o que Regina quis dizer com “exemplo de cordialidade”. Ele era extremamente gentil com todo e qualquer cliente, mesmo com quem só entra para pedir uma informação, sempre oferecendo mais do que foi solicitado. E parece algo natural, porque até comigo ele não era nada menos do que muito gentil. É meu ambiente de trabalho, então claro que não falarei nada a respeito disso, mas confesso que me sinto um tanto atraída por esse tipo de comportamento.

Outra pessoa que me chamou atenção foi Priscila, mas não consigo dizer se de um jeito bom ou ruim. Ela é muito eficiente, ágil, não tem tempo ou gorjetas a perder, ao mesmo tempo que se prende em fazer o básico. Ela e Evelyn, a barista, parecem bem próximas.

Já estamos quase no final do expediente, mantenho meus olhos na porta e em uma família que está com um bebê, caso precisem de algo, enquanto ouço Evelyn e Priscila conversarem. Elas falam sobre suas trajetórias profissionais, Evelyn quer participar de um workshop de barista, Priscila está pensando em voltar para a faculdade. Continuo em silêncio quando percebo Heitor se aproximando de novo.

— E você? Está estudando? Já se encontrou? – Ele se apoiou no balcão ao meu lado, também observando as mesas.

— Eu sou confeiteira. – Olhei para ele para contar. – Eu faço bolos e doces sob encomenda, quero juntar dinheiro para abrir uma confeitaria. Se você precisar de um bolo de casamento, aniversário…

— Vou me lembrar disso. – ele deu um sorrisinho atencioso com o qual eu já estava me acostumando – E você gosta de cozinhar ou foi só algo que…?

— Eu gosto. – Eu poderia parar por aí, mas essa resposta me parece tão incompleta e por algum motivo o olhar dele me deixava à vontade para falar mais. – A comida deixa os momentos mais especiais, né? Cria desculpas para unir as pessoas. Eu gosto de pensar que contribuo para isso.

— É seu propósito.

— Acho que sim.

Ele sorri. É um sorriso bonito.

_

Na quinta-feira daquela semana vi que os bilhetes na porta da geladeira de casa foram substituídos por um pequeno quadro-branco preso por ímãs. Havia uma caneta preta presa nele por uma cordinha e uma mensagem na caligrafia de Rebeca:

“Indiquei seu bolo para um aniversário. Vão te mandar mensagem. Bundinha!”

Peguei a caneta e escrevi “Obrigada!” em um espaço em branco antes de sair.

Agora eu já atendo clientes no café. Ainda preciso tirar muitas dúvidas com Heitor e com Evelyn, como que leites vegetais usamos, que itens não possuem glúten, entre outras coisas. Mas é claro que é uma função relativamente fácil se você for atencioso.

Eu falo bastante com Heitor. Não por tempo demais, afinal de contas estamos trabalhando, mas conseguimos manter uma conversa quando não há clientes para atendermos. Isso parece ter gerado alguma especulação por parte de Evelyn, que me disse:

— Ele tá solteiro, viu? Terminou faz alguns meses.

Em um primeiro momento eu pensei que ela queria ser minha amiga, até sorri meio sem graça, mas rapidamente reconheci um certo deboche no olhar dela. O constrangimento parecia ser seu objetivo. As pessoas acham que eu não tenho malícia ou que eu sou boba porque gosto de ser simpática com as pessoas. E eu sou um pouco mesmo, infelizmente. Por sorte, alguns clientes chegaram antes de ela perceber que fiquei sem resposta.

Era uma família de quatro pessoas. Uma mulher com o esposo, o pai dela e um bebê. Foram os primeiros clientes difíceis que eu tive, eu soube que seria complicado quando desde o início não sorriram. Eu tirei o pedido e, antes de enviar para a cozinha, Heitor me abordou no balcão.

— Anote nas observações do pedido: “adequado”.

— Por quê?

— É um código para eles saberem que a cliente é a Gisele.

— Ah! – eu quis dar risada, fiz a anotação e mandei pelo sistema. – Mas eles fazem alguma coisa quando…?

— Não o que você está pensando. – Ele riu enquanto respondia com voz baixa. – Ou não que eu saiba! Mas ela sempre achava que tudo estava temperado demais. Sabe como é, gente chata não gosta de sabor.

Eu sorri evitando dar risada.

O resto do tempo daquela família ali foi cheia de pequenos pedidos. Mais gelo, outro talher, outro suco e dessa vez sem açúcar. Ao final, eu perguntei se tudo estava certo com o pedido e Gisele disse que estava adequado. O esposo foi pagar a conta e eu começo a tirar a mesa enquanto Gisele está colocando o bebê em um carrinho. Noto que o pai dela está abaixado em sua cadeira, e, reparando melhor, ele está tentando amarrar o sapato. É um senhor de aproximadamente 70 anos, ele tem alguma dificuldade em alcançar o cadarço, então ajo no automático e deixo a bandeja onde eu colocava os pratos sobre a mesa. Me viro para ele com cuidado e digo:

— Posso ajudar o senhor?

Ele olha para mim um pouco surpreso e faz que sim com a cabeça. Me abaixo e amarro o sapato.

— Prontinho!

Volto a tirar a mesa em seguida. Gisele olha para mim, ela não me agradece com palavras, faz apenas um maneio de cabeça. Eles vão embora enquanto estou levando a louça suja para a máquina de lavar mais aos fundos.

— O que foi aquilo? – Priscila me seguiu até lá para perguntar.

— Aquilo o que?

— Com o pai da Gisele!

Ela está com um ar irritado que eu não entendo. Qual deveria ser o problema?

— Ele precisava de ajuda para amarrar o sapato.

— Na próxima vez, deixe a Gisele amarrar!

— Que? – Achei que eu não havia entendido bem.

— Se toca, você não vai ganhar pra isso.

Eu estava em choque, confusa, a agressividade na voz de Priscila era cortante, como se eu tivesse cometido alguma injustiça contra ela.

— Foi só uma gentileza. – Expliquei o que para mim era óbvio.

— E agora vai ser uma obrigação de toda vez que ela vier aqui.

— Eu… Eu espero que não seja, mas me desculpa, eu não acho que ela vai cobrar esse tipo de coisa no futuro.

Ela nem terminou de me ouvir, já saiu a passos duros para a parte da frente do café. Olhei ao redor, Evelyn estava me observando, mas desviou o olhar. Heitor, que estava atrás do balcão embalando biscoitos, me chama para perto com um sinal de cabeça. Terminei de jogar os restos de comida fora, ajeitei os pratos e fui ao encontro dele.

— Vou te dar uma dica. – Ele disse baixinho. Não o volume baixo que ele usa para clientes não ouvirem, mas um volume baixo para nossas colegas não ouvirem. – Não peça desculpas sempre. Você só foi gentil. Se ficar se desculpando por isso, elas vão te comer viva. – Olhei para ele com um olhar preocupado. – Mas, quando se acostumam com você, elas são legais.

— Você não me tranquilizou muito.

— Relaxa. Só passa a ignorar um pouco, você tem que mostrar firmeza.

Fiz que sim com a cabeça, parecia um bom conselho, mas talvez um que eu não conseguisse seguir.

O sininho da porta tocou alertando para a chegada de um novo cliente, o sorriso de Heitor me fez olhar para quem entrava. Era um senhor de uns 50 anos que usava uma boina xadrez marrom e se guiava para dentro com auxílio de uma longa bengala branca.

— Arthur! – Heitor o chama enquanto caminha até ele. Parecem amigos.

— Achei que você já tinha saído daqui, Heitor. – o homem responde.

— Ainda não, é minha última semana. Mas já conhecemos minha substituta.

Eu estava os observando quando Heitor me chamou com um gesto, vou até ele com um sorrisinho no rosto.

— Boa tarde! – o cumprimentei.

— Uma bela voz. – Arthur me disse com um sorriso no rosto. Ele consegue virar o rosto bem em minha direção, mesmo sendo cego.

— Esta é Amélia. Arthur é um cliente regular aqui no café, o de sempre dele é um pão na chapa e um cappuccino com chocolate. – Heitor me explica com o mesmo tom que usa para explicar outras partes do treinamento.

— É um prazer! Quer que eu já mande esse pedido para a cozinha?

— Por favor, minha jovem. – Arthur sorri e coloca uma mão no ombro de Heitor, deixando que ele o guie para uma mesa.

Volto para o balcão e mando o pedido pelo sistema no computador enquanto os dois seguem conversando. Cheguei a montar a bandeja com o pedido pronto, mas Heitor fez questão de levá-la para a mesa.

— Quando você for fazer isso, é importante servir os itens sempre na mesma posição.

— Posso observar daqui, vocês parecem ter o que conversar.

— Eu confio que você vai atendê-lo muito bem, ok? – Ele fala comigo com expectativa, colocando uma leve pressão por brincadeira.

— Pode ficar tranquilo, eu cuidarei disso. – Sorrio para ele em resposta.

Vejo Heitor se afastar com a bandeja, a equilibrando elegantemente. Seus ombros são largos, seus braços são firmes. Ele poderia me treinar em outras coisas se quisesse. Meu Deus, no que estou pensando?

_

Em um domingo, fui ao shopping encontrar Rebecca. Ela me espera na frente da sorveteria que tem o melhor sorvete de torta de limão da cidade, meu favorito.

— Boa tarde, estranha! Nem te vejo mais. – ela me cumprimenta com beijinhos no rosto.

— Essa vida de trabalhadora seis por um vai me matar. – a abraço querendo desabar depois de duas semanas de trabalho intenso.

— Bem vinda ao meu mundo. Muito bom te ver, veio só dar uma volta?

— Vou passar no Espoleta comprar forminhas de brigadeiro, resolvi aproveitar pra te ver.

Espoleta é uma loja de artigos para festa, compro meus suprimentos lá quando preciso de pouca coisa.

— Tem alguma encomenda?

— Sim, para quarta-feira. Mas como está o trabalho?

— Normal, amiga. As vendas estão meio baixas, mas com o final do ano isso deve mudar. E como foi sua primeira semana sem o mentor gatinho?

É assim que ela vem chamando Heitor, eu dou risada.

— Estou sobrevivendo, aos poucos tô ganhando a aceitação das outras meninas.

Fizemos nossos pedidos e fomos dando uma volta pelo shopping. Rebeca sempre me conta fofocas sobre pessoas que eu nem conheci e acena para um ou outro interesse que ela tem em lojas diferentes.

— Você tem sobrando, hein. – Comento com ela quando ela passa dando um olhar sugestivo para um vendedor de uma loja de ternos.

— Na verdade eu não tenho nenhum, mas eu deixo eles acharem que me têm. – eu vou entrando na livraria, ela me acompanha – E aí a gente fica nesse jogo, ninguém tem ninguém, mas quando a gente quer se emprestar, acaba acontecendo…

— Eu achei que você ia investir no cara da ótica, qual era o nome dele mesmo?

— O Tico?

— Isso.

— Infelizmente, aquela pizza nunca será uma lasanha…

O que ela quer dizer é que este relacionamento casual, acionado com poucas mensagens e entregue na porta da sua casa em minutos, nunca será uma relação acolhedora, feita com dedicação e afeto, que pode estar na mesa do almoço de domingo com seus pais.

— Mas por falta de vontade sua ou…? – eu tento entender, semanas atrás eles estavam arrumando desculpas para se encontrarem em uma segunda de manhã.

— Acabou o encanto, né, amiga? Todo homem é o melhor do mundo até conseguir o que quer algumas vezes.

— Infelizmente, o mundo está cheio desses testemunhos.

Minhas experiências com relacionamentos são mínimas. Meu último namorado terminou comigo ainda na metade da faculdade, ele mudou de curso e foi para outro estado. Desde então eu constantemente conheço alguém aqui e ali, às vezes não chego nem ao segundo encontro antes de me desiludir.

— Mas acho que a gente não pode perder as esperanças, sabe? – Eu ouço Rebeca falar enquanto olho capas de lançamentos, procurando algum título que me chame atenção. – Nem ter esperanças demais, uma aventura de cada vez.

— Mas seria legal encontrar alguém pra durar.

— É. Mas sem pressa, eu estou gostando dos meus enroscos.

Dou risada olhando para ela, mas é uma figura atrás de Rebeca, olhando para a sessão de ficção científica, que me chama atenção. Eu rapidamente reconheço os cabelos levemente desgrenhados e as costas largas, mesmo sem uniforme. Minha expressão deve ter sido ótima, porque Rebeca olhou para trás imediatamente, identificando quem observo.

— É o Heitor. – Falo baixo.

— O mentor gatinho?

— Sim! – tento não olhar na direção dele, foco na sinopse de um livro que estou carregando.

— Vai lá!

— Não!

— Por que não?

— Sei lá, ele tá aproveitando o passeio dele.

— Amiga, só… Ele te viu.

— Me viu?

Olho para ela e o vejo olhando na minha direção. Ele sorri e acena, eu sorrio fingindo surpresa e aceno também. Ele vem atravessando o corredor da livraria com um sorriso no rosto.

— Amélia! – o sorriso educado de sempre no rosto.

— Oi! – Dou um passo a frente para o cumprimentar com beijinhos no rosto. – Que coincidência!

— Pois é! Passeando?

— Mais ou menos! – olho para Rebeca, que definitivamente não estava esperando participar da conversa – Beca, esse é o Heitor.

— Muito prazer! – ele a cumprimenta com um aperto de mão, ela sorri fazendo que sim com a cabeça.

— Igualmente! – ela responde.

— Rebeca é minha colega de casa. – Explico pensando no que dizer. – Heitor que me treinou…

— Ah, eu lembro que você me falou dele. – Por que ela tem que falar isso? Tentaria a repreender nem que fosse com o olhar, mas isso não funciona com Rebeca.

— Pois é, acho que falei. – A interrompo antes que ela diga alguma outra coisa. – E você? Só passeando? – pergunto a Heitor.

— Sim, estou procurando algo novo para ler. Eu tenho lido pouco, é algo que queria voltar a fazer. – Heitor responde fazendo que sim com a cabeça – Vai levar esse? – ele aponta o volume em minha mão.

Só então olho de verdade para o livro que estou carregando. É uma edição de Casas Estranhas.

— Eu… não sei, achei curioso e peguei pra ver do que se tratava. – respondi analisando capa e contracapa.

— Ele tem uma proposta interessante, eu ouvi falar sobre.

— Mesmo? – Olhei para ele. E atrás dele está Rebeca fazendo um sinal de “ok” com a mão e piscando com um olho só.

— Eu só ouvi falar, acho que é um livro de terror, não quero te contar nada que possa estragar a experiência. Mas bem, eu – ele ia se despedir, mas Rebeca o interrompeu.

— Amiga, deu minha hora. – ela se aproximou dando beijinhos no meu rosto – Tenho que voltar pra loja. Já está escurecendo, vai embora com cuidado, tá?

Como ela é ardilosa. O caminho do shopping para casa é uma caminhada de 20 minutos, a maior parte do caminho está no centro, entre bares e restaurantes abertos. Não é um caminho perigoso, longe disso. Mas agora Heitor já pode imaginar que vou embora sozinha.

— Pode deixar, não se preocupe. – respondo sem corrigir a história porque sinceramente me daria vergonha. – Bom trabalho!

— Bom passeio! – ela se afasta dando um aceno para mim e Heitor, nos deixando sozinhos.

Essa é uma boa coincidência, eu não posso fingir que essa situação não é interessante. Devolvo o livro na estante, percebo que Heitor olhou para mim assim que ela se afastou, provavelmente pensando no que falar agora que eu estou sozinha. Eu sei o que Rebeca quis fazer, quis me colocar em um encontro de última hora. E agora basta saber se eu concordo com o plano.

Ali está ele, tentando decidir o que dizer, talvez querendo me chamar para continuar essa volta na livraria com ele, talvez pensando que me convidar assim é deselegante, talvez pensando em como se livrar de mim do jeito mais rápido. Bem, eu não estou em ambiente de trabalho, ele também não é mais meu colega, então tudo que consigo pensar é “Se der errado, que mal faria adicionar mais uma decepção na minha lista?”.

— Acho que não estou procurando terror. – Explico finalmente soltando o livro no suporte de onde o tirei. – Pensei em algo mais leve.

— Deve ter algo... – Ele fez que sim com a cabeça. – Você gosta de literatura nacional?

— Gosto. Quer dizer, não sou uma grande conhecedora, faz tempo que não leio algo recente, mas… Acho que vou dar uma olhada.

— Eu poderia…

— Quer vir comigo?

Ele sorri e faz que sim com a cabeça.

Não demorou para encontrarmos assunto que nos engajasse. Na volta pela primeira estante, encontramos uma trilogia de lançamento barato com capas feitas por IA. Ainda se fosse uma produção independente, alguém que tentou se publicar sozinho, mas aquilo era uma livraria de shopping!

— Meu Deus… – eu digo alcançando o livro com a mão, vendo o livro frente e trás.

— Isso é IA!

— Isso é muito IA.

— Como… Como é feio. – ele franze o cenho olhando para o livro.

— É muito estranho, a editora tem dinheiro para um capista.

— Sim, e não tem economia que justificasse o mau gosto. Uma capa preta com título em branco era mais justificável do que… isso.

— São quantos dedos nessa mão? Parecem seis.

Ele começou a rir, eu não havia ouvido ele rir alto ainda e confesso que isso me fez rir também.

— Bom, parabéns aos envolvidos! – ele disse se recuperando.

— Tenho dó do autor que se esforçou para o livro encalhar por conta da capa.

Devolvi o livro no lugar, o acompanhando pelo corredor entre as estantes.

— É triste, mas não acho que publicaram sem aprovação dele. Se fizeram, foi uma baita sacanagem.

– Verdade. – Fizemos uma pausa muito pequena, porque eu tinha outro assunto para perguntar. – Você é da área da tecnologia, embora seja de uma área bem específica, certo?

— Sim.

— E como você vê isso? As empresas empurrando inteligência artificial para tudo… essas artes maravilhosas.

— Eu acho que as pessoas vão perceber que é menos eficiente do que elas acreditam, mesmo. Uma hora as coisas vão dar errado e vão ter que chamar um especialista humano para arrumar. E… quanto às artes, nós vamos olhar para elas assim como olhamos para os efeitos de CGI dos anos 90 e 2000. – A comparação me fez rir, ele continuou. – Era o melhor da época, tudo que se podia oferecer, e hoje a gente olha pra trás e pensa “como alguém teve coragem?”.

— Igual O Retorno da Múmia.

— Sim! Nossa, o Escorpião Rei é simplesmente horrível! – Ele fala enquanto ri.

— Eu assisti recentemente e comecei a gargalhar quando ele aparece, era pra ser o momento mais assustador do filme!

— E olha que já tinham melhorado muito os efeitos quando lançaram esse…

— Aquela cara que disseram pra gente que era pra ser o The Rock… se bem que ele não devia ser um ator tão caro na época.

Eu sei fazer ele rir, ele fecha os olhos rindo enquanto anda comigo.

— Tem um outro que é um ótimo exemplo! É o videoclipe da versão do David Hasselhoff de Hooked on a Feeling. – Ele me conta empolgado.

— Eu acho que nunca vi.

— Não! Para! Amélia, você tem que assistir, é hilário!

— Nem sabia que o David Hasselhoff tinha uma versão dessa música!

— Tem anjo, iceberg, cachorro, tudo que você imaginar! Sério, veja, por favor!

O jeito dele também me faz rir, o como que ele gesticula e se empolga, é fofo de um jeito que eu não sei porque, mas adoro.

Falamos disso por mais um tempo, eu disse que precisava ir ao Espoleta e ele me acompanhou. Saímos da livraria sem comprar nada. Eu escolhi forminhas de brigadeiro enquanto ainda conversamos, e falamos de tudo. Cinema, música, livros, empregos, memes. Quando conferi a hora, já eram quase sete.

— Eu tenho que ir. – Falei para ele dando um sorriso torto, sem querer me despedir.

— Você mora aqui perto?

— Moro sim, eu vou andando. São uns 20 minutos.

Rebeca preparou bem o terreno, porque ele olhou para fora percebendo que já estava escuro e olhou para mim de volta.

— Você quer companhia?

Foi minha vez de sorrir e fazer que sim com a cabeça.

Conversamos caminhando lado a lado na calçada, nossos ombros às vezes se trombam porque aparentemente queremos estar mais próximos. Eu sinto isso, eu vejo pelo sorriso que não sai do rosto dele e pela dor das minhas bochechas por também não conseguir parar de sorrir! Eu contava coisas do meu segundo trabalho, o de confeiteira:

— Eu já recebi uma encomenda uma vez de um bolo de Star Trek. Eu nunca tinha assistido nada da série.

— Como ficou isso?

— Eu te mostro uma foto depois. Eu fiz o bolo no formato do logo clássico da Enterprise.

— Eu encomendaria um bolo desse!

— Você gosta de Star Trek?

— Amélia, eu sou um nerd old school! Claro que eu gosto.

Eu dei risada.

— Sabe que eu me encantei com a série? Quer dizer, eu comecei a ver por curiosidade, mas fui vendo uns episódios aleatórios e eu adoro o como ela aborda os problemas dos episódios de um ponto de vista quase filosófico.

Eu percebi que ele suspirou.

— Não faz isso comigo…

— Eu cheguei em um episódio em que há um assassinato na nave. Já pensei “pronto, um episódio de desvendar o assassinato”, mas aí rapidinho eles pegam o assassino e vira um episódio para pensar “por que matamos?” e “há recuperação para quem já matou?”.

Ele suspira de novo e começa a gesticular pausadamente, com a fala acompanhando o ritmo:

— É exatamente isso que eu amo nessa série.

— É fantástico!

— Você pegou o espírito dela. Em que episódio você está? Qual das séries?

— Não sei ao certo, tenho que dar uma olhada. – Já estamos em frente de casa, eu aponto o portão. – É aqui.

— Ah… – Ele parece decepcionado, confesso que eu também gostaria que não estivesse acabando. Ele olha ao redor soltando o ar pela boca, analisando a rua. – São casas bonitinhas nesse bairro.

— Sim! São todas dos anos 60… eu gosto.

— Tinha um charme, né?

— Tinha sim.

— Bom! Então… está entregue.

— Obrigada pela companhia hoje.

— Eu que agradeço, adorei conhecer mais de você.

Mas não o suficiente para se inclinar e me dar um beijo? O que está acontecendo? Eu vejo na cara dele que ele quer! Eu também quero!

— Eu também adorei. – Respondo. Ele não sai, eu não entro, estamos parados ali nos encarando. – Olha, eu tenho um molho pronto, vou fazer um macarrão…

— Uhum? – ele parece querer que eu prossiga.

— Quer entrar? A gente pode comer e… conversar um pouco mais.

Ele pensou um pouco mais dessa vez, mas sorriu.

— Bom, eu posso!

Rebeca tinha uma garrafa de vinho na geladeira. Eu tenho certeza que ela não se importará em emprestá-la. Sirvo nós dois enquanto faço o jantar, ele agradece e bebe comigo sentado no balcão da cozinha. A conversa não parou por um segundo, as minhas bochechas continuam doendo de tanto sorrir. E é incrível porque ele me deixa muito a vontade, e também não parece estar performando nada, é muito confortável estar com Heitor.

Nós jantamos e estamos terminando a garrafa de vinho enquanto ele lava a louça, porque insistiu para que eu o deixasse fazer isso. Estou na cozinha com o controle da TV da sala em mãos esperando uma propaganda do YouTube acabar.

— Espero que esteja preparada. – Ele avisa.

Eu dou risada já nos primeiros segundos do videoclipe de Hooked on a Feeling, o CGI é realmente horrível.

— Meu Deus!

— Eu te avisei, hein!

— É muita informação.

— Você não viu nada ainda. Ali, os anjinhos!

Eu começo a rir de todos os elementos do clipe, e ele ri comigo. Seco os pratos e os guardo enquanto ele seca as mãos cantando o refrão da música e dá mais um gole de vinho.

Eu paro ao seu lado, me apoiando no balcão enquanto olho para a TV.

— Vou ter que assistir umas cinco vezes para digerir tudo.

— O cubo me pega muito, eu queria entender o que eles queriam com isso.

Eu estou dando risadinhas, bebo mais um gole quando o vídeo trava.

— Droga, minha internet tá um lixo.

— A propaganda eles carregam.

— Esse é o novo “para cobrar eles são bons”? – olho para ele sorrindo.

— Pode ser!

Ele também olha pra mim, estamos mais próximos do que eu havia notado. O sorriso vai relaxando, assim como o meu. Meu corpo vai se virando na direção dele, ele faz o mesmo e sinto a mão dele no meu rosto. É quente e macia. Nos aproximamos devagar, sinto o hálito de vinho, o toque leve dos lábios e, de repente, um passo dele para trás.

Heitor olha para os lados, pegando seu celular e sua carteira.

— Amélia, me desculpe.

— Que?

— Eu não devia. É melhor eu ir.

— Mas… Espera. – Ele está indo em direção a porta. – Não. Heitor!

Ele saiu. A porta fechou atrás dele. Na TV, o YouTube voltou a funcionar e eu ouço David Hasselhoff.


I’m hooked on a feeling

I'm high on believing

That you’re in love with me