Centro de Viena, Apartamento dos Müller — Noite de Inverno.

Dieter Schneider permanecia parado no limiar da porta, uma presença alta e cinzenta que parecia ocupar todo o espaço do corredor. Ele não forçou a passagem; apenas manteve os olhos azuis e gélidos fixos em Thomas.

Thomas, sustentando a postura ereta, puxou o ar lentamente pelo nariz. Com um movimento fluido e calculado, ele abriu a porta por completo e deu meio passo para o lado, indicando o interior do apartamento.

— Herr Schneider... É uma surpresa recebê-lo em minha residência a esta hora. Por favor, entre — disse Thomas, a voz perfeitamente modulada na autoridade de um Investigador do distrito.

No interior da sala, o choque paralisara Jennifer por dois longos segundos. Ao sentir o perigo iminente, contudo, o instinto de preservação falou mais alto: ela forçou os ombros a relaxarem e caminhou a passos mudos em direção à cozinha. Cada fibra do seu corpo gritava para olhar para o corredor dos quartos, mas ela manteve os olhos cravados no piso de madeira, contendo o tremor das mãos.

Dieter adentrou o recinto sem pressa. Ele levou os dedos enluvados à aba do chapéu, removendo-o com uma precisão cirúrgica. Em seguida, desfez-se do sobretudo cinza-chumbo, pendurando ambas as peças no mudo ao lado da porta. Seus movimentos eram tão calmos que tornavam o silêncio do apartamento sufocante.

— Posso perguntar a que devo a honra de sua visita fora do horário de expediente, Herr Schneider? — indagou Thomas, trancando a porta de entrada com um clique seco que ecoou na sala.

Dieter virou-se devagar, dobrando as luvas de pelica na mão esquerda.

— Não é evidente, Herr Müller? — rebateu ele, a voz num tom terrosamente suave, quase confidencial. — Estou profundamente fascinado pela sua eficiência. Fiquei curioso em compreender como um jovem investigador da polícia local foi capaz de compilar um volume tão robusto de dados sobre o consórcio Weber... e sobre as conexões financeiras escusas entre o falecido Andreas e o ex-ministro Günther von Bismarck.

— O dever do distrito é a precisão, Schneider — Thomas respondeu, esboçando um sorriso profissional que não alcançou suas pupilas. Ele caminhou até a sala de estar e indicou a poltrona de couro. — Sente-se, por favor. Se há lacunas nos meus relatórios de inteligência que Berlim deseja esclarecer, estou à sua inteira disposição.

— Notável — Dieter murmurou, acomodando-se na poltrona. Ele cruzou as pernas com elegância, apoiando as mãos sobre os joelhos. — Minha fascinação reside na sua rede de contatos. Imagino que para mapear transações confidenciais da capital com tanta minúcia... suas fontes devam ser excepcionalmente confiáveis. Ou extraordinariamente próximas do epicentro.

— Tive o que podemos chamar de cooperação interna — Thomas rebateu de pronto, sentando-se no sofá oposto, mantendo a coluna ereta. — O descontentamento com a gestão dos alojamentos na fazenda criava vazamentos constantes.

— Cooperação interna... — Dieter repetiu as palavras devagar, degustando o som delas enquanto estreitava os olhos num escrutínio quase cirúrgico. — Que conveniente. E fascinante, Herr Müller. Observando-o agora, noto que o senhor é um homem notavelmente jovem para ter sob a responsabilidade a inteligência de todo um setor. Quantos anos o senhor tem?

— Trinta — respondeu Thomas, seco e categórico.

Dieter permitiu que um leve esboço de sorriso surgisse no canto de seus lábios finos — uma expressão vazia que parecia uma máscara de cera.

— Ora... Apenas trinta. O Reich realmente recompensa a ambição precoce.

O silêncio que desabou sobre a sala de estar tornou-se quase ensurdecedor. O ruído distante da chuva lá fora e o chiado elétrico da lâmpada de mesa pareciam amplificados.

A tensão foi interrompida pelo som suave de porcelana se chocando. Jennifer emergiu da cozinha carregando uma bandeja de prata com uma bule fumegante e duas xícaras de louça clara. Ela colocou a bandeja sobre a mesa de centro com extrema cautela, evitando que as xícaras tilintassem.

— Senhora Müller... — Dieter falou, ajeitando o corpo na poltrona e voltando os olhos gélidos para a mulher. — Não havia a menor necessidade de se incomodar.

— Não é incomodo algum, Herr Schneider — Jennifer respondeu, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal, embora controlada.

— A hospitalidade das províncias austríacas é de fato memorável — Dieter continuou, os olhos percorrendo a postura de Jennifer, o corte de seus cabelos e a curvatura de suas feições. — Mas, a julgar pelo sotaque residual e pelo ritmo da sua modulação... ouso dizer que a senhora não nasceu sob o céu de Viena. Acertei?

Jennifer congelou com a mão ainda sobre a alça da bule. Ela engoliu em seco, sustentando o olhar do homem de Berlim:

— Sim... O senhor tem um ouvido apurado, Herr Schneider. Sou originalmente do País de Gales. Meu pai emigrou para a Áustria antes da guerra para trabalhar no setor ferroviário. Cresci aqui, por isso meu sotaque alemão é quase nativo.

— Não posso culpar a decisão do seu pai, senhora Müller — Dieter comentou, inclinando a cabeça com uma polidez gélida. — Viena é uma cidade de uma beleza sombria e cativante. Um excelente lugar para construir uma família... e para esconder segredos.

Jennifer sentiu o estômago contorcer-se, mas manteve a cabeça erguida.

— Se me dão licença, deixarei os senhores à vontade para a conversa — disse ela, recolhendo os panos de serviço e retirando-se em direção à cozinha sem olhar para trás.

Sozinhos novamente, o silêncio entre Thomas e Dieter voltou a pesar como uma lâmina suspensa por um fio.

Do outro lado da parede de alvenaria, no penumbra do pequeno quarto infantil, Lena Goldstein permanecia estática.

Ela estava encolhida no canto do carpete, com as costas pressionadas contra a madeira do guarda-roupa e as mãos cobrindo a própria boca. Ela mal ousava puxar o ar para os pulmões. O tremor em suas pernas era incontrolável, e cada estalo da madeira do apartamento fazia seu coração disparar como o de uma caça encurralada.

A voz grave e arrastada de Dieter Schneider atravessava a fresta da porta trancada em murmúrios abafados. Lena fechou os olhos com força, a imagem das tropas e dos caminhões de Berlim passando por sua mente, enquanto o destino de todos naquela casa dependia da habilidade de Thomas em sustentar a mentira.

Arredores de Viena, Galpão de Carga da Antiga Serraria — Naquela mesma noite.

O ar no imenso galpão de carga era denso, impregnado com o cheiro de serragem úmida, mofo antigo e o suor frio de dezenas de corpos fatigados. Nas penumbras iluminadas apenas por lanternas a óleo penduradas nas vigas de ferro, o choque inicial do resgate dava lugar a uma inquietação corrosiva. O murmurinho dos trabalhadores libertos subia de tom; homens e mulheres encolhiam-se em cobertores ásperos, trocando olhares famintos e sussurros cheios de incerteza.

Apesar de a Orchestra ter separado os casos mais vulneráveis — como Lena, que fora abrigada sob teto seguro —, a maioria absoluta dos sobreviventes permanecia ali, presa entre a salvação do massacre e a promessa incerta do amanhã.

Erich Schulz caminhava entre os grupos com a postura rija, mas os olhos inquietos. Ele aproximou-se de Franz Krüger, que inspecionava uma caixa de suprimentos vazia perto dos portões de carga, e falou num tom rasteiro, carregado de urgência:

— A atmosfera aqui dentro está azedando, Franz. As pessoas estão assustadas, com fome e exigindo respostas.

Franz nem sequer ergueu o rosto de imediato; limpou a graxa das mãos num trapo velho com uma calma forçada.

— Nunca existiu um protocolo simples para ressuscitar dezenas de mortos de uma só vez, Schulz. A alternativa a esta poeira era a vala comum das Indústrias Weber ou um trem de carga para os campos da Polônia.

— Eu sei disso! — Erich rebateu, dando um passo à frente. — Mas o entusiasmo da liberdade dura até a primeira noite sem comida. O Weizsäcker virou as costas há horas e não deixou diretrizes claras para o pátio. Se não dermos uma perspectiva a essa gente, a disciplina vai ruir antes da alvorada.

Franz finalmente encarou o jovem soldado, o semblante obscurecido pela gravidade do momento:

— O Conselho está reunido no piso superior. E acredite... lá em cima a guerra é pior.

Sala de Controle da Serraria — Piso Superior.

Do outro lado das paredes reforçadas de compensado, a fumaça de charutos baratos flutuava sob a luz amarelada de uma única luminária pendente. A mesa de conferência de carvalho rugoso estava cercada por quatro figuras.

Joseph Bauer permanecia de pé na cabeceira, as mãos espalmadas sobre a madeira, sustentando o olhar dos três anciões que compunham a mesa diretora da Orchestra.

— O que quer que este Conselho decida sobre a logística final, minha equipe executará — Joseph declarou, a voz firme e cortante. — Mas exijo uma resolução agora.

Na ponta da mesa, a única mulher da cúpula — Gisela, uma senhora de feições severas, cabelos cinzentos presos num coque impecável e olhar endurecido por décadas de conspiração clandestina — ajeitou o xale sobre os ombros e encarou Joseph com puro desdém:

— Você enxerga o quadro com a leviandade dos soldados de infantaria, Bauer! Arrancamos sessenta operários de uma fortaleza militar sob fogo cruzado, e para quê? Para deixá-los morrer de inanição sob o nosso teto? Não temos estoque de grãos para três dias nesta província!

— O que a senhora preferia, Gisela? — Joseph rebateu, o tom de voz subindo na proporção do seu descontentamento. — Que assistíssemos de braços cruzados enquanto a Gestapo executava um por um no pátio de carregamento? Que permitíssemos mais um massacre sem reação?

— Nós tínhamos um plano focado em alvos seletivos! — interveio o homem à esquerda de Gisela, um ancião de óculos de grau espessos e voz estridente. — A ordem era extrair ativos estratégicos com discrição! O que vocês e o Thomas Müller executaram foi um ato de guerra aberta! A Chancelaria de Berlim já mobilizou a SD, e o caçador do Ministério está pisando no nosso calcanhar neste exato segundo!

Joseph soltou uma risada ríspida e debochada, encarando os membros da cúpula com um desprezo indisfarçado:

— A operação já aconteceu. E os senhores continuam aqui, chorando sobre o leite derramado porque a covardia dos senhores foi exposta pela audácia de quem foi para a linha de frente!

Gisela colocou-se de pé num estalo, a bengala de madeira batendo contra o assoalho com um som seco:

— Meça suas palavras, Bauer! Muito antes de você desertar da infantaria para se juntar a nós, este Conselho já mantinha a chama da resistência acesa nesta província!

— Mantinha a chama acesa escondendo-se atrás de papéis! — Joseph projetou o corpo sobre a mesa, os olhos faiscando. — Enquanto vocês medem riscos em salas aquecidas, pessoas reais sangram no arame farpado! Vocês deveriam ter vergonha!

— Chega! Os dois! Sentem-se! — a voz grave e ancestral de Karl, o membro mais velho da mesa, cortou o recinto como um chicote.

O silêncio desabou imediatamente na sala. Karl, cujas feições pareciam esculpidas em pedra sabão e cujos olhos cansados carregavam a memória da última guerra, ajustou a postura na cadeira e apoiou as mãos ossudas sobre a mesa.

Ele encarou Gisela por alguns segundos antes de voltar-se para Joseph:

— O Joseph está coberto de razão em um ponto, Gisela — Karl declarou, a voz pausada e inquestionável. — A história não julga a conveniência dos resgates, apenas o destino dos resgatados. Nós assumimos a responsabilidade sobre aquelas almas no momento em que cortamos o arame. E não deixaremos que morram de fome no nosso abrigo.

Gisela estreitou as pálpebras, mas manteve a boca fechada. Karl continuou:

— Minha decisão como membro sênior está tomada: acionaremos imediatamente a nossa rede de abastecimento civil em Viena. Usaremos as reservas financeiras para comprar suprimentos no mercado negro e mantê-los nutridos e seguros neste galpão pelas próximas semanas. Paralelamente, os operacionais vão acelerar as rotas de evasão. Enviaremos os libertos em pequenos grupos — para a Hungria, para os países neutros ou para as rotas da América do Sul. Ninguém fica para trás.

Gisela soltou um suspiro pesado, ajustando o xale no peito antes de voltar a sentar-se:

— Está bem, Karl... A logística de alimentos se resolve com dinheiro. Mas e a caçada da SD? Como nos livramos do investigador e da Gestapo que cerra o cerco sobre a província?

O terceiro ancião, até então silencioso, balançou a cabeça devagar:

— A realidade, meus amigos, é que não enfrentamos uma crise dessa magnitude desde 1945, quando realizamos a extração de Wittenberg. Berlim não enviou um burocrata comum; Schneider é um cirurgião de processos. Os próximos dias vão testar a estrutura da Orchestra até o limite do osso. Estejam preparados para o pior.

Karl assentiu em silêncio.

Joseph encarou os três anciões por mais um segundo, a tensão ainda pulsando em suas veias. Sem dizer mais uma palavra, ele ajustou a jaqueta tática, girou sobre os calcanhares e cruzou a porta de madeira, deixando a cúpula do conselho imersa na penumbra e nas sombras de suas próprias escolhas.

Fazenda das Indústrias Weber, Galpão de Alojamento militar — Naquela mesma noite.

Enquanto o destino dos libertos era selado sob o teto de serragem da Orchestra, o ar no antigo alojamento dos guardas da fazenda era pesado como um velório desonrado. As beliches de ferro, onde antes repousavam os seguranças privados de Andreas Weber, agora abrigavam os soldados do exército austríaco que trabalhavam na fazenda, mantidos sob prisão domiciliar preventiva pela Gestapo.

No canto do galpão, o Capitão Fischer permanecia recostado no estrado de madeira da beliche superior. O brilho vermelho da ponta de seu charuto cortava a penumbra, soltando baforadas densas de fumaça que subiam para as vigas do teto. Ele observava a frustração contida de seus subordinados, tentando decifrar qual seria o desfecho daquela humilhação institucional.

O som metálico da tranca da porta rompeu a murmuração.

O Major Hormählen adentrou o alojamento. Não ostentava a tensão da noite anterior, mas sim um sorriso gélido, carregado de um triunfo venenoso. Ele trajava seu dólmã impecável da Gestapo e vinha escoltado por dois agentes armados com submetralhadoras.

Fischer soltou o charuto num cinzeiro improvisado e saltou do estrado, ajustando a túnica amarrotada enquanto encarava o oficial da polícia política de frente.

— Capitão Fischer... — Hormählen pontuou, a voz mansa como uma lâmina deslizando no estojo.

— Veio assinar a nossa ordem de soltura, Major? — Fischer rebateu, a voz rouca, sem o menor vestígio de submissão.

— Sinto muito frustrar suas expectativas, Capitão — Hormählen sorriu, o desdém brilhando em suas pupilas. — A sua estadia neste cativeiro protocolar promete ser... prolongada. No entanto, existe uma saída. Acompanhe-me.

Fischer franziu a testa, os músculos do maxilar travando:

— Ir com o senhor? Para onde? Com qual autoridade?

— Eu não o convoquei para um debate doutrinário, Capitão — Hormählen deu meio passo à frente, baixando o tom para um sussurro ríspido e perigoso. — Tampouco me recordo de ter concedido a um oficial detido o direito de questionar ordens da Chancelaria. Apenas ande.

Fischer encarou os dois escoltas da Gestapo, cujas mãos repousavam sobre as empunhaduras das armas. Com um ranger de dentes, ele deu um passo à frente e seguiu o Major para fora do galpão.

Eles cruzaram o pátio sob a chuva fina. Os postos de sentinela que antes pertenciam à infantaria regular do Exército agora estavam tomados por homens de braçadeira preta e capacetes escuros da Gestapo. A transição de poder fora cirúrgica.

Ao adentrarem a antiga sala de comando — o gabinete que pertencera a Andreas Weber —, Hormählen girou sobre os calcanhares e acenou para os guardas:

— Fora. Aguardem no corredor e garantam que ninguém nos interrompa.

— Sim, Herr Major! — os dois agentes bateram os calcanhares e fecharam a pesada porta de carvalho.

Hormählen caminhou devagar até a imensa mesa de mogno, acomodando-se na poltrona de couro alto. Ele retirou uma caixa de jacarandá da gaveta, extraiu um charuto longo, cortou a ponta com um guilhotim de prata e acendeu-o com um isqueiro de latão. Em seguida, deslizou a caixa sobre a mesa na direção de Fischer.

Fischer encarou a caixa, mas não moveu um músculo. O silêncio que se formou entre os dois homens era sufocante, cortado apenas pelo crepitar da brasa e pela chuva que batia na vidraça.

Vendo que o oficial da infantaria não cederia à provocação, Fischer quebrou o gelo, a voz carregada de ironia:

— Trouxe-me sob escolta armada até a sua sala apenas para compartilharmos o seu estoque de tabaco, Major?

Hormählen soltou uma nuvem espessa de fumaça, apoiando os cotovelos no tampo de madeira e fitando Fischer com a autoridade de quem segura um laço:

— Quero a sua tropa nas ruas. Quero o seu destacamento operando sob as minhas diretrizes diretas.

Fischer soltou uma risada curta e sem vida pelo nariz:

— Com todo o respeito, Major... isso é institucionalmente impossível. O meu batalhão responde à cadeia de comando do Exército e ao Quartel-General da província de Viena. A Gestapo pertence ao Ministério do Interior. Não recebemos ordens da polícia política.

— E daí? — Hormählen rebateu, o tom subindo com uma arrogância cortante. — Eu trago a insígnia de Investigador Sênior e a autoridade delegada pela Chancelaria do Reich. A minha patente está um degrau acima da sua, Capitão. E acredito que o senhor não compreendeu a natureza desta conversa. Eu não estou fazendo um convite à sua boa vontade militar.

Hormählen inclinou o corpo para a frente, os olhos cravando-se nos de Fischer como duas agulhas:

— O panorama é simples: ou o senhor coloca a sua infantaria a serviço das minhas patrulhas nas próximas duas horas... ou eu assino agora mesmo um boletim de emergência classificando a sua conduta na noite do assalto como alta traição à pátria e colaboração indireta com subversivos.

Fischer empalideceu por uma fração de segundo, os punhos fechando-se ao lado do corpo. Hormählen continuou, o sorriso venenoso voltando aos lábios:

— E o Capitão sabe perfeitamente como a nossa jurisdição lida com oficiais suspeitos de traição. Uma transferência sumária para os subsolos de Berlim, um julgamento sem advogado no Tribunal Popular... e a sua família em Viena despojada de cada marco e enviada para o trabalho forçado. A sua tropa passará para a minha custódia de qualquer maneira. A única variável nessa equação é se o senhor estará vivo para ver.

Fischer engoliu em seco. A garganta seca queimou. A estrutura do Reich não permitia heróis ideológicos no Exército; permitia apenas sobreviventes.

— O que o senhor quer que eu faça? — a pergunta saiu ríspida, engolida pelo peso da barganha.

Hormählen soltou uma gargalhada abafada, encostando-se na poltrona com satisfação:

— Notável como a palavra 'impossível' evapora rapidamente quando os fatos são apresentados com clareza.

Fischer puxou o ar lentamente, tentando manter um resto de dignidade fardada:

— Não podemos desplegar tropa armada no perímetro urbano sem uma notificação formal ao Comando Geral do Batalhão em Viena, Major. O General da região vai exigir relatórios.

— Esqueça o Comando Geral em Viena, Capitão — Hormählen ordenou com um aceno displicente de mão. — A jurisdição da província foi suspensa pelo decreto de exceção. O que eu exijo de você e dos seus homens é simples: acionem a sua inteligência de patrulha e me ajudem a varrer cada viela, cada galpão e cada porão de Viena até encontrar os desgraçados que destruíram esta fazenda. É uma operação limpa. Se me entregar a cabeça dos líderes daquela dita Orchestra, garanto que o seu nome sairá limpo deste inquérito e com uma nova condecoração no peito.

— A função precípua do Exército não é atuar como força repressiva contra populações civis — Fischer pontuou, a voz falhando em convicção. — Não sob as novas diretrizes do setor.

— Tampouco era função da sua tropa servir de guarda de honra para uma fábrica privada de roupas — Hormählen rebateu, a ironia estalando na sala. — E, no entanto, aqui estavam vocês, falhando miseravelmente em proteger a propriedade.

Fischer baixou os olhos por um segundo. Encarou a mesa, encarou a farda e compreendeu a armadilha sem saída em que fora encurralado.

— Eu cumpririas suas determinações, Major.

— Excelente escolha, Capitão — Hormählen respondeu, abrindo a gaveta e guardando os papéis. — Está dispensado. Mobilize os seus homens, ajuste as patrulhas de bloqueio nas saídas da cidade e reporte-se diretamente a este gabinete. Lembre-se: qualquer movimento fora da minha linha de comando será considerado insubordinação de guerra.

— Sim, Herr Major — Fischer bateu os calcanhares de forma mecânica, girou sobre os calcanhares e cruzou a porta de carvalho.

No corredor, ele soltou um suspiro pesado, o peito sufocado pela vergonha de ter entregue a honra da sua farda aos cães da Gestapo.

Sozinho na sala de comando, o Major Hormählen deu a última tragada no charuto, esmagando a brasa no cinzeiro de prata com um movimento lento e calculado. Um sorriso de triunfo rasgou seu rosto enquanto ele encarava a tempestade lá fora:

— Pode continuar brincando de detetive sofisticado nos seus relatórios, Dieter Schneider... — Hormählen murmurou para as paredes vazias. — Mas quem vai lavar o chão de Viena com o sangue daqueles reacionários sou eu.

Centro de Viena, Apartamento dos Müller — Algumas horas depois.

A xícara de porcelana repousava sobre o pires na mesa de centro, o vapor do café já esvanecido. A atmosfera no ambiente, antes dominada por uma rigidez quase sufocante, parecia ter derivado para uma polidez estudada — um teatro de cordialidade onde cada palavra era um passo sobre um lago congelado.

Dieter Schneider permanecia recostado na poltrona de couro, o corpo relaxado, mas os olhos azuis mantendo a acuidade gélida de sempre.

— Devo confessar, Herr Müller... se a burocracia de Berlim não me mantivesse acorrentado aos gabinetes do Ministério, eu seriamente consideraria transferir minha residência para Viena — Dieter comentou, a voz num tom aveludado e quase descontraído. — A arquitetura, a sobriedade das ruas, o ar das províncias... É uma cidade de uma beleza singular.

Thomas sustentou o olhar do investigador do outro lado da mesa, mantendo no rosto o tom exato de cortesia que se esperava de um Investigador do distrito:

— Eu não o julgaria por essa escolha, Schneider. Viena tem uma forma muito própria de cativar quem a visita.

— Lamentavelmente, construí minha carreira e minhas raízes no asfalto da capital — Dieter continuou desviando o olhar para a janela por um breve segundo. — Tenho razões de sobra para suspeitar que terminarei meus dias sob o céu cinzento de Berlim.

— O senhor nunca considerou construir uma vida familiar longe do serviço? Nunca foi casado? — Thomas arriscou a pergunta com uma modéstia calculada, buscando humanizar o terreno.

Dieter esboçou um leve e árido sorriso de canto:

— Fui casado uma vez. Há muitos anos. Mas a união não resistiu às exigências do Reich. Seguimos caminhos distintos. Admito que a rotina de um investigador da SD seja um fardo indigesto para qualquer cônjuge.

Da soleira da cozinha, onde fingia organizar os panos de prato, Jennifer soltou um suspiro imperceptível. A declaração do homem de Berlim ressoou em seu peito como um eco doloroso de suas próprias angústias em relação ao trabalho de Thomas.

— Sinto muito pelo seu casamento — Thomas pontuou, a voz mantendo uma compostura sóbria.

— Não há o que lamentar — Dieter deu um leve aceno de mão, desdenhando da compaixão. — Ela optou por seguir carreira nos palcos do teatro nacional. Ainda nos cruzamos ocasionalmente quando passo pela capital. Claro que o encanto original desvaneceu... mas o reencontro conserva a elegância das boas memórias.

— Compreendo.

Dieter checou o relógio de pulso de metal escuro e colocou-se de pé num movimento fluido.

— A conversa foi extraordinariamente instrutiva, Herr Müller, mas o dever não tolera divagações. Temo que precise me retirar.

Thomas levantou-se no mesmo instante, acompanhando o hóspede até o hall de entrada:

— As diligências do caso Weber prosseguem pela manhã?

— Sem dúvida — Dieter respondeu, recolhendo o sobretudo cinza-chumbo e vestindo-o com precisão militar. — O inquérito não espera pelo nascer do sol.

— Se houver qualquer aspecto operacional em que a polícia do distrito possa ser útil, Schneider, não hesite em me acionar.

Dieter ajustou as luvas de couro preto, virou-se devagar e varreu Thomas de cima a baixo com um olhar denso, quase divertido:

— Acredite, Herr Müller... o senhor já me foi de imensa utilidade. A pilha de relatórios que compilou sobre a estrutura da fazenda poupou-me horas de análise burocrática.

— Fico lisonjeado em ter contribuído para a clareza do processo.

Dieter colocou o chapéu de feltro sobre os cabelos loiros, ajustando a aba com a ponta dos dedos.

— Agradeço a hospitalidade do seu lar, Investigador.

— O prazer foi nosso — Thomas respondeu, dando um passo para o lado. — Espero sinceramente que o senhor e a Gestapo capturem esses insurgentes o mais rápido possível.

O silêncio que se seguiu ao comentário de Thomas foi absoluto e pesado como chumbo. Dieter não respondeu de imediato. Apenas cravou suas pupilas inexpressivas na face de Thomas, medindo o alcance daquela declaração.

Jennifer surgiu no corredor, as mãos apertando o tecido do pano de prato com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Dieter inclinou a cabeça num aceno cortês para a mulher e deu dois passos em direção ao corredor do edifício.

Contudo, exatamente quando alcançou o limiar externo, Dieter estancou. Girou suavemente sobre os calcanhares, um sorriso calmo e cortante desenhando-se em seus lábios finos:

— A propósito, Herr Müller... durante a leitura dos seus registros de triagem, notei uma omissão menor. Porventura o senhor saberia informar o paradeiro exato de uma das subalternas da fazenda? Uma jovem chamada Lena Goldstein?

O ar na sala pareceu evaporar.

Jennifer travou a respiração, a mão congelada sobre o peito, o pavor desenhando-se em suas feições. Do outro lado da parede, no interior do quarto escuro de Birgit, Lena Goldstein encolheu-se contra o assoalho, o coração disparando num ritmo ensurdecedor, os olhos arregalados de puro terror.

Thomas, com o sangue frio de quem operava na linha de frente da clandestinidade, não piscou. Nem um único músculo de seu rosto tremeu. Ele sustentou o olhar do homem da SD e respondeu com uma gravidade sem falhas:

— Infelizmente, não. Desde a invasão da propriedade, a Goldstein consta como evaporada junto ao comboio principal. A nossa hipótese é de que tenha sido executada na mata ou arrastada pela célula de fuga.

Dieter desviou o olhar de Thomas por uma fração de segundo, capturando o tremor sutil na postura de Jennifer e a palidez de seu rosto. O sorriso no rosto do investigador permaneceu inalterado — frio, analítico, terrivelmente consciente.

Ele voltou os olhos para Thomas:

— Compreendo... Uma lástima.

— Espero que a sua equipe consiga localizá-la antes que a rede clandestina a absorva em definitivo — Thomas completou, mantendo a voz firme e desprovida de hesitação.

Dieter ajeitou a lapela do sobretudo, mas ignorou o último comentário do jovem investigador.

— Tenha uma excelente noite, Herr Müller. E cuide da sua esposa. Ela parece... cansada.

Sem esperar resposta, Dieter Schneider deu as costas e caminhou pelo corredor de carpete, o som cadenciado de suas botas ecoando até desaparecer na curva das escadas.

Thomas fechou a porta do apartamento num estalo seco, girando a tranca dupla de aço imediatamente.

Jennifer desabou contra a parede do hall, soltando o ar acumulado no peito num soluço abafado. Ela encarou o marido, os olhos arregalados pela adrenalina:

— Thomas... meu Deus, Thomas... Ele acreditou?

Thomas não respondeu. Suas feições continuavam rígidas, o suor frio finalmente brotando em sua testa. Ele não perdeu tempo com especulações; caminhou a passos rápidos pelo corredor até a porta do quarto de Birgit, girou o fecho e abriu-a.

Do lado de dentro, encolhida na penumbra, Lena deu um salto de pavor com o estalo da porta. Ao reconhecer a silhueta de Thomas sob a luz da sala, a garota rompeu em lágrimas contidas, projetando-se para a frente e envolvendo o peito do homem de trinta anos num abraço desesperado, cravando as mãos no tecido da camisa dele.

— Eu pensei... meu Deus, eu pensei que ele vinha me buscar, Thomas! — ela balbuciava entre soluços, o corpo todo tremendo. — Ele sabia... ele sabia o meu nome!

— Já passou, Lena... Acalme-se — Thomas murmurou, envolvendo os ombros da garota com ternura quase paterna, afagando seus cabelos para conter a crise de pânico. — Ele já foi. O perigo imediato passou. Respire.

Na soleira do quarto, Jennifer observava a cena em silêncio. A raiva que sentira mais cedo pela decisão do marido evaporara por completo, substituída pelo choque visceral de ter testemunhado a morte rondar a porta de sua casa. Pela primeira vez desde que a guerra começara, o terror absoluto do Reich não era uma notícia de jornal ou um relatório do distrito — tinha o nome de Dieter Schneider e acabara de deixar o seu corredor.

Saguão do Edifício, Centro de Viena — Alguns minutos depois...

O silêncio do saguão de entrada era quebrado apenas pelo chiado baixo de uma pequena estufa elétrica atrás da guarita de madeira. A atmosfera, contudo, já não trazia a habitual placidez da madrugada: três agentes da Gestapo, vestindo longos sobretudos de couro preto e portando submetralhadoras penduradas no peito, permaneciam de pé junto às colunas de mármore, aguardando em guarda absoluta.

O eco cadenciado de botas de couro descendo os degraus da escadaria fez os guardas ajustarem instantaneamente a postura de sentido.

Dieter Schneider emergiu da penumbra da escada com a calma habitual. Ele ajustava a luva de couro na mão esquerda, sem demonstrar qualquer pressa. Suas feições, iluminadas pela luz amarela do lustre central, conservavam a perfeição gélida e inexpressiva de uma estátua.

Ao passar pela guarita de madeira, Dieter desacelerou os passos. Ele virou o rosto devagar e cravou seus olhos azuis no velho porteiro, que permanecia paralisado atrás do balcão. O idoso, de lábios entreabertos e respiração curta, encarava o homem da SD e os oficiais armados com um pavor visceral, as mãos trêmulas ocultas sob o jornal.

Dieter estancou por um segundo. Um sorriso sutil, árido e terrivelmente polido moldou o canto de seus lábios finos. Ele ergueu a mão enluvada até a aba do chapéu de feltro, inclinando-o numa cortesia imprevista e cirúrgica:

— Uma excelente noite de trabalho, meu senhor. Cuide bem deste prédio.

O velho porteiro nem sequer conseguiu articular uma resposta; apenas engoliu em seco, assentindo com uma inclinação de cabeça trêmula enquanto o suor frio descia por suas têmporas.

Dieter não esperou. Ele girou sobre os calcanhares e cruzou a pesada porta de ferro e vidro do edifício. Os três agentes da Gestapo o seguiram em silêncio, como sombras adestradas, ganhando a calçada úmida da rua escura.

A porta de vidro fechou-se com um estalo abafado. No saguão, o ar parecia ter ficado mais denso, impregnado por um frio acre que a estufa elétrica não era capaz de dissipar. O idoso na guarita soltou o ar dos pulmões num tremor longo, encarando o teto do prédio com a certeza aterradora de que a lâmina de Berlim não deixara o lugar — apenas decidira esperar o momento exato de cortar.