A Reacionária

3 A ÚLTIMA OITAVA



Mansão da Família Weber, arredores de Viena — três dias depois

O silêncio na ala oeste da mansão tinha o peso de um mausoléu de mármore. Henrike Weber permanecia imóvel no centro do sofá de veludo capitonê, perfeitamente esculpida em sua própria solidão. Seu vestido de alta-costura, em um tom de azul-noturno profundo, derramava-se em pregas pesadas até tocar o tapete polonês. Sobre a cabeça, o chapéu de abas largas com detalhes em renda — a própria definição da opulência e da nobreza austríaca que ela representava — projetava uma sombra sutil sobre seus olhos, ocultando as marcas invisíveis de uma angústia antiga.

Ela tinha tudo. O Reich a havia cercado de prata, cristais da Boêmia e criados silenciosos que atendiam a cada aceno de seus dedos. No entanto, enquanto seus olhos percorriam as paredes decoradas com tapeçarias e retratos oficiais, Henrike sentia apenas um vazio árido. Um abismo existencial que nenhuma joia ou status parecia capaz de preencher. Faltava-lhe sentido; faltava-lhe vida. Sob o teto de Andreas Weber, ela era apenas mais uma de suas valiosas aquisições, trancada em uma farsa dourada.

Buscando desesperadamente um fragmento de humanidade para anestesiar o eco daquela casa, ela estendeu a mão trêmula. As unhas perfeitamente lixadas tocaram o braço de metal da vitrola alemã de madeira nobre. Com um movimento lento, quase religioso, ela pousou a agulha sobre as ranhuras do disco de vinil.

O chiado inicial foi logo sepultado pela voz suave, aveludada e melancólica de Gerhard Wendland.

A melodia flutuou pelo salão imenso, preenchendo as frestas da alma aflita da senhora Weber. À medida que as notas se expandiam, a tensão acumulada nos últimos três dias — o medo constante dos surtos do marido e o pressentimento de que o império deles caminhava sobre gelo fino — começou a se dissipar. Henrike fechou os olhos. Um sorriso frágil e genuíno, há muito esquecido, desenhou-se em seus lábios. Naquele instante solene, embalada pela música, ela não era a esposa de um colaborador do Reich. Ela era apenas uma mulher, flutuando em um porto seguro onde a crueldade do mundo exterior não podia alcançá-la.

A melodia suave foi brutalmente assassinada pelo toque insistente e estridente da campainha, que ecoou pelo salão como um chamado de mau agouro. Henrike sobressaltou-se, o sorriso desfazendo-se instantaneamente. O silêncio que se seguiu à interrupção foi tenso, carregado de uma eletricidade que a música não conseguiu apagar.

Lá fora, na entrada principal, a governanta apressou-se, os pés calçando chinelos de feltro contra o mármore frio. Ela sentia o peso daquele som; na casa dos Weber, visitas inesperadas raramente traziam notícias boas.

Ao girar a maçaneta e abrir a porta, o ar gélido da noite austríaca invadiu o hall. Diante dela, três figuras se destacavam contra a escuridão do jardim. Bem-vestidos, austeros, com casacos de lã pesados e o olhar de quem não pede permissão. No centro, um homem de meia-idade com um sorriso impecável e olhos que pareciam não sorrir nunca.

— Boa noite — anunciou o homem, sua voz soando estranhamente cálida, quase lisonjeira. — Sou o Ministro do Interior do Reich, Günther Von Bismarck. Andreas Weber se encontra?

A governanta empalideceu, as mãos apertando o avental.

— O senhor... o Ministro? Sim, claro. Irei chamá-lo imediatamente, Excelência.

Günther deu um passo à frente, estreitando os olhos enquanto inspecionava a mulher de cima a baixo. Ele não o fazia com a pressa de quem quer entrar, mas com a curiosidade de um entomologista observando um espécime sob o microscópio.

— Espere um momento — disse ele, a voz baixando para um tom de confidência incômoda. — Não pude deixar de notar... Você é estrangeira?

A pergunta atingiu a governanta como um golpe físico. Ela travou, o ar faltando em seus pulmões. O sotaque, uma marca quase imperceptível de sua infância, sempre fora sua maior vulnerabilidade em uma casa que respirava a supremacia do sangue.

— O sotaque... — Günther continuou, o sorriso ainda colado no rosto. — É inconfundível. Italiana, imagino?

— Sim, senhor... eu sou da Lombardia, mas... — a voz dela falhou.

— Eu entendo perfeitamente — Günther a interrompeu, fazendo um gesto dispensável com a mão enluvada. — Não se preocupe, senhorita. Mussolini é nosso aliado, e o Reich tem o devido respeito pelos nossos parceiros de Eixo. Embora, naturalmente, a precisão germânica seja um pouco... diferente do temperamento latino.

Ele não esperou por uma resposta. Sua atenção desviou-se para o interior da casa, como se a governanta tivesse deixado de existir.

— Ah, sim. Quase esqueci as boas maneiras — ele disse, mantendo um tom de falsa polidez. — O inverno em Viena é implacável, não acha? Podemos entrar? A menos que prefira nos deixar congelando no degrau.

— Claro, por favor... — ela gaguejou, afastando-se para o lado e fazendo um aceno vacilante para que os três homens entrassem.

Günther cruzou o limiar, seus sapatos brilhantes de verniz marcando o chão de madeira com um ritmo autoritário. Ele caminhou alguns passos pelo saguão, olhando para os quadros nas paredes e a decoração luxuosa como quem avalia o preço de um despojo de guerra.

— Uma bela propriedade, devo admitir — ele comentou para os seus dois acompanhamentos, sua voz ecoando pelas paredes altas. — Os Weber têm, sem dúvida, um gosto refinado para o luxo. É uma pena que o luxo exija tanta... manutenção.

Ele virou-se para a governanta, que ainda tremia na entrada, e deu um último sorriso, curto e desprovido de qualquer calor.

— Chame o senhor Weber. Agora! — Ele exigiu.

— Não precisa se preocupar, Ginevra — a voz de Andreas Weber cortou o saguão, vinda da penumbra do corredor adjacente. Ele adentrou o recinto a passos lentos, sem que ninguém tivesse notado sua aproximação até que sua presença massiva ocupasse o espaço. — Eu já estou aqui. Pode se retirar.

Ao pronunciar o nome real da governanta, despindo-a do disfarce que ela tentava manter diante do oficial de Berlim, Weber impôs sua autoridade. Ele não estava apenas dispensando uma funcionária; estava lembrando ao Ministro que, dentro daquela casa, as regras e as vidas pertenciam a ele. Ginevra fez uma reverência apressada, com os olhos fixos no chão, e desapareceu como uma sombra em direção aos fundos da mansão.

Günther alargou o sorriso ao ver o fazendeiro se aproximar. Era o sorriso de um jogador que sabe exatamente quais cartas o adversário esconde na manga.

— Excelente, meu caro Andreas — disse o Ministro, retirando o chapéu e entregando-o a um de seus assessores, que permaneciam estáticos como estátuas de farda. — Temos uma longa conversa pela frente. E, se não for incômodo, eu realmente gostaria de um café. O trajeto de Berlim até aqui foi... desgastante.

Andreas não respondeu de imediato. Ele parou a dois passos de Günther, medindo o Ministro de cima a baixo com um olhar denso e calculista. Os dois homens se conheciam bem o suficiente para dispensar as cortesias baratas do Partido. A farda impecável de Günther, a presença dos guarda-costas e o tom excessivamente casual do pedido de café deixavam claro para Weber: aquela não era uma visita de cortesia ou uma inspeção de rotina. Era uma cobrança. E o preço prometia ser alto.

— O café será servido no meu escritório — Andreas finalmente respondeu, a voz áspera, gesticulando em direção às portas de jacarandá ao fundo do hall. — Por aqui, Herr Ministro.

Centro de Viena, naquele mesmo instante.

A névoa gelada que subia do rio Danúbio transformava as avenidas barrocas de Viena em labirintos desertos. O inverno austríaco daquela noite era um convite ao recolhimento, esvaziando as calçadas e empurrando os cidadãos para o calor de suas lareiras. Thomas Müller apressava o passo, a gola do sobretudo erguida contra as rajadas de vento cortante. Seus sapatos ecoavam no asfalto úmido com uma cadência rápida. Um homem na sua posição — um investigador sênior com acesso às entranhas do Reich — aprendia cedo que a paranoia não era uma doença, mas uma ferramenta de sobrevivência. Ele tinha inimigos demais.

E, de repente, o eco de seus próprios passos ganhou um contraponto. Um compasso duplo, desalinhado, vindo do fundo da rua escura.

Thomas não olhou para trás. Em vez disso, deslizou sutilmente a mão direita para o interior do bolso do sobretudo, os nós dos dedos encontrando o cabo de aço frio de sua pistola Walther PPK. O contato com o metal trouxe uma lufada de adrenalina. Ele manteve o polegar posicionado sobre a trava de segurança, calculando mentalmente os pontos de fuga daquela viela escura caso o pior acontecesse.

— Podemos conversar um pouco, senhor Müller? — uma voz firme, proferida com o sotaque aristocrático da elite militar, cortou a noite.

Thomas estancou. Em um movimento fluido e calculado, ele girou o corpo de lado, mantendo a mão oculta dentro do casaco. A silhueta que emergia da névoa vestia o temido uniforme preto de corte impecável da SS. O oficial parou a poucos metros, erguendo o braço direito no cumprimento protocolar do Partido antes de estampar um sorriso polido no rosto.

— Um oficial da SS? — Thomas arqueou uma sobrancelha, mantendo a voz perfeitamente controlada, embora seu pulso estivesse acelerado. — Posso ao menos saber por que o Estado prefere me abordar em um beco escuro a esta hora, em vez de agendar uma reunião formal no quartel-general?

— Digamos que o assunto em pauta não seja de interesse público, Herr Müller — o oficial deu um passo à frente, ajustando as luvas de couro. — O senhor conhece perfeitamente as diretrizes do Partido sobre a discrição em investigações sensíveis.

— Bom, seja o que for, meu expediente terminou por hoje. Não estou interessado — Thomas respondeu, virando as costas para retomar seu caminho.

Mas o bloqueio já estava montado. Assim que deu o primeiro passo, duas figuras massivas surgiram da escuridão à sua frente, bloqueando a saída da rua. Dois agentes da Gestapo, vestindo longos casacos de couro escuro, já empunhavam suas pistolas regulamentares, apontadas diretamente para o peito de Thomas. O cerco estava fechado.

— Ora, por que a pressa, inspetor? — a voz do oficial da SS ecoou às suas costas, destituída de qualquer calor. — Tenho absoluta certeza de que o assunto é de total interesse para o seu futuro.

Percebendo que um movimento em direção à Walther seria um suicídio estatístico, Thomas retirou lentamente a mão do bolso, erguendo os braços à altura dos ombros em um gesto de rendição calculada.

— Eu acredito que não violei nenhum decreto de Berlim ou falhei com os meus deveres com a promotoria do Reich — declarou Thomas, sustentando o olhar do oficial que agora se aproximava pela lateral.

— Não, de forma alguma, senhor Müller — o homem da SS sorriu, parando a centímetros dele. O cheiro de tabaco caro e loção pós-barba exalava de sua farda. — O seu histórico é impecável. Um patriota exemplar. O problema é que o senhor desenvolveu um péssimo hábito recente: andar farejando os quintais errados. O senhor está mexendo com engrenagens que conflitam com os interesses de homens muito importantes. Homens bem acima do seu teto salarial.

Thomas contraiu o maxilar, os olhos fixos nos agentes da Gestapo.

— Então é disso que se trata? Um fazendeiro influente tem amigos em Berlim?

— Senhor Müller... — o oficial estendeu a mão e deu dois tapinhas leves e condescendentes no ombro de Thomas. — O senhor tem uma esposa adorável, uma filhinha linda e todo o conforto que um detetive de elite do Reich merece. Mas saiba que a estabilidade de um lar... é uma cortesia do Estado. E cortesias podem ser revogadas.

— Não ouse colocar a minha família no meio disso — a voz de Thomas falhou pela primeira vez, uma vibração de puro ódio escapando por entre os dentes.

— Eu não me misturo com crianças, senhor Müller. Só estou lembrando ao amigo que o mundo é um lugar terrivelmente perigoso. Acidentes acontecem em cruzamentos de Viena... — o oficial recuou um passo, a máscara de simpatia caindo para revelar a frieza burocrática do regime. — O que os nossos superiores em Berlim pedem é simples: volte a investigar pequenos contrabandos, roubos de carga e indigentes. Deixe os peixes grandes nadarem em paz.

Antes que Thomas pudesse responder, o oficial fez um aceno ríspido com a cabeça para os homens do casaco de couro.

O primeiro golpe veio sem aviso, violento e preciso. O agente da Gestapo desferiu um soco com o punho fechado direto na boca do estômago de Thomas. O ar foi arrancado de seus pulmões instantaneamente, fazendo-o dobrar o corpo para a frente. O segundo impacto veio de baixo para cima: uma joelhada brutal que colidiu contra o seu nariz, quebrando a cartilagem com um estalo abafado.

Thomas desabou de joelhos no asfalto úmido, o sangue quente começando a jorrar pelo rosto e a pingar no colarinho de sua camisa limpa. Ele tentou erguer os braços para proteger a cabeça, mas o outro agente desferiu um chute violento em suas costelas. O impacto quebrou duas delas, arrancando um gemido sufocado de dor do investigador. Outro chute atingiu suas costas, empurrando seu rosto contra o chão gelado.

O espancamento seguiu uma cadência profissional, fria e calculada para quebrar o espírito, não para matar. Chutes no abdômen, pisões nas mãos que tentavam proteger o crânio, até que Thomas estivesse completamente imóvel na poça de seu próprio sangue, tremendo de dor e espasmos involuntários, com a visão turva e o gosto de ferro inundando sua boca.

O oficial da SS caminhou até ele, parando as botas brilhantes a poucos centímetros de seu rosto desfigurado. Ele se inclinou levemente, olhando para baixo com profundo desprezo.

— Isso foi apenas um memorando amigável, Müller. Da próxima vez, nós não vamos nos dar ao trabalho de redigir um aviso. Sumam daqui.

Os três homens deram as costas, os passos ecoando ritmicamente pela avenida até desaparecerem completamente na névoa, deixando Thomas sozinho no escuro, agarrado às costelas fraturadas, enquanto o gelo de Viena começava a queimar suas feridas abertas.

Mansão da Família Weber, arredores de Viena — Naquele mesmo instante.

Atrás das pesadas portas de carvalho do escritório particular, o ar estava saturado pelo cheiro de tabaco cubano e pelo calor da lareira que estalava ao fundo. Andreas Weber e o Ministro Günther Von Bismarck ocupavam poltronas de couro opostas. A proximidade entre os dois era evidente nos gestos descompromissados, frutos de uma década de transações financeiras ilícitas e subornos mascarados. Mas a intimidade, naquela noite, estava blindada por uma tensão cortante. Nenhum dos dois daria o braço a torcer.

— Como você pôde ser tão cego, Andreas? — Günther começou, a voz baixa, mas carregada de uma agressividade controlada. Ele deu uma baforada no charuto, observando o reflexo das chamas no vidro de sua caneca de café. — Deixar um homem como Thomas Müller passar pelos seus portões, farejar seus livros e ainda ter contato direto com o refugo dos seus campos? Você amadorizou.

— Eu não tinha como prever que os cães de caça de Berlim estavam circulando a minha propriedade, Günther — Andreas rebateu, inclinando-se para a frente, os olhos fixos no aliado. O tom era ríspido. — Aliás, a sua única função nessa nossa sociedade era garantir que o Ministério do Interior desviasse os olhos de Viena. Você me deu sua palavra de que eu estava blindado sob a sua influência.

— E você está. Pelo menos por enquanto — Günther estreitou os olhos, apontando o charuto na direção de Weber. — Acredito que o senhor Müller acabou de receber um memorando bastante... persuasivo na rua. O fogo que ele acendeu vai apagar. De qualquer forma, não brinque com a minha complacência, Weber. Você sabe perfeitamente que eu posso assinar um decreto de estatização destas terras e mandar a SS trancá-lo em uma cela por traição econômica antes do amanhecer.

Andreas soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor. Ele recostou-se na poltrona, destilando o veneno que Günther já esperava.

— E você sabe perfeitamente que, se eu cair, levo metade do seu gabinete comigo, Günther. Acha mesmo que eu não guardei os recibos de cada marco que transferi para as suas contas na Suíça? Se me deletarem deste tabuleiro, você vai junto.

O Ministro permaneceu imóvel, mas o maxilar contraído denunciou que o golpe de Weber havia atingido o alvo. O equilíbrio de poder ali era exato: destruição mútua assegurada.

— Não brinque com o fogo, Andreas — Günther avisou, a voz caindo para um tom perigosamente calmo. — Por conta do nosso histórico, vou enviar um destacamento de confiança para ajudar seus capatazes a blindar o perímetro da fazenda. Ninguém mais entra ou sai dessas cercas sem a minha autorização direta. Mas você vai andar na linha. O Führer está ocupado demais com a burocracia militar do Partido para se importar com os seus problemas, e eu pretendo manter as coisas assim. Estamos de acordo?

Andreas sustentou o olhar do Ministro por alguns segundos, medindo as forças, antes de ceder com um aceno rígido de cabeça.

— Estamos de acordo.

— Ótimo — Günther apagou o charuto no cinzeiro de cristal. — Agora, leve-me até ela.

Andreas franziu o cenho, pego de surpresa.

— Ela quem?

— No relatório que interceptei, Müller identificou uma subalterna específica. Ele tem motivos para acreditar que a garota é filha biológica de um oficial alemão condecorado, chamado Wilhelm Goldstein. Se você tem sangue de um herói de Wittenberg trabalhando como escrava clandestina nos seus campos, nós dois temos um problema político catastrófico nas mãos.

— Eu gerencio centenas de indigentes, Günther. Não faço ideia de quem seja essa Goldstein. Para mim, são todos apenas números.

— Eu não vim de Berlim para ouvir suas desculpas, Andreas — Günther levantou-se, ajustando os punhos da farda com uma frieza cirúrgica. — Ou você me leva até ela agora mesmo para avaliarmos o estrago, ou amanhã cedo a Gestapo estará estacionando os caminhões no seu pátio para confiscar cada par de mãos que trabalha nessa lavoura. O que prefere?

Andreas olhou para o Ministro com um rastro de puro rancor, percebendo que não havia espaço para negociação. Ele levantou-se, a contragosto.

— Me acompanhe — resmungou, indicando a saída.

No entanto, assim que Andreas girou a maçaneta e abriu a porta de carvalho de uma vez, a silhueta de Henrike recuou bruscamente no corredor iluminado. Ela segurava um xale de lã contra os ombros, os olhos arregalados por uma fração de segundo antes de tentar moldar o rosto em uma expressão de fingida distração. Ela estava ali, colada à madeira, absorvendo cada palavra sobre as contas na Suíça, sobre um inspetor Thomas e a identidade de Lena.

— Henrike? — o tom de Andreas subiu, carregado de uma suspeita violenta.

Günther, sempre o político diplomático, deu um passo à frente, abrindo um sorriso polido que não alcançava seus olhos de predador.

— Senhora Weber. É sempre um privilégio desfrutar da sua hospitalidade.

— O prazer é todo meu, Herr Ministro — Henrike respondeu, a voz perfeitamente controlada pela etiqueta, embora os dedos que apertavam o xale estivessem trêmulos.

— Henrike, você estava espionando a nossa conversa? — Andreas deu um passo na direção da esposa, a mandíbula travada, a iminência da agressão física flutuando no ar.

— De forma alguma, meu marido — ela apressou-se em dizer, mantendo o queixo erguido apesar do pânico que subia por sua garganta. — Eu estava apenas a caminho dos meus aposentos privados para recolher alguns livros. Não imaginei que...

Antes que a tensão escalasse para um confronto doméstico, Günther interveio, tocando suavemente o braço de Andreas.

— Senhora Weber, por favor, não se desculpe — disse o Ministro, a voz macia e cortante. — Continue seu caminho. Seu marido e eu precisamos fazer uma breve inspeção externa.

— Uma inspeção? A esta hora da noite? — Henrike arriscou, olhando de relance para Andreas.

— Sim, e não é da sua conta — Andreas cortou-a com a brutalidade habitual, apontando para o final do corredor. — Siga para o seu quarto e fique lá.

— Sim, meu marido — Henrike baixou a cabeça em uma reverência rápida, virando as costas e caminhando com passos firmes, embora o coração parecesse martelar contra suas costelas. Ela sabia demais agora. Sabia o suficiente para ser eliminada por qualquer um dos dois homens.

Andreas e Günther tomaram o rumo oposto, descendo as escadas em direção ao pátio dos fundos. O Ministro olhou de soslaio para o fazendeiro enquanto caminhavam.

— Você confia na sua esposa, Andreas?

Andreas soltou um sorriso arrogante, o cano da bota estalando contra o chão de pedra.

— Henrike é uma mulher frágil, Günther. Passa os dias ouvindo discos e escolhendo cortinas. O que ela poderia fazer contra nós?

Günther não respondeu. Apenas manteve os olhos fixos na escuridão dos campos que se aproximavam, ciente de que as mulheres “assustadas” costumavam ser os reflexos mais perigosos no escuro.

Fazenda dos Weber, arredores de Viena — Cair da noite.

Andreas Weber e o Ministro Günther cruzaram os portões de ferro em direção à ala dos alojamentos, escoltados pelos dois guarda-costas de Berlim. No posto de controle do perímetro, as sentinelas em vigília imediatamente bateram os calcanhares das botas, congelando em uma reverência rígida ao reconhecerem as insígnias de farda do Ministro.

— Boa noite, Herr Ministro. Senhor Weber — saudou o chefe da guarda, a voz tensa.

— Preciso que um de seus homens nos conduza até o alojamento dos subalternos — ordenou Andreas, o tom gélido e apressado. — O senhor Ministro precisa realizar uma verificação de inventário.

O chefe da guarda fez um sinal ríspido para a guarita de apoio.

— Soldado! Apresente-se!

Para surpresa do próprio destino, foi Erich quem deu um passo à frente, batendo continência. Sob a aba do quepe militar, os olhos de Erich fixaram-se primeiro em Andreas, depois nas feições predatórias de Günther. Seu estômago contraiu-se. Ele sabia que a situação estava saindo do controle, mas manteve a máscara de submissão intocável.

— Sim, senhor. Por aqui — Erich respondeu, empunhando a carabina e marchando na vanguarda do grupo. Cada passo no cascalho parecia a contagem regressiva para uma execução.

Quando a pesada porta de madeira do alojamento foi arrombada pelo empurrão ríspido de um dos guarda-costas, o impacto ecoou como um trovão. No interior abafado, dezenas de prisioneiros acordaram no susto, erguendo-se dos colchões de palha com os olhos arregalados de puro pavor. Visitas na madrugada só significavam duas coisas: expurgo ou fuzilamento.

Lena, que mal conseguira pregar os olhos após o diálogo clandestino com Erich, sentou-se no beliche em um reflexo defensivo. Ao ver a silhueta maciça de Weber e as fardas oficiais, ela sacudiu os ombros da amiga com urgência.

— Martha... acorde. Martha, levante — sussurrou, o pavor travando sua garganta.

Os cinco homens adentraram o corredor estreito entre os beliches. O Ministro Günther corria os olhos pelas fileiras de rostos sujos e subnutridos, exibindo um sorriso raso e aristocrático. Para ele, aquelas vidas eram apenas refugo biológico; contudo, a precisão cirúrgica do dossiê de Thomas Müller exigia que ele visse a peça central da denúncia com os próprios olhos.

— Algum de vocês atende pelo sobrenome Goldstein? — a voz de Günther flutuou pelo recinto, calma, polida e mortal.

Erich, postado junto à entrada com a carabina em riste, manteve os olhos fixos na parede oposta, os nós dos dedos empalidecendo em torno da arma. Suas suspeitas haviam se confirmado da pior forma: o vazamento de informações batera no topo da cadeia de Berlim.

Nenhum prisioneiro ousou respirar. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Andreas Weber sentiu uma lufada de alívio; afinal, suas ordens eram explícitas para que os subalternos nunca se identificassem a oficiais externos. Manter o segredo era a única forma de salvar seu império têxtil.

— Vou perguntar mais uma vez. Acredito que o sono prejudicou a audição de vocês — Günther deu dois passos à frente, o verniz de suas botas estalando contra o assoalho imundo. — Quem de vocês é a Goldstein?

Percebendo que a insistência do Ministro acabaria em um castigo coletivo sangrento, Lena Goldstein colocou os pés no chão frio. Ela levantou-se lentamente, sustentando o peso da espinha dorsal, mas manteve os lábios cerrados, recusando-se a curvar a cabeça.

Günther parou diante dela. O sorriso em seu rosto alargou-se, transformando-se em uma expressão de sádica satisfação.

— Você, garota — o Ministro inclinou a cabeça, analisando-a. — Qual é o seu nome?

— Lena Goldstein — ela respondeu, a voz trêmula, mas clara o suficiente para ecoar pelo alojamento. — Acredito que sou quem o senhor procura.

Atrás do Ministro, Andreas Weber suou frio, o maxilar travado em puro ódio pela audácia da garota. Günther, por sua vez, deu um passo definitivo para encurtar a distância. Ele ergueu a mão enluvada e, com a ponta dos dedos de couro, tocou o queixo de Lena, forçando-a a erguer o rosto. Ele a inspecionava como um mercador avalia uma mercadoria de luxo confiscada.

— A semelhança é extraordinária, senhorita Goldstein... Você é a cópia exata de Wilhelm. Seu pai foi um oficial condecorado, uma lenda mítica do Partido nos primeiros anos da ascensão — Günther provocou, deslizando os dedos frios pela linha da mandíbula dela. — Mas ele também foi um traidor fraco. Rejeitou a pureza do próprio sangue para se misturar com a sub-raça de degenerados. Ainda assim, me senti na obrigação estética de vir até esta província apenas para conhecê-la.

Lena permaneceu estática, embora todo o seu corpo tremesse sob o vestido de trapos. Ao seu lado, na penumbra do beliche, Martha assistia à tortura psicológica sem esboçar reação; no xadrez daquele império, sua força era nula contra os homens que ditavam as leis. Ela só podia assistir ao martírio da amiga.

— Bem... devo admitir que você é uma mulher fascinante, Goldstein — Günther afastou a mão, cruzando os braços atrás das costas enquanto mantinha os olhos fixos nela. — Talvez a lama e o algodão das terras do senhor Weber sejam um desperdício para alguém com a sua... linhagem peculiar.

Martha tensionou os ombros. Nos beliches ao redor, os outros trabalhadores observavam a cena com um misto de desdém e indiferença fria. Para eles, após o assassinato de Klaus, a presença de Lena era um estorvo que atraía fuzis para dentro do alojamento.

— O que você está sugerindo com isso, Günther? — Andreas deu um passo à frente, intrometendo-se entre o Ministro e a prisioneira. O tom do fazendeiro era hostil; ele captara a intenção nas entrelinhas.

— Poderíamos revisar os termos do nosso consórcio, meu caro Andreas — Günther sugeriu, virando-se de lado, com uma naturalidade espantosa. — Eu levo a Goldstein para o meu palacete em Berlim, sob a minha custódia pessoal, e em troca eu garanto o arquivamento definitivo de qualquer auditoria fiscal que Thomas tente plantar contra você no Ministério. O que acha?

Lena sentiu o chão sumir sob os pés. Os olhos de Günther transmitiam uma perversidade muito mais sofisticada e cruel do que as surras brutais de Weber. Ela se tornaria um brinquedo político nas mãos do Ministro.

— Você está jogando sujo, Günther — Andreas sibilou, estreitando a distância até quase encostar o peito na farda do aliado. — O nosso acordo envolve dividendos e blindagem burocrática em Berlim. Minhas propriedades privadas estão fora de questão. E mais: agora que confirmamos que ela é o rastro vivo de um traidor, o lugar mais seguro do mundo para ela é enterrada nesta lavoura. Os burocratas do governo não farão perguntas sobre uma anomalia que eles sequer sabem que existe. Deixe-a onde está.

Günther encarou Weber por longos e sufocantes segundos. Ele avaliou os riscos e os lucros. Ele era esperto demais para romper uma aliança financeira bilionária por causa de uma única cativa. Por hora.

— Muito bem — Günther cedeu, recuando um passo com um sorriso de escárnio. — Você tem seus pontos, Andreas. Fiquemos com o plano original.

Andreas ajeitou a gola do casaco, o olhar fixo no Ministro, desprovido de qualquer traço de afeição.

— Agora que você confirmou cada linha do maldito relatório de Thomas Müller... pode fazer a gentileza de retirar suas botas das minhas propriedades?

O Ministro soltou uma risada curta, colocou o chapéu de feltro e fez um aceno ríspido para os seus dois guarda-costas. Os quatro homens tomaram o rumo da saída, marchando pelo corredor de madeira. Erich deu as costas por último, mas, antes de fechar a marcha, permitiu que seus olhos encontrassem os de Lena na penumbra. Não havia o ódio característico dos guardas fardados; havia uma compaixão silenciosa e um aviso implícito: aguente firme. Em seguida, ele cruzou o limiar.

A porta do alojamento foi batida com força, e o som metálico do ferrolho externo selou o confinamento mais uma vez.

O silêncio desabou sobre o quarto, quebrado apenas pelo instante em que as pernas de Lena cederam. Ela desabou sobre o colchão de palha, cobrindo o rosto com as mãos feridas enquanto o choro copioso, violento e sufocado finalmente escapava de seu peito.

Martha deslizou para o lado dela imediatamente, envolvendo o corpo trêmulo da garota em um abraço protetor, apertando-a contra o peito enquanto os outros prisioneiros se deitavam novamente de costas, voltando à sua própria apatia.

— Chore tudo o que precisa, minha pequena... Chore — Martha sussurrou contra os cabelos loiros de Lena, os olhos castanhos fixos na porta trancada. — Mas limpe o rosto antes do amanhecer.

No andar mais alto da mansão, Henrike trancou-se na segurança de seus aposentos e estendeu a mão trêmula até a vitrola. Conforme a agulha tocava o vinil e a música voltava a preencher o espaço, um sorriso sutil e quase imperceptível moldou seus lábios. Ela não sabia como reagir, não tinha armas e tampouco um plano estruturado para lidar com a bomba que acabara de ouvir atrás da porta do escritório. Mas, pela primeira vez em décadas de abusos, a submissão deu lugar a um vislumbre de poder. Ela agora conhecia o calcanhar de Aquiles de Andreas; sabia que o império do marido estava por um fio. Enquanto a melodia soava por seus ouvidos, Henrike sentia que, nas sombras daquela casa, o jogo finalmente começava a virar.

Do lado de fora, o motor do sedã do Ministro rugiu, afastando-se na névoa em direção a Viena. Andreas Weber permaneceu sozinho no pátio escuro, os olhos fixos na porta trancada do alojamento, sabendo que sua cabeça e sua fortuna agora dependiam do silêncio absoluto daquele galpão.

Mas ali dentro, no escuro asfixiante do alojamento, não havia planos de revolta, sorrisos ou coragem. Encolhida no peito protetor de Martha, Lena Goldstein chorava o choro sufocado de quem finalmente compreendera a gravidade e o horror de sua própria existência. Ela não era mais apenas uma camponesa esquecida na engrenagem; era uma testemunha marcada para morrer. A única certeza que restava a Lena, enquanto o frio da madrugada congelava suas lágrimas na palha, era de que o tempo para tentar escapar estava se esgotando.