A Reacionária
9 O SABOR DO ALVO: PARTE 1
Arredores de Viena, limite oeste das Indústrias Weber — Madrugada.
Os olhos azuis de Lena Goldstein brilhavam sob a luz pálida dos faróis velados, duas pedras de gelo que pareciam refletir, pela primeira vez em dezoito anos, um vislumbre real de futuro. Mas enquanto a garota radiava aquela esperança frágil através do arame farpado, Heinrike Weber a estudava com uma frieza cirúrgica. Seus olhos castanhos contrastavam com a vulnerabilidade da jovem camponesa; Heinrike a examinava com uma mistura de curiosidade antropológica e o esforço mecânico de quem precisava manter a postura rígida da aristocracia vienense, mesmo estando com os saltos afundados na lama do acostamento.
— Senhor Müller... o que o senhor está fazendo aqui? — Lena quebrou o silêncio, a voz saindo em um sussurro apressado, a fumaça da respiração subindo no frio. — Sabe perfeitamente o tamanho do perigo que corre se o senhor Weber descobrir que esteve aqui.
— Não gaste suas forças se preocupando com a minha integridade, senhorita Goldstein — Thomas respondeu, aproximando-se das farpas de metal com os ombros caídos, mas os olhos fixos nela. — Eu vim até aqui para garantir pessoalmente que as engrenagens comecem a se mover exatamente como o planejado.
Heinrike olhou por cima do ombro, checando a silhueta escura da mansão no topo da colina, e soltou um suspiro tenso, ajeitando o xale sobre a bochecha ainda inchada.
— Precisamos ser breves, senhor Müller — Heinrike interveio, o tom de voz polido cortando a madrugada. — Meu marido está apagado pelo conhaque, mas ele pode acordar a qualquer momento e notar a minha ausência nos aposentos.
— Compreendo — Thomas assentiu, a rigidez profissional assumindo o controle.
Atrás dele, Franz Krüger permanecia estático ao lado da porta do sedã. Ele não esboçava nenhuma reação humana; mantinha os braços cruzados sobre o casaco longo e os olhos varrendo a retaguarda e a estrada vicinal com uma precisão analítica. Do lado de dentro da cerca, a postura de Franz era imitada por Erich Schulz, que mantinha a mão direita a centímetros do coldre da carabina.
— Da mesma forma, se a ronda dos oficiais notar o meu sumiço do alojamento de guarda, as coisas vão ficar feias por aqui antes da hora — Erich alertou, a voz ríspida, os dentes trêmulos pelo frio. — Seja qual for o objetivo de nos reunir neste buraco, jogue as cartas na mesa agora, Müller.
— Prestem atenção. Serei direto — Thomas ordenou.
Todos os eixos daquela conspiração, com exceção de Franz — que continuava focado no horizonte —, fixaram os olhos no detetive.
— Amanhã, nas primeiras horas da manhã, o novo dossiê contra o Ministro Günther será protocolado em Berlim. Não vai demorar mais do que algumas horas para que a Gestapo da capital envie um destacamento especial para isolar esta província e executar os mandados. Erich e Lena, a função de vocês dois na hora do impacto é coordenar a evacuação imediata do quadrante oeste. Aproveitem o momento de distração para correrem o mais rápido possível para essa direção com o máximo de trabalhadores que conseguirem. O soldado Erich virá atrás de vocês gritando “eu pego eles”, o que será um ótimo disfarce. Quanto ao restante do galpão, o plano de extração em massa está montado. Nós vamos tirar a maioria quando chegar o momento.
As palavras de Thomas caíram com o peso de uma heresia militar no pátio escuro. Erich franziu o supercílio costurado, a mente técnica de soldado calculando as variáveis físicas do terreno.
— Senhor Müller... a guarda interna da fazenda está com o armamento pesado revisado, fora os blindados que a Gestapo de Berlim vai trazer para a operação — Erich ponderou, os olhos estreitados na penumbra, fazendo Franz soltar um bufar forte e desdenhoso na retaguarda. — Quais são as nossas chances reais de sucesso contra duas frentes militares?
— Não se preocupe com a matemática dos batalhões, soldado, mas com a precisão do relógio — Thomas rebateu, a voz perfeitamente calibrada. — Nós não faremos um enfrentamento de trincheira; armaremos uma emboscada de oportunidade. Berlim está convicta de que a Orchestra se transformou em um sindicato de velhos aposentados que não têm mais audácia para assinar um resgate de campo como faziam nos anos 40. Eles estão redondamente enganados.
Ao ouvir a última frase, um sorriso cínico e orgulhoso desenhou-se nos lábios de Franz, que continuava de costas. Thomas deu um passo à frente, colando o casaco contra o arame, e pousou a mão direita sobre o ombro de Erich através das farpas.
— Eu estou confiando a vida e a integridade da senhorita Goldstein e os demais que fugirão por aqui à sua farda, soldado. Não falhe comigo.
Erich bateu levemente os calcanhares das botas, sustentando o olhar do mais velho.
— Sim senhor. — Disse Erich, soltando um leve sorriso de Thomas.
Lena esboçou um sorriso sutil, os dedos apertando o casaco grande que Erich lhe emprestara. Heinrike, decidida a encerrar a exposição ao relento, deu dois passos firmes na direção de Thomas, enfiou a mão no bolso do casaco e puxou a pesada chave de latão com segredo complexo que encontrara no fundo falso da escrivaninha.
— Adicione isto ao seu arquivo contra o meu marido, senhor Müller — Heinrike declarou, estendendo o braço enluvado e entregando o metal ao detetive. — Eu revistei cada centímetro quadrado daquela mansão e não encontrei nenhum cofre ou fechadura que esta chave possa abrir. Se os homens de Berlim de fato entrarem na casa com o mandado de busca em mãos, eles terão os métodos e a força necessários para descobrir o que este segredo esconde.
Thomas envolveu a chave com os dedos, sentindo o peso do latão, e a deslizou para o interior do sobretudo.
— Senhora Weber... peço que redobre a sua atenção ao retornar — Thomas alertou, aproximando-se de Heinrike com uma gravidade contida. — Os próximos dias serão decisivos e a rotina desta província vai se tornar extremamente instável. Não temos como prever a mecânica da reação de Andreas ao perceber que o Ministério caiu.
— Eu sei exatamente o que me espera, senhor Müller — Heinrike respondeu, a voz endurecendo enquanto ela ajustava a gola do casaco sobre o pescoço.
Por fim, Thomas voltou os olhos para Lena, que permanecia pensativa, encarando os próprios pés na terra úmida.
— Me desculpe por ter bagunçado a sua vida e trazido o fogo de Berlim para o seu beliche, senhorita Goldstein — o investigador confessou, o tom caindo para uma solenidade fúnebre. — Mas isso não é um acordo político, é uma promessa de sangue: você vai sair deste quadrado de arame.
Heinrike observou a proximidade silenciosa dos dois por mais dois segundos. Soltando um bufar forte e impaciente, ela girou nos calcanhares e marchou de volta na direção das árvores que levavam aos jardins da mansão, rompendo o círculo. Franz fez um aceno ríspido com a cabeça, sinalizando para que Thomas adentrasse o banco do passageiro do sedã antes que o motor de arranque quebrasse o silêncio da estrada.
Erich segurou o braço de Lena com uma firmeza cautelosa, puxando-a de volta para a escuridão dos celeiros da fazenda. A calmaria da madrugada estava contada, e cada um dos presentes sabia que os próximos dias traria o som dos motores de Berlim.
Centro de Viena – manhã seguinte
Thomas Müller girou a chave na fechadura e empurrou a porta de madeira com movimentos lentos, tentando anular o som de seus sapatos contra o taco da entrada. Seu plano era cruzar o corredor em silêncio para não despertar a família, mas a ilusão da calmaria desmoronou no primeiro passo. Jennifer já estava acordada, de pé no centro da sala com uma caneca de louça entre as mãos. O apartamento estava silencioso; Birgit provavelmente já havia sido levada para a escola no início do expediente escolar.
— Bom dia, Thomas — Jennifer saudou, a voz plana, desprovida de qualquer calor doméstico. — Como vai querer o seu café hoje?
Thomas estancou, tirando o chapéu e lendo a rigidez nos ombros da esposa. O instinto de detetive apitou instantaneamente.
— Está tudo bem por aqui, Jenny? — ele indagou, estreitando os olhos.
— Estou ótima, perfeitamente ótima — ela respondeu de pronto, o tom saindo ríspido, cortante como o vento da rua. — Estava trabalhando na madrugada, presumo.
— Alguns relatórios de rotina do distrito — Thomas mentiu com uma naturalidade cínica, pendurando o sobretudo no mancebo. — Passei a noite debruçado nos arquivos na casa de Franz. Mal tirei os curativos e a burocracia do Reich continua acumulando.
— Imagino o tamanho do seu fardo — ela disparou, correndo os olhos pelas feições dele, medindo cada milímetro de sua postura de cima a baixo.
Thomas notou o veneno na entonação, mas optou pelo recuo estratégico. Ele deu as costas e continuou seu percurso em direção ao quarto do casal para pegar uma muda de roupas limpas. Jennifer permaneceu estática na sala, acompanhando os passos dele com um revirar de olhos amargo antes de marchar até a cozinha para preparar a bandeja.
— E como andam as atualizações desses relatórios de rotina? — ela gritou do corredor, o som de louça batendo contra o mármore ecoando pela casa enquanto Thomas desabotoava a camisa de linho para ir ao banho.
— O mesmo marasmo de sempre, Jenny — ele respondeu do quarto, jogando a túnica sobre a poltrona. — Papeladas camarárias, inventários e mais papeladas fiscais.
O silêncio que se instalou nos segundos seguintes foi ensurdecedor, denso, quase físico. Thomas terminou de retirar as roupas, vestindo apenas o calção de banho de algodão escuro, quando a silhueta de Jennifer ressurgiu no batente da porta, segurando um prato com o desjejum.
Ela caminhou até a cômoda, depositou o prato com uma lentidão calculada e travou as pupilas castanhas no marido despido.
— Só preciso que me prometa uma coisa, Thomas... Prometa-me que o arquivo das Indústrias Weber ficou enterrado no passado. Você me dá a sua palavra de honra? — ela inquiriu, a voz caindo para uma súplica tensa.
Thomas sustentou o escrutínio e forçou um sorriso leve, tentando desarmar o cerco psicológico com o charme habitual de casal.
— Prometo, minha querida — ele mentiu, dando um passo na direção dela. — Quer tomar banho comigo antes de eu descer para o distrito?
Jennifer esboçou um sorriso ríspido de canto de boca, mas não havia humor em suas feições. Ela cruzou os braços sobre o peito.
— Você vai mesmo insistir em fazer esse joguinho comigo, Thomas?
— Que joguinho, Jennifer? Do que você está falando?
— Esse teatro patético de fingir que o caso Weber morreu, enquanto você continua investigando o perímetro pelas costas de todo mundo, sem o menor aval daqueles velhos da Orchestra! — ela explodiu, o tom subindo uma oitava.
Thomas bufou forte, jogando a toalha sobre a cama com irritação.
— Lá vem você outra vez com a paranoia do distrito...
— Não, Thomas! Eu não vou mais me desgastar brigando com você por causa disso — Jennifer o cortou, erguendo a mão direita. — É a sua vida, o seu pescoço. Eu aceitei me casar com um investigador sabendo perfeitamente dos riscos de segurança que vinham com o cargo. Mas a Birgit... a nossa filha não tem obrigação de pagar a sua conta. Eu a enviei para a casa da avó nesta manhã. Ela vai passar alguns dias no interior, onde o sistema não alcança. Lá ela estará verdadeiramente segura.
Thomas travou, a mandíbula endurecendo enquanto assimilava o golpe. Jennifer aproximou-se em passos firmes e empurrou-o na cama e em um movimento de posse e cobrança, sentou-se no colo dele sobre o banco de apoio da cama, colando o rosto ao dele.
— Você fica incrivelmente sexy quando tenta sustentar essa cara de bravo — ela sussurrou, testando os limites dele.
Thomas segurou os pulsos dela e a afastou devagar, mas com uma firmeza inflexível, levantando-se de uma vez.
— Por que você não foi com ela, Jennifer?
— Não vamos transformar isso em outra guerra doméstica, meu amor...
— Que droga, Jennifer! — Thomas explodiu, a voz ecoando pelas paredes do quarto. — Você sempre toma decisões cruciais sobre a nossa família sem me consultar! Qual é a lógica real por trás desse plano absurdo de afastar a nossa filha de casa?
— Thomas, é apenas por alguns dias, até que a poeira dessa maldita investigação baixe, está bem? — ela rebateu, levantando-se e enfrentando-o de frente. — Já que você claramente não se preocupa com a segurança dela sob este teto, eu assumo o controle. Eu vou ficar aqui em Viena e correr o risco ao seu lado, já que você se tornou um homem obcecado por essa fazenda.
Thomas soltou um bufar carregado de fúria e girou nos calcanhares em direção ao box do banheiro. Mas antes que ele cruzasse o umbral, a voz de Jennifer cortou o ambiente como uma lâmina fria:
— Quanto à Goldstein... ela está bem de saúde?
O nome agiu como um ímã estrepitoso. Thomas estancou o passo, girou o corpo lentamente e voltou para o centro do quarto, os olhos injetados.
— Você andou mexendo nas minhas coisas particulares, Jennifer?
— Ah, por favor, Thomas! Você poderia ter sido um pouco menos óbvio no seu amadorismo — ela soltou uma risada amarga e desdenhosa. — Deixar um envelope pardo com fichas e fotos confidenciais guardado exatamente dentro da maleta de curativos? Você é considerado um dos maiores investigadores de Berlim pelas patrulhas, mas dentro de casa não consegue esconder um segredo de Estado da própria esposa?
— Eu pensei que não precisaria me dar ao trabalho de esconder arquivos sob o meu próprio teto, afinal de contas, você é a minha esposa, não uma agente do distrito.
— Eu sou a sua esposa, não sou? — ela deu um passo à frente, estreitando os olhos castanhos. — E quanto à senhorita Goldstein... eu preciso admitir: ela é uma mulher bonita. Muito bonita.
— Você está sendo completamente irracional e fútil — Thomas esbravejou, os nós dos dedos brancos. — O caso das Indústrias Weber vai muito além de picuinhas domésticas ou futilidades como uma traição conjugal, Jennifer! Há um tabuleiro político em jogo!
— Thomas, nada neste mundo justifica a sua obsessão doentia por esse arquivo camponês — Jennifer sibilou, as lágrimas de raiva finalmente surgindo nos cantos dos olhos. — A menos que a sua grande motivação de justiça tenha olhos azuis e cabelos loiros!
— Chega! — Thomas desferiu um soco violento contra o portal de madeira da porta, fazendo o teto vibrar.
Sem proferir mais nenhuma palavra sob o escrutínio paranoico da esposa, ele marchou até o armário, vestiu as calças de linho, a túnica cinza e calçou as botas com movimentos brutos. Pegou seu chapéu sobre a cômoda, lançou um último olhar carregado de mágoa e fúria para Jennifer e saiu do apartamento, batendo a porta da frente com tanta força que o som ecoou por todo o corredor do edifício. A trégua familiar estava oficialmente morta.
Fazenda das Indústrias Weber, arredores de Viena — Naquele mesmo instante.
O sol da manhã derramava uma luz pálida e dourada sobre a imensidão branca dos campos de algodão, mas aquela claridade era incapaz de aquecer o ar gélido ou aplacar a tensão que corria entre as fileiras. Um burburinho rasteiro, quase invisível para os capatazes, espalhava-se como pólvora entre os subalternos. Lena encurtou a distância até o quadrante de Martha, fingindo focar os dedos no recolhimento das fibras secas, mas suas feições carregavam um brilho que ela mal conseguia conter.
— Finalmente, Martha... — Lena sussurrou, a voz vibrando perto do ouvido da amiga enquanto ambas se curvavam sobre os arbustos. — Nós vamos sair deste inferno. Temos uma rota real.
Martha não parou os movimentos calejados, mas seus olhos maduros varreram o perímetro antes de responder em um fio de voz:
— O que o investigador disse na cerca, Lena? Baixe o tom.
— O senhor Müller foi categórico: assim que o som das sirenes da Gestapo de Berlim cortar o horizonte, o pátio vai virar um caos. Os capatazes vão para portaria principal por pura curiosidade. É nesse exato segundo que nós duas devemos largar os cestos e correr em direção aos fundos, cruzando o galpão de ferramentas.
— O desenho no papel parece impecável, minha pequena — Martha ponderou, a testa franzida enquanto limpava o suor frio do lábio. — Mas e se um dos vigias da torre secundária notar os nossos uniformes cruzando a linha do campo? Um único disparo de alerta e o plano inteiro vira um massacre.
— É aí que entra o Schulz — Lena rebateu de pronto, os olhos azuis fixos na terra para disfarçar a intensidade do diálogo. — O soldado Erich estará posicionado naquele flanco. Ele vai simular uma perseguição, correndo atrás de nós e gritando ordens de captura para despistar qualquer outra patrulha que tente intervir. É uma estratégia que raspa no suicídio para ele, eu sei, mas é a nossa única brecha. Precisamos confiar nele.
Martha soltou o ar de forma pesada, o peito arfando sob o trapo cinzento.
— E quanto aos outros dezenas de inocentes trancados nos alojamentos? — a mulher mais velha indagou, lançando um olhar doloroso para as fileiras de homens e mulheres subnutridos ao longe. — Eles serão deixados para trás no fogo cruzado?
Lena estancou os dedos na planta por um milissegundo, sentindo o peso daquela escolha.
— Eu não consegui captar o plano inteiro, Martha... — confessou, a voz caindo para um tom melancólico. — Mas o senhor Müller me deu uma promessa de sangue. Quero acreditar que os camburões da resistência vão conseguir salvar o máximo de vidas possível.
A conversa foi abruptamente interrompida quando a sombra de um guarda do Partido projetou-se sobre a fileira de algodão. Lena voltou a afundar as mãos na colheita sob o escrutínio pesado dos olhos do soldado, que as observava do topo do barranco com o chicote batendo ritmicamente contra a bota de couro. O tempo estava correndo.
Mansão da Família Weber — Naquele mesmo instante.
No interior do casarão, o ambiente cheirava a cera de carnaúba polida e café fresco. Heinrike Weber permanecia de pé ao lado da janela da sala de música, observando o carrossel de agulha da vitrola alemã girar um disco de ópera em volume baixo, tentando abafar o eco de seus próprios pensamentos paranoicos. A chave de latão que ela entregara a Thomas Müller na madrugada parecia ter deixado um rastro de eletricidade em seus dedos.
O som abrupto de botas pesadas contra o tapete persa a fez sobressaltar-se. Andreas adentrou o recinto.
Para a surpresa de Heinrike, o marido já não ostentava o desalinho alcoólico do dia anterior. Vestia um terno de corte sob medida cinza-chumbo, a gravata perfeitamente alinhada e o cabelo impecavelmente penteado para trás. Ele parou a dois passos dela, correu os olhos frios por sua silhueta e, com uma modulação de voz mansa, quase terna, declarou:
— Você está excepcionalmente bonita hoje, Heinrike.
Heinrike estancou, os dedos travando no xale sobre os ombros. Ela estudou as feições do marido, caçando a armadilha por trás daquele elogio repentino; fazia meses, talvez anos, que Andreas não a olhava com qualquer resquício de atenção que não fosse acompanhado de uma cobrança ou de um insulto. A bochecha dela, levemente disfarçada pela maquiagem, ainda latejava pelo tapa da noite anterior.
— Andreas... — ela começou, a voz saindo cautelosa, fria. — Faz muito tempo que você não nota a minha presença ou o que visto nesta casa. O que mudou?
Andreas deu um passo à frente, diminuindo a distância, e tocou de leve a lateral do queixo dela com os dedos grossos. O gesto, que deveria ser um carinho, pareceu a Heinrike a pesagem de um carrasco.
— Hoje à noite, quero que jante comigo nos aposentos superiores — ele ordenou, o tom de voz sereno camuflando uma possessividade absoluta. — Adiei para amanhã as reuniões com von Becker e o consórcio siderúrgico. Fique comigo. Eu preciso da sua representação ao meu lado quando os ventos da capital mudarem.
Sem esperar por uma resposta ou um consentimento, ele retirou a mão, girou nos calcanhares e marchou em direção ao escritório administrativo da mansão, deixando o som de seus passos morrer no corredor de mármore.
Heinrike permaneceu estática ao lado da vitrola, ouvindo o chiado da agulha no final da faixa musical. Ela abraçou os próprios braços, sentindo um calafrio morder sua espinha. O plano que Thomas Müller desenhara na escuridão estava ganhando forma, e naquela altura do jogo, a distância psicológica entre ela e Andreas era um abismo intransponível. Ela já não era mais a esposa submissa; era a testemunha que abriria os portões para a sua destruição.
Gabinete do Ministério do Interior, Berlim — Naquele mesmo instante.
O gabinete do Ministro Günther von Bismarck operava sob uma calmaria tensa, quebrada apenas pelo estalido rítmico da máquina de escrever Olympia do escrivão. O ministro caminhava de um lado para o outro sobre o tapete de veludo, com as mãos atadas nas costas e o olhar fixo nos bustos de bronze que adornavam a parede. Ele finalmente encontrara a brecha jurídica perfeita para contornar o consórcio privado de Andreas Weber, nacionalizar a propriedade e transferir a custódia de Lena Goldstein diretamente para o seu controle pessoal.
— Redija exatamente nos seguintes termos — Günther ditou, a voz pausada e cortante. — "Sob os auspícios do Decreto de Reestruturação Populacional e da Lei de Salvaguarda Biológica do Estado de 1952, fica estabelecido que descendentes diretos de indivíduos condenados por Alta Traição (Hochverrat) perdem, em caráter irrevogável, qualquer direito à transação comercial privada. Sua força de trabalho é considerada patrimônio compulsório e perpétuo do Estado, devendo ser alocada exclusivamente sob a tutela de oficiais do alto escalão da administração pública, conforme o Amparo Legal do Artigo 4º do Código de Defesa do Sangue."
O secretário particular, que revisava as laudas com uma caneta-tinteiro, ergueu os olhos, empalidecendo sutilmente.
— Herr Ministro... — o funcionário ponderou, baixando o tom de voz. — Um decreto de confisco dessa magnitude, alterando a posse de subalternos vinculados a consórcios industriais privados, exige a assinatura e o selo direto da Chancelaria do Führer. Se a assessoria jurídica da Suprema Corte contestar...
— O Führer não vai erguer um único dedo para proteger um industrial de província em detrimento do Ministério do Interior, caso a justificativa seja a segurança ideológica — Günther o cortou com uma segurança gélida, ajeitando os óculos de aro de tartaruga. — Andreas Weber acumulou riqueza, mas não tem farda. Garanta que este texto seja encaminhado à Imprensa Nacional e publicado no Diário Oficial de amanhã cedo. Quero os mandados de transferência emitidos antes do meio-dia.
— Sim, Herr Ministro — o secretário bateu os calcanhares, recolheu as laudas e retirou-se apressadamente, deixando Günther sozinho com sua ambição.
Chancelaria do Führer, Comando Central de Berlim — Naquele mesmo instante.
No coração administrativo do Reich, a atmosfera não era de burocracia, mas de crise iminente. O dossiê meticulosamente montado por Thomas Müller e Franz não havia passado pelos canais comuns do distrito; fora entregue diretamente nas mãos do Secretário-Geral do Partido, o homem que controlava o acesso à mesa do próprio Führer.
O secretário cruzou os corredores de mármore polido a passos largos, escoltado por dois oficiais da SS de guarda. Ele empurrou as pesadas portas de bronze da Sala de Crise, onde um comitê de generais e chefes de departamento da polícia política discutiam os mapas de abastecimento.
Ao entrar, o funcionário não hesitou. Bateu os calcanhares e elevou a voz, cortando o murmúrio dos oficiais:
— Senhores, peço a atenção imediata de todos. Assunto de segurança nacional.
Um dos generais de divisão da SS, de feições duras e cabelos grisalhos, largou os relatórios e o encarou com desdém.
— Fale, secretário. O que é tão urgente que justifica interromper o comitê?
— Acabamos de interceptar um dossiê de alta materialidade criminal vindo da promotoria de Viena, contornado pelos canais da subdelegação — o homem anunciou, depositando a pasta parda com os papéis e as fotos sobre a mesa de mapas. — O documento aponta que o Ministro do Interior, Günther von Bismarck, gerencia uma rede clandestina de desvio de mão de obra e falsificação de balancetes estatais em parceria direta com o empresário têxtil Andreas Weber.
Os homens ao redor da mesa inclinaram-se quase em uníssono, o choque quebrando a postura militar deles.
— Como disse? — o general estreitou os olhos. — O Ministro do Interior? Existem provas documentais ou são apenas alegações de dissidentes?
— Há recibos bancários de contas numeradas em Zurique, ordens de transferência assinadas com o timbre do Ministério sem o conhecimento desta Chancelaria e contratos aditivos ocultos que lesaram os cofres públicos em milhões de marcos — o secretário detalhou, apontando para as cópias dos livros contábeis que Heinrike roubara. — Além disso, o dossiê inclui o registro de uma subalterna de Wittenberg, filha de um oficial executado, mantida ilegalmente fora dos registros oficiais do censo de Berlim.
O silêncio que se seguiu foi cirúrgico. No xadrez do Reich, a corrupção financeira era tolerada até o momento em que se tornava uma arma política. Aquelas provas eram o pretexto perfeito que a ala mais radical da SS precisava para esmagar o poder civil do Ministério do Interior.
O general da SS ergueu-se, as feições blindadas por uma resolução implacável.
— Reúna toda a inteligência disponível e acione o gabinete de crise do Palácio da Justiça. Não podemos permitir que o Ministério limpe as gavetas. Quero o destacamento móvel da Gestapo de Berlim nas ruas nas primeiras horas da manhã. O objetivo principal é a prisão preventiva de Günther por suspeita de Alta Traição e Fraude Econômica contra o Estado.
Ele inclinou-se sobre o mapa, fixando o dedo indicador exatamente no ponto que marcava os arredores de Viena.
— Quanto às Indústrias Weber, enviem uma coluna de blindados da Gestapo local para cercar o perímetro. Confisquem todas as propriedades, isolem o empresário e tragam toda a força de trabalho clandestina para os distritos de triagem. Vamos descobrir o que mais esses dois bastardos andaram escondendo de Berlim.
— Sim, Herr General Braun! — o secretário bateu os calcanhares, recolhendo as ordens.
A engrenagem do Estado totalitário havia acordado, e o trator de Berlim estava prestes a avançar sobre Viena.
Mansão da Família Weber, arredores de Viena — Noite.
O ar no salão de jantar principal parecia congelado. Ao cruzar o umbral da porta, Heinrike deparou-se com uma atmosfera fúnebre disfarçada de banquete. Sobre a imensa mesa de mogno polido, velas de cera de abelha queimavam silenciosamente, projetando sombras alongadas pelas paredes cobertas de tapeçaria. Pratos de porcelana detalhados com brasões antigos e travessas de prata fumegantes com assados e iguarias contrastavam tragicamente com a rigidez de Ginevra, que permanecia de pé na outra extremidade da sala, com os olhos fixos no chão e as mãos atadas à frente do avental, como uma estátua de sal.
Heinrike franziu a testa, o estômago contraindo-se instantaneamente. Foi então que o som ritmado de passos firmes anunciou a entrada de Andreas, trajando um smoking impecável, a postura ereta e a expressão blindada. Ele caminhou até a cabeceira, puxou a cadeira de espaldar alto destinada à esposa e fixou suas pupilas escuras nela.
— Sente-se, Heinrike — a voz dele saiu mansa, uma calmaria que ecoou pelo teto abobadado.
Heinrike hesitou por uma fração de segundo, sentindo o canivete de Thomas Müller pesar contra o tecido oculto de suas vestes. Ela forçou os passos, caminhou até a mesa, ajeitou o caimento do vestido de seda com os dedos trêmulos e acomodou-se. Andreas contornou a mesa, sentou-se na cadeira diretamente à frente dela e, sem desviar o olhar, esboçou um sorriso sutil, desprovido de qualquer calor.
— Coma — ele comandou, servindo-se de uma porção de carne com movimentos cirúrgicos.
A ansiedade de Heinrike escalou até o limite da náusea. Suas mãos travaram sobre o colo, incapaz de segurar os talheres enquanto encarava a futilidade daquela encenação burguesa.
— Eu ordenei que comesse, Heinrike — Andreas repetiu, baixando o tom de voz até quase um sussurro, mas injetando uma rispidez que cortou o ar como um chicote.
Forçando os músculos a obedecerem, ela estendeu as mãos, pegou o garfo e a faca de prata e cortou um pedaço do frango assado. Seus movimentos eram lentos, mecânicos, enquanto montava o prato sob o escrutínio implacável do marido. Andreas mastigava devagar, saboreando a comida e observando cada respiração interrompida da esposa, que evitava o contato visual a todo custo.
— E então... como foi o seu passeio hoje? Como passou o dia? — ele indagou, quebrando o tilintar dos talheres.
— Bem — ela respondeu de pronto, o tom saindo seco, ríspido, mantendo os olhos fixos na porcelana.
— Você tem notado que, nos últimos dias, a movimentação de veículos do Ministério e o contingente de soldados por aqui têm ficado substancialmente mais intensos, Heinrike? — Andreas continuou, inclinando-se ligeiramente para a frente.
— Sim — ela limitou-se a proferir, sentindo o suor frio brotar na nuca.
— Eu posso confiar na sua discrição se as coisas se complicarem na província? — a pergunta disparou como uma armadilha burocrática.
— Sim — ela respondeu outra vez. Mas a pressão psicológica que acumulara desde a madrugada na cerca foi grande demais; uma única lágrima pesada escapou de seus olhos castanhos, correndo pela bochecha que Andreas ferira.
Andreas largou os talheres sobre a mesa com um estalo seco.
— Você se tornou incapaz de formular uma resposta sem recorrer a uma única palavra monossilábica?
— Não, meu marido — ela emendou rapidamente, erguendo os dedos enluvados para limpar o rastro da lágrima antes que ele interpretasse como fraqueza. — Eu compreendo a situação.
O empresário voltou a mastigar, o sorriso cínico retornando aos lábios enquanto ele se recostava na cadeira de couro.
— Ótimo. Eu de fato conto com a sua lealdade sob este teto, Heinrike — ele comentou, o tom assumindo uma leveza quase teatral. — Eu me recusaria a acreditar que a minha própria esposa, a mulher que compartilha os meus segredos e a minha cama, seria capaz de conspirar ou se aliar aos meus detratores contra os meus negócios.
Heinrike manteve a boca fechada, engolindo o choro que subia por sua garganta enquanto fingia continuar o jantar. O terror de ser descoberta fazia seu coração martelar de forma violenta contra as costelas.
— Quase me esqueci. Eu trouxe algo para você — Andreas anunciou. Ele ergueu a mão direita e fez um sinal breve e autoritário na direção da governanta: — Ginevra, traga o volume.
A governanta retirou-se de imediato pelas portas duplas da cozinha e retornou segundos depois, carregando uma sacola de grife, com fitas de cetim pretas. Ela estendeu o presente a Heinrike, que o recebeu com movimentos vacilantes. Ao abrir o papel de seda, deparou-se com um vestido de alta-costura, confeccionado em um veludo vermelho intenso, pesado e opulento.
Heinrike segurou a peça, levantou-se da cadeira por um instante para desdobrar o tecido contra o corpo e avaliar o caimento. Um sorriso pálido forçou-se em seus lábios.
— Você... ainda se lembra perfeitamente do meu manequim, Andreas — ela murmurou, surpresa com o detalhe técnico.
— Este é o traje exato que eu exijo que você vista amanhã, durante a conferência extraordinária do consórcio siderúrgico — Andreas sentenciou, os olhos cinzentos fixando-se no vermelho do veludo. — Quero que você permaneça ao meu lado, em absoluto silêncio, cumprindo apenas o papel de observar os movimentos de von Becker e dos auditores do Ministério. Ficou claro?
Heinrike recolheu o vestido com cuidado, dobrando-o novamente sobre os braços antes de estendê-lo para a governanta.
— Leve-o imediatamente até os meus aposentos, Ginevra — ordenou, recuperando uma fração de sua dignidade aristocrática.
Andreas limitou-se a pegar sua taça de cristal, bebericando o vinho tinto com total indiferença, enquanto Heinrike voltava a sentar-se, movendo o garfo devagar e vigiando cada respiração, cada tique e cada movimento das mãos do marido. O pulso dela estava disparado, a contagem regressiva ecoava em sua mente. Ela olhou para as velas que derretiam sobre a mesa e soube, com a frieza dos condenados, que o trator de Berlim estava a caminho e que a dinastia dos Weber não veria o final do dia seguinte.
Gabinete do Ministério do Interior, Berlim — Manhã seguinte.
O dia mal havia amanhecido quando o silêncio burocrático dos corredores do Ministério foi estilhaçado pelo estrondo de botas táticas contra o mármore. Uma coluna de oficiais da Gestapo de Berlim, vestindo seus longos casacos de couro preto e portando submetralhadoras, invadiu o complexo administrativo. Sem trocar palavras, os agentes renderam secretários, assessores de gabinete e arquivistas, empurrando-os contra as paredes revestidas de carvalho. Documentos foram confiscados em pilhas e telefones foram arrancados dos ganchos antes mesmo que os funcionários pudessem processar o golpe estatal.
O comandante da operação, um major da SS de olhos gélidos, marchou até o centro do salão principal e encarou o secretário particular de Günther, que tremia sob a mira de um fuzil.
— Onde está o Ministro Günther von Bismarck? — o major exigiu, a voz cortante como uma lâmina.
— Ele... ele não está em Berlim, Herr Major — o funcionário gaguejou, erguendo as mãos nuas. — Partiu nas primeiras horas da madrugada. Está a caminho de Viena para a conferência do consórcio industrial.
Autoestrada Imperial, arredores de Nuremberg — Naquele mesmo instante.
A caravana oficial do Ministério do Interior cortava o asfalto cinzento em alta velocidade. No banco traseiro de sua limusine blindada, Günther von Bismarck observava os campos cobertos de neve através do vidro fumê, sustentando um sorriso vitorioso nos lábios. Ele revisava mentalmente os termos do decreto de custódia compulsória que publicara no Diário Oficial naquela mesma manhã. Estava pronto para entrar no Kaiser Club em Viena e arrancar Lena Goldstein das mãos de Andreas Weber com o respaldo da Suprema Corte.
Sua linha de raciocínio, contudo, foi bruscamente interrompida.
O som agudo e estridente de sirenes militares ecoou pela retaguarda. Pelo vidro traseiro, Günther viu três jipes pesados da SS ultrapassarem a escolta e fecharem a pista, forçando o motorista da limusine a fincar o pé no freio. Os pneus cantaram no asfalto úmido e o comboio estancou em um solavanco.
— O que significa essa insolência? — Günther esbravejou, batendo a mão no estofado. — Quem ordenou o bloqueio da minha diretriz?
A porta traseira da limusine foi aberta com violência pelo lado de fora. Um oficial do destacamento central da SS, com o semblante blindado pela autoridade de Berlim, estendeu a mão enluvada.
— Herr Ministro, peço que por gentileza desembarque do veículo imediatamente — o oficial ordenou, o tom desprovido de qualquer deferência política.
Günther sentiu o estômago revirar pela primeira vez. Ele saiu do carro, ajeitando a lapela do sobretudo com arrogância, mas no milissegundo em que pisou no asfalto, o oficial o girou pelos ombros com brutalidade e prendeu seus pulsos em algemas de aço reforçado. Os guardas de sua escolta pessoal recuaram, batendo os calcanhares diante do mandado superior.
— Você perdeu o juízo, soldado? — Günther sibilou, os olhos faiscando. — Eu sou o Ministro do Interior do Reich!
— Não é mais, Bismarck — o oficial rebateu, puxando-o pela corrente das algemas. — O senhor está preso preventivamente por ordem direta da Chancelaria do Führer, sob as acusações de Alta Traição, fraude econômica e desvio ilegal de recursos e mão de obra do Estado.
Günther von Bismarck não reagiu. Suas pupilas arregalaram-se diante do emblema da Chancelaria estampado no mandado de captura. O sorriso desapareceu de sua boca, substituído pela palidez cadavérica de quem compreendia, com precisão matemática, que seu império político havia desmoronado.
A notícia da queda do Ministro do Interior espalhou-se pelos alto-falantes de Berlim, cruzou as fronteiras e abalou as estruturas burocráticas de todo o Reich nas horas seguintes. O sistema estava em choque.
Centro de Viena.
No rádio valvulado da cozinha dos Müller, a voz do locutor oficial do Estado gaguejava ao ler o boletim extraordinário sobre a prisão de Berlim. Thomas permanecia sentado na poltrona da sala, levando a xícara aos lábios. Ao ouvir o anúncio definitivo, ele permitiu que um sorriso de canto moldasse suas feições. O primeiro pino do tabuleiro havia caído.
Na cozinha, Jennifer estancou diante da pia. Ela soltou o pano de prato devagar, o peito arfando enquanto encarava a parede que a separava do marido. Ela não precisava de confissões; sua mente perspicaz ligou os pontos imediatamente. A foto da jovem Goldstein na caixa de curativos, o canivete desaparecido e a queda repentina do homem mais poderoso do Ministério. Aquilo era obra de Thomas. E a poeira que ela tanto temia estava prestes a se transformar em uma tempestade de fogo.
Mansão da Família Weber, arredores de Viena.
O desespero no casarão era real e palpável. Andreas Weber cruzara os portões administrativos após receber o telefonema paranoico de um de seus contatos em Nuremberg. Ele subiu as escadas de mármore da mansão a passos desesperados, arrombando a porta de seu próprio gabinete. Com as mãos trêmulas e o suor frio ensopando o colarinho do smoking, ele abriu a última gaveta da escrivaninha de jacarandá e tateou o fundo falso com violência.
O compartimento estava vazio. A chave de latão que garantia o acesso aos seus registros mais profundos havia sumido.
— Heinrike... — ele pronunciou o nome com um rosnado animal, os dentes trêmulos de ódio.
A esposa permanecia na sala de música no andar inferior, vestindo o opulento veludo vermelho que ele lhe dera no jantar. Ela observava o carrossel da vitrola girar, a música clássica preenchendo o vazio da casa. Andreas invadiu o recinto como uma força da natureza, os olhos injetados de fúria. Sem dar explicações, avançou e a agarrou pelo colarinho do vestido, cravando os dedos no tecido caro e sacudindo o corpo dela.
— Você me sabotou, sua cobra nojenta! — ele esbravejou, o hálito de conhaque batendo contra o rosto dela. — Onde está a chave? O que você fez com os meus arquivos?
Heinrike não gritou e não implorou. Ela sustentou o olhar furioso do marido com uma coragem fria e purgada, o queixo erguido apesar da dor no pescoço.
Antes que Andreas pudesse desferir o próximo golpe, o eco estridente, mecânico e massivo de dezenas de sirenes da Gestapo cortou o ar da província, quebrando as vidraças da mansão com a vibração dos motores dos comboios de Berlim que cercavam a propriedade.
A metros dali, na lavoura de algodão, os trabalhadores escravos estancaram as enxadas. Lena Goldstein ergueu o rosto para o horizonte, o som das sirenes batendo contra os seus ouvidos como o badalar de um sino de libertação. A queda havia começado.
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