A Reacionária

14 MÁSCARAS DE SEDA



Centro de Viena — Manhã seguinte.

O frio da manhã cortava o ar como uma lâmina cega, enchendo as ruas centrais de Viena com uma névoa espessa que custava a se dissipar. O ritmo da cidade, contudo, nada tinha de rotineiro. A província amanhecera sob uma atmosfera de sítio: o comboio de caminhões pretos da Gestapo e os pontos de bloqueio em cada esquina eram a prova viva de que Berlim exigira pressa. As saídas da cidade estavam seladas por barricadas de ferro, e qualquer civil que ousasse cruzar os quadrantes centrais precisava encarar a revista minuciosa e os olhos desconfiados das patrulhas.

Nesse cenário de paranoia latente, Erich Schulz caminhava pela calçada molhada.

Ele vestia o uniforme regulamentar da infantaria do Exército — a túnica cinza-verde, a insígnia de soldado costurada na manga e a plaqueta de identificação com seu nome de guerra de volta ao peito. Era um risco calculado: a farda o transformava em um fantasma visível, alguém que a população temia, mas que os guardas da cidade tendiam a ignorar.

Entretanto, ao se aproximar do cruzamento que dava acesso à praça do distrito, o estômago de Erich contorceu-se num nó violento.

A menos de vinte metros, um posto de controle interceptava bondes e pedestres. Mas não eram apenas os homens de braçadeira preta da Gestapo que comandavam a abordagem. Lado a lado com eles, portando os fuzis Mauser de dotação padrão, estavam os soldados do seu próprio destacamento — companheiros com quem dividira o alojamento e a ração na fazenda Weber até dias atrás.

Um arrepio frio subiu pela espinha de Erich. Se um daqueles homens o reconhecesse, o disfarce de regularidade ruiria no ato.

Erich ajustou a pala do quepe militar para baixo, cobrindo a testa e sombreando a metade superior do rosto. Diminuiu o ritmo da passada para não demonstrar o tremor que ameaçava tomar suas pernas, virou o corpo levemente para o lado oposto da blitz e entrou na primeira porta aberta que encontrou na calçada.

O sinete de bronze acima da porta de madeira dobrou com um som cristalino.

O contraste entre o perigo da rua e o interior da pequena floricultura de bairro foi imediato. O ambiente cheirava a terra molhada, linho e o aroma doce de pedúnculos recém-cortados. Nas prateleiras de madeira escura, vasos de cerâmica exibiam a resistência das poucas espécies que floresciam no inverno austríaco.

Erich apoiou as mãos sobre o balcão, a respiração ainda um pouco apressada. Seus olhos varreram a bancada até encontrarem um vaso de cristal onde repousava uma única rosa vermelha — de pétalas aveludadas, hastes firmes e uma cor tão viva que parecia desafiar a austeridade cinzenta do regime lá fora.

Uma senhora idosa, de cabelos prateados colados num coque baixo e avental de algodão cru, emergiu do pequeno ateliê nos fundos, ajeitando os óculos de grau na ponta do nariz:

— Bom dia. Posso ajudá-lo, meu jovem? — indagou ela, o tom calmo e maternal.

Erich piscou, recuperando o fôlego e forçando um sorriso cortês:

— Ah... sim. Claro. Um bom dia para a senhora.

— Bom dia — a idosa repetiu e sorriu logo em seguida, cruzando as mãos sobre o balcão ao observar a farda do rapaz. — O que o traz à minha loja tão cedo? Um soldado procurando por flores costuma ser um excelente sinal.

— Eu... eu procuro a rosa mais bonita que a senhora tiver nesta bancada — Erich pediu, a voz caindo para um tom de timidez que há muito não usava.

A mulher encarou o jovem militar por dois segundos. Havia no olhar dele uma mistura de cansaço extremo e uma ternura urgente. A expressão da anciã suavizou-se; a imagem daquele garoto fardado resgatava memórias de um tempo em que as flores serviam para o amor, e não para cobrir caixões de guerra.

— A jovem destinada a receber esta flor deve ser uma garota extraordinária — disse a velhinha, ajeitando o vaso com cuidado. — É um rapaz bonito. Tenho certeza de que ela sabe a sorte que tem.

— Obrigado... — Erich murmurou, abaixando os olhos enquanto entregava as moedas de troco.

A idosa retirou a rosa vermelha do vaso, enxugou a haste com uma folha de papel macio e a entregou a Erich com um gesto delicado:

— Aqui está. A mais perfeita da colheita deste inverno. Que ela traga um pouco de luz ao dia de vocês.

— A senhora não imagina o quanto — Erich agradeceu com uma breve inclinação de cabeça, recolhendo a flor e saindo apressadamente para o ar gelado da rua.

Dobrando a esquina com o coração ainda no compasso da fuga, Erich cruzou o quarteirão em passos rápidos até alcançar a fachada discreta do prédio onde Thomas morava. Entrou no saguão tentando manter a compostura. Ao passar pela guarita de madeira, sacou a carteira de identificação militar e a apresentou ao velho porteiro. O homem, habituado aos oficiais que visitavam o Investigador do 503, apenas assentiu com uma reverência silenciosa e liberou o acesso ao elevador.

No andar de Thomas, a campainha tocou com duas batidas curtas.

No sofá da sala, Thomas Müller, que terminava de tomar sua xícara de café antes de descer para a delegacia central, levantou-se num sobressalto. Sua mão foi por instinto ao coldre sob a jaqueta. Ele caminhou a passos mudos até a porta de entrada e aproximou o olho da lente do olho mágico.

Ao reconhecer a farda de Erich e notar que o jovem mantinha as mãos ocultas atrás das costas num gesto quase infantil, Thomas destravou a fechadura e escancarou a porta, a testa franzida pelo choque:

— Ficou louco, Schulz?! O que você está fazendo aqui a esta hora? — Thomas sibilou num tom baixo e ríspido.

Erich deu meio passo para trás, sobressaltado:

— Desculpe a intromissão, Herr Müller... Estou atrapalhando alguma coisa da rotina?

Antes que Thomas pudesse dar uma bronca sobre os riscos de segurança, o som de passos apressados ecoou pelo corredor interno. Lena Goldstein surgiu da soleira do quarto de Birgit. Ao travar os olhos na figura de Erich fardado na porta, o pavor que a dominara na noite anterior dissolver-se instantaneamente.

Um sorriso radiante — o primeiro sorriso inteiro e desarmado que ela dava em dezoito anos — rasgou suas feições. Lena rompeu a distância que os separava em uma corrida curta e atirou-se contra o peito dele, envolvendo seu pescoço num abraço desesperado.

Erich acolheu-a no ato, fechando os braços ao redor da cintura dela, sentindo o perfume do sabonete de Jennifer nos cabelos loiros da garota e o calor do corpo dela contra a rigidez da sua farda.

— Erich... você veio... — ela murmurou contra o ombro dele, a voz embargada pela emoção.

— Senhorita Goldstein... — Erich respondeu, o rosto colado ao dela, um sorriso involuntário e incontrolável desenhando-se em seus lábios. — Eu prometi que não a deixaria sozinha, não prometi?

Lentamente, ele desfez o abraço, mantendo uma das mãos na cintura dela. Com a outra mão, trouxe de trás das costas a rosa vermelha de haste longa, estendendo-a na direção de Lena como se oferecesse o mais valioso dos tesouros.

— Isto é para você.

Lena paralisou. Seus olhos azuis, ainda marejados pelas lágrimas da noite de horror com Dieter Schneider, dilataram-se diante da intensidade viva daquela pétala no meio da sala cinzenta. Suas mãos trêmulas tocaram a haste sem espinhos, trazendo a flor para junto do peito e aspirando o aroma doce.

Ela ergueu os olhos para Erich, o peito arfando, a alma desarmada:

— Erich... eu nem sei como reagir a isso. Ninguém nunca... ninguém nunca me deu nada bonito na vida.

Erich deu um passo à frente, encurtando a pouca distância entre os dois. Ele levou os dedos devagar até o rosto dela, enxugando uma lágrima solitária que escorria por sua bochecha pálida, sustentando um olhar repleto de uma devoção pura e silenciosa.

— O seu sorriso é mais do que o suficiente para mim, senhorita Goldstein. Enquanto eu estiver respirando, você nunca mais vai receber apenas cinzas.

Lena encarou a imensidão dos olhos dele, e, sem se importar com a farda, com a guerra ou com a caçada do Reich lá fora, inclinou-se e repousou a testa contra a dele, deixando que o silêncio daquele toque dissesse tudo o que as palavras não conseguiam traduzir.

À porta da sala, Thomas Müller observava a cena. Ele soltou um suspiro longo, balançando a cabeça com uma mistura de incredulidade e compaixão paternal. Girou a chave na fechadura, trancando a porta de aço novamente, e caminhou de volta ao sofá para terminar de beber seu café frio, permitindo àqueles dois jovens alguns minutos de humanidade antes que o inferno de Viena os chamasse de volta.

Fazenda das Indústrias Weber, Rotas de Fuga do Setor Oeste — Naquela mesma manhã.

A névoa úmida que pairava sobre a vegetação densa dos fundos da propriedade tornava o ar pesado e gélido. Dieter Schneider ajoelhava-se sobre a terra batida junto à cerca de arame estilhaçada. Suas luvas de couro preto examinavam com rigor cirúrgico os rastros de pneus profundos deixados pelos veículos de extração e os sulcos de estilhaços nas colunas de concreto.

O som metálico de botas pesadas pisando o cascalho interrompeu a análise.

O Major Hormählen aproximou-se em passos lentos, parando a exatos dois metros do homem da SD. Ele trajava seu sobretudo de campanha e mantinha as mãos cruzadas às costas, mantendo um escrutínio silencioso e vigilante sobre os movimentos de Dieter.

O silêncio persistente do oficial acabou por romper a paciência calculada do investigador. Sem erguer a cabeça de imediato, Dieter soltou uma expiração seca pelo nariz:

— Noto que o senhor decidiu multiplicar o contingente de sentinelas pelo perímetro, Major.

— Medida de contenção tática, Schneider — Hormählen respondeu, a voz carregada de uma autoridade áspera. — Caso algum daqueles bastardos da insurgência decida vagar pelos arredores, encontrará uma recepção à altura.

Dieter levantou-se devagar, enxugando a sujeira da luva num pano de serviço. Ele ajeitou a aba do chapéu com a ponta dos dedos e soltou um riso curto, gélido e profundamente debochado:

— A julgar pelo desempenho recente do seu destacamento no terreno, Major... duvido que os ditos 'bastardos' encontrem qualquer dificuldade lógica para transitar por este vale.

Hormählen deu meio passo à frente, o rosto inflamando em um rubor de fúria contida, a mandíbula travada:

— Está insinuando que a minha tropa padece de incompetência operacional, Investigador?

Dieter finalmente virou-se por completo, cravando seus olhos azuis e inexpressivos diretamente na face do oficial. O tom de sua voz caiu para uma calmaria terrivelmente cínica:

— Pareceu-lhe uma insinuação? Acreditei ter sido bastante transparente na escolha dos termos. Mas perdoe o meu lapso... talvez o senhor possa iluminar o meu relatório com fatos: onde estão estacionados os seus três comboios de transporte de tropas e os blindados de extração, Herr Major?

O silêncio de Hormählen foi absoluto. A veia em seu pescoço pulsou visivelmente, mas a ausência de justificativas lógicas prendeu as palavras em sua garganta.

— Foi exatamente o que imaginei — Dieter sorriu, um vinco de puro sarcasmo desenhando-se em seus lábios finos. — Mas não se aflija. Assim que eu concluir o levantamento das falhas formais desta comissão, a Chancelaria certamente enviará contingentes mais... vocacionados para resgatar os veículos que o senhor entregou aos reacionários.

Hormählen varreu Dieter de cima a baixo com um olhar tóxico. Ele deu um passo em direção ao homem de Berlim, reduzindo a distância entre os dois até poder sentir a respiração fria do investigador, baixando o tom para um rosnado quase audível:

— Se eu ocupasse a sua posição, Schneider... mediria cada passo com extrema cautela nesta província.

— Isso é uma ameaça formal a um emissário da SD, Major? — Dieter indagou, sem recuar um único milímetro, as sobrancelhas arqueadas com uma falsa surpresa.

— É apenas uma recomendação de preservação — Hormählen rebateu, o sorriso venenoso voltando aos seus lábios. — O senhor está a centenas de quilômetros dos gabinetes de Berlim, e eu comando cada fuzil armado neste quadrante. A neblina de Viena costuma ser traiçoeira para burocratas desacompanhados. Talvez o senhor devesse dedicar mais tempo a cobrir a sua própria retaguarda do que a preencher formulários.

Hormählen girou sobre os calcanhares com uma brusquidão militar, marchando de volta em direção ao casarão principal sob o olhar de seus guardas.

Dieter acompanhou a retirada do oficial com um brilho de entretenimento sombrio nas pupilas. Ele não perdeu o equilíbrio nem por um segundo. Apenas ajustou a lapela do sobretudo cinza-chumbo, soltou um sopro rasgado pelo nariz e ajoelhou-se novamente sobre a terra, retomando a coleta de evidências com a serenidade de quem sabe exatamente quando a armadilha irá disparar.

Centro de Viena, Apartamento dos Müller — Naquele mesmo instante...

A penumbra da sala era cortada apenas pelos feixes de luz que tentavam romper as cortinas fechadas. Sentados no sofá, Thomas, Erich e Lena formavam um círculo de urgência contida. Lena mantinha-se rigorosamente próxima a Erich, os dedos dela entrelaçados aos dele, como se o toque fosse a única âncora em um mar de incertezas.

— A situação no galpão está pior do que imaginávamos, senhor Müller — Erich iniciou, a voz tensa, os olhos fixos no chão. — Há um burburinho crescendo entre os libertos. Alguns já questionam se o resgate em massa não foi um erro imprudente... e há quem comece a reclamar do privilégio de a senhorita Goldstein ter sido retirada primeiro para um abrigo particular.

Thomas cruzou os braços, a expressão dura:

— O desespero gera boatos. E eu apenas estou cumprindo a promessa que fiz ao irmão dela de facilitar a fuga dela para a Hungria. E era inevitável que a falta de infraestrutura cobrasse o preço no pátio.

— Não é só sobre infraestrutura, senhor Müller — Erich continuou, levantando os olhos para o superior. — Eles estão acuados. E pior: o cerco nas ruas está intransponível. As patrulhas da Gestapo agora contam com o reforço dos regimentos do Exército. Vi meus antigos companheiros operando nas barreiras. O risco de reconhecimento civil disparou.

— O seu reconhecimento, Schulz — Thomas o interrompeu seco, a mandíbula travada. — Você não deveria ter saído do galpão de carga usando a farda e circulando pelas ruas centrais.

— Eu precisava verificar a situação da minha família e respirar fora daquele mofo, senhor Müller! — Erich defendeu-se, a voz ganhando um tom ríspido antes de abrandar ao olhar de relance para Lena. — Depois de tudo o que aconteceu...

— Eu não me importo com os motivos, Erich. Você está pondo em risco a sua vida e a nossa. O investigador de Berlim esteve aqui ontem à noite. E tenho certeza absoluta de que ele não veio tomar café. Veio me testar.

Lena encolheu-se ligeiramente no sofá, o leve tremor voltando a tomar conta de suas mãos ao ouvir o nome do homem da SD.

— Veio te testar? Com que propósito? — Erich franziu o cenho, a confusão misturando-se ao pavor.

— Dieter Schneider não acredita em coincidências, Schulz — Thomas respondeu, levantando-se e caminhando até a janela para espiar a rua movimentada pela fresta da cortina. — Ele veio sondar o meu ritmo, o meu controle territorial e o meu histórico. Os investigadores da SD são treinados para rastrear a microfísica da lealdade. Ele suspeita do nosso timing. Por precaução, as suas visitas a este apartamento estão suspensas até que a Orchestra abra a rota definitiva para a Hungria.

Erich engoliu em seco. A mandíbula travou, mas a lógica fria de Thomas era irrefutável. Ele virou o rosto para Lena, segurando os braços dela com delicadeza:

— Você ouviu, Lena... Vai ser perigoso eu aparecer por aqui nos próximos dias. Mas eu não vou sumir. Prometi que estaria com você até o fim.

— Eu entendo... — Lena sussurrou, engolindo o nó na garganta e assentindo com os olhos marejados. — Tenha cuidado, Erich. Por favor.

Rua em frente ao edifício — Simultaneamente.

Enquanto a tensão se acumulava no apartamento 503, o sedã modesto de Jennifer parou suavemente junto ao meio-fio, logo em frente à entrada do prédio. Ela desligou a ignição, recolheu sua bolsa e abriu a porta do motorista, sem notar que, estacionado a poucos metros de distância, na pista oposta, um veículo discreto mantinha o motor em marcha lenta.

No interior do carro vigia, um homem de sobretudo escuro e chapéu de feltro ajustado sobre a testa levantou os olhos da caderneta de anotações, tomando um gole de café morno de uma garrafa térmica enquanto observava Jennifer atravessar a calçada e desaparecer sob a arcada do saguão.

O que o vigia não percebeu foi a aproximação silenciosa de uma silhueta vinda do beco lateral.

Franz Krüger moveu-se como uma sombra fria. Aproveitando o momento em que o homem abaixou os olhos para a caderneta, Franz desferiu um bote felino: abriu a porta do motorista com violência e, antes que o indivíduo pudesse reagir, aplicou um soco brutal de revés com a coronha de sua pistola contra a têmpora do vigia. A cabeça do homem chocou-se com força contra o volante, emitindo um estalo abafado antes que ele desabasse.

Em frações de segundo, Franz o puxou para fora do veículo pela gola do sobretudo, jogando-o de joelhos no asfalto e encostando o cano de aço de sua pistola diretamente sob o queixo do homem.

A rua foi tomada por gritos abafados de pedestres que recuavam apavorados.

— Quem é você? — Franz sibilou, a voz gélida, destituída de qualquer hesitação.

O homem, tonto pelo golpe, tossiu sangue, levantando as mãos trêmulas em sinal de rendição:

— Por favor... eu... eu sou apenas um civil contratado... Não posso dizer quem me mandou!

— Então você não serve para mais nada — Franz sentenciou com frieza mecânica.

Sem pestanejar, Franz apertou o gatilho.

O estampido seco e ensurdecedor da arma estilhaçou a calmaria da manhã, ecoando entre as fachadas de concreto da rua como um raio. O corpo do vigia despencou sem vida sobre a sarjeta.

Apartamento dos Müller.

O eco do tiro cortou as paredes do prédio. No interior da sala, Thomas sobressaltou-se. Ele deu dois passos largos até a janela novamente, afastando a cortina a tempo de ver a agitação na calçada e o corpo estendido junto ao carro, além da figura ágil de Franz guardando a arma no coldre.

A porta de entrada destrancou-se num estalo, e Jennifer adentrou o apartamento a passos largos, o rosto pálido e os olhos arregalados de adrenalina. Ela bateu a porta e encarou o marido junto à janela:

— Thomas... o que diabos acabou de acontecer lá embaixo?!

— Fique calma. Fiquem as duas dentro de casa — Thomas ordenou, a voz ríspida, pegando sua jaqueta no cabideiro. — Schulz, venha comigo. Vamos ver o estrago.

Minutos depois, Thomas e Erich cruzaram a porta do edifício e caminharam apressados até o local do disparo. Uma pequena multidão de civis curiosos já começava a se aglomerar em um círculo seguro, enquanto o som de sirenes da polícia municipal começava a aproximar-se ao longe.

Junto ao corpo, Franz Krüger aguardava de braços cruzados, parecendo perfeitamente imune ao caos que acabara de instaurar.

— Quem era esse infeliz, Franz?! — Thomas cobrou, aproximando-se a passos largos e abaixando o tom para evitar chamar a atenção dos transeuntes.

— Não faço a menor ideia — Franz respondeu calmamente, indicando o cadáver com a ponta da bota. — Mas ele estava plantado na via há mais de três horas, anotando a placa do carro da sua esposa e monitorando quem entrava e saía do seu prédio. Era um vigia profissional.

No exato instante em que a patrulha da Gestapo virou a esquina com os giroflex ligados, Thomas e Franz agiram com precisão simétrica: sacaram simultaneamente de dentro dos sobretudos as credenciais douradas de Investigadores Especiais do Distrito Central, erguendo-as para que os policiais vissem. A viatura desacelerou imediatamente, estacionando ao lado deles.

— Afastem os curiosos! A área está sob jurisdição da Segurança Distrital! — Thomas ordenou aos policiais com a autoridade de quem comanda o terreno.

Um dos oficiais da patrulha engoliu em seco e bateu continência:

— Entendido, Herr Müller! O que fazemos com o corpo?

— Recolham os pertences, verifiquem se há documentos de identificação e enviem o corpo para o necrotério central sob sigilo de inquérito — Thomas sentenciou, voltando-se para Franz e Erich assim que a viatura começou a isolar a área. — Morto desse jeito, ele não vai nos dar nenhuma resposta.

— Ele não abriria a boca nem sob tortura, senhor Müller — Franz pontuou, ajeitando as luvas. — Era um cão de guarda profissional. Mas a questão principal é: você ao menos imagina quem ordenou a vigilância sobre a sua residência?

Thomas olhou para o corpo na sarjeta e, em seguida, ergueu os olhos para a fachada de seu próprio prédio, onde Lena e Jennifer aguardavam a dezenas de metros dali. Ele não precisava de relatórios para saber a resposta, mas desconfiava de um nome: Dieter Schneider.

Arredores de Viena, Galpão de Carga da Antiga Serraria — Naquela mesma manhã.

A claridade cinzenta que infiltrava pelas frestas do teto de madeira mal iluminava o pequeno cômodo de contenção. O cheiro de umidade e palha seca impregnava o ar. Heinrike Weber permanecia sentada sobre a borda do catre rígido, com as mãos repousadas sobre o colo. O vestido simples de algodão cru que lhe entregaram parecia um ultraje à sua pele, mas a postura da viúva continuava inabalável, sustentada por uma altivez quase aristocrática.

O som alto e arrastado da tranca de aço rompeu o silêncio. A pesada porta de ferro correu para o lado, e Joseph Bauer adentrou o recinto carregando uma caneca de metal fumegante e uma fatia de pão escuro sobre uma bandeja de madeira.

— O café da manhã da resistência não possui a sofisticação dos banquetes do seu palácio, senhora Weber — Joseph comentou com a voz grave, mantendo a distância regulamentar — mas é o bastante para manter o corpo aquecido.

Heinrike levantou-se sem pressa. Caminhou até ele com passos lentos e medidos, os olhos castanhos fixos nos de Joseph, e tomou a bandeja de suas mãos com uma frieza cirúrgica. Contudo, antes de levar o alimento aos lábios, ela inclinou a cabeça, a voz baixando para um tom ácido:

— Até quando pretendem encenar esta farsa de tribunal, Bauer? Por quanto tempo o seu 'conselho' pretende me manter encarcerada nesta cela de ratos?

— O Conselho ainda está avaliando o seu status de risco, Heinrike — Joseph respondeu, mantendo os braços cruzados sobre o peito. — Mas aconselho a senhora a ter paciência. O perímetro urbano de Viena está tomado pela Gestapo. Este porão, por mais miserável que lhe pareça, ainda é o lugar mais seguro do mapa para quem acabou de degolar o próprio marido.

Heinrike soltou uma risada curta, sem um pingo de humor. Um sorriso de canto de lábios rasgou suas feições:

— Vocês operam sob a ilusão de que possuem uma estrutura militar, Bauer... Mas não passam de cães indefesos acuados em um beco. Libertaram dezenas de operários sem ter como alimentá-los e agora não fazem a menor ideia de como escapar da armadilha que vocês mesmos armaram.

— Usar o seu sarcasmo para nos insultar não vai suavizar a sua sentença perante o Conselho, senhora Weber — Joseph pontuou, a voz caindo um tom na gravidade. — Na verdade, só demonstra que a senhora continua cega para a realidade.

— Eu não vou jogar o jogo de vocês — ela aproximou o rosto do dele, o olhar queimando em um desprezo elegante. — Não tenho segredos de estado para entregar, nem pretendo me ajoelhar diante de uma milícia de insurgentes.

— Um jogo? — Joseph deu um passo à frente, encurtando a distância, a expressão obscurecida pela indignação. — Nós arrancamos a senhora das garras da SS de Berlim e evitamos que o seu nome fosse parar numa vala comum. Um pouco de gratidão pela sua própria vida não faria mal à sua etiqueta.

Heinrike manteve os olhos cravados nos dele. Em um gesto exageradamente cortês, ela curvou o tronco e murmurou com puro veneno:

Sehr vilen Dank... Muito... obrigada, meu herói.

Ela virou-se de costas com desdém, caminhando até a mesa de canto para pousar a caneca.

Joseph encarou as costas da mulher por dois segundos. Em vez de responder à provocação, ele virou-se para o corredor e acenou com a cabeça.

A porta correu novamente, e uma silhueta feminina deu um passo para dentro do recinto.

Heinrike girou sobre os calcanhares para encarar a intrusa, mas o deboche em suas feições congelou instantaneamente. Seus olhos arregalaram-se, e a cor sumiu de seu rosto:

— Ginevra...?

A mulher adentrou o recinto com passos ponderados, encarando Heinrike com um olhar frio e analítico.

— Senhora Weber — Ginevra declarou, a voz calma e distante.

— O que significa isso, Bauer?! — Heinrike cobrou, a voz perdendo a compostura pela primeira vez, os olhos oscilando entre Joseph e Ginevra. — Por que a trouxe aqui?

— Imaginei que a presença de um rosto familiar pudesse ajudar a senhora a entender que não somos seus inimigos, senhora Weber — Joseph explicou, a voz num tom calmo e implacável. — Queremos entender a razão dessa sua resistência maníaca em cooperar conosco.

— Eu não sei de que outra forma eu poderia ser útil a vocês! — Heinrike esbravejou, dando dois passos desordenados para trás. — Eu já fiz o trabalho sujo por esta rede! Eu manchei as minhas mãos e cortei a garganta de Andreas no meu próprio quarto! O que mais vocês querem arrancar de mim?!

Joseph caminhou até a saída, parando ao lado de Ginevra. Ele virou o rosto para Heinrike, cravando nela um olhar que parecia enxergar através de sua armadura de orgulho:

— Queremos a confirmação de que a senhora está do nosso lado. Mas não com discursos elegantes ou palavras vazias. Queremos atitudes.

Sem dar margem para trégua, Joseph sinalizou para que Ginevra se retirasse e cruzou o limiar logo atrás dela.

Espere! Bauer, volte aqui! — Heinrike gritou, correndo em disparada na direção da saída.

O baque ressoou seco. A porta de aço deslizou com violência sobre os trilhos, fechando-se a milímetros do rosto de Heinrike. O som metálico e pesado da tranca externa caindo no encaixe selou o cômodo em um silêncio absoluto.

Heinrike desabou contra a superfície fria do metal. O orgulho que sustentara até aquele segundo ruiu por completo; suas forças esvaíram-se, e ela deslizou até o chão de concreto, escondendo o rosto entre as mãos e entregando-se a um choro copioso, doloroso e desesperado, enquanto o eco de sua própria solidão preenchia a penumbra da cela.

Apartamento dos Müller, Centro de Viena — Algumas horas depois.

O rastro de sangue na calçada fora limpo, mas a paranoia impregnava as paredes do apartamento 503. Na sala de estar, Thomas Müller andava de um lado para o outro, os passos ritmados estalando no taco de madeira. Franz Krüger permanecia sentado na ponta do sofá, segurando uma xícara de café frio com uma indiferença calculada, observando o mentor girar pelo cômodo como um predador encurralado.

No final do corredor, contudo, no quarto do casal, o ar era de uma trégua quase irreal.

A cama estava coberta por peças de vestuário que Jennifer resgatara do fundo de seu próprio armário. Ela separava saias, blusas de lã e vestidos que não usava há anos, disposta a transformar a aparência de Lena antes da travessia.

— Experimente este aqui — Jennifer disse, estendendo um vestido de corte sóbrio em tom bege, com detalhes discretos em renda na gola e nos punhos. — O tecido é encorpado e o manequim deve servir sem precisar de ajustes.

Lena esboçou um sorriso timidamente grato. Ela desfez-se do casaco caramelo doado e vestiu a peça com gestos cuidadosos. Ao ajustar a cintura diante do espelho da penteadeira, encarou o próprio reflexo.

— Ficou irretocável — Jennifer avaliou, cruzando os braços e acenando com a cabeça em aprovação.

— Obrigada... de verdade, Jennifer — Lena murmurou, sentando-se na borda do colchão ao lado da dona da casa. Ela soltou um suspiro profundo, o peito pesando. — Espero que esse plano de extração realmente funcione. Mas acredito que esse vestido não seja tão discreto.

— Thomas está correndo com a falsificação das credenciais no distrito — Jennifer confortou, o tom mudo e acolhedor. — A sua vantagem é que a sua fisionomia atual não lembra em nada as descrições dos relatórios antigos da fazenda. Você tem traços aristocráticos, Lena. Se mantiver a postura, passa por qualquer verificação de rotina.

Lena baixou os olhos, encarando as próprias mãos:

— Mesmo assim... o pavor não passa. Mesmo com papéis falsos e um nome inventado, se um guarda olhar nos meus olhos por dois segundos a mais, temo que o meu corpo traia a minha coragem. Eu não sei como agir se me abordarem.

Jennifer sustentou o olhar da jovem. A vulnerabilidade de Lena mexeu com o fundo de sua consciência. Ela levantou-se da cama com determinação e caminhou até o guarda-roupa principal, abrindo a porta espelhada e retirando do cabideiro um sobretudo longo de lã preta, impecavelmente cortado, acompanhado por um par de luvas de pelica escura.

Ela voltou e estendeu as peças para Lena:

— Vista isto.

Lena ergueu os olhos, hesitante:

— Jennifer... isto é seu. É uma peça cara.

— Não é apenas uma peça de roupa, Lena... é uma armadura — Jennifer insistiu, a voz carregada de uma firmeza maternal. — O sobretudo preto esconde a fragilidade do seu corpo e impõe respeito imediato a qualquer burocrata de fronteira. Ele dá uma aura de autoridade. E estas luvas... — Jennifer tomou as mãos calejadas da garota com delicadeza — ...vão cobrir as marcas do trabalho forçado. Guardas procuram mãos de camponesa. Com isto, você será uma senhora da sociedade de Viena.

Lena sentiu a garganta dar um nó. Ela desfez-se do vestido bege e vestiu o sobretudo preto. O tecido pesado ajustou-se perfeitamente aos seus ombros, caindo até a altura dos tornozelos. Ao calçar as luvas de pelica escura, a transformação foi absoluta: a garota assustada dos alojamentos dera lugar a uma mulher elegante, fria e inalcançável.

Duas batidas secas ressoaram na porta de madeira do quarto.

— Pode entrar! — Jennifer avisou.

Thomas abriu a porta e estancou no limiar. Seus olhos varreram a figura de Lena de cima a baixo. A postura ereta da jovem sob o sobretudo preto fez o Investigador paralisar por um segundo, um leve e genuíno sorriso de admiração moldando seus lábios:

— Se eu a cruzasse no corredor do Distrito Central vestida dessa forma, Lena... juraria que está no topo da hierarquia de Berlim. Você não lembra em nada a garota que resgatei da mata.

— Thomas... você está sendo gentil demais — Lena respondeu, o rosto corando levemente sob a maquiagem discreta que Jennifer lhe aplicara.

— Não é gentileza, é constatação tática — Thomas reafirmou, o tom compenetrado. — O disfarce visual está perfeito.

Jennifer observou o marido encarar Lena por uma fração de segundo a mais do que o estritamente profissional. A cumplicidade silenciosa entre os dois não passou despercebida, e Jennifer tratou de cortar a pausa, adotando um tom pragmático para retomar o controle do ambiente:

— Escute, Thomas. Já separamos a bagagem essencial que ela levará para a Hungria. Você tem uma previsão exata de quando a documentação falsa e os selos de trânsito ficarão prontos?

Thomas desviou os olhos para a esposa, a gravidade voltando imediatamente à sua expressão:

— Espero ter os papéis em mãos até o final da noite. Mas a margem de erro zerou. Se eles já estavam monitorando a nossa fachada antes, a execução que o Franz realizou na calçada vai multiplicar as patrulhas disfarçadas no quarteirão nas próximas horas. A partir deste segundo, qualquer movimento fora do apartamento terá que ser cirúrgico.

Lena e Jennifer assentiram em silêncio, o choque da realidade dissipando o breve momento de vaidade, enquanto o peso do destino de Lena voltava a pairar sobre o quarto.

Residência da Família Schulz, Bairro de Grinzing — Naquela mesma tarde.

Erich empurrou a pesada porta de carvalho da casa da família e adentrou o hall de entrada com passos abafados. O ambiente cheirava a madeira polida, cera e ao aroma denso de tabaco escuro. Ele retirou o quepe militar e as botas de serviço, descansando-os sobre o aparador de entrada antes de caminhar a passos curtos em direção à sala de estar.

Acomodado na poltrona de orelhas de couro surrado, junto à lareira apagada, o patriarca da família Schulz sustentava o jornal do dia diante do rosto. Na primeira página, em carimbos de letras garrafais, lia-se a versão oficial do Reich: "TERRORISTAS REACIONÁRIOS DESTROEM PONTE TÁTICA E IMPEDEM CHEGADA DE MANTIMENTOS A HOSPITAL DE VIENA."

O som da madeira rangendo sob os pés de Erich fez o idoso pronunciar-se sem retirar os olhos do papel:

— Boa tarde, meu filho.

— Boa tarde, pai... O senhor está bem? — Erich indagou, a voz sutilmente hesitante ao notar que o pai nem sequer baixara o jornal para recebê-lo.

— Onde você esteve durante as últimas trinta e seis horas, Erich? — a pergunta veio num tom calmo, mas carregado de um peso sufocante. — A fazenda do consórcio Weber foi varrida por terroristas, a província entrou em estado de emergência e você simplesmente evaporou sem deixar um único relatório de paradeiro. Você está ferido?

— Eu... eu estou bem, pai — Erich mentiu, engolindo em seco, o peito apertado pela culpa.

Lentamente, o Sr. Schulz dobrou o jornal em quatro partes e o repousou sobre a mesa lateral. Ele ajeitou os óculos de leitura na ponte do nariz e ergueu o rosto, cravando no filho um olhar clínico, severo e despido de qualquer indulgência paternal.

— E por qual motivo você está cruzando a porta de casa no meio do expediente? Não deveria estar integrado às patrulhas de varredura junto com os demais homens do seu destacamento?

Erich sentiu o sangue congelar sob a farda. O tremor que tentara reprimir durante toda a manhã ameaçou retornar às mãos:

— Fui... liberado da escala pelo comando de setor, pai. Dispensado até segunda ordem.

Dispensado...? — o patriarca degustou a palavra com aversão, como se examinasse uma moeda falsa. — Me diga com clareza, Erich: onde exatamente você estava no segundo em que a linha de defesa da fazenda foi rompida?

— Eu estava no perímetro do alojamento, com o restante da tropa, pai! — Erich elevou a voz um tom acima do necessário, tentando compensar a fraude com indignação. — Aonde mais eu estaria?!

O Sr. Schulz inclinou o corpo para a frente na poltrona, apoiando os cotovelos nos joelhos. O silêncio que se seguiu na sala de estar tornou-se quase insuportável.

— Erich... eu ainda posso ostentar a certeza de que meu único filho é um soldado exemplar do Exército?

— Claro que sim, pai! — Erich bateu no peito, sustentando o olhar com um desespero quase infantil. — Eu honrarei o seu nome e a sua história até o dia em que meu coração parar de bater!

O idoso suspirou profundamente. Não havia orgulho em suas feições, apenas uma decepção latente e perigosa. Ele buscou um cachimbo sobre o cinzeiro e declarou sem alterar o tom de voz:

— O Tenente Klein esteve neste endereço há duas horas. Veio pessoalmente colher informações sobre você.

A sala pareceu girar ao redor de Erich. As pernas do jovem soldado vacilaram por um segundo.

— O tenente Klein... esteve aqui?

— Esteve — o pai respondeu, acendendo o fumo com um fósforo curto. — Ele me relatou que o seu nome consta na lista de desaparecidos em combate. Ele disse que você e o soldado Meyer se adentraram na mata fechada durante a confusão do assalto e jamais retornar aos postos de contenção.

O Sr. Schulz apagou a chama do fósforo com um sopro lento, cravando os olhos cinzentos nas pupilas dilatadas de Erich:

— Eu quero continuar acreditando que o meu filho é apenas um soldado azarado que se perdeu na neblina... e não um traidor desgraçado que vendeu a honra da própria farda para a insurgência. Me diga a verdade, Erich... O que você foi fazer naquela mata?

Erich estancou no centro da sala, a farda do Reich pesando toneladas sobre seus ombros, a mente congelada entre a lealdade ao pai e o amor por Lena.

Fazenda das Indústrias Weber, Rotas de Fuga do Setor Oeste — Cair da noite.

A escuridão desceu sobre os fundos da propriedade como um manto espesso de fumaça e gelo. O terreno, pisoteado pela fuga desesperada e fustigado pela garoa ininterrupta, transformara-se em um lamaçal escuro e pegajoso. O som de botas afundando na lama era o único ruído a romper o silêncio da mata, intercalado pelo chiado baixo de um rádio portátil militar pendurado no ombro do soldado que escoltava Dieter Schneider.

A lâmina amarelada da lanterna de Dieter cortava a neblina, varrendo os fios de arame farpado cortados e as marcas de estacas arrancadas da cerca perimetral.

Do alto-falante do rádio, a voz firme e aveludada de uma mulher cortava a estática em um boletim de emergência:

“...E reforçamos que os contingentes da Gestapo e da Infantaria do Exército intensificaram o cerco operacional em todo o perímetro urbano de Viena. É determinação expressa do Governo encontrar e neutralizar sem hesitação os terroristas reacionários responsáveis pelo atentado à ponte tática — um ato covarde que impediu o fornecimento de suprimentos vitais aos hospitais e civis da nossa província...”

Dieter estancou a caminhada por um segundo. Sem se virar, soltou um sopro rasgado pelo nariz, um sorriso árido moldando seus lábios:

— Sabine Rogojinski.

O jovem soldado da guarda interna, assustado com a pausa repentina do homem da SD, desligou o botão do rádio e ajustou o fuzil no ombro:

— Perdão, Herr Investigador? Disse algo?

— A senhora Rogojinski domina com perfeição a arte da oratória pública, soldado — Dieter comentou, a voz num tom terrosamente calmo, sem tirar o foco da lanterna do solo. — Uma narrativa impecável.

— Não compreendo a sua colocação, senhor...

— A propaganda é a verdadeira espinha dorsal do Estado, meu jovem — Dieter explicou, movendo o feixe de luz milímetro a milímetro sobre a vegetação retorcida. — Uma ponte destruída passa de um alvo tático militar a uma 'crueldade contra doentes' em questão de segundos, dependendo de quem assina a nota do Ministério. Sabine sabe exatamente como converter um fiasco operacional em um mandato de sangue.

O soldado preferiu o silêncio. Sabia que responder a divagações de um oficial de Berlim era um terreno pantanoso.

Dieter continuou avançando, a luz da lanterna revelando pegadas de botas militares misturadas a passos menores e desajeitados — o rastro exato de quem arrastara um prisioneiro através da barreira de contenção.

De repente, o feixe de luz travou.

A meio metro da base de uma estaca de madeira podre, semi-soterrado pela lama preta e coberto por folhas secas, algo refletiu o brilho metálico da lanterna.

Dieter ajoelhou-se sem se importar em sujar o tecido impecável de seu sobretudo cinza-chumbo. Com a ponta dos dedos enluvados, ele afastou a terra úmida e recolheu um pequeno retângulo de latão prateado, preso a um fragmento de tecido militar rasgado.

Ele trouxe o objeto para perto dos olhos. A água da chuva lavou a sujeira da superfície, revelando as letras fundidas no metal:

SCHULZ — INFANTARIA REGULAR / MATR. 4409-B

Um silêncio absoluto e cortante caiu sobre a mata. O vento do inverno uivou entre os galhos secos das árvores, mas Dieter permaneceu imóvel sobre a lama.

Lentamente, ele colocou-se de pé. Fechou a mão enluvada ao redor da plaqueta de identificação de Erich e guardou o fragmento no bolso interno do sobretudo, exatamente ao lado da ficha de busca de Lena Goldstein.

Um leve, quase imperceptível franzir de lábios rasgou a rigidez de seu rosto. Seus olhos azuis fixaram-se na direção das luzes distantes de Viena, brilhando com a satisfação fria de quem acabou de ver uma peça do quebra-cabeça encaixar-se no lugar.

— Interessante... — Dieter sussurrou para a neblina da noite, a voz carregada de uma promessa mortal. — O nó da traição é sempre mais apertado quando é dado em casa.