A Reacionária
10 O SABOR DO ALVO: PARTE 2
Mansão da Família Weber — Manhã.
O ronco grave e ensurdecedor dos motores dos blindados da Gestapo fazia os vidros da sala de música vibrarem nos caixilhos. Pela janela do primeiro andar, o pátio de cascalho fora completamente invadido pela poeira cinzenta e pelas luzes giratórias das patrulhas da capital.
Andreas Weber permanecia colado à vidraça. As mãos espalmadas contra o vidro deixavam marcas de suor frio; o rosto, outrora blindado pela arrogância aristocrática, contorcia-se em uma rigidez paranoica enquanto assistia às tropas de Berlim cercarem os acessos ao seu império. Ele respirava de forma ríspida, a mente calculando desgraças.
Aproveitando o transe de choque do marido, Heinrike deu um passo para trás. O tecido pesado do vestido vermelho de veludo roçou contra a madeira do piso, e ela girou o corpo com desespero, tentando alcançar a porta de saída antes que a mansão fosse tomada.
O ranger discreto de suas botas no taco, contudo, traiu sua intenção.
Sem tirar totalmente os olhos do pátio, Andreas projetou o braço com a rapidez de um predador e agarrou o pulso esquerdo de Heinrike. As unhas dele morderam a pele de sua pele enluvada, torcendo-a e puxando-a de volta para o centro da sala com uma força bruta que quase a fez perder o equilíbrio.
— Aonde você pensa que vai, sua cobra? — ele rosnou entre os dentes travados, o hálito exalando o conhaque da noite anterior. — Você não vai dar um passo para fora deste andar até me entregar a chave daquela escrivaninha!
— Eu não sei de chave nenhuma, Andreas! Solta o meu braço! — Heinrike implorou, a voz falhando em um ganido de pavor enquanto tentava se desvincular do aperto. — Eles estão invadindo a casa! Me solta!
— Mentirosa! Você me vendeu para aqueles bastardos de Viena! — Andreas esbravejou, ensandecido, usando o próprio peso para puxá-la para mais perto, tencionando prensá-la contra a parede.
O solavanco violento do corpo dele sobre o dela foi o estopim.
No puro reflexo de sobrevivência e tomado por um pânico primal, a mão direita de Heinrike — enfiada na dobra oculta do vestido — desdobrou o canivete tático militar com um estalo seco e metálico. Ela não pensou, não mirou e não hesitou. Usando a própria força do impulso com que Andreas a arrastava para si, Heinrike projetou a lâmina de aço escurecido para a frente.
O metal de oito centímetros rasgou o veludo caro do terno de Andreas e penetrou fundo no lado esquerdo de seu abdômen, afundando entre as costelas até o cabo.
O silêncio na sala de música tornou-se absoluto. O tempo pareceu desacelerar.
Andreas estancou o movimento de impacto. Suas pálpebras franziram-se não por dor de imediato, mas por uma profunda, aterradora e absoluta perplexidade. Ele olhou para baixo, acompanhando o cabo de aço cravado contra o próprio corpo, vendo a mancha escura de sangue espalhar-se rapidamente sobre o veludo cinza do colete.
Ele ergueu os olhos e encarou Heinrike. Aquele homem, que comandara regimentos de trabalho e silenciara generais, olhava para a própria esposa como se estivesse diante de uma estranha, um monstro imperdoável que jamais imaginara ver habitar a sobriedade daquele vestido vermelho. A surpresa e o ultraje desarmaram sua força; seus dedos afrouxaram do pulso dela, caindo inertes.
Heinrike recuou dois passos cambaleantes. O pânico de suas ações atingiu-a como uma marreta. Ela caiu de joelhos contra o tapete persa, as mãos cobrindo a boca enquanto seus olhos castanhos arregalavam-se no horror do que acabara de cometer. O peito dela arfava em espasmos de desespero, os lábios trêmulos e incapazes de formular um único pedido de socorro.
A estupefação de Andreas, contudo, durou poucos segundos. A dor dilacerante da perfuração visceral atingiu seu sistema nervoso, transformando a surpresa em uma fúria cega, assassina.
Com um grunhido de dor e o rosto avermelhado pelo sangue que subia à cabeça, ele envolveu o cabo do canivete com os dedos e arrancou a lâmina da barriga com um movimento bruto, fazendo um jato de sangue espirrar contra o piso polido.
— Sua... vagabunda desgraçada! — Andreas vociferou, o tom de voz rasgado pela raiva e pelo fel.
Apoiando a mão esquerda sobre o ferimento aberto que vertia sangue, ele deu um passo vacilante na direção de Heinrike, erguendo o canivete ensanguentado com a mão direita. O olhar em seus olhos já não era o de um marido; era o de um carrasco prestes a devolver o golpe.
Fazenda das Indústrias Weber, perímetro principal — Naquele mesmo instante.
O ar gélido da província foi cortado pelo urro ensurdecedor de motores a diesel de alta cilindrada. Antes que a guarda de prontidão pudesse reagir, uma coluna de blindados Hanomag e sedãs pretos da Gestapo de Berlim rasgou a névoa, derrapando sobre o cascalho do portão de acesso. O som de dezenas de botas táticas atingindo o solo em perfeita sincronia ecoou como uma saraivada de tiros.
O Capitão Fischer marchou a passos largos para fora do posto de comando, abotoando a túnica de marcha enquanto o alarme do perímetro começava a tocar. Ele subiu os degraus da guarita de controle com a mão repousada sobre o coldre da pistola.
— Qual é o quadro tático, soldado? — Fischer exigiu, a voz grave cortando a correria dos sentinelas.
— Estamos cercados em um raio de 360 graus, Herr Capitão! — o sentinela respondeu, com o rosto pálido e os dedos trêmulos no fuzil. — Há tropas de choque de Berlim desdobradas na estrada e três metralhadoras pesadas apontadas diretamente para as nossas torres!
Do outro lado das grades de ferro, a voz amplificada por um megafone militar cortou a névoa com a autoridade de um tribunal de guerra:
— Atenção, destacamento local! Esta é uma operação de confisco e segurança de Estado executada sob a jurisdição direta da Chancelaria do Führer! Abram os portões imediatamente ou a barreira será transposta por força de blindados!
Fischer fechou os olhos por um segundo, calculando a matemática da sobrevivência. Lutar contra o próprio exército ou contra a SS em uma disputa de jurisdições era a sentença de morte perante a Corte Marcial. Ele abriu as pálpebras, mantendo o olhar frio.
— Desativem as travas hidráulicas. Abram o portão principal de uma vez.
As pesadas correntes de aço rangeram e as portas de ferro cederam. No milissegundo seguinte, o pátio foi invadido por uma onda cinzenta e preta. Agentes táticos da Gestapo, usando balaclavas e empunhando submetralhadoras MP-40, desdobraram-se em leque, assumindo os pontos estratégicos e apontando o armamento para os guardas da fazenda.
— Todos os elementos do perímetro: armas no chão e mãos sobre a nuca! Agora! — ordenou o oficial que liderava a vanguarda.
Os soldados da fazenda, encurralados pela superioridade tática de Berlim, renderam-se sem hesitação, largando os fuzis no cascalho.
Fischer permaneceu estático no centro do pátio, recusando-se a baixar a cabeça. O comandante da tropa da capital caminhou em sua direção com passos calculados. Ao parar a um metro do capitão, o homem puxou a balaclava preta para baixo, revelando cabelos loiros rigorosamente cortados, olhos azuis de um tom gélido, um bigode fino e um sorriso raso e impecavelmente arrogante.
Ele examinou o peito e as insígnias de Fischer com um desdém institucional.
— Infantaria do Exército da província, Capitão? — o oficial da Gestapo indagou, o tom mansa e falsamente cordial.
— Exato, Major — Fischer respondeu seco, a espinha ereta, mantendo os braços caídos ao lado do corpo, recusando-se a levantar as mãos. — Eu respondo ao Comando Distrital do Exército. Com que autoridade vocês violam o perímetro de um consórcio privado sob custódia militar?
O Major da Gestapo deu um meio sorriso, ajeitando as luvas de couro preto.
— O seu Comando Distrital não apita mais nada nesta província, Capitão. Se o senhor e os seus homens cooperarem estritamente com a nossa diretiva, garanto que sairão deste chiqueiro com a ficha limpa. Sabemos que estão apenas cumprindo ordens contratuais de uma empresa privada, mas as ordens diretas que trago no bolso vêm da Chancelaria do Führer... e elas atropelam qualquer contrato.
O Major inclinou-se ligeiramente, encarando Fischer no fundo dos olhos:
— A nossa missão aqui é expropriar e conduzir toda a força de trabalho não registrada deste perímetro para os centros de triagem de Berlim. Sugiro que a sua infantaria não faça o menor gesto que possamos interpretar como insubordinação. Fui claro?
Fischer sustentou o olhar com um desprezo profundo pela polícia política, mas assentiu com uma inclinação ríspida de queixo. O Major virou as costas e acenou para que seu grupo tático avançasse em direção aos galpões e lavouras.
— Você não vem capitão? — Indagou o Major.
— Sim senhor. — Disse Fischer, acompanhando-o.
Ala Oeste da Lavoura — Naquele mesmo instante.
A confusão no pátio principal gerara um efeito dominó de pânico. Dezenas de trabalhadores subalternos estavam aglomerados em um canto da plantação, cercados por capatazes confusos e pela guarda local. No fundo do grupo, ocultas pela poeira e pela folhagem alta do algodão, Lena e Martha mantinham-se abaixadas.
Erich Schulz estava posicionado a poucos metros delas, fingindo vigiar a ala com a carabina em riste, mas seus olhos piscavam freneticamente para a fresta de arame na retaguarda.
— As sirenes estão ecoando no portão principal, Lena! — Martha sussurrou, a voz trêmula de pavor. — É agora ou nunca! Não deveríamos correr?
Lena olhou desesperadamente para Erich. O jovem soldado devolveu o olhar por uma fração de segundo e, com um movimento quase imperceptível de queixo, deu o sinal.
— Agora, Martha! — Lena sibilou.
As duas mulheres giraram o corpo e romperam em disparada em direção ao ponto cego dos celeiros, os pés afundando na terra úmida.
— Ei! Paradas aí! Aonde pensam que vão, suas cadelas? — Erich berrou com toda a força de seus pulmões, simulando uma reação furiosa. Ele engrenou a culatra do fuzil e partiu no encalço delas, gritando: — Vou interceptar as fugitivas!
Contudo, a manobra não passou despercebida por olhos treinados.
A poucos metros dali, o Tenente Klein acompanhava a movimentação. Ele já vinha monitorando o comportamento de Erich desde a sua soltura da cela de isolamento; a hesitação do garoto e a forma como ele sempre orbitava o quadrante de Lena acenderam todos os seus alarmes.
Outros dois camponeses, vendo a tentativa de fuga, tentaram correr na mesma direção, mas Klein sacou sua Luger de serviço e desferiu um disparo para o alto. O estrondo seco travou a multidão instantaneamente.
— Quem der mais um passo fora desta linha vira alvo de abate sumário! — Klein rugiu, o olhar de predador cravado na silhueta de Erich, que corria atrás de Lena.
Klein semicerrou os olhos, a certeza da traição confirmando-se em sua mente. Ele sabia que Erich não estava tentando capturar aquela garota — estava servindo de batedor para que ela cruzasse a cerca.
Sem tirar os olhos da linha de árvores, Klein virou a cabeça e chamou o soldado Meyer, cujo rosto ainda exibia o hematoma da briga com Erich:
— Meyer! O Schulz está facilitando a rota daquela subalterna. Vá atrás dele agora. Se ele hesitar em disparar para matar... execute os três no ato por alta traição.
Meyer abriu um sorriso grotesco e cruel, destravando a submetralhadora com um estalo seco.
— Com o maior prazer, Tenente.
Meyer disparou em corrida pela plantação, caçando o rastro de Erich e Lena na penumbra da lavoura.
Mansão da Família Weber, piso inferior — Naquele mesmo instante.
A porta de entrada de carvalho maciço foi abaixo sob o impacto da bota tática de um dos homens de Berlim. Os vidros do saguão de entrada tremeram quando uma fração do grupo de choque invadiu o casarão, o estalo de botas no mármore preenchendo o ar junto a ordens secas.
Ginevra, que tentava manter a postura no pé da escadaria, não esboçou a menor reação de defesa. Permaneceu estática, as mãos trementes erguidas na altura dos ombros. Um agente da Gestapo avançou com a submetralhadora em riste, girou-a brutalmente de costas e prendeu seus pulsos com algemas de aço reforçado.
— Onde está o Weber? — o oficial vociferou, empurrando a governanta contra o balaustre.
Ginevra engoliu em seco, os olhos erguidos para o teto, de onde abafados baques de corpos e o som de tecidos rasgando ecoavam do quarto de música. Ela não emitiu uma única palavra, apenas direcionou o queixo para a escadaria principal.
Piso superior, Sala de Música.
No andar de cima, o ambiente cheirava a ferro, veludo rasgado e morte.
Andreas sufocou um rosnado animal. A perfuração na barriga vertia um fluxo contínuo de sangue escuro que ensopava o colete do smoking. Suas pernas fraquejaram e a força bruta começou a escorrer de seu corpo. O canivete tático militar, ainda sujo de sangue, escapou de seus dedos dormentes e caiu ruidosamente sobre o tapete persa, a centímetros da mão de Heinrike — sem atingi-la.
Por um segundo, ela pensou que a agonia o paralisaria. Foi um erro.
Recuperando uma lufada de ar ríspida do fundo dos pulmões, alimentado por uma fúria alucinada, Andreas projetou a bota pesada contra o peito de Heinrike. O golpe a atingiu com a violência de uma maça, arremessando seu corpo de costas contra a madeira polida do piso. O ar fugiu de seus pulmões em um ganido mudo, a cabeça batendo dolorosamente contra o rodapé.
Antes que ela pudesse recobrar os sentidos, Andreas rastejou sobre ela com o próprio peso, cravando as mãos no veludo vermelho de seu vestido. Com um puxão gutural e descontrolado, ele rasgou o tecido do corpete do ombro até a cintura, expondo a pele e a lingerie sob os trapos de veludo. Heinrike pranteava em soluços mudos, as mãos erguidas em um pavor instintivo para cobrir o rosto.
— Você tentou me matar... — ele rosnou, o rosto a centímetros do dela, o hálito quente carregado do fel do próprio sangue que subia pela garganta.
Ele fechou o punho direito e desferiu um soco pesado contra a lateral do rosto dela, fazendo o lábio de Heinrike cortar instantaneamente contra os dentes.
— Depois de vinte anos! De tudo o que eu construí nesta província para te dar um nome e um status aristocrático... é assim que você me paga, sua cadela ingrata?
Ele a sacudiu pela gola do vestido rasgado, os olhos cinzentos injetados de raiva e desespero.
— Você acha mesmo que vai sair caminhando por aquela porta depois do que fez comigo? Que a Gestapo vai te dar uma medalha por me entregar?
Em um último espasmo de força vital, Andreas dobrou o braço grosso e o cravou como uma barra de ferro contra a traqueia de Heinrike, prensando a garganta dela contra o chão. Ele despejou o peso do próprio corpo ferido sobre o pescoço dela, bloqueando a passagem de ar de uma vez.
Heinrike debateu-se sob o peso dele. Seus olhos castanhos começaram a embaçar, a visão escurecendo nas bordas enquanto suas unhas cravavam-se em vão nos braços de Andreas. O ar não entrava. O teto da sala de música começou a girar.
No puro desespero da asfixia, a ponta de sua bota tateou o tapete às cegas. O salto enganchou no cabo de aço do canivete que caíra minutos atrás, arrastando o metal frio até a alcance de sua mão direita. Ela fechou os dedos trêmulos sobre o cabo ensanguentado.
Andreas percebeu o movimento no limiar de sua consciência.
— Morre de uma vez... sua vaca... — ele sibilou, apertando o antebraço com ainda mais desespero.
Heinrike não pensou. Não mirou. Em um reflexo cego e visceral de sobrevivência, ela ergueu a mão armada e cravou a lâmina tática diretamente na lateral do pescoço de Andreas, abaixo do maxilar.
O metal afundou até a guarda, cortando a artéria carótida.
Andreas travou instantaneamente. A pressão em seu braço afrouxou enquanto ele soltava um som gorgolejante, o sangue jorrando em um pulso quente e volumoso que lavou o peito de Heinrike e o veludo rasgado de seu vestido. Ele tentou puxar o ar, mas apenas o som de engasgo de seus próprios pulmões preencheu o espaço.
Os olhos do industrial arregalaram-se em um terror absoluto, encarando a esposa enquanto a vida escorria de suas pupilas. Ele tombou para o lado, o corpo sofrendo um último tremor involuntário contra a madeira antes de estancar de vez.
Heinrike empurrou o cadáver para longe com as pernas, rastejando de costas até a parede oposta. O peito dela subia e descia em arfadas desesperadas de ar fresco, o rosto, o colo e as mãos completamente banhados pelo sangue do marido. Ela encarou o corpo inerte de Andreas, os olhos castanhos paralíticos de choque, incapaz de assimilar o silêncio horrendo que agora reinava na sala, interrompido apenas pelo eco das sirenes que finalmente atingiam o alpendre da mansão.
Limite oeste das Indústrias Weber, linha de fuga — Naquele mesmo instante.
O vento gélido da manhã fustigava a vegetação baixa do perímetro. Lena e Martha avançavam com os pés afundando no solo úmido da lavoura, os pulmões queimando pela falta de ar e o pânico acelerando cada passo. O estalo de galhos secos na retaguarda fez Martha estancar de golpe.
— Ei! Esperem! — a voz abafada veio das sombras dos arbustos.
— É o Erich... — Lena murmurou, puxando o braço de Martha para que parasse.
Erich Schulz emergiu da névoa da plantação com a carabina cruzada no peito e o fôlego curto. Ao travar os olhos azuis no rosto de Lena, a rigidez militar de suas feições cedeu por uma fração de segundo, dando lugar a uma busca desesperada por qualquer sinal de ferimento.
— Vocês duas estão bem? Alguém no setor principal viu a rota de vocês? — ele indagou, a voz rasteira, os olhos varrendo o contorno do arame farpado à frente.
— Estamos inteiras... mas a Martha está no limite — Lena respondeu, apoiando a mulher mais velha, cujo peito arfava em espasmos de exaustão. — Precisamos de água antes de tentar a travessia.
Erich não hesitou. Desatrelou o cantil de alumínio do cinto tático e o entregou nas mãos trêmulas de Martha, que bebeu em tragos apressados.
— Schulz! Onde você se meteu, seu bastardo? — o brado violento de Meyer ecoou a menos de trinta metros, rasgando o silêncio da mata.
O sangue de Erich congelou. Ele segurou o ombro de Lena com firmeza e apontou para uma elevação de rochas e arbustos densos colada à cerca de proteção.
— Se escondam. Agora! — ele ordenou em um tom de comando absoluto.
As duas engatinharam para trás da rocha, encolhendo os corpos na poeira úmida. Lena espiou pela fresta da pedra, o coração martelando contra as costelas ao reconhecer o vulto que avançava com a submetralhadora em riste.
— Meyer... — Erich sibilou para Lena, inclinando o corpo para a frente. — Escute bem o que vou te dizer: você e a Martha vão seguir direto por aquele rasgo no arame. Não parem, não olhem para trás e não esperem por ordens. Entenderam?
— E você, Erich? — Lena segurou a luva dele, os olhos marejados de pavor.
— Eu vou logo atrás — ele mentiu com uma calmaria calculada, tocando o rosto dela com os nós dos dedos frios. — Eu vou neutralizar a rota do Meyer primeiro. Agora vão!
Sem dar margem para contestação, Erich deu dois passos para trás, saindo do ponto cego da rocha e marchando abertamente ao encontro do rival. Lena puxou Martha pelo braço e as duas iniciaram a travessia rasteira rumo ao limite externo.
Erich avançou entre as fileiras de algodão alto até interceptar a silhueta de Meyer. Ao ver o colega de farda surgir da névoa, Erich forçou uma postura de exaustão tática, apoiando as mãos nos joelhos e respirando fundo.
— Elas nos despistaram, Meyer! — Erich anunciou, a voz sob controle. — A cobertura do galpão de ferramentas me tirou o campo de visão. O rastro sumiu na linha do riacho.
Meyer estancou a caminhada. O curativo branco em seu maxilar destacava-se contra a pele pálida. Ele não olhou para a vegetação; manteve as pupilas cravadas diretamente no rosto de Erich. Um sorriso cínico e sádico curvou seus lábios.
— Fora de forma, Schulz? — Meyer desdenhou, o tom carregado de um deboche perigoso. — Como duas cadelas subnutridas e de trapos conseguiram correr mais rápido do que um soldado treinado da infantaria?
— O terreno dos fundos é um lamaçal, você sabe disso — Erich rebateu, mantendo a voz fria. — Me deram uma falsa pista de movimento no setor norte.
Meyer soltou um riso ríspido pelo nariz. Sem qualquer aviso, ergueu o cano da submetralhadora MP-40 e mirou diretamente contra o peito de Erich. O estalo metálico do cão sendo engrenado ressoou como um trovão entre as plantas.
Erich ergueu as mãos em um gesto lento de contenção, sem recuar um centímetro.
— Que brincadeira é essa, Meyer? Ficou louco?
— Não tem ninguém olhando agora, Schulz. Nem o Capitão, nem o Tenente, nem a Gestapo de Berlim — Meyer declarou, os olhos faiscando com um ódio acumulado. — Eu ainda estou engasgado com a conta que você me deixou no rosto naquele dia. E o Tenente Klein me deu carta branca: se você estivesse facilitando a rota daquela subalterna, era para te apagar aqui mesmo por alta traição.
Erich sustentou o olhar do agressor. Em um movimento rápido e fluido, ergueu o cano de sua própria carabina, alinhando a mira exatamente entre os olhos de Meyer.
— Não acho que este seja o momento ou o lugar para você cobrar suas mágoas pessoais, Meyer — Erich alertou, o tom caindo para uma gravidade militar implacável. — Se você puxar esse gatilho, o estalo vai trazer a patrulha da Gestapo para este quadrante em dois minutos. E eu garanto que você não sai vivo deste canteiro.
Meyer semicerrou os olhos, os dedos coçando no gatilho.
— Se você recusar o acerto de contas agora... eu te executo pelas costas, alcanço aquelas duas vadias na cerca e garanto que nenhuma das duas chegue viva à estrada — chantageou o soldado.
Erich engoliu a fúria. Ele sabia que precisava ganhar cada segundo precioso para que Lena e Martha ganhassem distância na floresta.
— Protegidas? Eu estou cumprindo a ordem de varredura — Erich mentiu com uma firmeza congelante. — Se você quer o seu acerto de contas, vai ter. Mas primeiro nós vamos capturar os alvos. Depois disso, você pode tentar a sorte comigo onde quiser.
Meyer encarou Erich por longos e tensos cinco segundos, medindo a firmeza da mira do rival e calculando os riscos de um fogo cruzado. Lentamente, ele baixou a ponta da submetralhadora, embora o sorriso cruel continuasse em seu rosto.
— Que assim seja, Schulz — Meyer cedeu, ajeitando a alça da arma no ombro. — Mas você vai na frente. E se eu notar qualquer desvio na sua caminhada... eu descarrego o pente nas suas costas.
— Vamos — Erich assentiu, girando o corpo e liderando a marcha em direção à cerca, usando cada passo calculado para atrasar o avanço do caçador.
Centro de Viena — Naquele mesmo instante.
No quarto do apartamento, o silêncio era interrompido apenas pelo som seco do velcro e dos fechos de fivela. Thomas Müller vestia-se com movimentos rápidos e precisos, ajustando uma túnica tática escura, destituída de qualquer brasão ou insígnia oficial do distrito. Jennifer surgiu no batente da porta, o rosto empalidecido enquanto os olhos acompanhavam cada detalhe da preparação do marido.
Quando Thomas puxou uma balaclava de tecido escuro e a desceu para o bolso interno do casaco, a respiração de Jennifer travou na garganta.
— Aonde você vai trajado desse jeito, Thomas? — ela indagou, a voz trêmula cortando o ar.
Thomas nem sequer ergueu os olhos; continuou afivelando o coldre velado na cintura e checando a câmara da pistola. Jennifer deu dois passos firmes, avançando até ele e segurando seu braço esquerdo com força.
— Que tipo de operação secreta é esta? Olhe para mim, Thomas!
— Não é da sua conta, Jennifer — ele respondeu, a voz saindo fria e ríspida enquanto desvencilhava o braço do aperto dela. — A partir do momento em que você tomou a decisão unilateral de mandar a nossa filha para o interior sem me consultar, eu não devo mais satisfações da minha rotina a você.
— Então é assim que você justifica o seu suicídio? — ela disparou, o tom subindo com o desespero. — Você perdeu a cabeça de vez!
Thomas virou-se de frente, sustentando o olhar da esposa com uma gravidade implacável.
— Eu devo ficar fora por alguns dias. Mas eu vou voltar.
— Thomas, por favor... não dê mais nenhum passo — ela suplicou, a voz falhando em um sussurro embargado. — Você nem sequer está usando o fardamento do distrito. Essa não é uma missão oficial. É uma missão paralela, não é? Você vai invadir aquela fazenda!
— Jennifer, eu estou saindo.
— Se você cruzar aquela porta vestindo essas roupas... eu juro por Deus, Thomas, eu pego as minhas coisas e vou embora deste apartamento! Não vou ficar aqui esperando a Gestapo bater na porta para me avisar que recolheram o seu corpo num canavial!
Thomas estancou a centímetros da saída. Ele soltou um bufar forte e carregado, girou sobre os calcanhares e avançou até ela. Sem dar margem para qualquer reação, segurou-a pela cintura com firmeza e selou seus lábios em um beijo profundo, desesperado e denso de significados não ditos.
Ao se afastar, segurou o rosto dela por um segundo e sussurrou contra seus lábios:
— Me espere.
Antes que Jennifer pudesse formular qualquer protesto, Thomas virou as costas e cruzou o limiar, batendo a porta da frente com um estalo seco que ecoou pela casa. Jennifer permaneceu estática no centro do quarto, a mão cobrindo a boca enquanto lágrimas frias de pavor escorriam por suas bochechas.
Do lado de fora, na penumbra do saguão do edifício, Franz Krüger aguardava encostado ao pilar de concreto, vestindo um sobretudo longo e checando o relógio de pulso. Ao ver o mentor descer os degraus, engrenou o passo ao lado dele.
— O contingente está a caminho do ponto de reunião? — Thomas indagou, sem diminuir o ritmo dos passos em direção à rua.
— Todos posicionados, Thomas — Franz respondeu baixo, o olhar fixo na saída. — O Joseph fez questão de assumir o comando da vanguarda pessoalmente. Ele conseguiu mobilizar vinte homens da antiga resistência, veteranos dos anos 40 que conhecem a malha tática da província. Temos trinta peças de armamento pesado, fuzis de precisão e munição de reserva.
— E a equipe de extração secundária? Já alcançou o perímetro do riacho?
— Prontos no setor oeste, senhor Müller — Franz afirmou com um brilho de determinação nos olhos enquanto abria a porta do sedã preto para o veterano. — Esta é a operação das nossas vidas. Não há margem para recuo.
Fazenda das Indústrias Weber, ala dos alojamentos — Naquele mesmo instante.
O caos no pátio atingira o ápice. Tropas de choque da Gestapo avançavam entre os galpões de madeira, empurrando os trabalhadores com coronhadas e canos de fuzil. O Capitão Fischer e seus homens da guarda local mantinham as mãos sobre a nuca, rendidos sob a mira dos blindados da capital, fazendo sinais discretos para que nenhum soldado da província tentasse reagir.
Entre os subalternos aglomerados, o terror era palpável. Homens e mulheres subnutridos choravam em silêncio, encolhendo-se sob os trapos. Todos sabiam que a promessa de "triagem" de Berlim era apenas um eufemismo burocrático para os vagões da morte e os campos de concentração.
O Major da Gestapo subiu no estrado de carregamento, ajustando o microfone do rádio do ombro, e sua voz amplificada ecoou sobre a multidão:
— Atenção, subalternos! Por ordem expressa da Chancelaria do Reich, esta propriedade foi confiscada pelo Estado. Vocês serão transferidos imediatamente para os centros de triagem e redistribuição de Berlim. Colaborem com a triagem. Qualquer tentativa de desobediência ou fuga será neutralizada com uso de força letal!
Agentes da gestapo começaram a puxar os civis um a um das fileiras, arrastando-os em direção aos caminhões com lona. Um homem de meia-idade, tomado por um pavor histérico, soltou-se do aperto de um dos guardas e caiu de joelhos na lama, gritando em desespero:
— Por favor! Pela misericórdia de Deus, não me levem de volta para os campos! Eu trabalhei todos os dias! Eu cumpri as cotas! Por favor!
O agente da Gestapo nem sequer se deu ao trabalho de discutir. Reteve o homem pelo colarinho, jogou-o de cara no cascalho úmido, sacou a Luger do coldre e desferiu um tiro à queima-roupa na nuca do camponês.
O estrondo do disparo fez a multidão soltar um grito abafado em uníssono. O sangue espirrou na terra, e o silêncio da morte abateu-se sobre o pátio. Ilsa, que estava colada à parede do galpão a poucos metros do corpo, encolheu-se em soluços incontroláveis, cobrindo o rosto com as mãos calejadas. Ela sabia que a chegada de Berlim não trazia libertação, apenas a execução final.
Mansão da Família Weber, piso superior.
A pesada porta de carvalho da sala de música cedeu sob o golpe de pé de um dos agentes da Gestapo. Três soldados invadiram o recinto com as submetralhadoras em riste, varrendo os cantos com o cano das armas.
Mas a cena que encontraram paralisou a patrulha na entrada.
Não havia um confronto ou uma tentativa de fuga. Heinrike Weber permanecia sentada na poltrona de veludo ao lado da vitrola. O carrossel do aparelho continuava girando em ritmo lento, preenchendo o ar com o som suave e melancólico de uma ária de ópera.
Ela estava perfeitamente estática. O opulento vestido de veludo vermelho estava rasgado no corpete, e a parte frontal de suas vestes, seu colo e seus braços estavam literalmente banhados por uma camada espessa de sangue já coagulado. A metros de seus pés, o cadáver de Andreas Weber jazia no chão, de olhos abertos para o teto, sobre uma poça escura que manchava o tapete persa, com a garganta aberta pela lâmina.
Heinrike não tremia. Seus olhos castanhos, fixos no horizonte da janela, não continham medo, choro ou arrependimento; apenas uma vacuidade fria, a anestesia absoluta de quem já havia atravessado o inferno e não tinha mais nada a perder.
Os oficiais da Gestapo se entreolharam, visivelmente desconcertados com o espetáculo macabro e a calma surreal da mulher. O líder da equipe engoliu em seco, puxou o rádio do peito e acionou a frequência do Major:
— Central, aqui é a equipe de varredura do piso superior... Encontramos o alvo Andreas Weber. Confirmado óbito no local. Repito: o empresário está morto.
Lentamente, o guarda aproximou-se da poltrona com a pistola em riste.
— Senhora Weber... levante-se devagar — o oficial ordenou, o tom vacilante pela estranheza da cena.
Heinrike nem sequer piscou. Não ofereceu resistência quando os agentes puxaram seus braços ensanguentados para trás e cravaram as algemas de aço em seus pulsos. Enquanto era escoltada para fora do quarto, a música da vitrola continuava tocando na sala vazia, sepultando de vez a dinastia dos Weber.
Fazenda das Indústrias Weber, portão principal — Naquele mesmo instante.
O ar estourava com o bater metálico das pranchas de madeira dos caminhões de lona sendo erguidas e trancadas. Agentes da Gestapo empurravam camponeses e soldados rendidos para os compartimentos de carga como gado a caminho do abate. O Major da capital observava a operação com uma calmaria calculada, conferindo os carimbos nas laudas de transferência.
Um soldado da guarda interna veio escoltando o Capitão Fischer, cujos pulsos estavam presos por algemas pesadas. Ao cruzar o pátio, Fischer estancou o passo por uma fração de segundo e travou as pupilas cinzentas no Major da Gestapo. O oficial de Berlim apenas retribuiu com um sorriso de desdém institucional, ajeitando o quepe de oficial. Fischer não pronunciou uma única palavra, mas a promessa de revanche queimava em seu olhar enquanto ele era empurrado para o interior de um dos blindados de escolta.
Nesse exato instante, um agente da Gestapo aproximou-se do Major a passos rápidos, trazendo uma prancha de conferência:
— Herr Major, concluímos a varredura primária das listas de censo do galpão oeste. Duas subalternas estão oficialmente foragidas, e posso confirmar pelos registros da maquete que uma delas é a garota Goldstein.
O Major semicerrou os olhos, a diversão sumindo de suas feições.
— Envie uma equipe de busca para a mata do perímetro oeste imediatamente. Não quero pontas soltas neste relatório para a Chancelaria. Achem a garota antes que ela alcance o perímetro civil.
— Sim, senhor!
Rota de fuga, limite do arame — Naquele mesmo instante.
O estrondo seco de um disparo de submetralhadora rasgou a mata, fazendo lascas de tronco e neve espirrarem a centímetros do rosto de Lena. As duas mulheres travaram a corrida em um susto violento, cobrindo a cabeça.
— Aonde as duas pensavam que iam sem a devida autorização de viagem? — a voz cheia de um deboche sádico cortou a névoa.
Meyer emergiu do algodão alto com passos lentos e a MP-40 em riste. Seu rosto exibia a satisfação vil de quem acabara de encurralar a caça. Logo atrás dele, Erich Schulz surgira entre os arbustos, mantendo a postura tensa e a carabina abaixada na altura da cintura.
— Parem onde estão! — Meyer ordenou, apreciando o pavor estampado nas feições de Lena e Martha. — Não acharam de fato que seria tão simples cruzar o perímetro, acharam?
Martha deu um passo cambaleante à frente, estendendo as mãos trêmulas em um gesto desesperado de súplica para proteger a jovem:
— Por favor, soldado... nós não vamos oferecer resistência! Voltamos sem dar trabalho, mas não atirem! Não machuquem a menina!
— Cale a sua boca, sua velharia! — Meyer cortou-a com um berro, sem tirar os olhos de Lena. Um sorriso grotesco curvou seus lábios enquanto ele olhava de lado para Erich: — Isso é o que eu chamo de uma coincidência perfeita, Schulz. Duas fugitivas indefesas na mata e nós dois armados. A mais velha até que dá para o gasto se tapar a cara... você pode ficar com a sua loirinha de estimação. Que tal?
Erich travou o maxilar, os nós dos dedos empalidecendo na coronha de sua carabina.
— O que exatamente você está insinuando com essa nojeira, Meyer?
— Estou falando o óbvio, seu imbecil! Ou você vai continuar com essa encenação patética de defender refugo humano? — Meyer provocou, rindo baixo enquanto oscilava o cano da submetralhadora entre as duas.
Estrada do Vale, acesso à Ponte de Pedra — Minutos depois.
A pesada frota da Gestapo avançava em comboio pela estrada vicinal. Os caminhões cobertos por lonas balançavam sobre o cascalho congelado, carregando dezenas de cativos amontoados no escuro. Entre eles, Heinrike Weber permanecia sentada sobre o piso de madeira, o veludo vermelho de seu vestido manchado de sangue seco contrastando com a palidez de seu rosto. Ginevra estava encolhida ao seu lado, rezando em um sussurro ininterrupto. O pavor do incerto paralisava os prisioneiros.
À frente da coluna, a limusine que transportava a cúpula dos oficiais aproximava-se do gargalo da garganta do vale — uma antiga ponte de arcos de pedra que cruzava o rio congelado.
Repentinamente, o ar no vale foi estraçalhado por uma onda de choque monumental.
Um clarão ensurdecedor de fogo e poeira alaranjada explodiu sob a base da estrutura de pedra. A carga pesada de dinamite tática instalada pela Orchestra reduziu os pilares centrais da ponte a estilhaços de rocha e vapor, arremessando toneladas de escombros contra o leito do rio. A terra tremeu violentamente, e o caminhão da vanguarda freou de golpe, a centímetros do abismo fumegante.
— Se abaixe! — o motorista do primeiro caminhão berrou para o patrulheiro ao lado.
Antes que o auxiliar pudesse responder, o estalo de um tiro de precisão vindo da cumeada cortou a fumaça. O projétil atravessou o para-brisa reforçado e atingiu o motorista no centro da testa, matando-o instantaneamente.
— EMBOSCADA! — o grito dos oficiais da Gestapo ecoou sob o som do alarme dos veículos.
Do topo dos barrancos e de trás das rochas da estrada, surgiram mais de vinte homens vestindo casacos táticos escuros e balaclavas pretas. A célula da Orchestra descarregou uma saraivada coordenada de disparos de fuzil contra as cabines e os pneus da frota. A bala estourou a borracha dos blindados, paralisando a coluna no gargalo.
Os agentes da SS saltaram dos caminhões tentando formar uma linha de tiro, e o vale transformou-se em um inferno de fogo cruzado. O pavor tomou conta dos prisioneiros dentro das lonas, enquanto as cápsulas quentes caíam como chuva no asfalto.
Trilha da Mata Oeste — Naquele mesmo instante.
O tremor distante e o estalo grave da explosão da ponte ecoaram até o quadrante onde Meyer e Erich se enfrentavam. O clarão refletiu na copa das árvores, fazendo o chão sob os pés deles vibrar.
Surpreso pelo estrondo de guerra, Meyer desviou os olhos por uma fração de segundo, virando a cabeça na direção do vale.
Era a brecha de um segundo que Erich esperava.
Em um movimento fluido e desesperado, Erich deu um passo à frente e desferiu a coronhada de sua carabina contra o pulso armado de Meyer. O impacto seco fez a submetralhadora voar para a lama. Antes que o rival pudesse reagir, Erich avançou com um joelhaço no estômago dele, seguido por um gancho de esquerda que jogou Meyer de costas contra a terra.
— Desgraçado! — Meyer urrou, cuspindo sangue enquanto rolava na poeira.
Erich engrenou a câmara da carabina e cravou a mira diretamente na cabeça de Meyer, postando-se como um escudo entre o agressor e as mulheres.
— Nós três vamos cruzar essa linha, Meyer. E você não vai dar um único passo para nos deter — Erich decretou, o tom frio e decidido.
Tossindo, Meyer deslizou a mão direita milimetricamente pela lama, tateando a empunhadura da pistola de serviço presa no coldre lateral.
Erich percebeu o movimento e baixou o cano da arma em direção à mão do rival:
— Nem pense em encostar nesse ferro, Meyer. Eu não hesito em atirar.
— Eu sabia... — Meyer sibilou, os olhos marejados de fúria e veneno. — Você é a porcaria de um traidor da pátria! Um lixo que se vendeu por subalternas!
— Não, Meyer. Eu só não compactuo com a podridão do mundo de vocês — Erich respondeu, o peito arfando. — Para mim, essas mulheres têm o mesmo direito de respirar que você e eu.
Meyer soltou uma gargalhada amarga e gutural:
— Que pena que o seu intelecto seja tão ingênuo, Schulz...
Em um espasmo de pura malícia e desespero, Meyer puxou a pistola do coldre e, em vez de apontar para Erich, girou o cano para o lado, disparando às cegas na direção de Martha.
O estampido seco da pistola cortou o ambiente. O projétil perfurou o peito de Martha. A mulher mais velha soltou um suspiro sufocado e tombou de joelhos, caindo de lado sobre a neve e a lama.
— NÃO! — Lena gritou em um urro de desespero, correndo e lançando-se ao chão para amparar a cabeça da amiga.
Instintivamente, tomada pela fúria, a mão de Erich pressionou o gatilho da carabina. O disparo atingiu Meyer no peito à queima-roupa. O impacto arremessou o corpo do soldado contra a rocha, matando-o na hora.
Erich largou a arma na alça e ajoelhou-se ao lado de Lena, aplicando pressão sobre o ferimento no tórax de Martha. O sangue escuro ensopava a roupa cinzenta da mulher a uma velocidade assustadora.
— Martha! Pelo amor de Deus, Martha, fica comigo! — Lena implorava em soluços, tentando estancar o fluxo com as próprias mãos trêmulas. — Erich, faz alguma coisa! Usa os curativos do seu cinto! Trata esse ferimento!
Martha ergueu a mão fraca e ensanguentada, tocando o rosto de Lena com uma ternura infinita. A respiração da mulher mais velha estava curta, acompanhada por um som rascante de ar esgotando-se no pulmão.
— Não gasta... suas forças, minha pequena... — Martha murmurou, um sorriso triste e pálido moldando seus lábios. — Parece que... eu não vou conseguir ir ao teatro em Viena com você... Por favor, Lena... cumpra o nosso sonho. Viva por nós duas...
— Não fala isso, Martha! Por favor, não se despede! Erich, ajuda ela!
Erich segurou o pulso de Martha, sentindo o ritmo dos batimentos fraquejar até sumir por completo. Ele baixou os olhos, a cabeça pondo-se em sinal de respeito e dor.
— Me desculpe, senhorita Goldstein... — Erich murmurou com a voz embargada. — Não há mais nada que possa ser feito por ela.
— Não! Não! Martha, acorda! — Lena desabou sobre o peito da amiga, chorando em espasmos incontroláveis.
O eco de tiros pesados vindos da estrada do vale começou a aproximar-se, e o som de botas táticas da Gestapo cortando a vegetação indicava que a equipe de busca estava a menos de cem metros do local.
— Nós precisamos ir agora, Lena! — Erich alertou, agarrando a garota pelos ombros e puxando-a para cima.
— Eu não vou deixar ela aqui na lama! Me solta, Erich! Me solta! — Lena debatia-se, tentando voltar para o corpo de Martha enquanto as lágrimas cegavam seus olhos.
Sem dar margem para que a dor a paralisasse no fogo cruzado, Erich envolveu a cintura de Lena com o braço e a arrastou à força para dentro da densa mata de pinheiros, deixando o corpo da mulher para trás na poeira.
A respiração descontrolada de Lena cortava o ar gélido enquanto Erich a arrastava através do rasgo no arame farpado. Seus pés, feridos e envoltos em panos gastos, mal tocavam o solo da estrada vicinal. Na penumbra da vegetação densa, a metros do acostamento de terra, duas sombras de grande porte aguardavam com os motores desligados: dois sedãs pretos de chassi reforçado.
Repentinamente, as portas traseiras de um dos veículos abriram-se com um baque seco. Dois homens portando casacos táticos escuros e balaclavas pretas saltaram com movimentos fluídos, empunhando fuzis de precisão.
— Entre no veículo, senhorita Goldstein! Agora! — o homem que liderava a extração ordenou, a voz grave e modulada pela urgência do perímetro.
Lena estava completamente desnorteada. A imagem de Martha estirada na neve com a mancha de sangue no peito repetia-se em sua mente como um eco ensurdecedor. Sem forças para resistir ou questionar, ela foi conduzida para o banco traseiro do sedã.
O segundo operacional da Orchestra deu dois passos rápidos na direção de Erich. Tirou uma balaclava preta de dentro do casaco e a estendeu para o jovem soldado:
— Vista isso. A sua farda termina nesta cerca.
Erich segurou o tecido escuro, os nós dos dedos ainda sujos da terra em que Martha morrera, e cobriu o rosto de uma vez, deixando apenas seus olhos azuis à vista. No segundo seguinte, o operacional entregou um fuzil de assalto pesado diretamente nas mãos de Erich e completou com uma frieza fúnebre:
— Arranque as insígnias de colarinho. Decepe o seu nome de guerra do peito. A partir deste segundo, a sua única ordem de combate é neutralizar nazista.
— Sim, senhor! — Erich respondeu, a voz abafada pelo tecido, rasgando o retalho com o nome "Schulz" da túnica militar e pisando sobre a identificação na lama.
Pela janela aberta do carro, Lena estendeu a mão trêmula na direção dele, a voz embargada pelo choro:
— Erich... para onde você vai? Não entra nessa escuridão!
Erich deu dois passos, aproximou-se da porta do veículo e segurou os dedos frios de Lena entre suas luvas de combate.
— Eu preciso cobrir a retaguarda do seu comboio, Lena. Eu volto por você.
— Por favor, volte... — ela suplicou, lágrimas queimando suas bochechas. — Eu acabei de ver a Martha morrer... Eu não posso perder mais ninguém! Eu não posso perder você!
Erich sustentou o olhar dela, fixando as pupilas na profundidade dos olhos azuis da garota com uma solenidade absoluta:
— Você não vai me perder, senhorita Goldstein. Eu dou a minha palavra de honra. Eu vou voltar vivo dessa linha. E quando a poeira baixar, eu prometo que vou ao seu encontro... não importa em qual canto deste império você estiver.
Lena fechou os olhos, abaixando a cabeça enquanto a dor da perda a dominava. Erich soltou sua mão, deu dois passos para trás e bateu a porta do sedã. O motorista engatou a primeira marcha, e o veículo arrancou sobre o cascalho, cortando a névoa em alta velocidade.
A troca de tiros na linha de árvores foi imediata e devastadora. A equipe de busca da Gestapo que perseguira o rastro deles emergiu do algodão, mas foi recebida por uma chuva de chumbo cruzado descarregada por Erich e pelos operacionais da Orchestra. O barulho de cápsulas caindo na terra misturou-se aos gritos dos agentes de Berlim caindo na vegetação. Erich não vacilou; disparava com a precisão de quem não servia mais a um império, mas à sobrevivência da mulher que amava.
Enquanto a fuzilaria consumia a mata oeste, a batalha na estrada do vale atingira o ponto de não-retorno. A explosão da ponte de pedra destruíra completamente a logística de evacuação da Gestapo. Encurralados no gargalo do vale, os oficiais da capital perderam o controle da área.
Aproveitando o fogo cruzado e a cortina de fumaça alaranjada das bombas de fumaça, outros operacionais encapuzados da Orchestra agiram com precisão cirúrgica. Renderam os motoristas dos caminhões de transporte, assumiram a direção dos blindados cheios de prisioneiros e manobraram os veículos pesados, tirando os cativos do raio da batalha e sumindo pelas rotas secundárias das montanhas.
Próximo dali, no banco traseiro do sedã que se distanciava rapidamente, Lena Goldstein virou o rosto lentamente para o vidro traseiro.
Pelo espelho retrovisor do carro, ela viu a silhueta monumental das Indústrias Weber — o lugar que fora sua prisão, seu pesadelo e sua tumba por quase duas décadas — começar a encolher, sendo engolida pela fumaça dos incêndios e pela névoa fria do entardecer.
O choque da morte de Martha pesava sobre o seu peito como uma rocha. A consciência terrível de que poderia ser o seu corpo estirado na lama daquela cerca cortava-lhe a alma. A liberdade não chegara com o toque de trombetas ou com a justiça dos tribunais; ela nascera do sangue, do fogo e da dor de ver quem a amava ficar para trás na escuridão. O preço daquele resgate fora alto demais.
A província ao redor do interior de Viena havia se transformado em um cenário de caos, fumaça e guerra civil. Mas, pela primeira vez em toda a sua existência, as rodas sob o corpo de Lena estavam a levando para longe daquele perímetro de arame. Ela encarou as próprias mãos trêmulas e a estrada desconhecida à frente, sem saber o que o amanhã reservava, mas sabendo que a garota que entrara naquela fazenda jamais existiria novamente.
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