A Reacionária

2 REFLEXOS NO ESCURO



Wittenberg, Alemanha — Julho de 1939

O calor abafado do verão alemão parecia estagnar dentro do quarto, onde as cortinas grossas permaneciam rigidamente fechadas. Naqueles dias, o mundo exterior pertencia às marchas militares e aos olhares vigilantes dos vizinhos; a segurança da família Goldstein resumia-se ao silêncio entre as quatro paredes de sua humilde casa de tijolos. Mas, naquela tarde, o medo deu uma breve trégua para a vida se fazer notar.

Exausta, com a testa brilhando de suor e os cabelos escuros colados à pele, Mia Goldstein sorriu. Em seus braços, envolta em um lençol de linho desgastado, uma nova vida respirava.

— É uma menina linda, senhor Goldstein. Meus parabéns — sussurrou a parteira, uma mulher de confiança da comunidade que guardava seus próprios segredos. Ela limpava as mãos em uma bacia de ferro, mantendo a voz deliberadamente baixa, ciente de que até as paredes podiam ter ouvidos.

Wilhelm Goldstein aproximou-se da cama de ferro. O homem, cujos traços arianos impecáveis e olhos azuis penetrantes outrora lhe garantiam privilégios na nova Alemanha, parecia ter envelhecido dez anos desde que assinara os papéis que o declaravam casado com uma mulher judia. Mas, naquele instante, as rugas de preocupação em sua testa desapareceram, substituídas por um orgulho genuíno e radiante.

— Tome... — Mia murmurou, a voz fraca pelo esforço hercúleo do parto, entregando o pequeno fardo ao marido.

Wilhelm acomodou a recém-nascida nos braços com uma delicácia reverente, como se segurasse um cristal precioso prestes a quebrar.

— Minha pequena Lena... — ele sussurrou.

A bebê moveu as pequenas mãos no ar gélido do quarto e, por um breve segundo, abriu as pálpebras, revelando olhos de um azul claro e cristalino — o espelho exato dos olhos do pai. O sorriso de Wilhelm foi imediato, mas trazia uma melancolia oculta. Ela tinha os traços dele, a pele alva dele. Seria o suficiente para protegê-la do mundo que se desenhava lá fora?

Um rangido suave na madeira da porta interrompeu o transe do casal. Pela fresta, dois olhos castanhos e atentos observavam a cena.

— Stefan? — Wilhelm percebeu o filho mais velho espiando do corredor, o corpo miúdo tenso, como se temesse invadir um solo sagrado. — Venha cá, meu filho. Venha conhecer sua irmã.

Stefan, aos seis anos de idade, adentrou o quarto com passos hesitantes. Suas meias de lã arrastavam-se pelo assoalho. Ele era uma mistura clara dos pais, mas os olhos carregavam uma gravidade que não pertencia à infância.

— Não tenha medo, querido — encorajou Mia, estendendo a mão pálida para o menino, encontrando forças na própria exaustão.

O menino aproximou-se da lateral da cama e ergueu-se na ponta dos pés para espiar o rosto da irmãzinha no colo do pai. Um leve e genuíno sorriso esboçou-se em seus lábios infantis ao ver o nariz minúsculo de Lena. Mas a alegria durou apenas um vislumbre. Logo, o semblante de Stefan foi sepultado por um entendimento doloroso e precoce.

Crianças criadas sob a sombra do perigo aprendem a ler o mundo mais rápido do que as outras. Stefan não compreendia os decretos de Berlim ou os conceitos de pureza de sangue, mas compreendia o peso do isolamento. Ele sabia por que o pai não usava mais certas condecorações na rua. Sabia por que a mãe chorava baixinho na cozinha quando os jornais chegavam. Sabia que eles eram vistos como um erro pelo governo.

Olhando para a fragilidade de Lena, o coração do pequeno Stefan contraiu-se com uma melancolia profunda. Ele percebeu que o nascimento da irmã, embora fosse o evento mais solene e bonito que já vira, também significava uma nova vulnerabilidade para a família. Agora, havia mais uma boca para alimentar na escassez, mais uma vida para esconder, mais um alvo para a intolerância dos homens de farda escura. Lena nascera em um mundo que já a odiava antes mesmo de ela aprender a falar.

Instintivamente, Stefan estendeu um dedo trêmulo e tocou a mãozinha da irmã. Os dedos minúsculos de Lena se fecharam ao redor do dele. Naquele toque silencioso, o menino de seis anos tomou sua primeira decisão de adulto: ele faria o que fosse preciso para que o mundo nunca apagasse o brilho daqueles olhos azuis.

Interior de Viena, Inverno de 1963.

O pesadelo do amanhecer impregnou a terra. O trabalho nas lavouras seguiu sob um silêncio sepulcral, interrompido apenas pelo som mecânico das enxadas golpeando o solo duro. Mas o verdadeiro suplício para Lena não era o frio que anestesiava seus dedos, nem a imagem residual do corpo do jovem caindo no cascalho. Era o ar. O ar parecia denso, carregado de uma hostilidade silenciosa que convergia inteiramente sobre ela.

Onde quer que Lena olhasse, encontrava rostos retorcidos. Os mesmos homens e mulheres que compartilhavam com ela a miséria dos alojamentos agora a encaravam com olhos injetados de um rancor primitivo. Eram olhares que a acusavam, que a julgavam e que a condenavam por um crime que ela não cometera.

Sentindo o peito sufocar sob o peso do isolamento, Lena arrastou os pés em direção ao sulco de terra onde Martha trabalhava. Buscava um vislumbre de humanidade, um único porto seguro. Martha, no entanto, soltou um suspiro pesado, limpando o suor frio da testa com a manga do casaco. Ela olhava ao redor, vigilante, percebendo que a proximidade com Lena estava atraindo a mesma contaminação de ódio para si.

— O que está acontecendo, Martha? — Lena sussurrou, a voz trêmula, quase implorando por uma explicação. — Por que todos estão me olhando como se... como se eu tivesse puxado aquele gatilho?

Martha cravou a enxada no chão e olhou para Lena. Não havia o acolhimento da noite anterior em seus olhos; havia apenas a crueza de quem entendeu as regras do jogo.

— Klaus não tentou fugir ontem à noite, Lena — disse Martha, sem rodeios, soltando as palavras como blocos de gelo.

Lena parou. O mundo pareceu desacelerar ao seu redor.

— O quê? Mas o senhor Weber disse...

— Weber mentiu — cortou Martha, baixando ainda mais o tom de voz. — Eles sabem disso. Todos aqui sabem disso. Eles estão culpando você pela morte dele.

Antes que Lena pudesse processar o impacto daquelas palavras, uma sombra se projetou sobre as duas. Ilsa, uma das camponesas mais velhas do alojamento, cujas mãos eram calejadas por décadas de servidão e cujo rosto parecia esculpido em pedra, deu um passo à frente. Não havia um pingo de compaixão em sua postura. Havia apenas um desejo visceral de ferir.

— Espero que o conteúdo daquela maldita carta tenha valido a pena, sua Deutsche de merda — Ilsa cuspiu a palavra alemã com um nojo profundo, lançando uma lufada de saliva escura bem aos pés do vestido sujo de Lena.

O insulto caiu como uma bofetada. Ser chamada daquilo — o termo usado para os opressores, para os donos do mundo que haviam destruído sua família — rasgou a alma de Lena.

— Do que você está falando? — a voz de Lena falhou, os olhos azuis arregalados em puro choque. — Eu não fiz nada! Eu nem conhecia o rapaz direito!

— Ele foi morto por sua causa! — Ilsa deu mais um passo, diminuindo a distância, o hálito quente contrastando com o ar frio. — Weber armou aquele teatro inteiro para te dar um recado. Ele descobriu que você recebeu mensagens de fora. Mas, em vez de punir você, aquele monstro preferiu estourar o peito do Klaus. Matou um dos nossos para te mostrar o preço da sua ousadia. E sabe por que ele poupou você, Goldstein? Porque você tem a cara deles. Porque você se parece com os bastardos que nos escravizam!

As palavras de Ilsa foram o estopim. Ao redor, outros trabalhadores pararam suas ferramentas, os rostos sombrios concordando em um veredicto silencioso. A faísca havia sido lançada, e o rastro de pólvora do ódio racial e da inveja que eles secretamente nutriam pelos traços arianos de Lena finalmente explodiu. Para aqueles condenados, a sobrevivência de Lena não era sorte; era o privilégio de ter a pele alva e os olhos claros dos carrascos.

— Não... não foi isso... — Lena tentou argumentar, mas sua voz foi engolida pelo vento do inverno.

Seus joelhos fraquejaram. O peso da revelação a esmagou de dentro para fora. Klaus, um rapaz inocente que apenas tentava sobreviver ao inverno, havia sido executado friamente para que o sangue dele servisse de barreira para as asas dela. O preço da sua esperança não era a sua própria vida; era a vida de qualquer um que estivesse ao seu redor. Ela agora carregava um cadáver invisível nas costas, e o campo inteiro a odiava por continuar respirando.

Centro de Viena – naquele mesmo instante

No coração de Viena, a realidade operava sob outra frequência. Longe da lama e do sangue dos campos de cultivo, o som que dominava era o tilintar de xícaras de porcelana e o murmúrio polido da elite austríaca. Thomas Müller permanecia sentado à mesa de canto de uma cafeteria movimentada, os olhos fixos nos sedãs pretos que cruzavam a avenida enevoada, usando o reflexo do vidro para monitorar o ambiente.

Sem pedir licença, um jovem de sobretudo escuro e corte de cabelo militar impecável deslizou para a cadeira vazia ao seu lado. Franz tinha cabelos escuros e olhos azuis frios, astutos, que examinavam o salão antes mesmo de ele retirar suas luvas de pelica.

— Thomas — Franz começou, a voz baixa, fundindo-se ao ruído da máquina de café expresso. — Berlim finalmente acusou o recebimento do nosso dossiê sobre as Indústrias Weber. O memorando está na mesa dos assessores econômicos.

Thomas, que até então parecia absorto em pensamentos, piscou, reconectando-se abruptamente à realidade do disfarce. Ele largou a xícara pequena.

— Eles receberam? — a voz de Thomas saiu firme, mas destituída de entusiasmo. — E o que isso significa na prática, Franz?

— Significa que o Ministério do Interior adora uma desculpa para canibalizar empresários gananciosos — Franz esboçou um sorriso de canto, os dedos batucando de leve na mesa. — Se o relatório subir mais um degrau e chegar à chancelaria, basta uma assinatura. Puff. As fábricas Weber são estatizadas pelo Reich sob acusação de sabotagem econômica e traição trabalhista. Andreas Weber termina seus dias em uma cela de segurança máxima.

— Parece uma vitória cirúrgica no papel, Franz — Thomas inclinou-se para a frente, diminuindo a distância entre os dois. Seus olhos se estreitaram. — Mas você já parou para pensar no que acontece com os subalternos? O que acontece com a gente que ele esconde nos campos? Nós dois sabemos o que Berlim faz com quem carrega o sangue dos descendentes de Abraão.

Franz suspirou, o otimismo profissional empalidecendo por um instante.

— Você está sendo emocional, Thomas. Nós sabemos que, no fundo, apesar da propaganda oficial do Partido e dos delírios ideológicos que herdamos dos anos 30, a maior parte da população urbana está exausta da segregação racial. O sistema está saturado. Se quebrarmos a economia deles por dentro...

— A população pode até estar exausta, Franz, mas todos estão aterrorizados — Thomas o interrompeu, a voz caindo para um sussurro cortante. — Se o medo não fosse o cimento deste império, a Orchestra não precisaria operar nos esgotos e nas sombras. A verdade é que, se o Ministério do Interior confiscar as terras de Weber, eles vão enviar destacamentos da Gestapo para fazer uma limpeza completa. Vão queimar os alojamentos e passar uma borracha nas testemunhas. Nós vamos entregar a cabeça de Weber, sim, mas vamos assinar a sentença de morte daqueles prisioneiros.

Franz sustentou o olhar do colega, a rigidez de suas feições revelando o conflito interno.

— E o que você sugere? Que engavetemos o dossiê? Que desistamos do plano após meses de infiltração?

— Não — Thomas passou a mão pelo rosto, sentindo o cansaço acumulado. — Não estou dizendo para desistir. Só estou dizendo que nosso objetivo final deveria ser salvar aquelas vidas, e não apenas marcar pontos em um relatório de inteligência. Se conseguirmos derrubar o monopólio dele, a Orchestra terá um motivo para provar que o Reich é vulnerável. Mas precisamos de um plano de contingência para os clandestinos antes que Berlim envie os caminhões.

Franz observou o companheiro por um longo momento, avaliando a determinação quase obstinada que brilhava nos olhos dele, apesar de todas as incertezas. Mudando de assunto para aliviar a pressão, o jovem perguntou:

— E sobre os rumores da Hungria? Conseguiu algum contato com a suposta linha de fuga judaica no Leste?

Thomas pegou a xícara fria e tomou o último gole do café amargo. A imagem de Lena Goldstein chorando sobre os pedaços de papel na lama voltou à sua mente como uma assombração.

— Não — Thomas admitiu, olhando para o fundo da xícara. — Para ser honesto, eu nem sei se aquela resistência ainda respira, ou se transformamos uma fantasia de fugitivos na nossa única esperança.

Franz imitou o gesto, bebendo seu café em silêncio. Ele reconhecia o perigo nos olhos de Thomas: o homem à sua frente estava começando a violar a regra de ouro da espionagem. Ele estava começando a se importar com as peças do tabuleiro.

Franz recostou-se na cadeira, os olhos azuis fixos no colega. Ele girou a colher de prata entre os dedos antes de lançar a pergunta que guardava desde o início do encontro:

— Eu ainda me pergunto o que você realmente foi fazer na propriedade rural dos Weber ontem, Thomas. Eu sei que seu senso de dever é inabalável, mas cruzar o perímetro de um colaborador do Partido sem autorização da célula... Você está esticando a corda além do limite.

Thomas levantou-se de súbito. O som de sua cadeira arrastando-se discretamente contra o piso de mármore fez Franz silenciar. Thomas inclinou-se de leve, apoiando a ponta dos dedos na mesa, a voz saindo como um sussurro gélido que emanava autoridade.

— Cuide da sua própria segurança, rapaz. O seu trabalho é garantir que a Gestapo e a SS continuem olhando para o lado errado enquanto nós coletamos as provas econômicas. Como eu conduzo o reconhecimento de campo não é, e nunca será, da sua conta.

Franz sustentou o olhar por um segundo, engolindo a seco a reprimenda, antes de erguer as mãos em um gesto de trégua.

— Entendido, senhor Müller. Apenas... tome cuidado.

— Preciso ir. Jennifer está me esperando para o almoço — Thomas pegou o chapéu de feltro e as luvas de couro sobre a mesa, ajustando-os com movimentos mecânicos.

Ele deu as costas e saiu, misturando-se aos clientes da cafeteria. Franz permaneceu estático, observando a silhueta do mentor desaparecer através da vidraça. Havia algo errado. Thomas não era homem de perder a compostura por uma simples cobrança de protocolo. Franz sentiu que, sem querer, havia tocado em uma ferida aberta.

Mansão da Família Weber, arredores de Viena — Algumas horas depois.

O silêncio na grande sala de estar da propriedade era opressor. Andreas Weber estava afundado em sua poltrona de couro legítimo, o corpo maciço tenso sob o casaco de lã. Ele soltou o primeiro botão do colarinho da camisa com um puxão violento, buscando ar, antes de abrir o jornal do dia. A manchete principal, adornada com a tipografia rígida do regime, exaltava os novos recordes de produção industrial e a estabilidade econômica do Reich. Propaganda barata, mas eficaz para acalmar o gado.

O som suave de saltos no tapete persa anunciou a chegada de Heinrike. Aos cinquenta e seis anos, a senhora Weber ainda ostentava uma elegância aristocrática que desafiava o tempo; os longos cabelos loiros estavam presos em um coque impecável e o vestido de seda verde-escura caía com perfeição sobre sua silhueta esguia. No entanto, seus olhos traziam a opacidade típica de quem vivia em uma gaiola de ouro.

— Dia agitado, meu marido? — ela indagou, a voz modulada pela cortesia artificial que os anos de casamento lhe ensinaram.

Andreas não ergueu os olhos do jornal.

— Heinrike. Sente-se — ele ordenou, ríspido.

Ela ajeitou as saias do vestido e acomodou-se no sofá adjacente, mantendo uma distância segura. Conhecia os humores do marido, mas a rigidez nos ombros dele e a forma como seus dedos amassavam as bordas do papel denunciavam que a paranoia havia entrado naquela casa.

— Vai me contar o que o está afligindo tanto desde cedo? — ela arriscou, o tom suave.

— É assunto de negócios, Heinrike. Portanto, não se meta — Andreas respondeu, virando a página do jornal com um estalo seco. — Apenas fique aqui e me faça companhia em silêncio.

Heinrike tocou o colar de pérolas no pescoço. A grosseria dele não era novidade; o casamento arranjado de décadas era uma farsa mantida por conveniência social e aparências políticas. Mas o instinto de sobrevivência dela dizia que a tensão de hoje era diferente. Era mais perigosa.

— Você sabe que posso ser útil em nossos círculos sociais se me disser o que há de errado... — ela tentou novamente, buscando ler as entrelinhas do rosto dele.

— Se quer tanto saber, eu precisei executar um subalterno na lavoura hoje mais cedo — ele soltou a frase com a mesma indiferença de quem relata o abate de uma rês.

Heinrike estancou. Seus olhos fixaram-se na tapeçaria na parede oposta. Ela conhecia perfeitamente a crueldade do homem com quem dormia, mas o sangue fresco sempre trazia um arrepio incômodo.

— Mas... isso não vai lhe causar problemas com as autoridades locais? Matar mão de obra sem o relatório oficial...

Ele fechou o jornal abruptamente, jogando-o sobre a mesa de centro. O impacto fez a porcelana do serviço de chá tilintar.

— Como eu acabei de dizer, isso é problema meu! — Andreas sibilou, inclinando-se para a frente, o rosto vermelho de fúria. — Assuntos dessa natureza não são para o intelecto de mulheres. Fique fora disso.

— Meu marido, eu apenas quis dizer que se houver uma fiscalização de Berlim...

Antes que ela terminasse a frase, Andreas ergueu a mão direita, o braço tensionado pronto para desferir um tapa pesado em seu rosto. Heinrike, movida pelo reflexo doloroso de anos de abusos, jogou o corpo para trás e levantou-se do sofá em um único movimento, recuando dois passos com o coração disparado.

— Saia da minha frente antes que eu perca a paciência de vez! — ele rosnou, apontando o dedo trêmulo na direção do corredor. — O que eu faço com aqueles indigentes no meu campo é assunto meu, e a minha mulher não tem o direito de questionar as minhas decisões. Suma daqui!

— Entendi... Me perdoe, Andreas — ela sussurrou, a voz trêmula.

Heinrike deu as costas e apressou o passo em direção aos seus aposentos privados, as lágrimas de humilhação e medo finalmente transbordando e borrando sua maquiagem. Enquanto caminhava pelos corredores frios da mansão, a mente da senhora Weber processava a fraqueza do marido. Andreas nunca havia sido tão violento por causa de um mero trabalhador morto. Havia um fantasma rondando as Indústrias Weber, e ele estava apavorado.

Fazenda dos Weber — Cair da noite.

O crepúsculo engoliu os campos com uma névoa densa e azulada. O dia de trabalho forçado finalmente chegava ao fim, mas a pressão sobre Lena não havia diminuído. Sob o céu escuro, os olhares rancorosos dos outros prisioneiros continuavam a cercá-la como lobos, mas Martha permaneceu ao seu lado até o último instante, usando o próprio corpo exausto como um escudo visual. Lena forçou-se a focar na terra. A culpa pela morte de Klaus não era sua, e ela não tinha como arrancar o ódio cego da cabeça daquelas pessoas. Sua única opção era continuar respirando.

O som agudo dos apitos dos capatazes ecoou pelo pátio, ordenando o recolhimento. Os prisioneiros começaram a marchar em filas silenciosas em direção aos alojamentos. Lena atrasou o passo de propósito, fingindo recolher as últimas ferramentas, quando a silhueta de um dos guardas se destacou da penumbra e marchou diretamente em sua direção.

— Vamos, Goldstein. O tempo acabou. Movimente-se — a voz do guarda Erich soou alta e ríspida, ecoando para quem quisesse ouvir.

Lena ergueu os olhos azuis, avaliando o pátio. Os outros prisioneiros já estavam distantes, e os refletores ainda não haviam se acendido completamente.

— Erich... não tem mais ninguém por perto — Lena sussurrou, a voz quase sumindo no vento gélido. — Você não precisa fingir comigo.

Erich deu um passo curto à frente. Seus olhos castanhos vasculharam as torres de vigia antes de ele baixar o tom de voz para um sussurro urgente e cortante:

— Eu preciso falar com você, Lena. Rápido. Eu faço parte da Orchestra.

O choque estancou os passos de Lena.

— Mas como você...

— Não olhe para mim! Não fale! — Erich a interrompeu de forma violenta, desatravando a carabina Mauser com um estalo seco e apontando o cano diretamente para as costas dela. O movimento brusco simulava uma punição padrão para qualquer guarda que estivesse observando de longe. — Vire-se e caminhe em direção ao alojamento. Agora. Mantenha os olhos na linha de frente e apenas escute o que vou dizer. Em silêncio.

Lena obedeceu imediatamente. Ela marchava com os braços colados ao corpo, sentindo a proximidade fria do cano da arma em suas costas, enquanto Erich a escoltava de perto, mantendo o teatro de um soldado implacável.

— Thomas Müller e eu temos nos comunicado por canais codificados — Erich sibilou atrás dela, os passos sincronizados aos dela no cascalho. — Weber está paranoico. Ele sabe que há um vazamento. A execução do Klaus foi um recado direto para você, mas escute bem: Weber não tem coragem de tocar em um fio de cabelo seu. Não agora. Com um inspetor de Berlim na cola dele, você é a prova viva mais valiosa e perigosa que ele possui. Ele precisa de você intacta para manter as aparências.

— O que eles vão fazer? — Lena moveu apenas os lábios, sem girar a cabeça.

— Silêncio, Goldstein. Só ouça — Erich ordenou, a voz tensa. — A segurança vai triplicar a partir de amanhã. Eu vou evitar qualquer contato visual ou verbal com você para não nos condenar à morte. Mas você precisa saber que o plano da Orchestra é muito maior do que as Indústrias Weber. Eles estão pavimentando o caminho para uma implosão interna contra Berlim. Expor este campo é apenas a primeira peça a cair.

Lena continuou marchando, mas seus punhos se fecharam contra o tecido do vestido sujo. O coração batia tão forte que parecia prestes a rasgar o peito. A esperança, que ela julgava ter sido completamente destruída na lama junto com os pedaços da carta de Stefan, brotou novamente, feroz e dolorosa.

— Thomas planeja usar o escândalo financeiro para desestabilizar os Weber — Erich continuou, a voz baixa e precisa. — E, quando o caos da intervenção estatal começar, ele vai abrir uma brecha na ala oeste para tirar vocês daqui. Entregar aquela carta ontem não foi apenas um ato de misericórdia pelo seu irmão, Lena. Foi um teste de reconhecimento. Thomas precisava medir a velocidade de reação e as falhas no sistema de defesa de Weber. Ele estudou o perímetro e me recrutou por dentro. Você não está sozinha.

Eles finalmente alcançaram a entrada de madeira escura do alojamento comunitário. O calor abafado do interior contrastava com o ar gélido da noite. Lena parou na soleira e, fingindo tropeçar para justificar o movimento, virou-se sutilmente para o guarda.

— Por que alguém vestindo essa farda arriscaria a vida pela Orchestra? — ela indagou, fixando os olhos nos dele, buscando a verdade por trás da viseira do quepe militar.

Erich sustentou o olhar dela por uma fração de segundo, a mandíbula rígida.

— Eu tenho os meus próprios motivos, Goldstein. Meus próprios mortos para vingar — ele respondeu, a voz carregada de um rancor antigo. — Agora entre nesse maldito alojamento antes que as patrulhas desconfiem.

Lena deu um passo para trás, cruzando o limiar da porta. Erich bateu a folha de madeira com força, trancando-a pelo lado de fora com o som pesado do ferrolho de ferro.

No escuro do alojamento, cercada pelo murmúrio tristonho dos outros prisioneiros, Lena encostou as costas contra a parede de tábuas frouxas. Ela deslizou lentamente até o chão, deixando que a escuridão ocultasse suas feições. Pela primeira vez em dezoito anos de cativeiro, as lágrimas que escorreram por suas bochechas não eram de desespero.

Berlim — Algumas horas depois.

As ruas da capital do Reich estavam desas de vida sob o gélido nevoeiro noturno, mas no interior do imponente complexo do Ministério do Interior, as luzes permaneciam acesas. Entre os longos corredores de mármore ecoavam os passos apressados de secretárias e oficiais de ligação. A burocracia do império nunca dormia.

No topo da ala administrativa, o Ministro do Interior, Günther, examinava uma pilha de relatórios com visível enfado. O som da porta de carvalho se abrindo o fez erguer os olhos. Sua secretária de confiança adentrou o gabinete presidencial, carregando uma pasta de couro preta com o selo de "Urgência Governamental".

— Outra vez? — Günther bufou, ajustando os óculos de aro de ouro ao ver a assinatura no protocolo.

— Sim, Excelência. Outro relatório de campo enviado pelo inspetor sênior Thomas Müller — a secretária respondeu, mantendo a voz formal. — Mas este exige sua atenção imediata. Vem diretamente da província de Viena e envolve uma questão de integridade racial e desvio de patrimônio do Estado.

Günther recostou-se na cadeira de espaldar alto, os olhos estreitados. Thomas Müller era conhecido em Berlim como um cão de caça implacável, um auditor cujos relatórios de eficiência já haviam destruído a carreira de dezenas de administradores regionais.

— O que Müller alega ter encontrado na Áustria?

— Uma subalterna trabalhando em regime de escravidão camponesa privada, senhor. Müller cruzou os dados e afirma que a garota é, por direito, uma cidadã alemã legítima, originária de Wittenberg. Ela é filha de um antigo oficial decorado do Partido, morto por insurgentes durante as revoltas de 1945.

Günther tamborilou os dedos gordos sobre a mesa de jacarandá.

— Qual oficial?

— Wilhelm Goldstein, Excelência. E há algo mais grave no relatório: o inspetor Müller anexou provas de que as Indústrias Weber mantêm um esquema bilionário de tráfico ilegal de prisioneiros e subalternos em suas propriedades rurais. Trabalho forçado de caráter privado, sem qualquer declaração ao fisco ou ao Ministério do Armamento. Andreas Weber está sonegando milhares de trabalhadores que deveriam estar nas fábricas estatais de Berlim.

O ministro manteve a expressão impassível, embora um leve tremor na pálpebra denunciasse o golpe psicológico.

— Entendo — Günther disse, fechando a pasta com uma calma estudada. — Müller sempre foi... meticuloso demais. Deixe os documentos comigo. Eu farei uma avaliação pessoal antes de despachar para a chancelaria. Enquanto isso, traga-me um café forte.

— Sim, Herr Ministro.

Assim que a secretária bateu a porta e o silêncio retornou ao gabinete, a máscara de serenidade de Günther desmoronou. Ele levantou-se abruptamente, caminhando até a janela que dava para a praça monumental, os maxilares trancados em pura fúria.

Ele deu as costas para o vidro, caminhou até a mesa e abriu a pasta de couro. Sem qualquer hesitação, Günther segurou o dossiê detalhado escrito por Thomas Müller e o rasgou ao meio com um puxão violento. Repetiu o gesto três, quatro vezes, transformando as provas técnicas e as fotos das plantações em pedaços de papel inúteis.

Ele abriu a gaveta inferior de sua mesa de carvalho — onde guardava os relatórios falsificados e os extratos de contas secretas na Suíça — e jogou os restos do dossiê lá dentro, batendo a gaveta com o pé.

— Aquele Weber imbecil... — Günther sibilou na solidão do gabinete, o suor frio brotando em sua testa. — Como ele pôde ser estúpido a ponto de deixar um rastro de sangue logo na direção do Müller?

Günther sabia exatamente o que o relatório significava. Se Berlim descobrisse o esquema das Indústrias Weber, o império têxtil ruiria. Mas o que Thomas Müller não sabia era que metade dos lucros gerados pelo sangue daquela fazenda em Viena ia direto para o bolso do próprio Ministro Günther. Proteger Weber não era uma questão de política; era uma questão de sobrevivência financeira.

— Talvez Thomas precise desaparecer... — Disse Günther.